CAPÍTULO II O TERCEIRO SETOR
2.1 A Origem do Terceiro Setor o Associativismo
É uma tarefa muito difícil indicar com precisão o exato momento em que surgiram as primeiras organizações representativas da sociedade civil. Segundo Boaventura de Souza Santos146, as origens destas organizações encontram-se na Europa, no século XIX como resposta ao capitalismo e com fundamentação ideológica retirada tanto do liberalismo quanto do socialismo.
Porém, antes disso, no século XVI, ocorreram os primeiros estímulos ao associativismo, decorrentes da aceleração das relações comerciais que começam a ocorrer neste período. Paralelamente a isto, ainda no Estado Absolutista, todas as atividades que não estavam direcionadas ao benefício do soberano foram assumidas por outros entes da sociedade, tendo a Igreja assumido o papel principal de prestar a assistência aos desamparados147. Assim, as associações voluntárias eram formadas nas comunidades, particularmente aquelas que decorriam de organizações religiosas. De
145 COELHO, Simone de Castro Tavares - Terceiro Setor: Um Estudo Comparado entre Brasil e
Estados Unidos. 3ª ed. São Paulo: Editora Senac, 2005. p.21.
146 SANTOS, Boaventura de Souza - A Reinvenção Solidária e Participativa do Estado. Oficina do CES.
Coimbra. Nº 134 (jan 1999).
147 FERNANDES, Luciana de Medeiros - Reforma do Estado e Terceiro Setor. Curitiba: Juruá, 2009.
fato, os valores religiosos formavam um bom terreno para o desenvolvimento do setor voluntário, posto que apontavam “para a obrigação e a responsabilidade das unidades sociais mais próximas da pessoa - família, amigos, vizinhos e Igreja - de responder
positivamente aos pedidos de auxílio”148.
O descomprometimento do Estado com o bem-estar social continuou presente também no contexto do Estado Liberal. Por outro lado, a partir do século XVIII, a exaltação do trabalho livre e assalariado, a defesa da liberdade individual, a ideia de igualdade, a Escola Clássica Inglesa de Adam Smith marcada pela autonomia do mercado e os ideias iluministas que colocam o homem como centro do mundo, fazem com que o indivíduo comece a assumir um papel de protagonista na sociedade. Ao assumir este papel, as condições e as opiniões dos grupos passam a ter mais peso que as dos chefes de Estado, o que conduz à necessidade de garantia estatal da autonomia da sociedade civil. Em outras palavras, conforme fundamenta Laville149, o liberalismo
econômico conduziu ao liberalismo político e sua combinação caracteriza o associativismo.
Na Europa, o associativismo de trabalhadores era visto como um prolongamento de emancipação política. Contudo, após desempenhar um papel fundamental na Revolução Francesa, os anos seguintes ficaram marcados pela proibição de qualquer forma associativa que intermediasse o indivíduo e o Estado, traduzida pela lei francesa Le Chapelier de 1791 e pelos Decretos ingleses sobre as Associações (Combination Acts) de 1799 e 1800 que tornaram ilegais as associações de trabalhadores. Tais restrições permaneceram até 1825, quando os chamados clubes de trabalhadores e as corporações de Londres, desde que não se revelassem como instrumentos de insubordinação, passam a ser tolerados.
Voltam a ocorrer as mobilizações sociais, tendo como valores de referência a razão e a igualdade, e a dimensão coletiva da sociedade passa a seguir os ideais de fraternidade da doutrina cristã, a qual mais tarde serviu de base para a concepção de proteção social que o Estado passaria a assumir.
Com o tempo, as demandas da sociedade se ampliam e não se resumem mais em melhores condições de subsistência, para passar a incluir a luta pela garantia do direito sindical, da justiça, da independência e da segurança. A partir de 1830, começam
148 COELHO, Simone de Castro Tavares - Terceiro Setor: Um Estudo Comparado entre Brasil e
Estados Unidos. 3ª ed. São Paulo: Editora Senac, 2005. p.31.
a se fortalecer os agrupamentos de trabalhadores e estas associações assumem a dimensão de um liame social voluntário, nascendo daí o ideal de associação fraterna e solidária de várias organizações.
