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5 JORNALISMO CIENTÍFICO E CONSTRUÇÃO SOCIAL DAS NOTÍCIAS CIENTÍFICAS SOBRE OS TRANSTORNOS MENTAIS E SEUS PERSONAGENS

5.2 Os elementos construtores e as características que atuam na produção das notícias dos distúrbios enquanto jornalismo científico

5.2.1 A origem das notícias e o foco nas pesquisas

Os transtornos mentais e de comportamento atingem a 23 milhões de brasileiros e além da saúde, impactam as relações familiares, econômicas e sociais de seus portadores. Porém, quando a temática é explorada em notícias que o fazem em nome do jornalismo científico, o personagem e sua família, o ambiente social e as possibilidades de inserção social não são o foco do jornal. Pelo contrário, são muitas vezes deixados de lado e substituídos pela crença de que divulgar ciência não é noticiar quem presencia e convive com o transtorno, o cotidiano do portador, mas sim veicular e exaltar feitos e ações de cientistas, que dominam as técnicas e têm o “poder” de encontrar as causas, compreender os distúrbios, definir os melhores métodos para tratá-los e, desse modo, encontrar soluções para esses problemas.

Tanto é que das 107 notícias que exploram os transtornos mentais enquanto jornalismo científico, 62 (57,9%) delas dedicam-se a divulgar pesquisas (estudos) sobre os distúrbios ou que, de alguma forma, influenciem em sua compreensão. Além do mais outros três textos são entrevistas, que veiculam a opinião de expertises (cientistas). Por outro lado, apenas cinco matérias, três entrevistas e duas notícias, têm o personagem, aquele que convive com o transtorno e as limitações por ele geradas como protagonistas da informação. Contando com essas cinco, apenas 20 notícias (18,7%) dão voz a eles1.

O predomínio das matérias que divulgam pesquisas científicas ou a ação e a opinião de especialistas nas áreas abordadas retratam uma característica manifesta pelo jornalismo científico, que é transmitir para um público amplo e diverso informações de natureza científica, em especial ações e realizações da ciência e de seus protagonistas, o cientista. O foco naquilo que é realizado em laboratórios e institutos de pesquisa vão ao encontro da visão comum de que a missão do jornalista científico é divulgar pesquisas, uma vez que elas seriam a materialização da ciência e também do senso comum de ciência como o caminho para

dizimar os males da humanidade. Como afirma Nelkin (1995), a ciência veiculada na mídia baseia-se na imagem de que ela criou ou está desenvolvendo “soluções mágicas”.

Por isso, na cobertura científica dos transtornos mentais e de comportamento na Folha é comum ver notícias como: “Depressão pode favorecer queda na densidade óssea” (SILVEIRA, 2009h), meta-análise de 23 estudos realizada por pesquisadores israelenses e publicada na revista Biological Psychiatry. A pesquisa avaliou dados de mais de 2.300 pacientes com depressão e 21 mil indivíduos sem a doença e constatou que “pessoas com depressão podem apresentar densidade mineral óssea mais baixa, o que aumenta as chances de desenvolver osteosporose.” Ou ainda: “Mãe de gêmeos tem mais depressão” (SILVEIRA, 2009j), estudo internacional de origem não identificada, publicado no periódico Pediatrics, que analisou 8 mil mulheres para concluir que mães de gêmeos “tem 43% mais risco de sofrer de depressão” e ainda que não se conheça o porquê da relação, acredita-se que o estresse é causa primária.

5.2.1.1 A supervalorização do internacional

Como já revelado, 47,7% das notícias do bloco temático Ciência, o que corresponde a 51 matérias, são internacionais e se originam tanto de estudos ou periódicos estrangeiros como de acontecimentos científicos ocorridos fora do Brasil. Sete delas abordam fatos internacionais por serem notícias publicadas pelo jornal norte-americano New York Times, com o qual a Folha tem convênio, que permite tradução e veiculação de seus textos no país.

