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A PEDAGOGIA ESPÍRITA 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 61-63)

Muitos  professores  nos  perguntam  se  não  estamos  errados  ao  falar  de  Pedagogia Espírita. Por incrível que pareça, a palavra Pedagogia é ainda um bicho  de sete cabeças para a maioria dos professores saídos de nossas Escolas Normais e...  de nossas Faculdades. No III Congresso Educacional Espírita Paulista, realizado em  1970, uma professora apresentou como tese uma simples declaração de que tratar de  Pedagogia Espírita era absurdo, pois tal coisa não existe nem pode existir. Ela e seus  companheiros ficaram indignados quando a comissão competente se recusou a tomar  conhecimento dessa declaração. 

Já  estamos  no  sexto  número  da  revista EDUCAÇÃO  ESPÍRITA,  único  fruto 

concreto do referido congresso, e continuamos a receber advertências de que não se  pode nem se deve tratar de Pedagogia Espírita, pois isso não fica bem. Um amigo,  professor veterano, foi mais tolerante e nos explicou: “Você pode ter a sua opinião,  mas  só  para  você.  Não  a  exponha  porque  ela  contraria  o  pensamento  da maioria  e  deixa­nos todos em situação melindrosa”. Sua piedade cristã não lhe permitiu usar a  expressão desejada, que seria esta:em situação ridícula. 

Numa  tese  apresentada  ao  III  Congresso,  publicada  posteriormente  no  primeiro número da referida revista, tomamos conhecimento do problema e parece­  nos  que  foi  ali  colocado  de  maneira  bem  clara.  O  Prof.  Humberto  Mariotti,  da  Argentina,  e  o  Prof.  Deolindo  Amorim,  do  Rio,  escreveram  lúcidos  trabalhos  a  respeito. Mas como os professores espíritas, na sua maioria, não se deram conta da  existência desta revista, todos esses esclarecimentos não chegaram ao endereço. Mas  somos  obrigados  a  insistir  no  assunto,  pois  a  Educação  Espírita  e  a  Pedagogia  Espírita  são  exigências  inadiáveis  do  nosso  tempo  em  nossa  terra.  Quem não  sabe  que a Educação Espírita já é uma realidade concreta em São Paulo e no Brasil? 

Mas vamos começar pelo começo, ou seja, vamos recomeçar. Enfrentemos  primeiro  esse  monstro  de  sete  cabeças  que  é  a  palavra  Pedagogia.  Decifremos  a  esfinge  antes  que  ela  nos  devore.  Que  mistério  se  oculta  nessa  palavra  de  nove  letras,  de  origem  grega,  consignada  em  todos  os  dicionários,  diante  da  qual  tantos  professores  se  quedam  estáticos  e  assombrados,  como  Édipo  na  estrada  de  Tebas?  Que  enigma  nos  apresenta  essa  esfinge  moderna?  E  o  que  vamos  ver,  se  Deus  quiser! 

FALEM OS DICIONÁRIOS 

Ouçamos em primeiro lugar  o PEQUENO  DICIONÁRIO  DA  LÍNGUA  PORTUGUESA 

de Aurélio Buarque de Hollanda, vulgarizadíssimo em todo o Brasil. O que diz o seu  verbetePedagogia? Simplesmente isto:

PEDAGOGIA,  s.  f.  Teoria  da  Educação;  conjunto  de  doutrinas  e  princípios  que  visam  a  um  programa  de  ação;  estudo  dos  ideais  da  Educação,  segundo  uma  determinada  concepção  de  vida,  e  dos  meios  (processos e técnicas) mais eficientes para realizá­los. 

Esta  definição  de  um  dicionário  popular,  feito  para  o  grande  público,  é  suficiente para mostrar que não estamos errados. Até mesmo o problema da ligação  da  Pedagogia  com  uma  determinada  concepção  de  vida  está  ali  bem  colocado.  Quando  falamos  de  Educação  Espírita incidimos  nesse  assunto.  O  Espiritismo  nos  dá  uma  concepção  de  vida  diferente  da  concepção  católica  e  protestante  em  que  fomos  educados.  Para  orientar a  educação  das  crianças  e  dos  jovens  segundo  essa  concepção  nova,  precisamos  de  uma  nova  teoria  da  Educação.  Essa  teoria  nova,  exigida  pela nova  concepção  de  vida,  só  pode  ter  um  nome,  que  é  precisamente  e  inevitavelmente este: Pedagogia Espírita. 

