CAPÍTULO 2 – Igreja Mundial do Poder de Deus Uma igreja, muitas moradas
5. Quando o paradoxo gera identidade
5.1. A “perseguição” como chave interpretativa
O tema da perseguição representa um mitema peculiar às igrejas cristãs em processo de legitimação identitária, que por meio da reivindicação dessa origem pleiteiam autoridade. Essa “metanarrativa” bíblica fundante que atravessa o cristianismo e chega até os nossos dias é também a matéria prima que fornece ao neopentecostalismo um lugar simbólico, cuja função é respaldar a experiência (possível) de cura e milagre dos que procuram a IMPD. A expressão perseguição desliza do discurso do apóstolo e encontra pouso na experiência mesma dos fiéis que, orientados por essa chave plástica, entendem a perseguição como evento que aponta o quão injustiçados são aqueles que têm a verdade. Portanto, como foram perseguidos e injustiçados os cristãos, como o foi o próprio Cristo, aqueles que seguem o apóstolo sofrerão as consequências de admitir esse vínculo. Em contrapartida, serão prósperos se firmes no propósito de seguirem os ensinos recebidos na igreja. Perseguição e bem-aventurança são, portanto, uma dupla chave analógica para
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interpretar tanto os infortúnios da vida quanto as acusações que enfrentam liderança e fiéis da Mundial.
Uma das pregações que presenciei em campo sobre a perseguição sofrida pela IMPD, especialmente pelos evangélicos da Universal, desenvolveu-se com base na narrativa de I Samuel, capítulo 30, versos 1-8. A pregação foi feita uma semana após um episódio recentemente marcante, qual seja o da reportagem exibida na Record, em seu programa dominical Domingo Espetacular, cuja duração excedeu pouco mais de 26 minutos e versava principalmente sobre as propriedades relacionadas ao nome de Valdemiro Santiago que, em conjunto, somariam a quantia de 50 milhões de reais, cravadas na região centro-oeste do Brasil98. A chamada da reportagem colocava sob holofotes a suspeita de que o líder da IMPD usaria dinheiro dos fiéis para enriquecimento próprio99. Por ora, o que nos interessa nesse episódio é a reação que as acusações amplamente divulgadas na TV e internet provocaram entre lideranças e adeptos da igreja.100
Na pregação de que falávamos aparece Davi, angustiado por ter perdido as suas esposas e por causa do sofrimento do seu povo, que teve filhos e filhas cativos enquanto ele e seu exército estavam fora. Davi consultou Yahweh sobre se deveria perseguir e alcançar os seus inimigos e, com a resposta positiva do seu Deus, levantou-se e os buscou para
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Disponível em: <http://noticias.r7.com/brasil/noticias/exclusivo-o-apostolo-milionario-20120318.html>. Acesso em: 18 out. 2013.
99 Dias após a exibição da reportagem, o Ministério Público Federal em Mato Grosso abriu processo com a
finalidade de investigar a suspeita de enriquecimento ilícito do apóstolo e desvio de finalidade (quanto aos dízimos dos fiéis) que recaiu sobre ele após a exibição da reportagem no Domingo Espetacular. Disponível em: <http://noticias.r7.com/videos/ministerio-publico-federal-abre-investigacao-contra-valdemiro-
santiago/idmedia/4f691b28b51aa10b32e722d9.html>. Acesso em 18 out. 2013.
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Semanalmente, o apóstolo realiza reuniões com obreiros destacados, pastores e bispos das igrejas Mundial distribuídas no território nacional. Nessas reuniões, ele e seus bispos principais, como Josivaldo Batista, dão orientação para os demais quanto à administração das igrejas, às ações sociais e políticas no âmbito em que estão inseridas, às doutrinas de fé, campanhas e rituais. O apóstolo, portanto, procede segundo um padrão centralizador e de São Paulo estabelece as diretrizes orientadoras para todas as igrejas Mundiais. Após a reportagem exibida pelo Domingo Espetacular, na quinta-feira subsequente ao ocorrido, todos os bispos, sem exceção, foram convocados para reunião com o apóstolo. Lá teriam recebido orientações sobre como deveriam reagir às possíveis críticas e questões que seriam levantadas tanto pelas autoridades quanto por fiéis e cidadãos comuns. Embora não tenhamos tido acesso ao conteúdo dessa reunião (de caráter exclusivo para a liderança), por intermédio da pregação do dia 25 de março, em Juiz de Fora, soubemos pelo bispo Itamar que o apóstolo Valdemiro apresentava sinais de tristeza pelo “falso testemunho”, mas a despeito do momento difícil, aconselhara a sua equipe a se manter firme e pacífica, pois a resposta seria dada por deus em tempo.
