4 SISTEMA DE FREIOS E CONTRAPESOS NO ESTADO BRASILEIRO
Neste capítulo será analisado como funciona o sistema de freios e contrapesos atualmente no Estado brasileiro, tentativa de se estabelecer um mecanismo de controle recíproco entre os Poderes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, com o objetivo de garantir a liberdade. Também será feito um breve relato sobre a origem do sistema de controle que há entre os Poderes da República e compreender as técnicas de contenção e o mecanismo que um Poder exerce sobre o outro com o fim harmônico entre eles.
um outro pode exercer para contê-lo (freio) ou para restabelecer o equilíbrio (contrapeso) constitui um freio ou contrapeso ao dito Poder. (MORAES, 2022).
Para saber um pouco mais sobre esse mecanismo de freios e contrapesos, ou seja, de controle recíproco entre os Poderes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário, salientam Caricati, Giublin e Torres (2016, p. 341):
A teoria do check and balances, incorporada na Constituição Norte- Americana de 1787, também conhecida como sistema de freios e contrapesos, veio a somar à doutrina da separação dos poderes. Check se refere à função negativa ou de controle e balance significa harmonia entre os poderes (função positiva). Pela teoria da separação dos poderes, portanto, há um controle mútuo entre as esferas de Poderes.
Nos Estados Unidos da América, por influência do iluminismo europeu e a partir da obra O Federalista, iniciou-se o aprimoramento da doutrina defendida por Montesquieu sobre a tripartição dos poderes. Assim, nos artigos Federalistas, os revolucionários americanos manifestavam temor quanto à possível ação tirânica do Legislativo, dada a excessiva concentração de poder ao parlamento. Enfim, o objetivo era fortalecer o Poder Executivo, garantindo-lhe maior equilíbrio na relação entre as esferas de poder, bem como revela uma técnica de controle que tem os seguintes objetivos: evitar a tirania, limitar a autoridade, impedindo arbitrariedades e preservar a liberdade individual. (CARLOS, 2016).
Assim comenta Edosn Ricardo Saleme (2022):
[...] os primeiros federalistas americanos se imbuíram de ânimo ao seguir à risca a interpretação de Montesquieu na análise da constituição inglesa e da prática de governo nas colônias americanas. Assim, os delegados da Convenção de Filadélfia concordaram, sem hesitar, que os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário deveriam ser separados tanto quanto possível.
O Federalista, The Federalist Papers, ainda nos dias atuais é considerado uma obra prima da teoria constitucional e da teoria política, seus autores no intuito de defender a Constituição Federal estadunidense de 1787, tiveram acaloradas discussões sobre as formas de governo, bem como a teoria da separação dos poderes, adaptaram a doutrina de Montesquieu para a realidade da época norte-americana, assim, desenvolveram um sistema no qual estava presente o compartilhamento de poderes por meio dos freios e contrapesos exercidos por um poder sobre o outro. (CONSANI, 2015).
Sobre o Estados Unidos da América, pioneira em aprimorar a tripartição dos poderes com o sistema de freios e contrapesos, nas palavras de Flávio Martins (2022):
Uma das primeiras constituições modernas foi a norte-americana, de 1787, que previu a tripartição de Poderes, embora não tenha sistematizado claramente dessa forma. No seu art. 1º, a Constituição trata de “todos os poderes legislativos” atribuídos a um Congresso bicameral, a ser formado por representantes dos eleitores de cada Estado-membro da União e de representantes dos próprios Estados. Outrossim, no art. 2º, aborda a função executiva, atribuída a um Presidente da República, sem especificação quanto ao modo ou aos limites do seu exercício. Por fim, o art. 3º trata do Poder Judiciário, abordando especificamente a Suprema Corte e remetendo ao Congresso Nacional a atribuição de criar outras cortes. Assim, o constituinte norte-americano fez uma divisão orgânica das funções estatais, mas não construiu as linhas gerais acerca do tema, o que, em razão do modelo jurídico da common law, ficaria a cargo da jurisprudência. De fato, a separação dos Poderes era uma preocupação do constituinte norte-americano, tanto que Madison escreveu em um dos artigos de O Federalista: “a acumulação de todos os poderes, legislativos, executivos e judiciais, nas mesmas mãos, sejam estas de um, de poucos, ou de muitos, hereditárias, autonomeadas ou eletivas, pode-se dizer com exatidão que constituiu a própria definição de tirania”.
Antes mesmo dos Estados europeus, os Estados Unidos da Américas buscaram com entusiasmo o método do genial escritor da obra, O Federalista. A primeira Constituição escrita que adotou integralmente a doutrina de Montesquieu foi a de Virgínia, em 1776, seguida pelas Constituições de Massachusetts, Maryland, New Hampshire e pela própria Constituição Federal de 1787. (MARTINS, 2022).
O sistema recíproco de controle entre os Poderes visa a garantir o equilíbrio e a harmonia entre eles, mediante a previsão de interferências legítimas de um Poder sobre o outro, nos limites admitidos na própria Constituição. Aqui, não se trata de subordinação de um Poder a outro, mas, sim, de técnicas que limitam o Poder impostos pela própria constituição, assim, propiciando o equilíbrio necessário à realização do bem da coletividade e indispensável para evitar o arbítrio e o desmando de um Poder em detrimento do outro. (PAULO;
ALEXANDRINO, 2017).
Nas palavras de Guilherme Peña de Moraes (2022):
O sistema de freios e contrapesos provoca a limitação do poder político na medida em que estabelece a interpenetração das funções estatais e o controle recíproco entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, com a finalidade de impedir potenciais excessos dos Poderes do Estado, funcionando como condição de legitimidade do Governo, ou seja, os freios e contrapesos consistem na garantia de manutenção do equilíbrio constitucional entre os Poderes do Estado, sendo certo que, em face de determinada ação ou omissão do Executivo, Legislativo ou Judiciário, o contraste constitucional que um outro pode exercer para contê-lo (freio) ou para restabelecer o equilíbrio (contrapeso) constitui um freio ou contrapeso ao dito Poder.
A importância de pôr limite a esse Poder é, conforme explica Bernardo Gonçalves Fernandes (2017, p. 304):
Sem a contenção do poder, o seu exercício ilimitado desborda para práticas iníquas e arbitrárias, pondo em risco a liberdade. Ao revés, poder limitado é liberdade garantida.
Daí a importância de um equilibrado sistema de freios e contrapesos, em virtude do qual o poder possa controlar o poder.
No que se refere às funções de cada poder, Pedro Lenza (2021) esclarece que, “mesmo no exercício da função atípica, o órgão exercerá uma função sua, não havendo aí ferimento ao princípio da separação de Poderes, porque tal competência foi constitucionalmente assegurada pelo poder constituinte originário”.
Neste sentido, “a teoria de Montesquieu engendrou um complexo sistema no qual cada órgão do Estado desempenha funções distintas e, ao mesmo tempo, interdependentes, com atividades que caracterizariam uma forma de contenção da outra esfera de poder”. (CARLOS, 2016, p. 157).
Depois de um pequeno resumo sobre a origem do mecanismo de freios e contrapesos no mundo, analisando a expressão na obra intitulada O Federalista, investigando um pouco da Constituição norte-americana de 1787, será apresentado no próximo item uma análise sobre este sistema de freios e contrapesos no Estado brasileiro.