2.2 OS PRINCIPAIS ACORDOS DE INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA
2.2.4 A parceria nuclear entre Argentina e Brasil em 1980
O acordo de 1979 abriu caminho para outros processos de cooperação entre esses países, como a integração nuclear que se materializaria em 1980, com o Acordo de Cooperação para o Desenvolvimento e Aplicação de Usos Pacíficos da Energia Nuclear (OLIVEIRA, 1996), o Programa de Integração e Cooperação Econômica Argentina-Brasil, de 1986, e inclusive a própria criação do Mercosul, de 1991. Ademais, o processo de aproximação em segurança evidenciava a completa superação da lógica de rivalidade que permeou as relações entre os países até então. Conforme afirma Vargas (1997, p. 42):
A aproximação entre Brasília e Buenos Aires no terreno da segurança, na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90, teve significado regional, mas ganhou valor imediato no plano bilateral. Neste terreno, concorreu para o abandono do emocionalismo que perpassara as relações Brasil- Argentina no passado recente, agravado pelo
contencioso em torno do aproveitamento hidrelétrico do Rio Paraná.
Durante o período que antecedeu a assinatura desse histórico acordo entre Brasil e Argentina, observavam-se, na região, duas posições distintas. Por um lado, existia o posicionamento mexicano, que defendia a criação de uma zona livre de armas nucleares na América Latina. De outro lado, havia o Brasil e Argentina, os quais buscavam uma posição mais autônoma frente aos interesses das grandes potências (DAWOOD; HERZ, 2013, p. 501). Nesse sentido, Bandeira (2010, p. 431) afirma:
Apesar do forte caráter anticomunista dos regimes militares, a Argentina e o Brasil, em maior ou menor grau, aproximavam-se da URSS, a fim de ampliarem, internacionalmente, sua margem de autonomia relativa, na medida em que suas relações econômicas e políticas com os EUA se tornavam cada vez mais conflitantes.
Esse posicionamento se justificava, visto que esses dois países entendiam a assinatura do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), promovido, sobretudo, pelos EUA na América Latina, como forma de congelar o poder internacional quanto a essas armas. Nesse sentido, questionavam a assinatura do Tratado de Tlatelolco. Segundo Dawood e Herz (2013, p. 503):
[...] o Tratado de Tlatelolco somente entraria em vigor muitos anos após o seu projeto preliminar. Isto foi devido à sua plena validade, como observado anteriormente, dependente da ratificação do tratado por todas as partes. A Argentina assinou o tratado em 1967, mas não procurou ratificá-lo após a assinatura. Chile e Brasil ratificaram o tratado, mas não utilizaram o dispositivo previsto no artigo 29, da declaração unilateral de sua validade. O posicionamento do Brasil em relação ao Tratado de Tlatelolco seguiu o da Argentina e vice-versa, considerando que estes países encontravam-se em uma espécie de
competição para o desenvolvimento e aquisição de tecnologia nuclear18.
Percebe-se, dessa forma, que a aproximação de Brasil e Argentina está inserida em um contexto internacional de coordenação de esforços para possibilitar a autonomia desses países para o uso pacífico da tecnologia nuclear. No entanto, essa aproximação não foi fruto exclusivamente de fatores sistêmicos, mas também de fatores domésticos. De acordo com Dawood e Herz (2013, p. 506):
Tal aproximação foi facilitada pelo fato de que em 1983 um governo civil se estabeleceu na Argentina (Raul Alfonsin) e em 1985 o mesmo aconteceu no Brasil. Na Argentina, esse processo reforçou a percepção interna de que os gastos com tecnologia nuclear eram errados (já que a energia nuclear não era essencial) e que a nova liderança deveria promover o pacifismo19.
Tal reaproximação entre Brasil e Argentina resultou, em 1991, nos acordos de Guadalajara. Com base nesse acordo, afirmou-se que os programas nucleares dos dois países teriam somente fins pacíficos e foi criada a agência brasileiro-argentina de controle de materiais nucleares. Este processo de comunicação com o fim de atingir acerto sobre diferentes ideias e necessidades, por sua vez, levaram ao acordo quadripartite entre Brasil, Argentina, a Agência Brasileiro- Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares
18 Tradução nossa: “[…] the Treaty of Tlatelolco would only come into effect many years after its primary draft. This was due to its full validity, as previously noted, dependent on the ratification of the treaty by all parties. Argentina signed the treaty in 1967, but did not seek to ratify it after signing. Chile and Brazil did ratify the treaty, but did not use the device provided for in article 29, of the unilateral declaration of its validity. Brazil’s positioning towards the Treaty of Tlatelolco followed Argentina’s and vice-versa, considering that these countries found themselves in a sort of competition for the development and acquisition of nuclear technology”.
19
Tradução nossa: "Such rapprochement was made easier by the fact that in 1983 a civilian government was established in Argentina (Raul Alfonsin) and in 1985 the same happened in Brazil. In Argentina, this development added to the internal perception that spending on nuclear technology was improper (since nuclear energy was not essential) and to the pacifism of the new leadership”.
(ABACC) e a Agência internacional de Energia Atômica (AIEA), no final de 1991.
É relevante apontar a existência de tal aproximação por dois motivos fundamentais. Primeiramente, entende-se que o acordo nuclear entre o Brasil e a Argentina teve relevância sobre as políticas energéticas dos dois países, os quais, a partir daquele momento, possibilitaram o uso pacífico e compartilhado da energia nuclear. Além disso, depreende-se que a aproximação política entre esses países se refletiu, posteriormente, em processos avançados de integração regional, como o Mercosul e a Unasul.
Em suma, a aproximação entre Brasil e Argentina pode ser assim conceituada conforme o entendimento de Oliveira (1998, p. 17):
[...] a) primeira etapa, marcada pelos antecedentes da difícil e lenta aproximação entre dois Estados rivais; b) segunda etapa, com início em 1985 e o registro dos governos em transição democrática, o que tornou possível a assinatura histórica da Declaração de Iguaçu, originando, em 1986, o Programa de Integração e Cooperação Econômica Argentina-Brasil (PICE), marco decisivo e abrangente do processo bilateral, consubstanciando-se no posterior Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento de 1988 e estabelecendo um espaço econômico entre os dois Estados; c) terceira etapa, concretizou-se pela solidificação das bases da integração.
Assim, a parceria nuclear entre Brasil e Argentina, juntamente com a assinatura do Acordo Tripartite, sinalizaram para mudanças profundas nas relações diplomáticas entre esses países, que haviam sido conduzidas, até então, sob a lógica da disputa regional. A partir desse momento, percebe-se a busca por colaboração econômica e política entre os dois grandes países sul-americanos.
2.3 VARIAÇÕES DA MATRIZ ENERGÉTICA DURANTE O