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CAPÍTULO 3: DA VINCULAÇÃO COM A EX-METRÓPOLE À APROXIMAÇÃO

3.3 A GEOPOLÍTICA ENQUANTO INSTRUMENTO DE AÇÃO SOBRE A UCRÂNIA

3.3.2 A península da Crimeia e a base de Sevastopol

Ainda no que tange à relevância geopolítica da Ucrânia para os interesses russos, não se pode deixar de citar o caso emblemático da Crimeia. Apesar de essa região ter sido anexada à Rússia em Março de 2014, é necessário identificar as raízes do conflito e o motivo pelo qual o pedido de unificação com a Rússia, feito pelos habitantes da península, foi prontamente atendido por Vladimir Putin. A Crimeia é uma península localizada na costa norte do Mar Negro, ao sul da Ucrânia. A região é de grande importância estratégica e política para os dois países eslavos, motivo pelo qual se tornou palco de intensos conflitos durante as duas décadas que se seguiram à desintegração da URSS.

Como já foi tratado na breve recapitulação histórica do segundo capítulo, a Crimeia não pertencia à Ucrânia até o ano de 1954, quando Nikita Kruschev cedeu o controle para a Ucrânia para marcar os trezentos anos da reunificação dos dois países. Naquele momento, era impossível imaginar que, 37 anos depois, a União Soviética se desmembraria e a Ucrânia se tornaria um Estado independente. Assim, logo após a proclamação da independência da república ucraniana, o presidente russo Boris Yeltsin prontamente se manifesta contra a transferência automática da Crimeia para Kiev, alegando ilegitimidade na cessão.

Em Janeiro de 1992, o parlamento russo inicia um estudo a respeito da legitimidade da transferência. Juristas e historiadores passaram, então, a vasculhar as bases legais que fundamentaram a decisão do poder soviético na época e constataram que o acordo obrigatório para a transferência estava previsto no Artigo 16 da Constituição da Rússia Soviética de 1937 e no Artigo 18 da Constituição da URSS de 1936. O consentimento, de fato, foi elaborado por parte de ambas as repúblicas como uma decisão de seus governos. No entanto, o Artigo 33 da Constituição da Rússia não previa o poder de alterar as fronteiras físicas da Federação Russa, mas dava-lhe autoridade para organizar um referendo sobre a questão – o que, na época, não aconteceu na Crimeia e nem na

Rússia (BEBLER, 2015, p. 38; KOROLKOV, 2014, p. 32-33).

Bebler (2015) destaca como o procedimento de transferência não se coadunou com as leis soviéticas da época:

In the case of Crimea no such parliamentary procedure was initiated and duly carried out in the two parliaments, no relevant parliamentary sessions were held, no debates took place, no votes were taken and no agreement was adopted and signed. Moreover, the Crimean population was deprived of its right to give or deny its consent to the major status change. The transfer of Crimea to Ukraine was thus illegal even in Soviet terms, unconstitutional and clearly illegitimate (BEBLER, 2015, p. 38).

Durante toda a década de 1990, intensos debates se sucederam a respeito da legitimidade ucraniana sobre a península. Movimentos nacionalistas da região, demandando independência plena ou reintegração à Rússia, ganharam força e se constituíram a principal arma de Moscou em suas reivindicações. Com uma presença de 60% de russos vivendo na região, a Crimeia sempre se enxergou como parte da Federação Russa. É necessário salientar que a importância da península para a Rússia vai além da questão étnica, pois, após dois séculos de dominância sobre a região – lembrar que a Crimeia foi incorporada ao Império Russo por Catarina II, em 1783 – não se pode afastar a sua importância histórica, militar e econômica para a Rússia.

De acordo com o censo ucraniano de 2001, a população majoritária da Crimeia é de russos, que equivalem a 58,3% do total. Em segundo lugar estão os ucranianos, que representam 24,3% dos mais de 2 milhões de habitantes da região, seguidos por 8% de tártaros. Essa discrepância nos números consegue demonstrar uns dos motivos para a relevância da Crimeia para a Rússia.

Ilustração 9: Divisão étnica da população da Crimeia de acordo com o Censo de 2001

Fonte: (UKRAINE'S SHARP..., 2014)

A justificativa inicial de Moscou para intervir no território da Crimeia durante a crise ucraniana de 2014 era a preocupação quanto à população étnica russa que mora ali, que estaria

vulnerável às decisões de políticos contrários à Rússia em Kiev. Para compreender a importância desse critério étnico, é necessário analisar o documento Concepção de Política Externa de 2013, no qual Vladimir Putin atesta que um dos objetivos principais da política externa conduzida pela Rússia é o de “assegurar uma proteção abrangente dos direitos e interesses legítimos dos cidadãos russos e compatriotas residindo no exterior” (RÚSSIA, 2013).

