2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.2. A perda gestacional na família
Nas famílias as crianças são um importante projeto na vida do casal, com essencial significado para os pais. Os filhos são a sucessão de uma família, o legado de valores e significados, de
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aos pais a sua função de protetores e prestadores de cuidados, vivenciando um enorme sentimento de fracasso (Rebelo, 2013).
De acordo com Wright & Leahey (2002, p. 68),” a família é quem os seus membros dizem que são, apresentando-se como uma definição extensível a qualquer tipo de família, considerando que vivemos numa sociedade com uma diversidade de realidades familiares”. Naturalmente, a família, como unidade familiar, perante a alteração na saúde de um dos membros, todos são afetados e como um todo é transformada, assim como, os elementos que a constituem, estão interligados e dependentes uns dos outros (Kaakinen, Duff, Coehlo, & Hanson, 2010).
Quando uma gestação é interrompida pela perda do bebé, a mãe e a família iniciam um processo de luto. Á perda gestacional está associada uma perda de um projeto de vida. Segundo Iaconelli (2007), o fato de a gestação ser frequentemente vivida como um momento de plenitude pode aumentar os riscos traumáticos aquando da ocorrência da perda.
As reações à perda estão interligadas com o período perinatal que ocorreu: morte fetal, morte à nascença e morte neonatal. Igualmente, cada uma destas situações está ligada a vivências diferentes, mas todas elas implicam reações que dependem de interação entre os pais, o bebé e os outros. Estes aspetos são sintetizados na Figura 1 (Canavarro, 2006, p.261).
Figura 1 - Fatores que influenciam a reação emocional à perda perinatal (Canavarro, 2006, p. 261)
Cada membro na família vive o luto de forma diferente. Conforme Callister (2006), as vivências da morte fetal podem ir de mínimas a intensas, dependendo do género (pai ou mãe), da perceção
-Idade: -Natureza e gravidade do(s) problema(s)
-Características de personalidade
-Tipo e duração do tratamento -história prévia de pertubações
emocionais ou de poersonalidade -Apoio familiar e social disponível; -Prognóstico -Histórias de apresndisagens prévias -Tipo de relacionamento entre a família alargada -Peso
e a mão - o pai do bebé
-Fatores diretamente ligados à -Idade gestacional
gravidez (motivação e desejo de ter um -Atitudes dos profissionais de saúde filho, duração da gestação)
-Relacionamento entre o pai e mão do bebé e crenças religiosas
OUTROS
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da perda, idade, cultura, crenças espirituais e religiosas, mudanças que a perda provocou na vida, mecanismos individuais de coping para com a perda e sistemas de suporte existentes.
Na perspetiva de Doka & Martin (2014), existem muitas maneiras de viver o processo de luto, entre os quais se podem descrever dois tipos padronizados. Um padrão intuitivo, onde os indivíduos expressam a sua dor de forma afetiva (estereotipados no feminino) e um padrão instrumental, onde a dor é expressa física ou cognitivamente (estereotipados no masculino). Doka & Martin (2014) referem ainda que estes padrões estão relacionados com o género, mas não são determinados por este e que cada um deles tem pontos fortes e fracos distintos. Na perspetiva de Veltri (2010) as mães têm tendência a viver o seu pesar de uma forma mais visível através da expressão das emoções e na participação em programas de suporte no luto. A mulher passa por momentos de dor por não dar à luz o ser humano que vivia dentro de si, apresentando respostas emocionais desde tristeza, frustração, desapontamento, raiva e culpabilização. O medo de que a perda possa ser uma incapacidade congénita de gerar, a incerteza de o seu corpo ser estéril, intensifica o sofrimento pelo receio de não poder vir a ter filhos (Canavarro, 2006; Rebelo, 2013).
De acordo com Nazaré et al., (2010) as reações de uma mulher a uma perda ocorrida durante a gravidez ou puerpério dependem do grau de ligação afetiva ao bebé e do investimento colocado na gravidez, não sendo, necessariamente, determinadas pela idade gestacional ou tempo de vida do bebé.
As mães com perda gestacional, na generalidade, sentem-se deprimidas, angustiadas e sós, pois julgam-se incompreendidas no seu sofrimento. Por vezes desenvolvem um processo de culpa pela perda. Para as famílias, a perda gestacional é avassaladora, nomeadamente quando não têm apoio da equipa de saúde e da sociedade.