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tomar-lhes aquilo que levaram. Na ocasião dessa pregação, o então bispo de Juiz de Fora, Itamar Pereira, enfatizou a angústia de Davi, exemplar servo de Deus, e assinalou como essa sensação era parte da vida. Ao enfrentar um dia de luta, perguntou ele, “quem não
havia sentido isso?” Mas, afirmou em seguida, Davi se reanimou e esse era o exemplo que
deveriam seguir. “Depois de uma pancada, imagina se você vai se recolher? Isso é tudo
que o inimigo quer. Mas é nessa hora que o filho de Deus se levanta e diz: ‘eu tenho Deus’. Essa semana você fará como Davi e consultará a Deus a cada passo!” E afirmou que
seriam abençoados durante aquela semana.
Curiosamente, o bispo se lembrou de um episódio emblemático da história recente da Universal: “Eles esqueceram que há tempos atrás, um bispo deles chutou uma santa e eles
foram massacrados pela mídia. Eles sumiram com ele [referindo-se ao bispo]. Mas depois daquilo, a igreja explodiu [a respeito do crescimento de membros]! Eles estão sendo bobinhos porque isso vai acontecer aqui!” E prometeu aos seus ouvintes que, embora
houvesse um grupo de evangélicos atirando-lhes pedras, a partir daquela semana, se consultassem a Deus a cada passo, a vitória seria maior! E então orou: “(...) Sua palavra
não volta vazia! Os inimigos vieram com tudo. Teu povo tem sido perseguido, mas as lágrimas são vencedoras. Não estamos sendo fracos, não! O Senhor está aqui (....)”101
. A cada frase a comunidade presente vibrava e os aplausos e manifestações de apoio na forma da expressão “aleluia!” se tornavam mais fortes.
A referência ao “chute na santa”, de 12 de outubro de 1995, foi imediatamente reconhecida por grande parte da audiência. Especialmente porque o episódio que causou comoção generalizada pelo desrespeito ao símbolo católico reconhecido como padroeira nacional fortaleceu uma imagem negativa para a IURD, desde então ainda mais associada com a noção de intolerância religiosa. A reportagem exibida pelo Jornal Nacional, então apresentado por Cid Moreira, destacava os gestos agressivos com os quais o bispo da Universal, Sérgio Von Helder, atacou a representação de N. Sra. Aparecida. As cenas reproduzidas repetidas vezes durante a programação da Rede Globo se, por um lado,
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causaram indignação e desprezo de muitos cidadãos católicos e não católicos, por outro, também causaram algum tipo de comoção entre evangélicos em apoio ou crítica à atitude do bispo. A reação de evangélicos que se solidarizaram à perseguição que o bispo passou a sofrer por seus gestos agressivos se deve compreender a partir de certo quadro mais amplo de referências, constituído por uma série de outras acusações que a Rede Globo imputava à IURD. As pregações que se seguiram ao evento do “chute” na Universal passaram a tematizar principalmente as injustiças e as injúrias cometidas contra os justos de Deus. Irmanados na dor causada pela perseguição que sofreram, os quadros de membros da igreja oscilaram entre perdas e ganhos, mas um norte ficou definido: o estabelecimento de uma forte estratégia de mídia que fizesse frente ao monopólio da Rede Globo e servisse aos propósitos da igreja.102
Assim, ao lembrar o que ocorrera com a “igreja da fogueirinha” há dezessete anos, tanto os bispos quanto o apóstolo questionavam ironicamente: “como” e “por quê” a denominação evangélica que sofrera perseguição impiedosa de uma rede de televisão secular poderia repor, nos mesmos termos, aquela situação de injúria e difamação à IMPD? Simples. O diabo, como o pai da mentira, estaria usando-os como usou anos atrás a Rede Globo para minar a obra de deus e o motivo se explicaria de forma igualmente simples: em razão do crescimento e avanço da igreja Mundial que despertava o ciúme de muitos evangélicos. Eles seriam perseguidos porque “a luz não pode ser escondida”, porque a “mentira era do diabo” e porque “os filhos de deus seriam reconhecidos pelos seus frutos” (cf. o evangelho de São João, capítulo 5). Sendo assim, aqueles ligados à videira verdadeira, isto é, Jesus, seriam exaltados por Deus, o agricultor. Mas aqueles que não dessem bons frutos seriam cortados pelo agricultor.103
Para além desse episódio específico da reportagem exibida pela Rede Record, já se conhecia o discurso persecutório da Mundial de outros eventos, dentre os quais o fechamento do templo-sede, no Brás. Valdemiro Santiago coleciona ações na justiça contra
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Objetivo que começou a ser concretizado já em 1989, por ocasião da compra da Rede Record de Televisão pelo bispo Edir Macedo, líder da IURD.
