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4.3. A PARTICIPAÇÃO COMO MEIO PARA O EMPODERAMENTO

Neste Projeto-dissertação, pretende-se que a avaliação participativa seja um processo político-pedagógico, um processo de ação-aprendizagem por meio do qual os atores-pesquisadores participantes possam exercer a reflexão e propor intervenções para as transformações que forem identificadas como necessárias na realidade do PSA. Reflexão, conforme a definição de Maturana e Varela ([1998] apud Oliveira Neta, 2009) – é um processo de conhecer como é que se conhece, um ato de se voltar sobre si mesmo. Assume-se assim, neste Projeto, o objetivo geral de fomentar um espaço de discussão reflexiva visando a produção de sentido sobre as questões que envolvem o PSA.

Tal abordagem parece se adequar à metodologia da avaliação participativa, a qual busca, conforme descrita por Roesch (2002, p. 163), a emancipação dos indivíduos e comunidades e se caracteriza pelo foco na ação e pela participação das partes interessadas em cada estágio do processo enquanto que “na avaliação convencional, a objetividade científica é um ideal a perseguir” e há um distanciamento dos avaliadores dos outros participantes.

Feuerstein (1986) segue a mesma linha de pensamento, compreendendo que a avaliação participativa está relacionada principalmente com o desenvolvimento de

pessoas e tem, neste sentido, que seguir os seguintes critérios: partir daquilo que as

pessoas já sabem e fazem; aproveitar e desenvolver as aptidões e conhecimentos das pessoas para controlarem e avaliarem seu próprio progresso; ajudar as pessoas a verificar se sua atividade produz algum impacto nos objetivos do programa; mostrar se os recursos humanos e materiais estão sendo utilizados de forma eficaz e a um custo que o programa consegue suportar; capacitar as pessoas a estudarem seus próprios métodos de organização e administração; fornecer informações úteis para a tomada da decisão no planejamento e na gestão do programa; indicar onde há necessidade de dados mais detalhados e como obter esses dados; permitir que as pessoas vejam o programa dentro de um contexto mais amplo, percebendo qual a relação dele com outros programas de desenvolvimento ou com políticas públicas;

permitir que as pessoas analisem sua própria situação e atuem para melhorá-la; promover a noção de responsabilidade coletiva pelas atividades do programa.

Conforme demonstram as experiências de educação popular inspiradas na pedagogia freiriana, que privilegiam a aprendizagem problematizadora3, a capacidade de solucionar problemas identificados em um local se adquire em processos de experimentação social (TONNEAU; SABOURIN, 2007). É neste caminho que se constrói a proposta deste Projeto-dissertação - ser uma oportunidade para todos os envolvidos experimentarem, vivenciarem um processo de gestão social em busca da transformação dos atuais problemas detectados do PSA, que são as fragilidades na auto-organização, na articulação política e na representação de interesses coletivos.

A opção pela metodologia participativa é também fruto de um profundo respeito da pesquisadora pela riqueza de saberes dos distintos atores deste Projeto; e da confiança em possibilidades de construção de espaços de comunicação dialógica por meio do processo avaliativo coletivo. Avalia-se que tais espaços são tão importantes para o fortalecimento e empoderamento do grupo quanto o são as pluralidades de olhares e de análises que dele surgem.

Por este motivo, a avaliação do PSA sugere dois movimentos básicos – um olhar para dentro, para o que se faz, como se faz, as relações que se constróem, o que embasa, sustenta e fundamenta os diferentes momentos da trajetória desta experiência no seu contexto dinâmico (MELO; MORAES, 2000). Neste sentido, é uma questão que interessa aos atores direta ou indiretamente envolvidos (equipe técnica, agricultores, parceiros, conselheiros), que poderão promover melhorias em sua forma de atuar, aprender com o processo avaliativo, avançar em futuras práticas.

O outro movimento é um olhar para fora, para o Projeto em seu contexto, junto a outras experiências, articulado com programas mais amplos e políticas públicas, para se compreender melhor o seu significado político, social e cultural, a partir dos resultados alcançados.

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Nesta opção pedagógica, o que se deseja desenvolver no educando-educador é a capacidade de fazer perguntas relevantes em qualquer situação, para que ele possa entendê-las e ser capaz de buscar soluções criativas e originais para os problemas detectados em seu próprio contexto.

4.4. A PESQUISA-AÇÃO INTEGRAL ENQUANTO MÉTODO

De acordo com Jara ([1998] apud ALMEIDA, 2001), “fazer pesquisa participativa diz respeito a aceitar que toda pesquisa é, essencialmente, um

relacionamento comunicante, que constrói um diálogo de mútua aprendizagem e

mútua confiança entre pesquisador e pesquisado. Isso significa uma parceria intelectual que é, ao mesmo tempo, descobrimento e criação, procura não apenas explicar, senão melhorar situações”.

