Muitos professores nos perguntam se não estamos errados ao falar de Pedagogia Espírita. Por incrível que pareça, a palavra Pedagogia é ainda um bicho de sete cabeças para a maioria dos professores saídos de nossas Escolas Normais e... de nossas Faculdades. No III Congresso Educacional Espírita Paulista, realizado em 1970, uma professora apresentou como tese uma simples declaração de que tratar de Pedagogia Espírita era absurdo, pois tal coisa não existe nem pode existir. Ela e seus companheiros ficaram indignados quando a comissão competente se recusou a tomar conhecimento dessa declaração.
Já estamos no sexto número da revista EDUCAÇÃO ESPÍRITA, único fruto
concreto do referido congresso, e continuamos a receber advertências de que não se pode nem se deve tratar de Pedagogia Espírita, pois isso não fica bem. Um amigo, professor veterano, foi mais tolerante e nos explicou: “Você pode ter a sua opinião, mas só para você. Não a exponha porque ela contraria o pensamento da maioria e deixanos todos em situação melindrosa”. Sua piedade cristã não lhe permitiu usar a expressão desejada, que seria esta:em situação ridícula.
Numa tese apresentada ao III Congresso, publicada posteriormente no primeiro número da referida revista, tomamos conhecimento do problema e parece nos que foi ali colocado de maneira bem clara. O Prof. Humberto Mariotti, da Argentina, e o Prof. Deolindo Amorim, do Rio, escreveram lúcidos trabalhos a respeito. Mas como os professores espíritas, na sua maioria, não se deram conta da existência desta revista, todos esses esclarecimentos não chegaram ao endereço. Mas somos obrigados a insistir no assunto, pois a Educação Espírita e a Pedagogia Espírita são exigências inadiáveis do nosso tempo em nossa terra. Quem não sabe que a Educação Espírita já é uma realidade concreta em São Paulo e no Brasil?
Mas vamos começar pelo começo, ou seja, vamos recomeçar. Enfrentemos primeiro esse monstro de sete cabeças que é a palavra Pedagogia. Decifremos a esfinge antes que ela nos devore. Que mistério se oculta nessa palavra de nove letras, de origem grega, consignada em todos os dicionários, diante da qual tantos professores se quedam estáticos e assombrados, como Édipo na estrada de Tebas? Que enigma nos apresenta essa esfinge moderna? E o que vamos ver, se Deus quiser!
FALEM OS DICIONÁRIOS
Ouçamos em primeiro lugar o PEQUENO DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA
de Aurélio Buarque de Hollanda, vulgarizadíssimo em todo o Brasil. O que diz o seu verbetePedagogia? Simplesmente isto:
PEDAGOGIA, s. f. Teoria da Educação; conjunto de doutrinas e princípios que visam a um programa de ação; estudo dos ideais da Educação, segundo uma determinada concepção de vida, e dos meios (processos e técnicas) mais eficientes para realizálos.
Esta definição de um dicionário popular, feito para o grande público, é suficiente para mostrar que não estamos errados. Até mesmo o problema da ligação da Pedagogia com uma determinada concepção de vida está ali bem colocado. Quando falamos de Educação Espírita incidimos nesse assunto. O Espiritismo nos dá uma concepção de vida diferente da concepção católica e protestante em que fomos educados. Para orientar a educação das crianças e dos jovens segundo essa concepção nova, precisamos de uma nova teoria da Educação. Essa teoria nova, exigida pela nova concepção de vida, só pode ter um nome, que é precisamente e inevitavelmente este: Pedagogia Espírita.
E como sem teoria não há prática orientada, a prática da educação segundo os ideais espíritas não poderá ser eficiente se não se apoiar numa teoria espírita da Educação.
Ouçamos agora um mestre francês, O DICTIONARE ENCYCLOPÉDIQUE QUILLET:
PÉDAGOGIE, n. f. Theorie, science de 1'education.
Ouçamos o novíssimo DICIONÁRIO PRÁTICO DA LÍNGUA NACIONAL, de J.
Mesquita de Carvalho, diretorgeral do Instituto de Educação do Estado de Minas Gerais:
PEDAGOGIA, s. f. Teoria da Educação; reunião das doutrinas e dos princípios que visam a um programa de ação.
Durkheim, na segunda edição do NOUVEAU DICTIONNAIRE DE PÉDAGOGIE,
formulou a definição mais completa da palavra, que dali por diante foi aceita por todos os grandes mestres e vigora no campo da especialidade. Ouçamola:
La Pédagogie est une theorie pratique, c'estàdire une theorie ayant pour objet de réflechir sur les systèmes et sur les procédés d'education en vue d'en apprécier la valeur et par là d'éclairer et de diriger laction des educateurs.
Para facilitar a compreensão dos leitores não habituados à leitura em francês, lá vai a definição de Durkheim em nossa língua:
A Pedagogia é uma teoria prática, ou seja, uma teoria que tem por objeto refletir sobre os sistemas e os processos da educação, visando a apreciar a sua validade e por esse meio esclarecer e dirigir a ação dos educadores.
Não se pode, pois, confundir Pedagogia com sistema de ensino, com método ou técnica pedagógica, e nem mesmo com Educação. Como assinala René Hubert em seu Tratado de Pedagogia Geral, a Educação precede à Pedagogia. Primeiro temos o fato educacional, depois o fato pedagógico. Assim, fácil é compreender que a Educação é o objeto da Pedagogia.
A EDUCAÇÃO, que é, pelo menos, a transmissão às gerações daquilo que consideramos válido nas aquisições da espécie e pode mesmo pretender preparar os seus futuros progressos, é obra humana primordial que requer suprema largueza de vistas. Uma Pedagogia é sempre o acabamento de uma Filosofia. Qualquer Filosofia tende sempre a se completar numa Pedagogia. Por mais modesto que lhe possa parecer o seu papel, o professor primário deve, pelo menos de vez em quando, pensar nisso.
Esta última frase dos autores parece aplicarse especialmente aos professores — muitos deles do ciclo primário — que no III Congresso mostraram o mais completo desconhecimento do que seja Pedagogia. A compreensão da Pedagogia lhes mostraria, por outro lado, que o seu papel na Educação não é apenas profissional, pois o professor primário, mais do que um funcionário que trabalha para receber vencimentos, é o mestre que assenta os alicerces da cultura. Por isso devia, pelo menos de vez em quando, como advertem Leif e Rustin, consultar os esquecidos manuais de Pedagogia e reinformarse de sua posição e de suas tarefas básicas.