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ele e sua igreja, muitas em decorrência do não pagamento dos aluguéis de imóveis em que funcionam tempos da IMPD, mas também em razão das promessas que faz ao público e que seus acusadores afirmam ser charlatanismo. Em São José dos Campos, por exemplo, o apóstolo compareceu no dia 21 de fevereiro de 2011 para depor numa delegacia em função de uma denúncia que teria falseado um milagre. Segundo Valdemiro, o milagre referido dizia respeito à cura de um menino com leucemia. O apóstolo foi à delegacia prestar depoimento e teria sido surpreendido pelo respeitoso tratamento que recebeu do delegado que, inclusive, declarou que sua mãe era sua fã e havia sido abençoada pela TV. A denúncia foi anônima, de alguém que deixou o nome João Silva. No dia 22 de fevereiro, o apóstolo, durante a “Reunião da terça-feira pelo Milagre Urgente”, referiu-se ao denunciador como “o perseguidor” e disse mais: “Não tem jeito de contestar, se fosse um,
ou dez ou mil, mas não tem jeito de contestar... Não sei como tem gente que tem coragem de contestar o que Deus tem feito aqui!” Em seu programa de TV, após retornar da
delegacia, o apóstolo disse estar “injuriado” e quanto mais o perseguissem, maior seria a quantidade de milagres que realizaria.
As acusações mútuas de perseguição resultantes de conflitos que envolvem IURD, IIGD e IMPD podem ser conhecidas por intermédio dos cultos transmitidos pela TV e internet, vídeos postados no Youtube ou programas de rádio. As discussões públicas entre essas igrejas despertam mais atenção pelo aspecto da concorrência no mercado religioso e disputa por fiéis do que pelas questões concernentes à exegese, teologia e doutrina. Mas o que nelas nos retém atenção é justamente o recurso ao texto sagrado e à discussão quanto a quem teria mais qualidade na interpretação e cumprimento desses ensinos bíblicos.
Em 2007, Ricardo Bitun defendeu uma tese doutoral sobre a Mundial104. A abordagem procurou demonstrar as rupturas e continuidades da Mundial em relação à IURD, salientando a ênfase na produção de cura (como bem simbólico) e o consequente trânsito religioso (intra e inter-religioso) facilitado pelo processo de secularização e pela
104 BITUN, Ricardo. Igreja Mundial do Poder de Deus: rupturas e continuidades no campo religioso
neopentecostal. 2007. 200 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2007.
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condição dada na modernidade de livre escolha e oferta de sentidos. Orientado por leituras de Weber e Bourdieu, Bitun propôs compreender a Mundial como movimento de remasterização da IURD que se somava ao vertiginoso crescimento evangélico e carismático confirmado nas pesquisas do ISER, IBEG e Censo 2000. Apoiado em Freston (1993) e Mariano (1999), Bitun engrossou a corrente dos sociólogos que asseguram ser a Mundial mais uma igreja de tradição pentecostal que tem como mote a cura. Essa importante referência, desde onde pudemos apurar, somada às duas dissertações de mestrado105, artigos em periódicos, comunicações em congressos e capítulos de livro, partiu de uma caracterização da IMPD que pontuou marcos relativos à pertença institucional, destacando com pertinência mais as continuidades discursivas do que as rupturas. O recorte teórico-metodológico do autor, filiado ao entendimento bourdiano do campo religioso, primou pela análise do mercado religioso e, em razão disso, deixou à parte os processos de trocas e ressignificações, contraídos não exclusivamente no seio da tradição protestante e pentecostal. Essa compreensível lacuna, visto que não se pode dar por acabada uma pesquisa sobre religião, optou por um viés interpretativo que lançava luz sobre uma face do fenômeno religioso Mundial e deixava brecha para que outras faces fossem exploradas.
