5.2 O ritual
5.2.2 A performance
Antes de explanar sobre os processos de cura é fundamental contextualizar a dimensão do cenário trazido inicialmente neste capítulo, precisamente, a dimensão da performance religiosa/ritualística. Aponto as considerações de Émile Durkheim (2003) ao teorizar que a performance acontece na “solidariedade social” como uma ação de pensamento e comportamento no ritual. Desta maneira, destaco os dois tipos de linguagens formulada por MacKay (apud TURNER, 1987), verbal e não-verbal, constando como base a comunicação dirigida a algo.
Inicialmente, ao discutir o espaço ritualístico sob influências de Erving Goffman (TURNER, 1987), compreendendo-o como um espaço particular com ordenamentos, percebemos um conjunto de ações simbólicas embutidas de significado com comportamentos, normas e valores (TURNER, 1987, 2012). Neste momento, destacam-se as noções de Clifford Geertz sobre os sinais e os significados.
O que ocorre, porém, é que no homem nem as áreas predominantes, nem os conjuntos mentais podem ser formados com precisão suficiente na ausência de orientação por parte de modelos simbólicos. Para tomar nossas decisões, precisamos saber como nos sentimos a respeito das coisas; para saber como nos sentimos a o universo social e simbólico, como se movido pela ação de alguma oleira oculta, recria-se. A essa experiência Turner dá o nome de communitas” (DAWSEY, 2005:165-166).
respeito das coisas precisamos de imagens públicas de sentimentos que apenas o ritual, o mito e a arte podem fornecer (GEERTZ, 2012:59-60).
Como aponta Geertz (ibid) tais conjuntos sociais interacionais são necessários não apenas à sobrevivência do homem, “mas à sua própria realização existencial”. Portanto, os espaços religiosos sintetizam o ethos dos povos e/ou grupos e atribuem uma plenitude de significado ao descreverem o mundo e o posicionamento existencial.
No meio deste caminho reflexivo, destaco que o ritual é prioritariamente coletivo com ações e comportamentos ordenados, ou seja, atende à uma norma e arquitetura com inicio, meio e fim. Este conjunto simbólico (verbal e não-verbal) ritualístico é compreendido coletivamente por associações. Por exemplo, um ritual ou uma roda de capoeira tem aspectos de música, dança, formação, jogo e luta. O rito/ jogo tem sinais particulares em escolas, grupos e regiões com maneiras específicas de jogar, dançar, tocar o berimbau e os demais instrumentos da bateria. O ritual/ jogo da capoeira tem comunicações sutis, onde não é necessário utilizar a linguagem verbal para o “capoeira” ajeitar o sapato, colocar a camisa, perceber o tom de agressividade, passividade, começar ou parar o jogo. Tudo isto é informado por sinais, musicais que direcionam o comportamento coletivo. Portanto, quando determinado toque do gunga (berimbau) ressoa, os capoeiristas sabem o significado pela associação compartilhada coletivamente, as quais são o conjunto de aprendizados da funcionalidade do ritual da capoeira. Ou seja, o conjunto performático é ordenado de acordo com o ambiente e sinais que circulam entre os indivíduos. Desta maneira, considera-se que possam ocorrer boas e más performances pelo habitus particular do grupo e senso de moralidade compartilhada. Para o “capoeira soltar a mandinga” é necessário compreender e dialogar com estes sinais significantes, de certo modo, é ai onde se situa o impulso da performance.
Estas exemplificações nos ajudam a compreender os momentos performáticos na prática ritualística da SPA. Os toques do gongo indicam comportamentos específicos, o primeiro, a preparação com apresentação pessoal, propósito da beberagem, o segundo, a ida ao salão para o inicio da cerimônia. Ambos os toques entendidos pelos participantes criam dimensões de como agir. O primeiro – apresentação, beberagem coletiva e concentração pessoal para esperar os efeitos das substâncias. O segundo – início da cerimônia com comportamento específico, atendendo ao ordenamento ritualístico. Alguns participantes afirmaram que apenas quando escutavam os cânticos de abertura se sentiam no ritual. Com isto, percebe-se que o rito tem uma dimensão estrutural de associações compartilhada por símbolos e sinais entre os participantes. Logo, entoar um cântico, tocar uma música, contar
uma história, trazer uma situação vivenciada seriam âmbitos performáticos que atendem a noção de certo e errado (n)do grupo panteísta, ou seja, a moralidade. Por exemplo, interromper um canto (chamada) ou não respeitar o movimento de circulação no salão é vista pelo ethos religioso como más performances. A noção performática atende a estética e estrutura do rito indo de encontro com o propósito individual/coletivo de ingestão da substância.
