CAMINHOS PARA UMA ESTÉTICA MARXISTA
3.2 A Particularidade Mediadora da Singularidade e da Universalidade
A elaboração de uma teoria estética a respeito da arte sempre esteve em atraso com relação à práxis artística (LUKÁCS, 1970). Este hiato entre práxis artística e elaboração teórica da estética está presente em Platão, manifestando-se na concepção idealista e na opinião de que a forma artística clássica deve ignorar a essência da realidade. Como compensação a este atraso da teoria estética, Lukács sinaliza, do ponto de vista metodológico, a concepção de arte como um reflexo da realidade objetiva. Encarar a arte como reflexo da realidade significa mantê-la em conexão com o terreno em que ela nasce e atua. Com efeito, o reflexo aqui tratado reproduz a realidade objetiva, ou é propriamente a base das formas de reflexo, a partir das questões da vida (LUKÁCS, 1966a; PAÇO-CUNHA, 2011). Ademais, acredito ser necessário negar a abstração idealista como forma validativa da arte com base na aparência de especificidade e de independência, como nos é compreensível a partir da concepção kantiana da arte embasada no pensamento, no dom, na espontaneidade, produzida na natureza do sujeito etc.
O que se observa na perspectiva kantiana é justamente a demarcação do terreno da arte e da ciência, do singular e do universal, polos diametralmente opostos. Seria descabido pensar a representação artística como o universalmente estabelecido no campo científico. Todavia, esta se distancia sobremaneira do reflexo das ideias, da restrita singularidade, como no neoplatonismo. Lukács (1970) aponta a contribuição de Aristóteles ao colocar no centro da estética o reflexo da realidade objetiva, além de ter diferenciado este reflexo da cópia puramente mecânica da realidade – que caracteriza os limites entre a reprodução estética da realidade a imitação naturalista da mera singularidade, cuja elaboração artística se daria em um nível elementar (LUKÁCS, 1966b). Entretanto, esta distinção feita por Aristóteles traz consigo o caráter da universalidade, fazendo desaparecer os limites entre generalização artística e generalização científica, de forma que a estética que daí decorre “não supera a interpretação desta universalidade e busca atingir uma concepção do que é especificamente artístico mantendo esta determinação” (LUKÁCS, 1970, p. 117).
66 As concepções estéticas esboçadas colocam no campo de batalha uma estética que escape aos extremos, do meramente individual ao abstratamente universal, e como já dito anteriormente, esta mediação se dá no particular determinado. Para Lukács, o domínio da particularidade na estética passa pelos avanços de Goethe acerca da teorização da arte frente à natureza. Goethe, ao superar as aproximações mistificadas da natureza e de suas leis no processo de criação do artista, retrata a conexão com uma única natureza, tanto sob o olhar da ciência quanto da arte.
O propósito, em ambos os casos, é captar a “verdade da natureza, a verdadeira essência dos seus fenômenos, expressando-se adequadamente o que assim se obtém”. Para Lukács, este “antropologismo” em Goethe, que sob o ponto de vista metodológico apresenta deficiência – numa clara referência ao uso do método histórico materialista e da dialética – traz ricas contribuições para sua teoria e práxis estéticas. Em Goethe, a obra de arte, a atividade estética e as categorias de ambas se mostram numa forte ligação natural, recebendo da natureza seu conteúdo, de modo que “as formas artísticas mantêm o seu caráter especificamente estético e não se tornam jamais formas de conhecimento ‘impróprias’, nem tampouco assumem uma falsa autonomia com relação ao conteúdo” (LUKÁCS, 1970, p. 132-133).
Este ponto de partida de Goethe na natureza é fundamental por indicar a necessidade de se chegar ao conhecimento do fenômeno originário. Para compreender as cores e suas conexões com as elaborações artísticas, é necessário que nos aproximemos dela enquanto fenômenos físicos, ressalta Goethe. O que é para os físicos o ponto de chegada, a descoberta, é para os filósofos o ponto de partida. De acordo com Lukács, como categoria filosófica, o fenômeno
originário se encaixa no domínio da particularidade, este ponto médio entre o universal e o
singular, exercendo função mediadora entre os dois extremos. Para Goethe, o particular e o universal coincidem, de forma que o aquele seja este em condições diversas.
Existe uma grande diferença no fato do poeta buscar o particular para o universal ou ver na particularidade o universal. No primeiro caso, nasce a alegoria, onde o particular só tem valor enquanto exemplo do universal; no segundo, está propriamente a natureza da poesia, isto é, no expressar de um particular sem pensar no universal ou sem se referir a ele. Quem concebe este particular de um modo vivo expressa ao mesmo tempo, ou logo em seguida, mesmo sem o perceber, o também universal (GOETHE12, apud LUKÁCS, p. 137-138)
67 A necessária circunscrição do universal no particular demarca a capacidade estética da arte expressar a natureza, ser reflexo desta. A expressão do particular já traz em si o universal pela ligação com as determinações da natureza. Aqui a possibilidade de um universal abstrato e a intensidade subjetiva da singularidade encontram mediação na particularidade. Para Goethe, na arte, na ciência ou na vida, o homem se engaja por inteiro através da práxis – o que Lukács caracteriza como materialismo espontâneo com forte inclinação para a dialética em Goethe – reunindo condições necessárias para a recepção e reprodução da realidade objetiva. Revela-se em Goethe o processo no qual o artista capta o centro estético da representação da obra projetada.
O particular agrupa em si os momentos necessários da singularidade e da universalidade contidos no tema que a obra de arte se refere. O objeto fecundo de Goethe é mais universal que a ocasião que provoca a produção, do que a experiência singular, não obstante ser este objeto a universalidade espiritual de Hegel – para o qual a arte é uma emanação da ideia absoluta (LEFEBVRE, 2001) – mas sim o particular que une os extremos. E deste particular, por consequência, é possível extrair todos os elementos singulares, assim como os elementos universais do conteúdo ideal (LUKÁCS, 1970).