A leitura dos três textos de abertura da revista permitiu-me entrever três momentos distintos na configuração da Literatura Marginal na atualidade, a partir dos quais é possível também o confronto com o jogo das formações imaginárias que, funcionando como condições de produção, determinam os dizeres sobre a Literatura Marginal, significando a marginalidade.
Em “AAD 69” (1997), Pêcheux, contrapondo-se à teoria da informação, propõe a noção de discurso, segundo a qual não há transmissão de uma informação (mensagem), mas sim de um “efeito de sentidos” entre o destinador e o destinatário. Pêcheux esclarece, nesse sentido, que destinador e destinatário designam lugares determinados na estrutura de uma formação social, os quais estão representados nos processos discursivos em que são colocados em jogo. Trata-se, segundo o autor, de um lugar imaginado: “(...) o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro” (1997, p. 82).
No primeiro momento, correspondente ao texto “Manifesto de abertura: Literatura Marginal”(Ferréz, 2001, p. 3), temos a atribuição do conceito ‘marginal’ a um determinado conjunto de textos produzidos por moradores da periferia ou presidiários.
Nesse momento, a imagem que Ferréz constrói para si corresponde à imagem do grupo marginal, daí o uso de primeira pessoa. A imagem feita do destinatário é daquele que desconhece a Literatura Marginal. Na tentativa de definir o que seja essa literatura, ou seja, na constituição da imagem do objeto discursivo, há, nas referências às chamadas minorias sociais e na aproximação a certos autores, um efeito da memória que destaca sempre uma determinada demarcação da sociedade.
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Como tentei ressaltar em minha análise, a figura do bandeirante, dos senhores das casas-grandes em oposição, respectivamente, aos índios e escravos enfatiza a distinção existente entre a favela/periferia/gueto e o outro, que, nesse caso, ocupa o lugar dos dominadores. Da mesma forma, a recuperação de nomes como Plínio Marcos, João Antônio, a literatura de cordel e Máximo Gorki traz, pelo literário, a imagem do social com a qual se identifica a Literatura Marginal: uma sociedade marcada pela diferença entre valorizados e desvalorizados, proletários e capitalistas. Também mostrei que essa oposição não se faz sem conflito. Afinal, Ferréz também se insere no campo do inimigo (“eles”) quando assume a responsabilidade pela cultura autêntica do povo.
No segundo ato da revista (Ferréz, 2002, p. 2), o autor dialoga com outros usos do mesmo termo ‘marginal’ para identificação de outros escritores, o que se caracteriza numa tentativa de ampliação do grupo. Tal modificação acerca do objeto do discurso (a Literatura Marginal) pode ser interpretada como sendo resultado dos diversos eventos dos quais Ferréz participou. A figura do interlocutor não é mais apenas daquele que não sabe o que é Literatura Marginal, mas também daquele que conhece outras “literaturas marginais”, uma vez que aqueles que estiveram nesses eventos– e fizeram perguntas – também são determinantes no efeito-leitor presente nesse diálogo.
A participação do autor nesses eventos explica a aproximação a outras produções literárias identificadas por essa rubrica. Ressaltei, todavia, que essa ampliação não foge de uma imagem da sociedade que o termo ‘marginal’ coloca. É nesse sentido que, junto a Plínio Marcos e João Antônio, podem ser citados Kafka, o cinema marginal e Hélio Oiticica. Para além da ampliação, o que não se perde é a marcação do social a que remete o termo ‘marginal’.
Finalmente, o texto de abertura do terceiro ato da revista (Ferréz, 2004, p. 2) centra- se na defesa do uso do termo ‘marginal’, o que pode ser compreendido como uma espécie de radicalização. A mudança da forma como é construída a imagem do objeto discursivo se faz também nesse jogo de formações imaginárias. A imagem do outro inclui agora também a imagem do crítico, daquele que não gostou da Literatura Marginal. Reforça-se, nesse sentido, a imagem do grupo: o uso da primeira pessoa do plural junta-se agora ao uso dos vocativos, acentuando a diferença entre o “eu” e o “outro”. Aqui, para a constituição da
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imagem do objeto discursivo, não são mais necessários outros usos do termo ‘Literatura Marginal’, basta a apresentação dos autores que fazem parte do grupo e que ali estão apresentando seus textos. Fica apenas a própria imagem do referente, a literatura marginal, reflexo daquele que a identifica, o marginal.
Embora a identificação do que seja a Literatura Marginal se dê em três diferentes momentos, a análise das formações imaginárias permite apontar um único funcionamento discursivo que caracteriza essa produção, o que nomeio aqui como a partição do social: o uso da expressão ‘marginal’ coloca em jogo a posição ocupada pelo sujeito marginal na sociedade, o que se faz na oposição ao outro que não é marginal.
A marginalidade apresenta-se aqui significada a partir do lugar social formulado nos escritos marginais e que corresponde, simbolicamente, à posição ocupada pelo autor marginal no conjunto da sociedade. O autor marginal é aquele que escreve do lugar de quem pertence à periferia, opondo-se aos “boyzinhos”, os quais são também os ‘inimigos’.
É importante ressaltar que essa apropriação do termo ‘marginal’ só é possível quando a autoria é assumida socialmente, ou seja, quando a cultura da periferia é produzida
na periferia, por quem a ela pertence e nela se significa. É assumindo essa nova posição no
conjunto da sociedade que o ‘marginal’ pode significar-se na marginalidade e não meramente ser significado por ela pelo outro. Nesse sentido, a circulação do discurso marginal - por meio de meios oficiais, ainda que alternativos, como é o caso da revista
Caros Amigos - é aquilo que produz condições para que a marginalidade seja formulada
literariamente.
A partir dessa posição-sujeito, em que se assume a função autor, através da circulação dos sentidos em meios de divulgação reconhecidos socialmente, aquele que era significado enquanto ‘marginal’ pode agora formular-se marginal. É ocupando uma mesma função exercida por aqueles que estão no centro (ou seja, longe das periferias) que ele pode significar a marginalidade. Resta-nos perguntar, agora, que formulação ‘marginal’ possível é essa que se apresenta pelo literário.
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