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A percepção dos(as) consumidores(as) sobre os impactos do

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5. AS EMBALAGENS E A CONSCIÊNCIA CRÍTICO-ECOLÓGICA DOS

5.2 Consumidores(as) e a consciência crítico-ecológica

5.2.4 A percepção dos(as) consumidores(as) sobre os impactos do

Antes de tudo, devemos ressaltar que o consumo é inerente à raça humana (e porque não a todos os seres vivos). Mas não é sobre o consumo de nossas necessidades básicas que estamos falando. É certo que há uma discussão sobre o que seriam essas necessidades básicas, mas focamos nossa pesquisa no consumo supérfluo, que chamamos de consumismo, como define Giacomini Filho (2008 p.29) é “o consumo extravagante ou espúrio de bens e serviços”.

Há um consenso entre todos os(as) entrevistados(as) que a forma e a intensidade com que consumimos é desastrosa para o meio ambiente:

Na verdade o Homem em si, ele é o maior predador que existe! A gente consome o que a gente não precisa né! Então se você consome muito, se fabrica muito. Então é um grau de supérfluo muito alto. [...] Porque você consome muito, você acaba descartando, são produtos hoje, plásticos, vidros, são coisas que não degradam com facilidade. Apesar de estar mudando a consciência hoje. Tá tanta coisa sendo diferente, tá sendo feito tanta coisa, mas o dano de dez, vinte anos atrás não se desfez! Aquele monte de lixão que tem por aí de plásticos, de computadores, de coisas descartadas não vai ser “da noite para o dia” e não vai ser reutilizado porque a gente sabe que ninguém vai catar lá de um lixão para reaproveitar. (Germana)

A entrevistada Germana diz que “a gente consome o que a gente não precisa”. E muito desta face do consumismo é explicada pela praticidade e pelo conforto que estes bens e serviços proporcionam. A vida moderna exige muitas horas de dedicação ao trabalho (para que se possa ganhar mais e com isso, gastar mais), e o tempo que temos “livre” precisa ser otimizado de tal forma que os descartáveis e os ready-to-use (prontos para uso) tenham uma grande procura. Por exemplo, a discussão sobre o uso das “sacolinhas plásticas” é emblemática, pois os consumidores que tentam fazer algo pelo meio ambiente defendem a sua redução ou extinção, muito influenciados pela mídia e pelos próprios supermercados: Vemos esta preocupação neste depoimento:

[...] porque quando eu lhe digo assim ''eu vou ao supermercado, eu evito as sacolinhas plásticas'', mas em compensação o plástico facilita muito a nossa vida. Enquanto eu tento descartar isso, ao mesmo tempo, eu não consigo me desfazer dele em outras áreas, a sacolinha do supermercado eu consigo

diminuir. [...] Tudo é mais prático. Você bota no congelador um alimento qualquer numa caixinha plástica, daqui a pouco a caixinha tá ressecada e vai pro lixo. Plástico é maravilhoso, você termina e vai pro lixo. Aí lá vai. Eu sei que eu sou contraditória. [...] [mas] a vida se torna mais prática, infelizmente. (Bernadete)

Especificamente sobre as sacolinhas plásticas, o custo delas é imbutido nos custos de funcionamento do supermercado. Ou seja, indiretamente os(as) consumidores(as) pagam por elas. Mas os supermercadistas pregam que os seus(suas) clientes devem usar as sacolas retornáveis (que eles mesmos disponibilizam para a venda) pelo bem do meio ambiente. Ora, então os consumidores devem parar de utilizar os copos plásticos, as fraldas descartáveis, o papel higiênico, o guardanapo de papel, etc. tudo que é descartável. É contraditório, como disse a entrevistada Bernadete. Para o supermercado é muito conveniente, pois se ele não for obrigado a fornecer sacola plástica, o preço de suas mercadorias não vai baixar por causa disso.

O consumismo é estimulado pela vida moderna, pela publicidade mas também pelos valores que a sociedade dá a quem consome. Podemos detectar este aspecto no depoimento a seguir:

Porque hoje a gente é estimulado a consumir mais em tudo. As próprias coisas são produzidas para durarem pouco e aí você compra sempre uma coisa nova, um modelo novo, uma peça de coleção nova. Então você vê uma loja de roupa, uma loja de sapato, ela mensalmente tá lançando novidade, você tem uma coleção que dura 3 meses, 4 meses, mas mensalmente ela tá lançando novidade. Porque se ela não lança ela fica pra trás das outras que não lançam, mas pra produzir aquilo não teve um esforço? Não gastou-se dinheiro? Não fez um dano ao meio ambiente de uma forma ou de outra? E aí se você não compra aquela roupa nova, você é estimulado a comprar, porque você fica ''poxa, vou sair não tenho uma roupa'', as pessoas cobram ''poxa, aquela pessoa faz dois anos que ela vai com aquele mesmo tênis'', ou seja, a sociedade cobra isso, eu tô falando não é porque sou consumista não, meu tênis eu tenho a mais de 10 anos, mas há uma pressão muito grande da sociedade. (Talita)

Como vimos, Mary Douglas, no seu livro com Baron Isherwood, O Mundo dos Bens (1979) já nos alertava para os significados que a posse e uso dos bens de consumo tem para a sociedade. Mas muito antes disso, em 1924, Thorstein Veblen já dizia que “Por ser o consumo dos bens de maior excelência prova da riqueza, ele se torna honorífico, reciprocamente, a incapacidade de consumir na devida

quantidade e qualidade se torna uma marca de inferioridade e demérito”. (apud GIACOMINI FILHO, 2008 p.31). Este lado do consumismo nos leva a uma outra questão que também tem gerado muita discussão. Vejamos este discurso:

No meu ver em relação ao consumo hoje, é que a gente vive uma época de um consumo desenfreado. E provocado, na minha opinião, por dois fatores: Primeiro pela propaganda maciça em cima do consumo e segundo pelo credito. A propaganda pega e diz “Você não precisa ter o dinheiro você só precisa ter o credito” [...] Mesmo se você não tiver dinheiro você pode consumir. O consumo está à disposição, assim como o ar está à disposição, o consumo hoje em dia, principalmente no Brasil nos últimos anos tem estado à disposição de uma camada, da maioria das pessoas da maioria da população. Há dez, vinte anos atrás o consumo era só de determinada camada da sociedade. Hoje, esse consumo se estendeu, inclusive há produtos que só surgiram no mercado depois que determinadas classes sociais foram favorecidas com essa expansão do consumo. [...] quanto mais coisas, quanto mais produtos estão sendo fabricados, às vezes produtos até que não tem... Podem não ter quase nenhuma serventia para o desenvolvimento do país, para o desenvolvimento da sociedade (Manuel) O discurso do Manuel tem um cunho social forte, pois o crédito é oferecido para todas as classes sociais, e não só para a classe baixa. Mesmo se antes esta classe baixa não tinha o acesso ao consumo de determinados bens e serviços, não teria ela o direito de também consumir a “praticidade e o conforto”? Fátima Portilho (2010) diz que esse debate trás a questão da busca da igualdade social. Se há a possibilidade ou a crítica ao consumismo, esta crítica deve ser para todos. Segundo a mesma autora, “Como aceitar ter minha lavoura e minha cidadezinha submersas para prover de energia elétrica os anúncios de néon das megalópoles?”.

O governo, como representante do Estado, também foi citado nas entrevistas. Papel do Estado, como regulador e mediador dos interesses públicos, é visto como obediente aos interesses do capital, em detrimento das questões sociais e ambientais:

[...] eu acho que o culpado, como eu te falei “é o Homem”. Então o principal culpado eu acho, lógico, o homem por não ter essa consciência das pequenas coisas e o governo por, assim não falando em embalagem, mas falando em meio ambiente, por vender o nosso meio ambiente, né... por tão pouco, sem o cuidado de preservar, o caso que acontece com a Amazônia e todas essas áreas que existem... [...] Essas áreas que elas deveriam ser preservadas e você... arrancar e replantar, enfim. [...] essas áreas, elas são vendidas por pouco, muito pouco, e não são preservadas, principalmente para países de fora, pessoas... países que tão interessados somente, não

fazer um... Fazer basicamente um extrativismo, ele vai tirar e não vai repor! (Carolina)

Atualmente, a atenção da mídia e da própria sociedade sobre o desmatamento é maior que 20 ou 30 anos atrás. Mas ainda existe com frequência o que a entrevistada Carolina denuncia, sobre a venda de terras para empresas ou mesmo pessoas de outros países. Não apenas no Brasil, mas nos países em desenvolvimento. Áreas que antes eram de matas nativas hoje são florestas certificadas de eucalipto, que se transformam em selos ambientais de origem de procedência.

Então os(as) consumidores(as) estão mais conscientes, estão mais exigentes, alertas e críticos. A educação crítica vem se desenvolvendo, influenciando na consciência ecológica. Vejamos o depoimento da Ana:

E assim, caminhos, iniciativas de sustentabilidade existem, mas ele requer uma quebra de hábito, uma quebra de paradigma que você tá acostumado a fazer no seu dia a dia. Então, é um trabalho de conscientização que é lento e gradual, mas que tem de ser persistente senão não vinga.

É fato de que um trabalho de conscientização gradual é imprescindível para uma mudança de atitude perante o a natureza. A educação ambiental pode dar um novo rumo para a recuperação de um meio ambiente já exaurido. Mas a questão sobre a qual István Mészáros (2002) já nos alertou, é que não adianta uma educação, uma consciência ou medidas governamentais que trabalhem em favor do capital. Não adianta os avanços tecnológicos para melhorar a produtividade, se esses avanços miram os objetivos do capital. É preciso investir na educação para melhorar a consciência crítica e ecológica dos(as) consumidores(as), de forma lenta e gradual, como disse a entrevistada Ana, mas essa educação tem que ser contestadora, em cima dos reais problemas que causam a degradação do meio ambiente. Não será a interrupção do uso de sacolas plásticas que irá resolver o problema. É um problema de escala mundial e que, infelizmente, só pode ser resolvido em escala global.

Há um certo consenso de que consumimos mais do que precisamos. Fatores como conforto, agilidade, status, praticidade, novas tecnologias, etc. são alguns dos motivos que nos levam a consumir mais. E há um consenso também de que este

consumo exagerado está acabando com os recursos naturais do planeta e ainda pior, o poluindo. Todos tem sua parcela de culpa: os produtores, os consumidores e os governos. Um investimento na educação da população é preciso, mas uma educação que se volte para a conscientização de que algo deve ser feito para diminuir a pobreza e nivelar as classes sociais, ao mesmo tempo em que a preservação ambiental também seja contemplada, independentemente da situação atual em que a economia de um país ou de uma família se encontre.

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