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À Descoberta de conexões toponímicas de Vilar de Amargo

1. A Toponímia de Vilar de Amargo e sua evolução

1.2. Divisão administrativa

1.4.1. A origem do topónimo da aldeia

Em relação ao termo Vilar, sabemos que na época visigótica são muitas as povoações em que surge a palavra Villar, (fig. 2).

Figura 2: Placa toponímica à entrada da povoação

Rodrigues (1984) refere que na zona de Ribacôa, os romanos consideram-se os pioneiros, no que concerne à passagem de uma economia pecuária assente nos pastos e em aproveitamento agrícola,

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acrescentando que foi em terras fundiárias que surgiram as herdades e Veigas, que denominavam de villae. Esclarece ainda o autor que um vilar era uma vila pequena e que certas vilas, na Idade Média, deram origem a povoações, que persistem na atualidade, como Vila-Boa, Vilar de Amargo, Vilar Formoso, Vilar Maior, Vilar Torpim e Cinco Vilas.

No que se refere ao termo Amargo e segundo a tradição oral, este poderá ter surgido, após a fundação de Vilar, talvez devido ao nome do seu fundador Amargo.

Outros afirmam que a povoação denominava-se Vilar Doce…, porém acrescentam contando, que um dia, ao entardecer, surgiu por ali um viandante a cavalo e como o solo era pedregoso, (fig. 3), o animal escorregou, originando a sua queda e estatelando-o no chão, pelo que magoando-se, a praguejar, vocifrou:

- Vilar Doce? Bem amargo me ficou…

Figura3: Nicho votivo à entrada da povoação

A partir desse momento os mais antigos afirmam que, a povoação passou a denominar-se Vilar de Amargo e os habitantes

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vizinhos do concelho, ao referirem-se-lhe chamam-lhe Vilar de Amargo à tarde e, como surgem por lá muitos lagartos, também são conhecidos por Lagarteiros.

A este respeito, Rodrigues, (1984), salienta que esta região apenas pertenceu ao reino de Portugal, com D. Dinis, após o Tratado de Alcanizes em 1297, remetendo a outra origem o termo amargo.

Segundo o autor, almendra, em castelhano, significa amêndoa e distando a povoação de Almendra, 7 Km de Vilar de Amargo e sendo a zona rica em amêndoas doces e amargas, tal leva-o a inferir, que em Almendra predominariam as mais comuns, as doces. Porém, em Vilar de Amargo, na época, uma pequena vila ou herdade, prevaleceria a amêndoa amarga, acrescentando ser provável se fizesse dessa amêndoa, um doce seco, ainda hoje apreciado em Espanha e conhecido por amargo, “hecho de almendras amargas”.

Ainda de acordo com a tradição oral, Amargo poderá também advir de um caso hediondo sucedido, no século XVII, e que consequentemente devido à sua enorme tragicidade tem levado muitos a inferir que a designação Amargo provém dele, realmente amargo como poucos.

Tal hipótese, porém, na nossa perspetiva, não tem grande fundamento, pois constatamos que o trágico acontecimento é descrito em manuscrito, que se encontra no Arquivo Paroquial da Abadia de Vilar de Amargo e foi redigido, mais tarde, por um abade da mesma, que refere os seus diversos párocos, surgindo já associado ao nome da Abadia o topónimo de Vilar de Amargo.

Nesta sequência, sabemos ainda que a freguesia consta documentada com o atual topónimo, já nos primórdios do séc. XIV, no reinado do nosso rei D. Dinis, o que põe em causa, contradizendo totalmente o facto de o nome Amargo, ser consequente do caso trágico aí ocorrido, que se deu em 1676, no séc. XVII, levando-nos a inferir definitivamente que o termo Amargo não advém da tragicidade do sucedido, porque posterior.

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No que concerne ao documento, sabemos que este foi referido, pela primeira vez, em finais do séc. XIX, por Pinho Leal, no seu Dicionário, sendo o texto do Arquivo Paroquial escrito em 2 de Junho de 1815, sendo igualmente descrito em 1943, na revista Altitude, pelo Rev.º Padre Canário Martins, Reitor de Figueira de Castelo Rodrigo.

O relato incide no caso verídico, descrevendo o insondável mistério da história local, que ocorreu em Vilar de Amargo, pelo ano de 1676. Estamos perante um crime de morte que permanece, até hoje, envolto em mistério, quanto aos protagonistas e às causas. Porém, apesar da incerteza, a tradição oral, desde sempre, suspeitou que o terrível ato fosse consequente de um deslize de honra, questão tão valorizada na época, acrescentando-se a hipótese de que os desconhecidos seriam oriundos da região da Meda, ou Vila Nova de Foz Côa.

Remetemos à transcrição do sucedido: A este abade sucedeu o caso seguinte … no ano de 1676.

Estava uma noite na cama no tal quarto. Batem-lhe à porta às desoras a pedir sacramentos depressa.

Levantando-se, pegou as chaves da igreja, vai abrir a porta da rua e ver quem era. Aí se encontra com dois homens mascarados. Querendo recolher-se e fugir para dentro de casa não o deixaram e põem-lhe armas ao peito, ameaçando-o com a morte se fala ou grita. Levam-no à força à igreja persuadindo-o que não tivesse susto, que ali o tornavam a trazer são e salvo.

Chegados à igreja vê ele uma comitiva de gente e de cavalarias, que tudo indicava a gravidade mas ninguém conheceu. Fazem-lhe abrir a porta travessa da igreja e apresentam uma senhora grave para que a confesse.

Enquanto ela se confessava, abrem eles a sua sepultura, vendo que a confissão se demorava, dizem:

- Ah! Senhor Abade! É tempo abreviar com isso.

Quis ele demorar a confissão mas eles não o consentiram temendo que amanhecesse e fossem sentidos. Acabou-se entretanto a confissão. Logo o obrigaram a dar à

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confessada a Sagrada Comunhão, o que ele fez. E dada que foi, disseram: - O lavatório nós lho daremos.

Imediatamente a mataram com veneno que lhe fizeram beber e assim a sepultaram e taparam a sepultura e foram levar o abade a casa, como prometeram.

Na sequência do acontecimento, que acabamos de referir, tão insólito como trágico, marcando, a vários níveis e para sempre, a vida dos vilamarguenses, estes quiseram lembrá-lo, de várias formas.

Assim, prestaram a sua homenagem ao abade João de Barros e Brito, um dos principais protagonistas, em relação ao sucedido, surgindo o seu nome na toponímia de Vilar de Amargo, com a rua denominada Padre Barros de Brito.