CAPÍTULO III: A dimensão temporal
3.1. A permanência de si mesmo
É importante a designação do si mesmo na ação escolhida por ele, isto é, a designação na própria escolha que leva à dimensão ética da responsabilidade do agente sobre a ação. A ação escolhida pelo agente faz parte da dimensão prática que desenvolve uma trama narrativa e confere uma unidade à vida do agente na contextualização de sua ação. As escolhas do agente constroem a trama narrativa do si mesmo e, assim, respondem a pergunta sobre quem é o agente quando ele se designa em uma ação escolhida por ele mesmo e mostra-se responsável por ela. Neste contexto, a dimensão ética faz parte do si mesmo e deve ser abrangida pela discussão.
A contextualização das ações acontece na narrativa, pois na teoria da ação elas são simples e a análise não faz referência ao agente ou ao seu contexto, “aqui Ricoeur liga identidade narrativa com a filosofia da ação, visto que a narrativa é a “imitação da ação”120. Na narrativa, podemos tratar as ações como uma série de ações ou uma prática que agrupadas ao longo da vida geram a história do agente em questão121. “Nem a definição de uma pessoa da perspectiva da identificação por referência, nem a do agente no quadro da semântica da ação, mesmo que considerada um enriquecimento quanto à primeira abordagem, levou em consideração o fato de que a pessoa da qual nós estamos falando, de que o agente do qual a ação depende, tem uma história, são a sua própria história”122. O contexto de cada ação aparece na narrativa da unidade da vida do si mesmo.
Segundo Ricoeur, precisamos investigar a permanência do si mesmo no tempo para fazer aparecer a diferença entre a igualdade e o si mesmo123. Segundo Charles Reagan, este é o lugar da
dialética entre o que é igualdade e o que é do si mesmo, não apenas de um separação entre estes dois aspectos. A permanência do si mesmo no tempo é um aspecto importante para a construção 120 REAGAN, Charles E. Paul Ricoeur: His Life and His Work. Chicago: University of Chicago Press, 1996. p 76 121 Kaplan lembra que o si mesmo não deve ser tratado com um agente de ações simples analisadas descritivamente,
pois o agente é um ser humano que tem uma história e uma vida social, e por meio dessa história sabemos que ele muda com o tempo, mas mantém uma permanência (p 89).
122 RICOEUR, Soi-même Comme un Autre. p. 137.
123 O encontro entre a igualdade e o si mesmo acontece pela resposta a pergunta “quem?” Pela designação do agente
a sua ação. Assim, a ação é uma posse de quem a empreendeu, podendo ser designada a qualquer um dos pronomes pessoais. O termo si mesmo permite a designação de uma ação essa variedade de pronomes, por exemplo, ele pensa, ela sai, eu prometo. A identidade do si mesmo se dá a partir da designação de ações. (RICOEUR, Narrative Identity, p 75)
da igualdade na identidade. Esta relação pode ser de dois tipos: identidade numérica, ou identidade qualitativa. A primeira é a identidade (igualdade) entre diferentes ocorrências de uma mesma coisa, e a segunda é a similaridade entre duas coisas que guardam tamanha semelhança a ponto de serem permutáveis. Elas são distintas; entretanto, quando há dúvidas sobre a identidade numérica de uma coisa ela é tomada como uma identidade qualitativa, visto que a mesma não requer que o objeto seja exatamente o mesmo da ocorrência anterior.
Ricoeur considera que “a fraqueza desse critério de semelhança, no caso de grande distância no tempo, sugere que recorramos a outro critério, um que pertence ao terceiro componente da noção de identidade, a saber, a continuidade ininterrupta entre o primeiro e o último estágio do desenvolvimento do que consideramos ser o mesmo indivíduo”124. A identidade tem um aspecto de continuidade de uma coisa no tempo, como um animal que se modifica ao longo dos anos desde a nascença, mas que se mantém o mesmo ser; ele não é idêntico a quando era um bebê, entretanto ele mantém uma semelhança geral. “No caso da existência humana, entretanto, identidade é uma constância de si que envolve uma organização temporal dinâmica dos vários eventos e incidentes no curso de sua vida por meio de histórias – é identidade no sentido do si mesmo”125. A passagem do tempo traz dúvidas quanto à identidade numérica das coisas, se elas se mantêm iguais quando o objeto em questão não é observado durante o tempo126. Contudo, para haver mudanças, é preciso que algo mude com o tempo. Neste sentido, Ricoeur acredita que seja preciso haver um princípio de permanência da estrutura que se mantém semelhante a si.