Entendemos que o conjunto de imagens que o tema da perseguição providencia propicia não apenas instrumental para atribuição de sentido aos que frequentem a Mundial, mas esse referencial “atinge o nível das crenças e atitudes profundas”, como salientou Velho ao se referir ao significado de cativeiro-libertação em grupos camponeses no Brasil106. A ideia da perseguição produz um efeito de identidade coletiva no grupo que resulta num tipo de unidade, mais do que fragilização ou perda. Não se trata, portanto, de um discurso que alcança a homogeneização do grupo, porque as pessoas não estão dispostas a relativizar completamente as consequências da possibilidade de estarem sendo enganadas. Mais do que se pensa, muitos dos frequentadores da igreja (batizados e não
105 NUNES, Éber. Da burocracia para a profecia: mudanças no neopentecostalismo brasileiro. 2007. 101 f.
Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2007; ZANINI, André Luis. Messianismo e neopentecostalismo: uma análise da “práxis” religiosa de Valdemiro Santiago na Igreja Mundial do Poder de Deus. 2009. 105 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) — Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2009.
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batizados) estão atentos ao possível uso de má fé com relação ao dinheiro entregue na forma de ofertas e dízimos. A esse respeito, por exemplo, uma senhora me confidenciou: “Ah, ele tá pedindo X, mas eu vou dar Y... O que importa não é o quanto a gente dá, mas o
que está dentro do nosso coração!”. E, de outro informante, ouvi: “O dízimo é obrigação com Deus. Eu faço a minha parte. Mas o que o pastor faz com o dinheiro depois que eu entrego, ah, isso é problema dele com Deus”. Em outras palavras, “ele que se vire”, pois é
ele quem responderá por suas ações diante Dele. E aqui entra um interessante elemento da “crença” pós-moderna, a consciência. O indivíduo vivencia ou não determinadas práticas, cumpre ou não determinados ritos, assente ou não com determinadas orientações dominicais à depender dos critérios estabelecidos pela sua consciência formada pelo quadro de referências, i.e., as províncias de significado que têm ao seu dispor para evocar diante de situações decisórias.
Nesse sentido, podemos afirmar que a questão não finda na concorrência entre neopentecostais, na flexibilização das fronteiras identitárias ou no trânsito religioso propiciado pela diversificação das tradições religiosas. Esses são aspectos que descrevem o fenômeno e nos ajudam a entendê-lo, mas o traço contextualista desse tipo de análise se, por um lado, metodologicamente, permite-nos inscrever o fenômeno em sua historicidade, por outro, deixa de considerar que, em se tratando de religião, a perspectiva sincrônica oblitera uma característica fundamental do fenômeno: ela se ramifica em várias direções (âmbitos existenciais ou esferas sociais) e, à medida que recebe delas influências, circularmente as transforma produzindo novos significados. Portanto, podemos conceder maior ênfase ora na continuidade, ora na ruptura. Mais importante do que essas opções de análise seria captar os significados atribuídos às práticas religiosas. As evidências providenciadas por, entre outros, fiéis da Mundial indicam que há espaço para reflexão sobre as identidades religiosas e as experiências que produzem. Refletir a respeito desses efeitos, no sentido de descodificá-los e interpretá-los, tem uma objetividade fundamental
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para o fazer antropológico que é problematizar o conhecimento construído, desde que se saiba que as fronteiras produzidas pelos conceitos e categorias são ficcionais.107
Embora não nos pareça útil fixar uma identidade confessional para a Mundial, as insistentes falas do apóstolo e dos bispos no que se refere às diferenças do seu ministério em relação aos outros indicam a preocupação “nativa” com a delimitação de fronteiras identitárias entre a IMPD, IURD e IIGD, principalmente como estratégia de diferenciação que não lhes impute a mesma malquerença dirigida à Universal.