De forma diversa, nos Estados Unidos, a organização popular se desenvolveu primordialmente em busca da cidadania. Alexis de Tocqueville, já em 1835, destacou como estas instituições compunham uma parte da vida político-social americana, em contraposição à cultura política da França e da Inglaterra150. Preocupado com os reflexos que o desenvolvimento da igualdade e da justiça social poderiam ter na liberdade, defendeu a participação cidadã em associações livres151. Também em Tocqueville, é possível encontrar a justificativa para a importante relação entre o associativismo e a democracia:
A partir do momento em que nos negócios comuns são tratados em comum, cada homem percebe que não é tão independente de seus semelhantes quanto imaginava anteriormente e que, para obter apoio deles, muitas vezes é necessário lhes prestar seu concurso. [...] As associações políticas existentes nos Estados Unidos constituem tão somente um detalhe no meio do imenso quadro que o conjunto das associações aí apresenta. Os americanos de todas as idades, de todas as condições, de todos os espíritos, se unem sem cessar. Não apenas têm associações comerciais e industriais de que todos participam, mas possuem além dessas mil outras: religiosas, morais, graves, fúteis, muito gerais e muito particulares, imensas e minúsculas: os americanos se associam para dar festas, fundar seminários, construir albergues, erguer igrejas, difundir livros, enviar missionários aos antípodas, criam dessa maneira hospitais, prisões, escolas [...]. Nos países democráticos, a ciência da associação é a ciência mãe, o progresso de todas as outras depende do progresso desta152.
Baseadas na ideia de que os indivíduos não criem vínculos de dependência com o Estado, surgem as primeiras instituições sem finalidade lucrativa, notadamente nas áreas de educação e saúde. A primeira organização sem fins lucrativos de que se tem conhecimento é o Harvard College, que foi criada pela comunidade de Massachusetts no século XVII, financiada pela arrecadação de um imposto especial sobre cereais instituído principalmente para este fim.
A partir da Revolução Americana, a população se torna mais exigente no que tange à igualdade e a democracia, o que intensificou os embates entre sociedade civil e Governo, principalmente por parte dos negros e das mulheres.O associativismo impera
150 Apud COELHO, Simone de Castro Tavares - Terceiro Setor: Um Estudo Comparado entre Brasil
e Estados Unidos. 3ª ed. São Paulo: Editora Senac, 2005. p.33.
151 Apud MONTAÑO, Carlos - Terceiro Setor e Questão Social: Crítica ao Padrão Emergente de
Intervenção Social. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2003. p.72.
152 Apud FERNANDES, Luciana de Medeiros - Reforma do Estado e Terceiro Setor. Curitiba: Juruá,
nas instituições e organizações voltadas ao auxílio mútuo, formadas pela população negra, com destaque para as Igrejas, estabelecendo-se um sentimento de confiança no seu poder de mobilização e na força coletiva.
Ocorre que, com a gradual assunção por parte do Estado do provimento das necessidades da sociedade que culmina com o Estado de Bem Estar Social, os cidadãos passaram a não se sentir mais responsáveis pelas suas comunidades, e recorriam a uma agência estatal sempre que necessitavam de algo. Com a crise do Estado Social e a diminuição da cobertura estatal das demandas sociais, o associativismo voltou a despontar e ser chamado de terceiro setor, o que coloca em dúvida, segundo Salomon153, se estamos a descobrir algo novo ou a redescobrir um setor esquecido.
Percebe-se que as entidades com características correspondentes ao que hoje chamamos de terceiro setor existem há muito tempo, ainda que de forma mais dispersa e nebulosa. Com efeito, pode-se dizer que nova é a maneira de olhar para estas organizações como componentes de um mesmo setor.
Pode-se concluir, portanto, que a intensificação de ações voluntárias organizadas deve-se, em grande parte, à resposta à crise que limitou o tamanho do Estado. Portanto, o fenômeno relativamente recente, que desponta em todo o mundo e que desperta interesse, é a consciência, a unidade e a perenidade que estas ações vêm ganhando junto à sociedade global.