No entanto, Ricoeur não está tratando do que permanece no tempo, ele procura tratar de
quem permanece. Não se trata de saber se a coisa permanece no tempo, a questão é saber se
haveria um aspecto do si mesmo que garante a permanência. Para Ricoeur, esse aspecto de uma permanência que pertence a si pode ser de dois tipos: o caráter, e manutenção da palavra empenhada. Nos dois tipos de identidade, encontramos o si mesmo e a igualdade; no primeiro eles se misturam, no segundo eles se opõem.
Podemos verificar a igualdade de algo ao longo do tempo, de modo que ela pode ser considerada um critério de identidade, pois podemos avaliar a veracidade ou falsidade de uma 124 RICOEUR, Soi-même Comme un Autre. p. 141.
125 DAIGLER. Being as Act and Potency in The Philosophy of Paul Ricoeur, p 382.
126 O oposto da continuidade no tempo seria a descontinuidade, e o oposto da identidade numérica seria a
pluralidade. No entanto, a identidade numérica não leva em consideração o tempo, enquanto que a identidade como permanência implica temporalidade, e o oposto desta última é a diversidade. Segundo Ricoeur, é no sentido da identidade da permanência que tratamos de animais, plantas, e seres humanos. (Ricoeur, Narrative Identity, p 74)
afirmação sobre uma relação de igualdade. Mas Ricoeur argumenta que não podemos saber se o
si mesmo tem um critério, ou se haveria um critério tanto para saber se o próprio corpo pertence a
si, como de manutenção da palavra dada. Não podemos entender a identidade do si mesmo por meio de critérios que a validem. É necessário primeiro entender como a identidade da igualdade e do si mesmo podem estar em conjunção e como se separam.
Ricoeur cita um exemplo de Derek Parfit, retirado do seu livro Reasons and Persons, no qual o autor não separa o que pertence à igualdade do que é do si mesmo e trata a identidade como uma relação de igualdade. O exemplo trabalha um caso de identidade enigmática em que é difícil decidir se o indivíduo manteria sua identidade pessoal ou não. Segundo Ricoeur, o reducionismo de Parfit leva a tratar a identidade como uma conexão entre eventos impessoais, físicos ou mentais; neste contexto, a pessoa é um composto de um corpo e um cérebro em que ocorrem eventos físicos e mentais inter-relacionados. Assim, a pessoa fica separada de suas experiências e é reduzida, pois ela é mais do que a continuidade de eventos físicos e mentais.
O exemplo é o seguinte. No futuro, o teletransporte é uma coisa comum, e para evitar longas viagens as pessoas o utilizam normalmente. O funcionamento do aparelho é claro, basta apertar o botão para fazer com que o aparelho desintegre o corpo do viajante embora todas as informações sobre ele sejam memorizadas pelo computador. No prazo de uma hora, a máquina refaz o corpo do viajante no local de destino da viagem a partir da matéria local, e ele é exatamente igual ao original. Quando o viajante retoma consciência, ele se lembra de tudo (toda a sua memória) até o momento presente da chegada. Parfit questiona se a pessoa que acorda no final da jornada é a mesma pessoa que começou a viagem, ou se a primeira pessoa morreria quando é desintegrada. Outro caso que Parfit sugere passa-se no mesmo cenário. Desta vez, ao apertar o botão do teletransporte, o equipamento não desintegra o viajante para fazer o processo, ele apenas copia (exatamente) a pessoa em questão e constrói uma réplica no local de destino. Entretanto, o processo causa um dano ao coração da pessoa copiada que a matará em quatro dias. Compadecida, a réplica consola o original dizendo que sente o mesmo afeto pelos seus filhos, que tem suas memórias, que é igual a ela e, assim, tomará o seu lugar depois de sua morte127. É possível que depois de morrer a pessoa sobreviva em sua cópia? Pode-se dizer que a cópia toma seu lugar? Talvez sim, de acordo com a identidade pessoal qualitativa, visto que a semelhança é enorme entre a cópia e o original.