Parkes, Laungani, & Young (2003), mencionam que ao descreverem o luto materno, vários clínicos o referem como um “luto sombra”, pelo seu efeito intenso e crónico. Destacam também que mães sentem esta dor como parte intrínseca à memória que conservam da criança e da qual não querem renunciar.
Por outro lado, os pais vivem essa perda de forma diferenciada. De acordo com Veltri(2010) os pais tendem a ter sentimentos de solidão, isolamento e impotência. O homem sente a frustração
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de ver o seu desejo de ser pai adiado. Perante o sofrimento físico da companheira, tende a apoiá- la para que recupere. Contudo, especialmente se perdeu o seu primeiro e único filho, experimentará sentimentos de dúvida sobre se escolheu a mulher certa para ser mãe dos seus filhos (Canavarro, 2006; Rebelo, 2013).
Vários autores (Callister (2006); O’Leary & Thorwick (2006) citado por Veltri(2010); Robson (2002) citado por Veltri (2010)) referem que os pais adotam o papel de apoio e suporte, contendo os seus próprios sentimentos de acordo com o que lhes é social e culturalmente esperado, que é ser o mais forte. Quando os pais perdem o seu filho, perdem o seu sonho, a vida que idealizavam com o seu filho/família e a sua identidade idealizada como pais. Dependendo da sua vinculação com o bebé, acredita-se que esta possa ser mais ou menos devastadora.
Quanto às crianças que aguardavam a chegada de um irmão e cujos pais vão para o hospital e voltam com um vazio, é de salientar que estes têm também de fazer o seu luto. Os irmãos podem descrever a sua experiência de luto como um “doer por dentro”, que é uma expressão dos seus sentimentos de tristeza, frustração, solidão, medo e raiva (Davies, 2006 citado por Veltri, 2010). Na maioria das vezes é feita uma tentativa de proteger o filho sobrevivente, de tal forma que se evita falar do assunto e os familiares que o rodeiam escondem os seus próprios sentimentos para poupá-lo da vivência da perda. Na verdade, não é esperado que as crianças façam um luto. Os irmãos sobreviventes têm sido apelidados de os “forgotten mourners” (Thomas (1998) & Wallersted (1996) citado por Callister, 2006), ou seja, também é verdade que, a vivência do luto pela criança está dependente de múltiplas variáveis, tais como a sua idade, fase de desenvolvimento, características individuais, outros estressores simultâneos e o seu sistema de suporte (Furman,1974; Forrest et al.,1982 citado por Oikonen & Brownlee, 2002).
Na perspetiva de Corr & Balk (2010), os pais podem ignorar o significado da relação da criança existente com a criança falecida, particularmente no caso da morte fetal, pois faleceu antes do seu nascimento e nunca veio para casa do hospital. No entanto, alerta que é importante que os irmãos sobreviventes sejam ajudados no seu luto, estando em risco um luto patológico, podendo vir a necessitar de ajuda profissional.
As crianças quando podem sentir e exprimir livremente as suas emoções, ultrapassam os sentimentos difíceis natural e rapidamente. No entanto, a generalidade das crianças não
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tem consciência de que a morte é algo de real e permanente que lhes pode acontecer, mas, mesmo assim, choram. Todavia, se lhes for possibilitado sentir e manifestar o sofrimento que sentem, naturalmente, adaptam-se relativamente bem à perda (Arcangel & Moody Jr 2007, p. 52).
Relativamente aos avós, eles também têm sentimentos de pesar e consternação ao ver o seu próprio filho a sofrer, para além da dor da perda do neto, que a maioria nunca chegou a conhecer.
Na perspetiva de Oikonen & Brownlee (2002), o luto dos avós é complexo e multidimensional. Frequentemente vivem um luto tridimensional. Por um lado, sofrem como avós, por terem perdido o seu neto, por outro, pela perda da oportunidade de vida do seu neto e ainda pelos seus filhos que perderam o seu próprio filho. Muitos avós referem um extremo sentimento de impotência, tristeza e dor pelos seus filhos. Para além destes sentimentos, ainda existe o sentimento de culpa, pois podem associar esta morte a um problema genético. Os mesmos autores referem também que os avós podem experienciar um sentimento de culpa chamado do “sobrevivente”, pois ainda estão vivos, apesar da sua idade e tiveram a oportunidade de viver mais do que o seu neto (Callister, 2006; Veltri, 2010).
Nesta perspetiva, a intervenção do enfermeiro de família nas diversas fases do luto e com os elementos implicados na perda, torna-se crucial.