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4. O ENSINO DE CIÊNCIAS, O ENFOQUE C-T-S E AS POSSIBILIDADES DE

4.2 A origem do Movimento C-T-S e suas influências na educação

O surgimento de uma multiplicidade de campos de conhecimento não disciplinares, associados na maioria, a movimentos sociais, marcou fortemente a segunda metade do século XX e hoje vem ganhando espaço tanto na sociedade em geral como no campo educacional. Estes conhecimentos foram responsáveis pela construção de posições e formas alternativas de pensar o mundo em um período em que a sociedade não participava ativamente nas decisões que afetavam o seu bem estar e qualidade de vida. Neste contexto de mudança de pensamento que surgiu o Movimento C-T-S (Ciência-Tecnologia-Sociedade) com o objetivo principal de buscar novas alternativas para o campo científico, tecnológico e social.

O marco de origem do movimento C-T-S pelas vias da teoria do conhecimento se dá simultaneamente, na Europa e na América mais especificamente nos EUA (Estados Unidos da América) com a publicação de dois livros importantíssimos para o movimento científico. Na Europa, foi o lançamento do livro A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn (Pinheiro; Silveira; Bazzo, 2009) e na América, foi o livro de Rachel Carsons ―Primavera Silenciosa‖. O primeiro livro contribuiu para inaugurar a Sociologia do Conhecimento Científico. O segundo livro contribuiu para fortalecer os movimentos de contestação social nos EUA em defesa da participação cidadã nas políticas públicas.

Os movimentos de contestação social nos EUA, como, por exemplo, os protestos contra a Guerra do Vietnã e contra a disseminação da energia nuclear e o surgimento do movimento de defesa dos direitos do consumidor, fizeram com que a tradição C-T-S norte-americana, ou Science,Technology and Society, nascesse com uma maior preocupação em relação às consequências, ou aos impactos sociais da ciência e da tecnologia, orientação que mantém até hoje (Lopez Cerezo, 2004).

Para Cutcliffe (1990) o estudo do Movimento C-T-S é um reflexo de uma época em que se busca exercer uma influência social e política mais forte e deliberada sobre a ciência e a tecnologia. Aspecto também destacado por Auler (2002), ao apontar que a origem do Movimento C-T-S está ligada ao questionamento

do modelo de decisão tecnocrático, postulando uma participação da sociedade no direcionamento dado à atividade científico-tecnológica, reivindicando assim, decisões mais democráticas.

De acordo Pinheiro; Silveira e Bazzo (2009) C-T-S corresponde ao estudo das inter-relações existentes entre a ciência, a tecnologia e a sociedade, constituindo um campo de trabalho que se volta tanto para a investigação acadêmica como para as políticas públicas. Baseia-se em novas correntes de investigação em filosofia e sociologia da ciência, podendo aparecer como forma de reivindicação da população para atingir uma participação mais democrática nas decisões que envolvem o contexto científico-tecnológico ao qual pertence. Para tanto, o enfoque C-T-S busca entender os aspectos sociais do desenvolvimento tecnocientífico, tanto nos benefícios que esse desenvolvimento estar trazendo, como também nas consequências sociais e ambientais que poderá causar.

As contribuições de autores associados à sociologia do conhecimento como David Bloor e Bruno Latour e, mais tarde, de autores associados à sociologia da tecnologia como Trevor Pinch e Wiebe Bijker, fortaleceram, dentro da esfera acadêmica, a ideia de que era fundamental entender a total complexidade dos fenômenos científicos e tecnológicos. Para tanto, seria necessário analisar a ciência e a tecnologia como objetos não puramente técnicos, mas como resultados de processos sociais. Dessa forma, os estudos de Ciência e Tecnologia (Science and Technology Studies), de origem europeia, tem se preocupado com a compreensão dos antecedentes, ou condicionantes sociais da tecnologia. (Lopez Cerezo, 2004)

Araújo (2009, p.303) afirma que

Os questionamentos levantados por esses autores, em especial, os pensamentos de Latour em suas obras trazem novas perspectivas sobre a maneira de como se constrói o saber, ao abordar novos problemas, tanto disciplinares quanto interdisciplinares, e propor alguns caminhos tanto epistemológicos quanto metodológicos.