Ricoeur acredita que a teoria de Parfit procura contrariar crenças comuns sobre a 127 PARFIT, Reasons and Persons (1984).
identidade pessoal usando casos enigmáticos. Com a descrição impessoal de eventos, a teoria reducionista suprime a noção do próprio corpo e retira para o si mesmo a diferença entre o meu corpo e os outros corpos. “Tendo em vista que o próprio corpo constitui um dos componentes do que é meu, o confronto mais radical deve colocar face a face as duas perspectivas sobre o corpo, o corpo como meu e o corpo como um corpo dentre outros. A tese reducionista nesse sentido marca a redução do próprio corpo de alguém ao corpo como corpo impessoal”128. A posse do próprio corpo e das próprias experiências é considerada supérflua pela teoria reducionista, assim, restam apenas eventos impessoais. O reducionismo mostra a diferença entre a posse de si mesmo e uma descrição impessoal de uma coisa (um corpo). No entanto, como indicaremos a seguir, é necessário fazer a distinção justamente entre si mesmo e outras coisas que identificamos.
O reducionismo trata a pessoa como sendo um cérebro. No entanto, não temos uma sensação do próprio cérebro, que é meu, visto que mesmo o cérebro fazendo parte do corpo não é possível ter experiência dele. Se a memória (considerada um traço do cérebro) puder ser transplantada para outro cérebro, ela pode ser considerada impessoal. Neste contexto, a memória seria como um traço cerebral e estaria resumida ao cérebro. O mesmo acontece com os pensamentos, apesar de parecer estranho que meu pensamento (atribuído a si mesmo) possa ser considerado um evento impessoal permutável.
Aquilo que pertence a si de uma forma intransferível faz parte do âmbito do si mesmo, pois só o que é próprio do si mesmo é intransferível e não pode pertencer a nenhum outro. O que pode se aplicado, ou atribuído, tanto a si mesmo quanto a outro não é próprio de si em todos os casos de sua aplicação, como acontece com os predicados. O próprio corpo, as próprias memórias, as experiências etc. fazem parte da classe de coisas intransferíveis, pois se fossem transferíveis não poderiam nem pertencer a alguém, nem poderiam ser diferenciados como sendo o corpo do sujeito A ou a memória do sujeito B. Elas passariam a ser permutáveis como se fossem indistintas. Desta forma, fica impossível distinguir o si mesmo de outro, pois o si mesmo tem posse do seu próprio corpo e há uma distinção entre si e outros particulares; caso não aceitemos estas condições, o próprio corpo passa a ser apenas um particular de base dentre outros. A propriedade sobre seu corpo é característica do si mesmo.
Ricoeur acredita que o caso apresentado por Parfit viole a condição de uma pessoa na Terra, pois as manipulações são cópias do cérebro e, assim, elimina o si mesmo da questão, pois considera o cérebro como sendo uma pessoa129. O caso trata de saber se alguém igual a mim, a 128 RICOEUR, Soi-même Comme un Autre. p. 159.
pessoa, vai sobreviver, não trata da capacidade da pessoa (copiada ou não) de designar a si como sendo possuidora do seu cérebro.
Se considerarmos o corpo como sendo uma coisa transferível que a pessoa não possui, cada corpo é considerado igual, visto que é permutável. Se o corpo da pessoa em questão não for possuído pelo si mesmo, então, o si mesmo não aparece na discussão. Ela deve ser capaz de designar a si neste corpo em momentos distintos.