O restante das notícias relatam estudos veiculados em periódicos estrangeiros que, segundo Leite (2003) foi “a porta de acesso do jornalismo científico do Brasil à pesquisa de qualidade internacional”, mas, por outro lado, também causou a acomodação dos repórteres, que com a facilidade de acesso ao conteúdo dessas revistas, deixou de lado a produção nacional. Porém, o jornalista lista outros motivos para a supremacia de notícias internacionais nos cadernos científicos dos periódicos:

Um agravante a essa situação é o baixo número de fontes de informação profissionais, que divulguem a pesquisa que é realizada no Brasil. Eu tenho participado de várias mesas redondas e debates nos quais digo que uma das razões para darmos tanta atenção à pesquisa estrangeira, é que ela chega para nós. Eu tenho acesso aos artigos da Nature e da Science antes de qualquer pesquisador do mundo, porque uma semana antes de sair a revista, elas são mandadas para nós, com telefone e endereço eletrônico de todos os autores, e quando ligamos, esses pesquisadores atendem na hora em 80% das vezes. Com os pesquisadores brasileiros não é assim. (LEITE, 2003)

Além do acesso ao conteúdo dos periódicos internacionais, que são mandados por meio de releases aos jornalistas, Oliveira (2002) explica que as entidades e a comunidade científica brasileira, “de modo geral, ainda não levam em conta o papel estratégico que a comunicação com o público representa para a sua própria sobrevivência” (p.40). Ademais, a cultura da divulgação científica no país ainda é frágil, uma vez que os cientistas acreditam que divulgar seus estudos em periódicos científicos já é suficiente e não sentem a necessidade de procurar à mídia para dizer o que estão pesquisando. Entretanto, essa situação está mudando, e nas últimas décadas as assessorias de imprensa de universidades, instituições de pesquisas e as agências de fomento à pesquisa, as FAPs, começam a investir em informativos, jornais e revistas, “que vêm alimentando consideravelmente os grandes veículos de comunicação do país” (OLIVEIRA, 2002, p.39).

Esse investimento ainda não foi padronizado, prova disso é o fato de que algumas universidades obtêm mais espaço e atenção dos meios de comunicação. De modo que não só seus estudos são divulgados por eles, como seus cientistas tornam-se fontes preferenciais na hora de comentar ou repercutir uma pesquisa da qual não fazem parte.

Na cobertura realizada pela Folha sobre os transtornos mentais esse fato é perceptível. Quanto à veiculação de pesquisas nacionais, o diário as abordou em 15 notícias, das quais dez (66,7%) eram estudos realizados pela Universidade de São Paulo (USP); três (20%) pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); um (6,7%) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e um (6,7%) pelo Centro de Tratamento, Ensino e Pesquisa em Câncer Hospital A.C. Camargo.

A Folha de S.Paulo ouviu nas 107 matérias de Ciência, 126 opiniões de expertises (especialistas), sendo que alguns cientistas foram ouvidos em mais de um texto. Desses, 32 (25,4%) são estrangeiros, dos quais 22 (68,7%) norte-americanos. Em relação aos brasileiros, pesquisadores da USP foram procurados em 27 notícias, o que corresponde a 28,7% do total. Cientistas da Unifesp e profissionais cujo vínculo não foi especificado foram ouvidos 16 vezes cada (17% para cada). Quanto às instituições, divulgou-se a opinião de três (3,2%) pesquisadores do Hospital A.C. Camargo, dois (2,1%) do Hospital Albert Einstein e da PUC e um (1,1%) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Fiocruz. O Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP foi o local que teve mais pesquisadores ouvidos.

QUADRO 3 – As fontes nacionais mais solicitadas

Instituição Pesquisador Notícias

IPq Hélio Elkis 3

Frederico Navas Demétrio 2 Renério Fragas Jr. 2

Estevão Vadasz 2

Luís Rohde

Unifesp Acioly Lacerda 4 Luiz Celso Vilanova 2

Hospital A.C. Camargo Célia Costa 3 Fonte: dados da autora.