Esse princípio é o grande impulsionador de uma política externa ativa que busca defender os nacionais russos que estão espalhados pelos países do CRS Pós-Soviético. Como já foi visto anteriormente, a nacionalidade russa se baseia no “jus sanguinis”, logo, os Russkii (russo étnico, filho de pai de mãe russos, nascidos em qualquer parte do mundo) são tratados como nacionais da Rússia independente de onde estiverem.

No tocante à importância militar da península, a Rússia detém uma ampla estrutura na Crimeia, especialmente na cidade de Sevastopol, onde fica estacionada a sua principal base, conhecida como a Frota do Mar Negro (Black Sea Fleet).

De acordo com Davydov (2014), a localização dessa base é de extrema importância para Moscou, uma vez que é lá onde se posiciona o único porto que tem saída para os mares quentes. O país está cercado em grande parte pelo mar: no norte fica o Ártico, onde a frota tem grandes desafios no inverno devido à grande presença de gelo na região; além disso, há desafios no Mar Báltico, uma vez que as distâncias até o Atlântico são longas. Para se chegar à região do Mediterrâneo, só é possível a partir do Mar Negro. Isso significa que essa zona possui relevância tanto em nível comercial quanto no plano militar para os russos, por facilitar a movimentação de cargas e por garantir o controle do canal que liga esse mar ao Mar de Arzov e o acesso privilegiado ao Mar Mediterrâneo e ao Oriente Médio. Em termos militares e estratégicos, a base russa também tem um papel importante em proteger o sul da Rússia das investidas da Turquia e da OTAN.

Sevastopol foi idealizada para ser a principal base naval russa desde o seu estabelecimento, ainda no século XVIII. A região, durante dois séculos, passou por constante modernização para alcançar a estrutura militar que hoje dispõe. Por esse motivo, se levaria muito tempo e os investimentos seriam muito altos para reconstruir as mesmas instalações na costa russa do Mar Negro. A frota russa estacionada nessa região está equipada com carregadores de aviões com capacidade até para lançamento de bombas nucleares (DAVYDOV, 2014, p. 40).

Com a desintegração da URSS, em 1991, intensos debates ocorreram entre russos e ucranianos a respeito da propriedade da Frota do Mar Negro. Já no ano seguinte, em 1992, o presidente Kravchuk se declarou o comandante de todas as forças localizadas no território ucraniano, inclusive aquelas estacionadas em Sevastopol. O gesto do presidente ucraniano foi prontamente repelido por seu homólogo russo, Boris Yeltsin, que também reivindicava a posse da

frota. As tensões se acirraram nos meses que se seguiram, levando à decisão de Kravchuk de dividir a frota igualmente entre os dois países. Como desejavam manter toda a base sob sua posse, os russos propuseram que fosse feito um arrendamento da Frota do Mar Negro para que conseguissem utilizar toda sua infraestrutura. O acordo só foi alcançado em 1997, quando os dois governos concordaram em dividir as propriedades navais da frota e foi acertado um contrato de arrendamento por 20 anos para os russos usarem o porto de Sevastopol. Sob o governo de Yushchenko, esse contrato foi praticamente rescindido. Quando chegou ao poder, em 2010, Yanukovitch não somente o reativou, mas também o prorrogou por mais 20 anos – o contrato só expiraria em 2042.

Com a anexação russa da Crimeia, em 2014, o presidente Vladimir Putin revogou todos os acordos com a Ucrânia: o de 1997, que estabelecia o arrendamento do porto e a divisão da frota, e o de 2010, que firmava o prolongamento da estadia da frota russa a partir de 2017 – quando o acordo anterior terminaria – até 2042.

Além da importância militar, é necessário ressaltar a relevância econômica da península para os russos. De acordo com Davydov (2014), os portos da Crimeia são importantes para assegurar o fluxo ininterrupto de commodities na região do Mar Negro – por onde passam 25% das exportações russas – além de ter um grande potencial turístico. Após a anexação da região, inúmeros investidores russos demonstraram seu interesse em investir na infraestrutura turística crimeriana, com o objetivo de fazer dessa área um grande destino para viajantes do país, de forma similar à que existia durante a época soviética.