A preocupação, contudo, não é generalizada. Do lado dos fiéis, o tema da identidade não é reivindicado, em parte, porque formam um coletivo diversificado constituído por católicos, evangélicos de outras denominações e, em menor quantidade, por oriundos de religiões afro-brasileiras. Muitos deles são egressos das religiões mencionadas, “desviados” que encontraram conforto na massa de frequentadores da Mundial ou devotos do apóstolo. Em geral, atendem à pregação do apóstolo transmitida pela TV e internet e, embora passem a frequentar as reuniões da IMPD, permanecem em seus grupos de origem. Para os últimos, ir a Mundial representa um recurso, visto que os comentários gerais sobre essa igreja asseguram que o poder de Deus atua mais fortemente nela do que em outras.
Certa feita, uma senhora de 50 anos de idade aguardava ao meu lado por sua colega. Ambas costumavam comparecer às reuniões em dupla, a fim de se sentirem mais à vontade. Ela me dizia que frequentava há 6 meses a Mundial e que saíra da IURD porque na IMPD encontrara a cura. A colega, no entanto, vinha até a Mundial, mas continuava a seguir outras duas: a Igreja Evangélica Preparatória durante a semana e a Católica, aos domingos. Minha parceira de conversa não fazia o mesmo porque considerava isso errado e desde 6 meses se mantinha fiel à Mundial108.A cura pode, então, ser entendida como aquilo que mobiliza os fiéis a permanecerem na IMPD, mas, novamente, não se trata de pensar essa
107 Cf. HARAWAY, Donna. Modest_Witness@Second_Millenium. London: Routledge, 1997, p. 125-274. 108
Em 06 de abril de 2012, Juiz de Fora. A Igreja do Evangelho Preparatório é uma recente denominação pentecostalizada cujo código de conduta e costume se assemelha ao rigorismo da mais antiga e conhecida Igreja Deus é Amor. É interessante que a senhora mencionada transite entre duas modalidades distintas de pentecostalismo e, aos domingos, simbolicamente persevere no ritual católico.
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motivação como se de cunho apenas instrumentalista. Esse pressuposto não problematiza algo da constituição da relação entre religioso e sua divindade, que é a troca. A troca se torna base sobre a qual se erguem outras relações — sociais e econômicas — a partir das quais a existência mesma tem ou não sentido. Portanto, ao falarmos dessa religiosidade como de caráter prático é porque supomos que o simbólico não paira sobre o social, mas o margeia e define, estabelecendo contornos para o fluxo de sociabilidades e se tornando condição de possibilidade para a existência desse sujeito. A perseguição como chave interpretativa, pois, reveste-se de outro sentido.
Entretanto, quando no nível da discursividade teológica se fala de perseguição, o fardo opressivo da recriminação é tido como resultado da animosidade social para com os grupos religiosos e suas crenças, mas, entre adeptos da Mundial, a perseguição é tomada não somente no nível dos argumentos teológicos que expressam preocupação com o processo de construção identitária e, sobretudo, legitimação política. Quem se sente perseguido o sente pessoalmente. Assim, individualmente, sente-se perseguido. Para alguns, não importam tanto os ataques à instituição, mas são caluniosos os ataques contra a fé pessoal que têm e que os conduz a buscar a deus e a realização das suas “promessas” naquela igreja. Promessas que são como garantias para o bem-viver e que, de tempos em tempos, necessitam ser reafirmadas, por isso se transformam em obrigação: a obrigação do testemunho. Eis em ação o tempo mítico e o tempo ritual.
De todo modo, então, caracteriza-se como notável que dentre aqueles que frequentam a Mundial existe uma parcela significativa de crentes que, assim como o apóstolo que seguem, admitem já ter experimentado a vida religiosa em outras denominações ou “ministérios” — predominantemente católicos e evangélicos. Essa presença cristã de católicos e evangélicos egressos ou que ainda mantêm laços com as pertenças de origem, possibilitada pelo aceno positivo aos seus filiados e o deslocamento do discurso bélico, antes dirigido às religiões afro, agora apontado para igrejas neopentecostais, conduz-nos a perguntar pelo tipo de intercâmbio simbólico que se realiza na Mundial.
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