E como sem teoria não há prática orientada, a prática da educação segundo  os ideais espíritas não poderá ser eficiente se não se apoiar numa teoria espírita da  Educação. 

Ouçamos  agora  um  mestre  francês,  O DICTIONARE  ENCYCLOPÉDIQUE  QUILLET: 

PÉDAGOGIE, n. f. Theorie, science de 1'education. 

Ouçamos  o  novíssimo  DICIONÁRIO  PRÁTICO  DA  LÍNGUA  NACIONAL,  de  J. 

Mesquita  de  Carvalho,  diretor­geral  do  Instituto  de  Educação  do  Estado  de  Minas  Gerais: 

PEDAGOGIA,  s.  f.  Teoria  da  Educação;  reunião  das  doutrinas  e  dos  princípios que visam a um programa de ação. 

Durkheim,  na  segunda  edição  do NOUVEAU  DICTIONNAIRE  DE  PÉDAGOGIE, 

formulou  a  definição  mais  completa  da  palavra,  que  dali  por  diante  foi  aceita  por  todos os grandes mestres e vigora no campo da especialidade. Ouçamo­la: 

La  Pédagogie  est  une  theorie  pratique,  c'est­à­dire  une  theorie  ayant  pour  objet  de  réflechir  sur  les  systèmes  et  sur  les  procédés  d'education en vue d'en apprécier la valeur et par là d'éclairer et de diriger  laction des educateurs. 

Para facilitar a compreensão dos leitores não habituados à leitura em francês, lá  vai a definição de Durkheim em nossa língua: 

A  Pedagogia  é  uma  teoria  prática,  ou  seja,  uma teoria  que  tem  por objeto refletir sobre os sistemas e os processos da educação, visando a  apreciar  a  sua  validade  e  por  esse  meio  esclarecer  e  dirigir  a  ação  dos  educadores. 

Não  se  pode,  pois,  confundir  Pedagogia  com  sistema  de  ensino,  com  método  ou técnica pedagógica, e nem mesmo com Educação. Como assinala René  Hubert  em  seu  Tratado  de  Pedagogia  Geral,  a  Educação  precede  à  Pedagogia.  Primeiro  temos  o  fato  educacional,  depois  o  fato  pedagógico.  Assim,  fácil  é  compreender que a Educação é o objeto da Pedagogia. 

A  EDUCAÇÃO,  que  é,  pelo  menos,  a  transmissão  às  gerações  daquilo que consideramos válido nas aquisições da espécie e pode mesmo  pretender  preparar  os  seus  futuros  progressos,  é  obra  humana  primordial  que  requer  suprema  largueza  de  vistas.  Uma  Pedagogia  é  sempre  o  acabamento  de  uma  Filosofia.  Qualquer  Filosofia  tende  sempre  a  se  completar numa Pedagogia. Por mais modesto que lhe possa parecer o seu  papel,  o  professor  primário  deve,  pelo  menos  de  vez  em  quando,  pensar  nisso. 

Esta  última  frase  dos  autores  parece  aplicar­se  especialmente  aos  professores — muitos deles do ciclo primário — que no III Congresso mostraram o  mais  completo  desconhecimento  do  que  seja  Pedagogia.  A  compreensão  da  Pedagogia lhes mostraria, por outro lado, que o seu papel na Educação não é apenas  profissional,  pois  o  professor  primário,  mais  do  que  um  funcionário  que  trabalha  para receber  vencimentos,  é  o  mestre  que  assenta  os  alicerces  da  cultura.  Por  isso  devia,  pelo  menos  de  vez  em  quando,  como  advertem  Leif  e  Rustin,  consultar  os  esquecidos  manuais  de  Pedagogia  e reinformar­se  de  sua  posição  e  de  suas  tarefas  básicas. 

No documento Portal Luz Espírita (páginas 61-63)