Na prática ritual acontecem momentos de atuação (geralmente lideradas pelo facilitador) que objetivam determinadas consequências, seja a recuperação do tempo biológico, harmonização individual/coletiva, confronto de ideias ou crítica social. Cada momento é refletido pelo facilitador e demais participantes para utilizar o máximo de proveito e harmonia no grupo. Tal sentimento de harmonia se encontra de acordo com as estruturas cognitivas/ emocionais já estabelecidas entre os praticantes. Então, para atender esses momentos performáticos de diálogo visando determinadas consequências os assuntos variam desde crítica social como base para a reconstrução social panteísta, assim como harmonização para recuperação do tempo biológico. Estes dois eixos são constantes e fundamentais no ritual panteísta.
O eixo performático me fez refletir sobre as formulações de Marcel Mauss (2003[1950]) sobre as teorias do corpo e outras desenvolvidas, assim como Lévi-Strauss (1975b) ao contar a história do feiticeiro Quesalid, Loic Wacquant (2002) sobre o aprendizado mimético dos pugilistas e Csordas (2008) sobre a cura. Ao meu ver, considero o aprendizado corporal performático entre o indivíduo e o coletivo como parte do “caminho espiritual”. Tais ações corporais são culturalmente aprendidas, aponto exemplos citados por Mauss (2003) como: a natação, o correr, comer, falar e demais outras. Diante destas noções, considero que a meditação também é um ação, no sentido de ser aprendida, ordenada e respeitar a determinadas estruturas e espaços. Estar parado faz sentido, quando se cria um sentido para se estar e aprender a desenvolver algo, tal sentido é um aprendizado culturalmente transferido e (re)construído. Consequentemente, a análise do corpo e da performance são eixos correlacionados, visto que a performance é expressa pelo corpo. Portanto, existe de modo influenciador nos sujeitos o aprendizado mimético de acordo com o habitus religioso ou o universo habitado. Os participantes iniciáticos agem vendo os anciões agirem, logo, percorre- se uma linha de aprendizados de como se portar no rito ayahuasqueiro e atender suas normas, dito por Richard Schechener (2012:61) como “mecanismos de ação” resultado de “respostas
condicionadas”.
Victor Turner (1987, 2012, 2013) aponta que o espaço ritual e a performance são derivados de questões estéticas as quais o drama social age como o metateatro (“metatheatre”)95, procurando estimular a comunicação sobre o sistema de comunicação em si. Ainda sobre o constructo estético, Turner (2012) afirma que ao se desenvolver uma história no ritual aquele eixo performático traduz um segmento do grupo, consequentemente, afirma- se o que se é, uma identidade. Assim, as histórias, cantos, ações, objetos, arquiteturas, estéticas e ações ritualísticas são performances que traduzem signos com significados, ideologia e poder (eficácia). De tal modo, o ritual e a estrutura organizacional age como um sistema estrutural de mediação que ordena, normatiza e condiciona os sujeitos com um conjunto de fundamentos morais particulares.
MacRae (2000) ao pesquisar a performance do ritual do Santo Daime aponta que tal espetáculo é baseado na eficácia do amor cristão, o qual é coordenado por um composto de normas e regras rituais. Entre elas estão: fardamento, bailado, controle de pessoas, ingestão do psicoativo, controle com as “peias”, entre outros. Percebe-se que a performance é correlacionada aos significados religiosos/ ritualísticos. Portanto, concluo que para alguns sujeitos é um choque participar de outros rituais ayahuasqueiros (outros grupos) quando se está numa ordem “performática de atuação”. Ir a um rito com outra ideologia é a quebra/confronto com estas “normalidades estruturadas” ou “naturalizadas”. Sob outro ponto, a performance ritualística é inter-relacional à eficácia religiosa, realização do rito e atendimento de determinadas expectativas. Do inglês para o português, performance é traduzido como atuação, execução, proeza, representação, entre outros sentidos.