Retomando o discurso de Leite (2003), o acesso aos periódicos estrangeiros abriu as portas da pesquisa internacional de ponta ao jornalismo brasileiro, mas também causou acomodação nos jornalistas. O que não se reflete apenas no fato de a maior parte dos estudos veiculados serem oriundos dessas revistas, mas principalmente em função de que, por pertencerem a periódicos de prestígio internacional, os jornalistas julgam as pesquisas como infalíveis e dignas de toda confiança e, por isso, muitas vezes, publicam-nas sem buscar mais informações com o próprio cientista e tampouco repercutir esses dados com outros pesquisadores da área.

Desse modo, torna-se comum a veiculação de notícias como “Asma Infantil: Depressão e estresse pioram sintomas” (ASMA INFANTIL..., 2009).

Um estudo da Universidade de Buffalo (EUA), publicado no ‘Journal of Allergy and Clinical Immunology’, mostra que crianças deprimidas com asma sofrem de uma desregulação no sistema nervoso autônomo e maior comprometimento das vias aéreas. O trabalho envolveu 90 crianças com asma de sete a 17 anos -45 apresentavam sintomas de depressão. As que não tinham esses sintomas tiveram menos problemas nas vias aéreas durante as situações de estresse provocadas pelos pesquisadores.

A notícia apenas reproduz o estudo sem que nenhuma fonte seja questionada para explicar a relação existente entre asma e depressão, como e porque ela se dá e tampouco como foi realizado o estudo.

A fascinação dos jornalistas pelos periódicos internacionais é tamanha, que em casos como “Memória: Remédio pode minimizar lembranças ruins” (MEMÓRIA..., 2009), que divulga um estudo publicado na Nature Neuroscience, a revista torna-se mais importante que

o instituto de pesquisa ou universidade que o fez, as quais são ignoradas. De modo que, ao garantir a credibilidade da pesquisa, ele também recebe os créditos por ela.

Já em “Autismo: Luto na gestação não eleva risco” (AUTISMO LUTO..., 2009) a crença do jornalista na revista é ainda maior, tanto que nem instituição ou periódico em que foi divulgado são informados no texto. Notícias como essas não exemplificam apenas a credibilidade que os periódicos científicos têm junto aos jornalistas, mas também a influência dos releases enviados por eles às redações, que servem como base para a publicação de notas, que os resumem e os publicam sem maiores questionamentos ou preocupações.

A existência desses textos – notas curtas e sem aprofundamento – pode ser justificada por duas hipóteses: a falta ou a sobra de espaço no diário. A primeira baseia-se no fato de que editorias de Ciência e Saúde são limitadas a apenas uma página e, por isso, notícias consideradas interessantes por jornalistas e editores, mas que não caberiam na edição, são divulgadas em pequenas notas a fim de informar ao público a existência do estudo e evitar o risco de tomar um furo reportagem de um jornal concorrente. A segunda possibilidade é a de que essas notícias funcionariam como “tapa-buraco” e quando sobra algum espaço na página são publicadas superficialmente para preenchê-los. Não se pode precisar qual a hipótese correta para cada notícia, mas é possível afirmar que esse tipo de texto, ainda que pareça inocente, é capaz de causar mal entendido no público e provocar pânico.

Pânico é o que pode ser causado por notícias como “Pré-gravidez: Depressão aumenta risco de prematuros” (PRÉ-GRAVIDEZ..., 2009). “Pesquisadores da Universidade de Washington descobriram que períodos de depressão antes da gravidez podem ser fatores de risco para nascimentos prematuros. Mulheres negras têm o dobro de risco.” O texto que apenas traz o resultado principal do estudo, sem explicar quais as relações e nem como se chegou à conclusão, tende a gerar desconforto e preocupação nos familiares de grávidas que apresentam esses quadros. Ademais, ele também pode angustiar a mulher visto que ela já não está bem emocionalmente.

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