Além disso, há inúmeros depósitos de petróleo e gás natural inexplorados no Mar Negro. Alguns estudos concluem que essa área tem um potencial similar ao do Mar do Norte. Dada a importância estimada da região, o ex-presidente Yanukovitch fazia referências ao Mar Negro como a principal chance de a Ucrânia afastar-se da dependência energética da Rússia. Por esse motivo, um acordo foi assinado com a ExxonMobil, em 2012, para iniciar a exploração da área. Em 2013, outro acordo foi anunciado por Kiev entre a companhia ucraniana Nadra Ukrayny e um consórcio internacional composto pela Shell e a Petrom61 para exploração do setor Skifska do Mar Negro. A estimativa é de que sejam produzidos cerca de 8-10 bcm62 por ano, o que equivale a cerca de 20% do atual consumo de gás na Ucrânia (GHINEA, 2014, p. 01).

Até o momento, quem tem os direitos de exploração dos recursos naturais da área é a empresa ucraniana Chernomorneftegaz que, em 2013, produziu 1,6 bcm de gás. Também pertence a essa empresa o depósito subterrâneo de Glebovskoie, com capacidade de armazenar 1 bilhão de metros

61 A Petrom é uma companhia de petróleo romena, pertencente à OMV austríaca.

62 Billion cubic metre (bcm) é uma medida que se refere à produção e comercialização de gás natural. De acordo com

cúbicos de gás. A principal base para crescimento da produção na península localiza-se na plataforma continental noroeste da Crimeia, especificamente os depósitos de Odessa e Bezimiannoie, que tem capacidade de aumentar a produção para até 2,4 bilhões de metros cúbicos. No entanto, após a anexação pela Rússia, uma disputa se iniciou entre a Crimeia e a Ucrânia pela propriedade dos depósitos de gás, uma vez que as autoridades da Crimeia querem nacionalizar totalmente os bens da Chernomorneftegaz e depois vendê-la para uma empresa estatal russa, como a Gazprom. Como os principais depósitos de gás estão localizados mais perto da costa da Ucrânia do que da Crimeia, Kiev reivindica-os com base na Convenção da ONU sobre Direito Marítimo (BARSUKOV; POPOV, 2014).

Tanto a Crimeia quanto a Frota do Mar Negro são de grande relevância histórica e simbólica para os russos. Catarina II estabeleceu a frota na região em 1771, antes mesmo de adquirir o controle total da Crimeia das mãos dos otomanos, que só ocorreu em 1783. Segundo Davydov (2014), durante séculos, produziram-se músicas, poemas, livros e memoriais a respeito de Sevastopol, como “a cidade da glória russa”, forma como é comumente chamada na Rússia.

Vladimir Putin, ao discursar a respeito do reconhecimento da Crimeia, em Março de 2014, revelou a dimensão da relevância histórica que a Crimeia tem para os russos:

Everything in Crimea speaks of our shared history and pride. This is the location of ancient Khersones, where Prince Vladimir was baptised. His spiritual feat of adopting Orthodoxy predetermined the overall basis of the culture, civilisation and human values that unite the peoples of Russia, Ukraine and Belarus. The graves of Russian soldiers whose bravery brought Crimea into the Russian empire are also in Crimea. This is also Sevastopol – a legendary city with an outstanding history, a fortress that serves as the birthplace of Russia’s Black Sea Fleet. Crimea is Balaklava and Kerch, Malakhov Kurgan and Sapun Ridge. Each one of these places is dear to our hearts, symbolising Russian military glory and outstanding valour (KREMLIN, 2014).

E complementa:

In people’s hearts and minds, Crimea has always been an inseparable part of Russia. This firm conviction is based on truth and justice and was passed from generation to generation, over time, under any circumstances, despite all the dramatic changes our country went through during the entire 20th century (KREMLIN, 2014).

É necessário ressaltar que o pronunciamento de Putin apenas expõe as convicções que habitam o imaginário russo há décadas. Prova disso é a pesquisa conduzida na Rússia pelo Levada Center logo após a anexação da Crimeia. De acordo com a análise, 73% dos entrevistados apoiavam a reintegração da península à Federação Russa, enquanto apenas 4% desejavam que a Crimeia

voltasse a fazer parte da Ucrânia. A pesquisa também revelou que 15% dos 1.500 entrevistados em Agosto de 2014 concordavam com uma eventual independência da Crimeia63.