Alguns casos nos cerimoniais panteístas etnografados transmitem a relação entre performance e moralidade. Algumas ações consideradas como más atuações são: chegar atrasado na cerimônia, não atender a vestimenta do grupo (ou seja, usar óculos, chapéu, boné, camisas com propagandas de marcas como coca-cola, entre outras), interromper o facilitador ou quebrar com os aspectos ritualísticos e apresentar-se de outra filiação religiosa impondo uma doutrina ao coletivo panteísta. Tais exemplificações buscam apresentar a relação entre indivíduo e coletivo por meio das performances. Numa análise turneriana a estética
95 Enquanto escrevia este trecho lembrei sobre a conclusão do livro O lobo da Estepe de Herman Hesse (2008).
A trama é envolvida por uma homem de meia idade que se encontra numa crise existencial, a conclusão da crise de Harry, personagem principal, é resolvida em um ambiente como um cenário de teatro, onde o personagem percorre várias “cenas” com diferentes configurações estéticas desencadeando diversos confrontos subjetivos.
performática possibilita reviver situações conflituosas e senti-las de forma intensa. Portanto, dentro deste cenário estético sagrado o ritual é a possibilidade de estabelecer ou não uma nova harmonia. Ou seja, ressignificar – um novo corpus de significado, mas, para isso é preciso estar neste ambiente com um envolvimento ideológico, prático, estético, moral e normativo de possibilidade de observação das crises – os dramas sociais. Portanto, as performances estão correlacionadas com os simbolismos, representações, sinais, moralidade, normas, éticas e estéticas do ethos panteísta. Portanto, a prática ritualística panteísta atua como um sistema de mediação, a qual visa algumas metas, como:
Realização do ritual- sendo um espaço de imersão no sagrado, tendo como base a perspectiva panteísta cosmo-existencial.
Explorar a experiência ayahuasqueira de modo existencial, procurando significar e aprender com a experiência. Tal tópico aborda todo o conjunto de eficácia e controle religioso de como se explora, e, o que é ou não panteísta.
Ser um cerimonial transformador- no sentido de que a prática panteísta estimula a recuperação da autoestima, confiança e autonomia pelo estudo da natureza interior e pela crítica social.
Continuar a prática no cotidiano estudando e explorando as dimensões existenciais que envolvem a maestria das emoções diante das questões e dilemas existenciais.
Citei como exemplo algumas ações “estranhas” dos modos de atuação normais d(n)o grupo. No entanto, outras são vistas como positivas, como apresentação de situações dos dramas superados, criações artísticas que se afinam com a perspectiva panteísta, entre outras. Um dos pontos de maior reflexão da etnografia foi a questão transformadora do indivíduo no coletivo, o processo curativo. Para isso, a performance não acontece apenas como uma comunicação para o outro, mas também para si. Como Turner (1987:13) explana o homem é uma auto-realização reflexiva, “in performing he reveals himself to himself”96. Neste caso a
reflexiva revelação acontece de dois modos no mundo interno – de mim para mim e para o externo, do eu para o tu, nós e eles. Como Turner (ibid) afirma o homem ao “performar” em um contexto social pode vir a se conhecer melhor pelas observações, participações e demais relações entre os indivíduos – indivíduo/coletivo. Em outras palavras, na peformance o sujeito “atua” para os outros como para si mesmo, ao executar a ação ele mostra quem é ou quem quer ser. Destaco que a noção conceitual da performance possibilita ao sujeito observador e
objetificante uma “neutralidade”97 na análise ritualística, ao perceber o repertório contextual
do campo social do nativo e aprender com ele.
A performance no ritual panteísta ayahuasqueiro é uma comunicação do sujeito consigo e com o(s) outro(s), apresentando e mostrando o que se é e também o que se quer, baseado numa moralidade particular. Tais questões são um norte para entender que as transformações da subjetividade acontecem por estes confrontos existenciais de visão de mundo, moralidade, ações e educações subjetivas.