ANÁUSE ERGONÔMICA DO TRABALHO slT
C. Análise da atividade
5. ATIVIDADE REAL
2.4.5 A Reconstituição previsível da atividade futura provável
2.4.5.5. A participação em cada etapa da transferência de tecnologia
Cada caso de transferência de tecnologia constitui-se em um processo que apresenta, a exemplo do exemplificado para projetos industriais, fases que são analisadas por Wisner (1981, p. 48-51, 142-8; 1982b, p, 16-9; 1983, p. 41-3; 1984b, p. 53-5, 1987, p. 145-153) como: a escolha da tecnologia, a escolha do tipo de construção, a compra das máquinas, a instalação das máquinas, a seleção e formação de pessoal e a ativação de todo o dispositivo produtivo. A contribuição da abordagem antropotecnológica em cada uma delas, bem como a colaboração eventual da metodologia para intervenção ergonômica em projetos industriais, serão explicitadas a seguir.
A escolha da tecnologia constitui uma etapa importante do projeto pois os diversos modos de produção diferem tanto no plano técnico e econômico como nas suas relações com o homem. Os mesmos podem comportar riscos reais (toxidade, explosões, incêndios) ou riscos potenciais de geração de condições inadequadas de trabalho. A OIT (1988, p. 9)
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salienta a necessidade de especial atenção a substâncias que são proibidas ou são objeto de rigorosa legislação de precaução nos países industrializados.
Além disso, são múltiplos os interesses que podem estar em consideração, envolvendo tanto os compradores como os vendedores. Como exemplo, cita-se a tendência que os representantes dos NPI, apresentam de valorizar somente as tecnologias que representam a novidade mais recente em termos de inovação, independente da sua aplicabilidade e conveniência à realidade local. Assim, observam-se empreendimentos ultra-modemos que se encontram parados ou subutilizados em função da inexistência de meios para manter pessoal especializado ou inadequação a algum aspecto geográfico.
Neste sentido, a OIT (1988, p. 10) recomenda que o estudo de uma tecnologia cuja transferência está sendo proposta deveria incluir um exame de outras tecnologias alternativas possíveis e disponíveis para o mesmo fim, visando a selecionar a que se apresentasse mais segura.
A escolha do tipo de construção pode colocar também problemas graves na medida em que as condições climáticas representam, muitas vezes, a causa principal de intolerância dos trabalhadores. Nesse sentido, as instalações concebidas para um clima temperado apresentam-se, na maioria das situações, inadequadas a climas tropicais sem a interferência de dispositivos de climatização normalmente onerosos. As soluções arquitetônicas devem, assim, adequar-se ao local proporcionando condições de trabalho com influências positivas sobre a saúde e produtividade dos operadores, bem como funcionamento satisfatório dos equipamentos.
As duas fases citadas correspondem, na definição das etapas de um projeto industrial, aos Estudos Preliminares e à Engenharia Básica. Nesse sentido, Maire et ali (1989, p. 46-85) enfocam alguns pontos, referentes principalmente aos aspectos organizacionais, que podem ser analisados para respaldar as decisões, quais sejam:
• procedimentos: natureza e sensibilidade dos parâmetros a controlar;
• material: natureza e particularidades tecnológicas dos equipamentos e ferramentas; • tipo de regulação: pneumática ou eletrônica, por exemplo;
• tipos de comandos a manipular;
• modalidades e limites de retomada manual da produção; • tipologia do sistema de condução;
• qualificações requeridas em cada local;
Esse último ponto pode ser analisado a partir da reflexão sobre alguns aspectos, referentes principalmente ao tecido social e industrial da situação analisada, tais como, formação, tipo de tarefa, número de pessoas por equipe, as relações inter-individuais, a possibilidade de um correspondente privilegiado na equipe que faça os contatos externos e os acessos à sala de controle.
