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2. A COR NA PERSPECTIVA DA FÍSICA

2.8. A percepção da cor

Como vimos, Goethe contestou a teoria newtoniana das cores devido à subjetividade da percepção das cores. Podemos entender a cor como resultado de um estímulo visual produzido por uma energia radiante, a luz, sobre a retina e da percepção desse estímulo (Jones 1953, pp. 221-2). Sensação e percepção não são sinônimos mas eventos interdependentes. A sensação é gerada pelo estímulo a um órgão sensorial. Como interpretamos esse sinal, depende da nossa percepção.

Sensações constituem a matéria prima da experiência humana e percepções são os produtos manufaturados pela cultura humana (Gibson 1950, p. 12). A cor de um objeto depende da energia radiante emitida por ele, da captação desse sinal pelo sensor, o olho, e da decodificação e interpretação desse sinal pelo cérebro. A percepção da cor de um objeto depende:

(i) da absorção seletiva – os pigmentos presentes no objeto determinam a absorbância de uma gama de frequências da radiação incidente. A parte da radiação não absorvida é reemitida por reflexão ou transmissão para o olho gerando um estímulo visual.

(ii) da distribuição espectral da energia radiante incidente – o tipo de luz incidente na superfície do objeto.

(iii) das funções psicofísicas da visão humana.

De acordo com o aspecto da realidade que se deseja descrever, a cor pode se referir a uma propriedade de um objeto característica do material - por exemplo, a cor preta com propriedades ideais possui teria 0% de transparência, 0% de reflectância e 100 % de absorbância; uma característica dos raios de luz ou da radiação eletromagnética, como a frequência ou o comprimento de onda; ou uma classe de sensações luminosas, como interpretação do cérebro - a percepção visual

15 O que popularmente é denominado de ―disco de Newton‖ originalmente era um diagrama de mistura de cores. Ptolomeu no século II d.C, havia descrito a mistura das cores por variação temporal (Gage 2012, p. 20).

resultado do sistema olho-cérebro (Nassau 2012). Em função disso, a cor percebida por um indivíduo depende de três atributos:

 Matiz – comprimento de onda ou frequência dominante. O que chamamos de

―verde‖, ―vermelho‖, por exemplo.

 Saturação – relativo à intensidade ou pureza da cor. A cor pura observada no espectro da luz tem saturação máxima. Tons mais claros, mais próximos do branco ou cinza são menos saturados.

 Brilho16 – refere-se à percepção da intensidade de luz. Os vários tons de cinza podem ser descritos somente pelo brilho  do preto, ausência total de luz, ao branco brilhante. Como não há matiz, a cor cinza é acromática.

(Willianson e Cummings1983, p. 17) Na foto da figura 25, as flores são da mesma espécie são vistas em tonalidades diferentes. Todas possuem o mesmo matiz, pois todas absorvem a mesma faixa de frequência da luz solar; as mais claras possuem maior brilho porque a intensidade de luz refletida é maior.

A aptidão do cérebro humano para categorizar sensações e para receber bilhões de estímulos caóticos, diferentes de pessoa para pessoa, garante a criação de um mundo perceptual e semântico próprio de cada indivíduo, de onde emergem o pensamento e a linguagem (Meyer 2002, p.17).

Diferentes línguas possuem diferentes nomes para distinguir cores. Brent Berlin e Paul Kay (1969) conduziram uma pesquisa em linguística e antropologia sobre a influência cultural na nomenclatura de cores. Concluíram que povos iletrados e mais primitivos possuem menos termos básicos de cores, no mínimo têm duas

16 Este terceiro atributo da cor é denominado por valor ou luminância conforme o autor. Joseph Aubers, no livro A Interação das Cores, elucida essa polêmica. Valor representa uma medida precisa da luminosidade da cor no Sistema de Munsell. Nos outros sistemas, não tem um significado preciso.

(...) ―O uso descuidado de ‗valor‘, em particular no que diz respeito à luminosidade (...) tornou essa palavra inútil enquanto recurso de medição. Em seu lugar, portanto, usamos ‗intensidade de luz‘ como um termo auto-explicativo (Albers 2009, p. 99).

Figura 25 – As flores da região mais iluminada parecem mais claras.

Crédito da imagem: D. Kohatsu

categorias para distinguir claro e escuro. Todas as línguas contêm termos para branco e preto. A terceira cor que surge é vermelho, seguida de amarelou ou verde, e azul. Nas sociedades modernas industriais, há 11 termos - branco, preto, cinza, vermelho, amarelo, verde, azul, marrom, violeta, rosa, laranja. Nas línguas eslavas, há 12 termos para cores, distingue-se azul claro e azul escuro (Hardyn 2013). Na tabela a seguir, vemos a nomenclatura das cores encontradas nas línguas estudadas por Berlin e Kay.

Tabela 1 – Termos para cores encontrados em pesquisa linguística por Berlin e Kay (1969, p.2- 3)

Número

de termos Nomenclatura das cores 2 Branco e preto

3 Branco, preto e vermelho

4 Branco, preto, vermelho, amarelo ou verde 5 Branco, preto, vermelho, amarelo e verde 6 Branco, preto, vermelho, amarelo, verde e azul 7 Branco, preto, vermelho, amarelo, verde, azul e

marrom 8 ou mais

Branco, preto, vermelho, amarelo, verde, azul, marrom e violeta, rosa, laranja, cinza ou combinações dessas cores.

A ausência de nomes para categorias de cores, bem como a presença de subcategorias para outras cores decorre da influência cultural. O interesse que as pessoas apresentam por certas cores e a falta de interesse em relação a outras, diferenças observadas na importância prática que as diferentes cores possuem em diferentes culturas. Por exemplo, populações próximas ao Ártico contêm muitos termos para nuanças de branco, expressões para se referirem a diferentes tipo de neve, um fato de importância prática. Já nuanças de vermelho e verde não possuem nenhuma importância. (LURIA, 1975/2017, p. 47).

A visão genotípica é um fenômeno comum da espécie resultado do desenvolvimento ontogenético, garantido pela natureza física do estímulo da energia radiante e por uma especialização do cérebro. A visão fenotípica é uma percepção individual, que varia em razão das influências do meio e da aprendizagem (Meyer 2002, p.71). A percepção da cor é um processo complexo que depende de fatores físico-químicos, biológicos e do desenvolvimento histórico cultural do indivíduo.