4 ANÁLISE DOS DADOS
4.3 Casos de Uso da Paráfrase
4.3.2 A Paráfrase e Casos de Complementos Verbais
Abaixo, listamos mais exemplos tirados do corpus que exprimem a “remissão a outro(s) elemento (s) do universo textual” (KOCH, 1999, p. 30) para a tradução dos pronomes en e y. Cada caso apresentado contém uma reestruturação frasal proposta pelo tradutor já citada na análise anterior ou mesmo outra alteração da estrutura da forma, mas que visa o sentido expresso no texto da LF.
Percebemos na tradução (52.1) que o tradutor reestrutura a frase, traduzindo o pronome en que tem a função de complemento do verbo “ressentir”, como sujeito da frase com a forma “isso”:
(52) De la jalousie simplement. Xénia avait mis ce poison en elle. Elle en ressentit du dépit, de la colère envers elle-même. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 37).
(52.1) Simplesmente ciúme. Xénia havia instigado esse veneno nela. E isso a fez indignar-se consigo, sentir raiva de si mesma. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 39).
Em (53.1), a frase que consta o pronome en foi traduzida, sendo reestruturada para melhor se adequar ao sentido expresso em (53). Observamos que o pronome en é o complemento do verbo “remettre”, mas em português é como se dissipasse com o fenômeno da paráfrase:
(53) Tu sais, Ehel, la vie réelle est déjà bien assez difficile comme ça, on n’a pas besoin d’en remettre. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 39).
(53.1) Sabe, Ethel, a vida real já é bem difícil em si, melhor não piorar ainda mais as coisas [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 41).
(54) Alexandre en arrivant de Maurice avait en effet accompli ses études de droit, mas il n’en avait rien fait. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 47).
No trecho (54.1), que representa a tradução de (54), o tradutor utiliza a paráfrase para reestruturar o verbo “avoir” com o complemento en, traduzindo tal verbo para o português “servir”, com intuito de manter o sentido do período:
(54.1) Ao chegar da ilha Maurício, Alexandre de fato tinha se formado em direito, mas o diploma não lhe servira para nada. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 51).
Neste período (55), o pronome en mantém uma relação com o verbo “se sortir” como seu complemento:
(55) La ruine, l’angoisse, du futur, la maladie d’Alexandre, l’incapacité où étaient ces deux femmes de s’en sortir. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 120).
A tradução (55.1) nos mostra que houve uma modificação do signo de verbo para substantivo, tornando implícito o pronome en:
(55.1) A ruína, a angústia com o futuro, a doença de Alexandre, a incapacidade daquelas duas mulheres de encontrar uma saída. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 134).
(56) Et Chemin ? Et Talon ? Ethel était bien sûre qu’ils s’en étaient sortis. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 18).
Com o mesmo intuito de maneira a preservar o sentido da frase (56), o tradutor passa para o português (56.1) a estrutura em que se encontra o pronome en, trabalhando com outras formas:
(56.1) E Chemin? E Talon? Ethel esta convencida de que haviam se safado. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 214).
(57) Ils n’en ont pas parlé le reste de la journée, [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 189).
Neste caso (57.1), o tradutor não omite o pronome en, que surge como o signo “assunto”, classificado como complemento do verbo “falar” assim como em francês (verbo “parler”), que engloba de maneira ampla o referente do contexto:
(57.1) Não voltaram a falar no assunto nem no restante daquele dia [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 220).
Podemos perceber tal fenômeno também no trecho (58.1), porém o signo “assunto” complementa o verbo “pensar”:
(58) C’est comme un rêve. Quand elle y pense [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 23).
(58.1) É como um sonho. Quando ela pensa no assunto [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 22).
No exemplo (59), temos a ocorrência do pronome y como complemento adverbial de lugar, substituindo “dans la cour de l’hôpital”:
(59) Les femmes et les enfants n’ont pas leur place dans la cour de l’hôpital, il est interdit d’y allumer du feu pour faire la cuisine. [...] (LE CLÉZIO, 2004, p. 98).
No trecho traduzido (59.1), percebemos que o tradutor buscou trabalhar com a paráfrase, para expressar o pronome y em português, através do pronome relativo “onde”:
(59.1) As mulheres e crianças não têm mais seu lugar no pátio do hospital, onde é proibido acender fogo para cozinhar. [...] (LE CLÉZIO, 2007, p. 97).
(60) Elle découvrait cette faiblesse, [...] mais elle ne savait pas y résister. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 36).
Neste trecho (60.1), o tradutor passou para o português (“lhe”) o pronome y, dando o sentido de personificação para a sua referência. E ainda, recorre à reestruturação da frase, ou seja, de “résister” ele traduz para “opor resistência”:
(60.1) Descobria essa fraqueza em si, [...] mas não sabia como lhe opor resistência. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 38).
(61) ‘Oui, toutes ces parlotes, ces cancans ! Il devait y avoir les mêmes dans le salon du Titanic quand il a coulé’. (LE CLÉZIO, 2008, p. 77).
Neste exemplo (61.1), o tradutor se serviu da modificação de alguns elementos da frase para propor uma tradução para o texto em francês (61) cujo sentido permanece e o pronome y parece ser traduzido:
(61.1) ‘Ah, sim, todo aquele falatório, aquela tagarelice! No salão do Titanic, quando o navio afundou, devia ser a mesma coisa!’ (LE CLÉZIO, 2009, p. 90).
No trecho (62.1), o tradutor apresentou uma reestruturação da frase onde se encontra o pronome y, considerando a omissão deste pronome e buscando fazer valer o sentido do texto:
(62) Sans doute de la fatigue, de part et d’autre, et Ethel avait imaginé que c’était Xénia qui se lassait les difficultés de la vie y étaient pour quelque chose. [...] (LE CLÉZIO, 2008, p. 93).
(62.1) Um pouco de cansaço, sem dúvida, de parte a parte, e Ethel imaginara que era Xénia que estava cansada dela. As dificuldades da vida também tinham certo peso. [...] (LE CLÉZIO, 2009, p. 105).
Pressupomos nesta análise enfocando a estratégia paráfrase, que o tradutor apresentou formas específicas (HJELMSLEV, 1975, p. 57) para representar os pronomes en e y, sendo ele o responsável por “deixar o mais possível o escritor em repouso e fazer o leitor se mover em direção a ele” Schleiermacher (apud BERMAN, 2002, p. 263).
O tradutor condiciona o discurso de modo que, ora os referidos pronomes estejam presentes na tradução, muitas vezes com o cuidado, para que não haja estranhamento do leitor para com a mensagem que vem do estrangeiro; ora ele propõe modificação dessa estrutura linguística que está presente no texto da LA, apresentando outras combinações de signos linguísticos com o intuito de transmitir a mensagem do discurso, evitando perder o sentido, estabelecendo o contato com a estrutura linguística do estrangeiro, e ainda, sem provocar o estranhamento para o leitor.