Ao assumir tal posicionamento, a pesquisadora buscou um referencial metodológico que proporcionasse a construção deste diálogo de mútua aprendizagem e encontrou na metodologia da pesquisa-ação integral o caminho. O processo de pesquisa-ação integral (PAI) é assim definido por Morin (2004, p. 60):

“A PAI é aquela que visa a uma mudança pela transformação recíproca da ação e do discurso, isto é, de uma ação individual em uma prática coletiva eficaz e incitante, e de um discurso espontâneo em um diálogo esclarecido e, até engajado. Ela requer um contrato aberto e formal (preferencialmente não estruturado), implicando em participação cooperativa e podendo levar até a cogestão.”

Por esta definição, o plano de pesquisa na PAI não pode ser determinista nem totalmente predeterminado. Ao contrário – é flexível, permite sucessivas formulações de questões e correções para adaptar-se aos movimentos da vida e dos participantes. Como a PAI está centrada nas pessoas que participam e cumprem as tarefas de um Projeto comum “é necessário deixar amplo espaço para o dinamismo no processo de pesquisa” (MORIN, 2004, p.121).

Na PAI, o papel do pesquisador vai além do observador participante, pois ele é ativo, implicando-se no questionamento e no processo da solução do problema. De acordo com Morin (2004), há três graus de participação em pesquisa. O mais incipiente é o da representação, no qual as pessoas não têm papel ativo no enunciado do problema, mas participam quando respondem a um questionário, por exemplo. O segundo grau é o da cooperação ou colaboração, no qual cada pessoa toma parte na ação e na reflexão da tarefa a ser cumprida, além de participar na elaboração do problema e na busca de soluções e de explicações para o mesmo.

O último nível é o da cogestão. Neste, os atores interessados se tornam pesquisadores, discutem e decidem juntos em todas as etapas, desde a identificação do problema, passando pelo planejamento e realização das ações até a

análise, sistematização e divulgação dos resultados da pesquisa. Neste nível, diz Morin (2004, p. 66), são as situações vividas anteriormente ou a familiaridade de cada um com um campo de atividades que permitem a preparação para a tomada de decisões.

Para Morin (2004), idealmente é no nível da cogestão que deve se desenvolver um processo de pesquisa-ação integral. Mas o autor reconhece que a cogestão participativa permanece um ideal e propõe que cada participante desempenhe a tarefa que lhe foi atribuída em função da repartição dos diferentes papéis.

Quanto ao papel do pesquisador, na PAI ele não é o especialista, mas sim o

encarregado pelo grupo de cooperar, como coautor. Se lhe pedirem para animar

sessões, ele deverá organizar reuniões dialógicas, promovendo “um clima de intercâmbio, no qual cada um escuta e fala, onde se evitam as comunicações agressivas e as lutas de poder” (MORIN, 2004, p.134).

A definição dos instrumentos utilizados para a coleta de dados é feita pelos atores envolvidos, de acordo com suas capacidades e com o contexto. De qualquer forma, trata-se de uma avaliação qualitativa, que procura enfatizar o sentido das intervenções. Por isso, os pesquisadores utilizam instrumentos pedagógicos que implicam os atores na pesquisa. Quanto à análise, a reflexão crítica é a abordagem mais utilizada.

Mas Morin (2004, p.177) lembra que os atores devem estar conscientes de que:

“as análises começam desde os primeiros momentos dos entendimentos entre atores, pesquisadores e participantes, e prosseguem durante toda a ação de pesquisa e da coleta de informações até a redação do relatório enunciando as conclusões.”

É trilhando este percurso teórico-metodológico que se desenvolveu o Projeto de avaliação participativa do Projeto Policultura no Semiárido. Na busca de contribuir para as transformações no contexto das relações de poder entre os atores do Projeto PSA, a pesquisadora está ativamente inserida neste processo e comprometida com seus resultados.

A INTERVENÇÃO SOCIAL: PARTICIPAÇÃO DOS ATORES NA AVALIAÇÃO DA PRÁTICA

"Assim que você pensar que sabe como são realmente as coisas, descubra outra maneira de olhar para elas"

Descobrir um outro jeito de ver aquilo que se vê todos os dias. Este é o convite que se apresenta para um grupo de pessoas que ousa avaliar a própria prática. O desafio é concentrar o espírito sobre si próprio, sobre suas próprias representações, idéias e sentimentos, mirar-se no espelho, refletir (se), para ampliar os significados e sentidos (o que a gente faz serve para quê?), compreendendo que há outras verdades sobre aquilo que se pratica.

E ao compreender outras verdades e enxergar outros olhares, cada um se reconhece e reconhece os demais, aprende sobre si mesmo e sobre o processo no qual está envolvido, amplia a sua visão de mundo, porque passa a incluir a existência de outras visões. Um processo como este permite aprimorar a gestão social como um ato relacional, exercida não somente por um gestor, mas por um coletivo de atores (FISCHER, 2002).

Neste capítulo será apresentado o percurso trilhado para a construção deste processo, o passo a passo, assim como os obstáculos e superações.