Uma teoria que retira sua posse reduz o próprio corpo a um corpo dentre todos os outros corpos, da mesma forma que um evento não pertence a um agente, e fica impossível distinguir o
si mesmo de outros particulares. O cérebro do indivíduo não pode ser transplantado para outro
corpo e manter-se a mesma pessoa, pois o próprio corpo é o modo que o si mesmo existe e não pode ser alterado se estivermos tratando do si mesmo. Um transplante de cérebro não trata do problema da identidade de si, nem leva a identidade em consideração, o transplante apenas aniquila a questão sobre o si mesmo e viola a idéia do meu corpo que é próprio do si mesmo.
Se esse tipo de identidade não garante a posse do próprio corpo, o que caracteriza o si
mesmo, então, precisamos investigar um outro tipo de identidade, um que garanta a permanência
do si mesmo de acordo com algum aspecto seu sem exigir uma igualdade constante. Pois, manter- se igual enfatiza algo que é sempre o mesmo, independentemente de a quem ele pertence, assim, trata apenas de um aspecto de igualdade. Isso afasta o si mesmo, visto que esse tipo de identidade nunca aborda a quem pertence à igualdade, isto é, de quem ela é própria. Neste sentido, aquilo que se mantém igual fica sendo permutável. Entretanto, antes de investigarmos a identidade do si
mesmo, identidade narrativa, precisamos conhecer duas formas de permanência próprias dele,
pois uma delas envolve a igualdade.
Segundo Ricoeur, o caráter é uma igualdade de si formada por um conjunto de marcas que distinguem o indivíduo. No geral, ele é imutável, pois, é um conjunto de disposições duradouras que o indivíduo adquire ao longo do tempo, e na durabilidade estão presentes o si mesmo e a
igualdade. O hábito forma a história do caráter e confere temporalidade a ele, visto que as
disposições que o formam vêm dos hábitos do indivíduo, tanto os já adquiridos ao longo do tempo, como também os hábitos em formação. A história da formação dos hábitos no tempo confere o aspecto temporal do caráter construído por essa história, e a solidificação dos hábitos em disposições garante a permanência do caráter formado por meio deles.
negamos o seu lugar no mundo tomado no seu sentido cosmológico”. Essa objectificação do si mesmo por meio da análise é necessária para inserí-lo no mundo. (DAIGLER, Being as Act and Potency in The Philosophy of
Apesar do caráter formar-se pela da igualdade conferida pelo hábito, ele é meu caráter, isto é, ele pertence ao si mesmo que se revela nele. As marcas do caráter distinguem o indivíduo como sendo o mesmo e lhe conferem continuidade no tempo por serem imutáveis. Para Ricoeur, este é um modo de existência que afeta como o indivíduo percebe o mundo por meio dos seus valores130.
Por outro lado, segundo Ricoeur, quando um indivíduo mantém a palavra empenhada há uma oposição entre a igualdade e o si mesmo, pois a constância de si funda-se apenas no si
mesmo. Ela não faz nenhum apelo a algo que se mantém igual, ela é uma forma de existência que
depende apenas de quem empenhou a palavra. A continuidade que o indivíduo que mantém a palavra apresenta é diferente da permanência que o caráter apresenta, porque manter a palavra desafia o tempo, visto que o indivíduo pode mudar de opinião a respeito daquilo que prometeu e mesmo assim deve cumprir com a sua palavra e mostrar resistência à mudança. Mesmo em relação a uma promessa irrelevante, o indivíduo não pode trair a confiança depositada nele, assim, há uma permanência do si mesmo no tempo oposta à permanência do caráter131.
