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A participação do aluno no processo de ensino e aprendizagem

4. Definição e fundamentação da problemática e dos objetivos do estudo

4.2. A participação do aluno no processo de ensino e aprendizagem

O conceito de participação pode ter diversas interpretações, estando associado a uma perspetiva política ou educativa. De acordo com Canotilho (1981), é preciso ter em consideração a participação lato sensu (através de voto) e a participação stricto sensu, que é exercida diretamente pelos cidadãos no processo de tomada de decisão. Este autor menciona ainda três graus de participação: (1) participação não vinculante – manifestada ao nível dos processos de tomada de decisão, mas limitada; (2) tomadas de decisão – referente à participação que se situa ao nível das transferências de poder; (3) participação vinculante e autónoma – substituindo o poder de decisão tradicional.

Ainda segundo uma perspetiva política, Machado (1982) distingue entre ser parte e ser participante, pois, “enquanto parte, o indivíduo afirma a sua autonomia pessoal contra outros indivíduos, mas enquanto participante, ele representa e afirma o interesse de um grupo . . . [e] . . . aparece como portador de uma função no todo coletivo” (p. 122). Como tal, a participação é um processo consensual e conflitual, que contribui para a construção de uma organização, tendo em conta diversos objetivos e interesses.

Tendo em conta a sociedade democrática em que vivemos, a participação é um dos seus princípios básicos e exige um debate aberto entre todos. Só participando é que as pessoas melhoram a sociedade e é desde a escola que devem ser promovidas iniciativas ligadas à “vida democrática” (Guerra, 2003). Participar é, então, uma ação social que consiste em intervir de forma ativa nas decisões e ações relacionadas com a planificação, a atuação e a avaliação da atividade que se desenvolve (Guerra, 2003).

28 Neste sentido, Apple e Beane (2000) mencionam na sua obra “Escolas Democráticas” que:

é um facto que todos aqueles que se encontram envolvidos directamente numa escola democrática, inclusive os jovens, têm o direito de participar no processo de tomada de decisões. Por este motivo . . . as escolas democráticas pautam-se por uma ampla participação . . . Nas salas de aula, os alunos e os professores envolvem-se numa planificação participada, atingindo decisões que vão ao encontro das preocupações, aspirações e interesses mútuos. Este género de participação democrática, ao nível da escola e da sala de aula não é propriamente uma ‘engenharia do consentimento’ . . . mas uma tentativa genuína que honra o direito de as pessoas participarem na tomada de decisões que afectam a sua vida (p. 31).

O principal objetivo da participação não é puramente organizativo ou funcional, é também educativo, tendo em conta que a tarefa de participar contribui “para desenvolver a responsabilidade e a capacidade de dialogar, de planificar, de avaliar, de aprender e de trabalhar em equipa” (Vinãs e Domènech, citado por Guerra, 2002). Este completa-se com a dimensão social, na medida em que a escola é um espaço social, público ou privado, onde todos os cidadãos têm o direito de participar.

Neste sentido, a escola tem um papel essencial para que a participação seja efetiva, pois não basta que exista vontade, é necessária a existência de estruturas de participação. Gil Villa (citado por Guerra, 2003) aborda a participação na escola a partir de três contextos diferentes: o político (a gestão da escola); o académico (referente ao processo de ensino-aprendizagem); e o comunitário (respeitante às atividades extraescolares). No entanto, a participação deve ser proporcionada em cada um destes contextos, de forma a serem dadas opiniões e ideias, desenvolvidas atividades e avaliadas as atividades de forma reflexiva.

É ainda possível distinguir dois sentidos complementares nos processos de avaliação: sentido descendente e sentido ascendente da participação. No primeiro sentido, a escola deve promover a participação tendo em conta que se trata de um valor educativo e social, pois é a partir dela que surge uma aprendizagem importante para o exercício da

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vida democrática. No segundo sentido, os alunos têm o dever de participar e de conseguir alcançar níveis mais elevados de participação (Guerra, 2003, p. 47).

Segundo Oliveira-Formosinho (2007), as crianças possuem um papel determinante no seu processo educativo, já que elas questionam, interrogam, investigam, levantam hipóteses, planeiam e partilham os conhecimentos entre si. Os objetivos são orientados para promover o desenvolvimento e conduzir ao envolvimento no processo de aprendizagem, permite estruturar experiências, de modo a construir aprendizagens significativas.

Como tal, de acordo com Perrenoud (2005), no que respeita à participação ativa dos alunos, esta pode ser justificada de duas formas: primeiro, como um “direito do ser humano”, em que as crianças, a partir do momento que têm condições para tal, têm o direito em participar nas decisões que lhes dizem respeito; segundo, como uma forma de educação para a cidadania. Assim, cabe ao professor estruturar o ambiente, escutar, observar e formular questões que vão ao encontro dos interesses e conhecimentos dos alunos, passando a ser um estimulador de todos os processos que lhes permitam crescer como pessoas e futuros cidadãos, desempenhando uma influência verdadeiramente construtiva.

Uma das principais formas de o professor o fazer é integrando os conhecimentos prévios dos alunos, que para Solé (1999) dizem respeito aos seus esquemas de conhecimento. Por sua vez, Coll (citado por Zabala et all, 1999) define esses esquemas como “a representação que uma pessoa possui em um determinado momento da sua história sobre uma parcela da realidade” (p. 82). Esta definição implica que os alunos possuam uma quantidade variável de esquemas de conhecimento que vão, desde informações sobre fatos, acontecimentos, experiências e casos pessoais, relacionados com a realidade de cada um. De acordo com Miras (1999), os esquemas de conhecimento de um aluno, no início da aprendizagem de um novo conteúdo, têm um certo nível de organização e de coerência interna e, ao mesmo tempo, um certo grau de organização, relação e coerência entre si.

Como tal, o professor tem um papel importante na valorização e reconhecimento dos esquemas de conhecimento dos alunos, sendo importante desenvolver métodos de

30 exploração dos mesmos. Por exemplo, através do diálogo entre professor e aluno, numa fase inicial da aula, onde o aluno tem uma voz ativa e pode exprimir as suas ideias.