A compra das máquinas constitui um período crítico para a adaptação do trabalho ao homem, pois são muitos os problemas que podem daí advir, com conseqüências relativas à avaliação do custo do empreendimento, ao funcionamento do sistema e às condições de trabalho. Muitas vezes os dados de produtividade nominal de um equipamento, fornecidos pelo fabricante, dificilmente são atingidos nas condições normais de funcionamento, a produtividade real. A conseqüência disso é que, para que os dados de fabricação, quando da posta em marcha, correspondam ao esperado, é preciso forçar os fatos de produção a corresponder às previsões, com sobrecarga evidente para os operadores.
Pode ocorrer também a subestimação das dificuldades de encontrar, não só pessoal especializado para a empresa, como condições técnicas que permitam o funcionamento e manutenção satisfatórios. Os aspectos a considerar nesta fase vão desde as características antropométricas e formação dos operadores disponíveis, bem como a sua capacidade de entendimento aos sistemas de comunicação dos equipamentos, até as condições de alimentação básica dos equipamentos (água e energia elétrica, por exemplo) e a disponibilidade de operadores e peças de manutenção.
Esta fase está contida na etapa de desenvolvimento de projetos industriais denominada Engenharia de Detalhamento. Maire et ali (1989, p. 90,92) ressaltam que a precisão requerida por esta fase permite um aprofundamento da análise da atividade futura provável, no sentido de integrar ao projeto os conhecimentos básicos de ergonomia, como posturas, esforços físicos e trabalho mental. Enfatizam que neste período podem, paralelamente, ocorrer as análises detalhadas de tipo e repartição das tarefas a cumprir, da organização do trabalho e da preparação dos operadores.
Na questão da organização do trabalho, ressaltam (p. 140) que é nessa etapa que ocorrem os ajustes da organização. Eles referem-se, principalmente, ao quadro organizacional geral, envolvendo efetivos, qualificações, repartição de tarefas, polivalência, ritmos de trabalho, estrutura hierárquica, relações com outros serviços. Referem-se, também, às modalidades cotidianas de organização, tais como, meios de comunicação, instruções e procedimentos.
Este quadro organizacional geral deve ser posto à prova com o funcionamento das instalações que surgem durante os estudos detalhados. Já as modalidades cotidianas da organização, os autores consideram que são, nesta fase, estabelecidas pela primeira vez. Os procedimentos de trabalho são uma ferramenta essencial aos operadores, sendo, por isso, essencial que os mesmos participem da sua elaboração. Da mesma maneira, a reflexão sobre os meios necessários para assegurar a continuidade da informação, em todos os sentidos, deve ser iniciada, sempre associada aos futuros usuários.
A instalação das máquinas coloca, pela primeira vez, o confronto entre o que foi preparado no país vendedor e o que é realmente apresentado ao país comprador. Os cuidados referentes a um controle satisfatório do ambiente físico de trabalho (por exemplo, sonoro, luminoso, térmico, vibratório, toxicológico do ar, espaços de circulação e operação) devem ser completados com aqueles referentes à manutenção dos equipamentos. E recomendável a previsão de elementos de sistemas de detecção de panes que sejam simples e seguros, bem como a possibilidade de troca padronizada de elementos defeituosos. A importância desta questão é colocada na medida em que o tecido industrial e social da situação analisada possa ou não dispor de pessoal especializado e fornecedores de material de reposição.
A seleção do pessoal que atuará operando o empreendimento é uma fase que a metodologia de intervenção ergonômica em projetos industriais recomenda seja realizada o mais precocemente possível. Esta recomendação visa a permitir que os operadores possam ter a sua formação acompanhando e participando do desenrolar do projeto. Daniellou (1988, p. 191) enfatiza que durante a fase de realização das instalações o ergonomista, num trabalho conjunto com os futuros usuários, pode controlar se os objetivos definidos nos programas detalhados estão sendo cumpridos e sugerir algumas modificações possíveis. É evidente a interferência que o tecido social e industrial pode ter nesta questão de seleção e formação, posto que tanto as qualificações dos operadores quanto as suas condições de vida e saúde são primordiais no desenrolar destes processos.