DIAS e SERAFIM (2009, p.624) 29 complementam ainda que

29 DIAS, Rafael de Brito; SERAFIM, Milena Pavan. Educação C-T-S: uma proposta para a formação

de cientistas e engenheiros. 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/aval/v14n3/a05v14n3.pdf.

As ideias levantadas pelo movimento C-T-S foram particularmente bem recebidas nos EUA e na Europa, em especial no Reino Unido, na Dinamarca, na Suécia e na Holanda. A partir daí deram origem a programas (como o Programa das Dimensões Sociais da Engenharia, da Ciência e da Tecnologia, Fundação Nacional da Ciência dos EUA), instituições (como a Comissão de Regulação Nuclear norte-americana) e agremiações de cientistas e engenheiros (como a União dos Cientistas Comprometidos, também nos EUA). O fortalecimento dessa percepção crítica da ciência e da tecnologia pôde, ainda, ser verificada através do surgimento de uma série de periódicos especializados, como a Issues in Science and Technology e a

Technology and Society Magazine. No ambiente acadêmico, paralelamente

ao desenvolvimento do movimento C-T-S, verificou-se um notável avanço teórico e metodológico em disciplinas como a Sociologia, a Filosofia e a História da Ciência e da Tecnologia.

Bornado et al (2008) afirmam que desde o final da década de 1950, as reformas curriculares têm promovido transformações significativas no ensino. Dentre as propostas de adequação do Ensino de Ciências destaca-se a implementação de currículos cujos objetivos enfatizam a interação entre ciência, tecnologia e sociedade. Porém foi somente a partir da década de 1970, que tal movimento passou a ser reconhecido como C-T-S sendo que sua importância passou a ser divulgada e confirmada através da vasta literatura acumulada até os dias atuais.

De acordo com Aikenhead (2003) a influência mais poderosa na eleição de "C-T-S" como lema para esse novo movimento foi o livro de John Ziman (1980), Teaching and learning about science and society. Nesse, Ziman refere-se constantemente à STS (Science-Tecnology-Society), sigla traduzida para o português como C-T-S, Ciência-Tecnologia-Sociedade, deixando claro que com essa denominação iria se referir a todos os movimentos que buscam uma nova função para a educação científica.

Em relação à evolução do movimento, Aikenhead (2003) destaca que, como outros lemas que buscam mudar o ensino de ciências, C-T-S também sofreu e sofrerá mudanças com o passar do tempo, conforme os seus defensores desenvolvam sua própria compreensão sobre esse campo e se ajustem às mudanças relacionadas à sua cultura local, distanciando-se de percepções estereotipadas ou lemas passados. Devido a essa multiplicidade de possibilidades, o autor coloca que as críticas aos trabalhos em enfoque C-T-S são muitas, sendo que para defendê-los, se torna importante descrever sistematicamente os diferentes significados que ele engloba.

Porém, de um modo geral, Aikenhead (2003) afirma que os diferentes trabalhos em enfoque C-T-S coincide em defender a necessidade de uma reformulação no ensino de ciências e em valorizar termos como o humanismo. Além disso, destaca que cada país tem sua própria história, associada, principalmente, à sua realidade social, fazendo com que as relações entre a ciência e a sociedade assumam diferentes características. Em virtude disso, muitas vezes pode não haver um acordo no significado preciso de C-T-S, ou uma definição única, que seja um consenso, em todas as partes do mundo. Talvez seja justamente esta falta de consenso em todo o mundo, que encante milhares de educadores que desenvolvem trabalhos ados como enfoque C-T-S, pois possivelmente eles veem nas diferentes características assumidas pelas relações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade, infinitas possibilidades de trabalho considerando as realidades loco-regionais, além de possibilitarem aos alunos a formação para o pleno exercício da cidadania.