Para David Kaplan, “A importância da noção de constância de si é ela denotar a constância de caráter tanto que outros possam contar com aquela pessoa, quem, por sua vez, é responsável para outros. As implicações éticas para identidade pessoal ou narrativa é um agente dever manter algum tipo de continuidade no tempo para ser responsável pelas próprias ações. Identidade é constitutiva de responsabilidade; narrativa é constitutiva de identidade”132. A identidade narrativa fornece a constância necessária ara que o agente se mantenha constante e cumpra a sua palavra, assim, ele pode mostrar quem é ele ao cumprir sua promessa com uma ação na qual ele designa a si. A promessa também expõe o outro ao qual algo é prometido, pois 130 Paul Ricoeur acredita que a imutabilidade do caráter se torne evidente quando tratada como sendo uma série de
disposições adquiridas ao longo do tempo, assim, o tempo é enfatizado. “De fato, essa imutabilidade prova ser do tipo mais peculiar, como é demonstrado pela reinterpretação do caráter em termos de disposições adquiridas. Com essa noção, a dimensão temporal do caráter, pode ser finalmente tematizada. Caráter, eu diria hoje, designa o conjunto de disposições duradouras pelas quais a pessoa é reconhecida”. Os hábitos do indivíduo marcam os seus traços de caráter ao tornarem-se disposições e tornam o indivíduo reconhecível por meio desses traços, assim, no caráter estão juntos o si mesmo e o aspecto da igualdade de si. Adquirimos hábitos com o tempo e eles carregam em si a história de sua aquisição; neste sentido, o caráter é uma igualdade, porque é uma disposição que dura no tempo e mantém-se a igual, mesmo quando enfatizamos a posse do si mesmo ao dizer que o hábito é
meu.
131 Ao manter a palavra empenhada a pessoa mostra uma verdadeira constância, pois há nesta permanência uma
oposição entre a promessa que o obriga a manter a palavra e a passagem do tempo acompanhada de novos eventos que surgem das mudanças que a pessoa sofre, que podem implicar em uma mudança de ponto de vista sobre o que foi prometido. A pessoa deve manter a palavra mesmo em circunstâncias distintas daquela em que ela fez a promessa; neste contexto, é uma permanência no tempo, porque a palavra se mantém mesmo frente a mudanças.
não sabemos se o si mesmo se manteria constante se não houvesse outro ao qual ele prometeu algo e que está contando com ele. Assim, a promessa expõe a importância de outro para a constância de si.
Segundo Ricoeur, os dois tipos de permanência no tempo encontram-se na identidade narrativa em que ocorre tanto o encontro da igualdade com o si mesmo, como o surgimento de uma identidade do si mesmo sem igualdade. Os dois tipos de permanência opõem-se, e “esse intervalo é aberto pela polaridade, em termos temporais, entre dois modelos de permanência no tempo, a perseverança do caráter e a constância do si mesmo ao prometer [...] É então esse meio que, em minha opinião, a noção de identidade narrativa vem a ocupar”133. A identidade pessoal leva apenas a igualdade em consideração enquanto que a identidade narrativa que também é temporal mostra a identidade do si mesmo, pois trata da identidade do personagem que apresenta uma constância.
Paul Ricoeur argumenta que a construção da identidade narrativa do si mesmo seria uma continuação da dialética entre o si mesmo e a igualdade que já existe na identidade pessoal, e ela faria a passagem entre a descrição da ação da teoria da ação e seu aspecto moral de prescrição. A identidade narrativa passa da prática da ação para a sua narração.
A identidade narrativa enfatiza o si mesmo na dialética com a igualdade, pois a trama da narrativa e a conexão dos eventos que a compõem nela integram elementos de diversidade, descontinuidade, instabilidade, e continuidade na sua permanência no tempo. As discordâncias e concordâncias da trama mostram a oposição da identidade narrativa em relação à identidade por meio da igualdade de uma coisa no tempo, pois a igualdade não poderia admitir uma heterogeneidade de elementos. A identidade da trama narrada desenvolve-se ao admitir discordâncias que vêm de fatos que ocorrem ao longo da história, enquanto que ela também requer uma concordância entre os eventos que os organiza de acordo com a ordem que a unidade temporal dá à história. Assim, as discordâncias que ocorrem na trama a ameaçam, pois ameaçam a sua concordância, mas a própria narrativa mantém a unidade da trama.
Segundo Ricoeur, a organização de todos os eventos da trama que contribuem para mesma gera uma síntese do heterogêneo que se junta nela e gera tanto a concordância em sua organização geral como a discordância por meio da heterogeneidade dos eventos que ocorrem.