Maire et ali (1989, p. 153, 162) consideram também que o canteiro de obras, se bem utilizado, pode constituir-se num precioso suporte de formação. Recomendam visitas dos futuros usuários às instalações em construção para que os mesmos apreendam, progressivamente, todos os detalhes relativos aos seus futuros locais de trabalho. Enfatizam, ainda, que essas visitas podem vir a melhorar as condições em que se efetua a transferência de responsabilidade, a colocação das instalações à disposição dos usuários.
Realmente, é no momento da ativação do dispositivo produtivo, fase que compreende a Operação Piloto e a Produção Normal Estabilizada na tipologia de projetos
ocorre progressivamente. Esse é o período crucial de observação, no qual as falhas do sistema aparecem, evidenciam-se os problemas de segurança e pode-se descobrir as dificuldades operacionais. O mesmo autor (1981, p. 51) alerta que nos NPI, a abundância de mão-de-obra disponível, sua juventude e, talvez, o seu bom nível geral de instrução podem vir a criar uma ilusão perigosa, aquela de que uma seleção severa do pessoal e um vasto plano de formação vão suplantar o que o dispositivo técnico tem de inadequado em relação à situação local.
Daniellou (1988, p. 191) ressalta a necessidade da análise do trabalho real dos operadores nessa etapa com o objetivo de:
• notar os elementos que foram insuficientemente considerados quando da concepção e fornecer soluções rápidas;
• completar, através da análise dos incidentes ocorridos, a formação e o enquadramento dos operadores;
• Contribuir para uma acumulação de experiência da equipe para realizações posteriores. Recomenda, também, (1985, p. 74) uma análise do trabalho quando da Produção Normal Estabilizada. Argumenta que esta permitirá evoluir o grau de validade da previsão da atividade efetuado durante a fase de concepção. A avaliação dos desvios constatados permite o progresso dos conhecimentos em ergonomia e dos métodos de previsão da atividade.
2.4.6. Considerações gerais sobre a abordagem antropotecnológica
Wisner (1984b, p. 55) destaca a impossibilidade de realização de um estudo antropotecnológico sem uma contribuição importante de pesquisadores do país no qual a tecnologia será implantada. Estes reuniriam as condições necessárias para a interação com os operadores locais utilizando seu próprio idioma e segundo as perspectivas culturais que lhes são próprias.
Salienta-se que a antropotecnologia constitui um campo de pesquisa relativamente novo apresentando limitações, tànto com relação às referências teóricas quanto ao estágio de maturidade da metodologia proposta, na dependência evidente do número de estudos já realizados nesta abordagem. Destaca-se, porém, a sua ligação básica com a ergonomia que
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apresenta um referencial mais sedimentado cientificamente, apresentando um rápido desenvolvimento nas duas últimas décadas.
Wisner (1981, p. 86) evidencia que um estudo antropotecnológico incidirá mais sobre a organização do trabalho, o número e a formação dos operadores que sobre o dispositivo técnico. Justifica-se esta asserção com a evidência de que neste último campo, o do planejamento de condições físicas de trabalho, como analisado anteriormente, a colaboração da ergonomia encontra-se normatizada e bastante delimitada cientificamente. Tomam-se, portanto, bastante facilitados o acesso e a utilização destas normas pelos vários profissionais envolvidos em um projeto de transferência de tecnologia.
Ressalta-se, ainda, utilizando o argumento de Terssac et ali (1981, p. 119, 121) de que o domínio da ergonomia expande-se no espaço, à medida em que as conseqüências do trabalho não se reduzem somente às manifestações no âmbito da empresa, e no tempo, posto que os efeitos do trabalho não aparecem senão a médio e longo termo, a necessidade de aprofundamento das questões organizacionais que interferem no trabalho. Pois, como afirma Montmollin (1980, p. 165) "se a ergonomia quer envolver-se na concepção, e não somente na correção, ela deve penetrar nos domínios da organização".
Assim, no caso de transferência de tecnologia, Wisner (1994a, p. 130) acredita que "é indispensável o estudo da organização da empresa e do trabalho com o objetivo de levantar questões essenciais e inelutáveis e permitir a identificação de soluções para dificuldades de importância crucial".