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3  SISTEMAS DE AVALIAÇÃO DE EDIFÍCIOS

3.8   A perspectiva do usuário – o método de avaliação do CBE

Conforme demonstrado anteriormente, diversos métodos para avaliação da sustentabilidade de edifícios vêm sendo desenvolvidos, incentivando, entre outras questões, práticas projetuais

e construtivas consideradas “verdes”. Entretanto, esses métodos, em geral, têm como foco medidas físicas de condições ambientais, uso de energia e outros parâmetros avaliados por terceiros, que não refletem, necessariamente, a percepção do usuário. Uma avaliação sistemática de como esses edifícios afetam seus usuários, raramente é feita (ABBASZADEH et

al., 2006).

De acordo com Roméro e Ornstein (2003), no Brasil ainda é bastante comum o desconhecimento, por parte dos profissionais, do que ocorre no ambiente construído no decorrer do uso, seja em relação ao desempenho físico ou em relação à satisfação do usuário e atendimento das suas necessidades. Pinhal (2002) afirma que essa falta de avaliação dos resultados dos objetos arquitetônicos produzidos, sejam eles satisfatórios ou não, significa ignorar um campo do conhecimento, limitando a capacidade de se elaborar normas essenciais ao desenvolvimento sócio-econômico almejado. Roméro e Ornstein (2003) acrescentam que o levantamento, a análise e as recomendações que podem ser extraídas da etapa de uso dos edifícios conformam uma importante ferramenta de controle de qualidade que pode ser colocada em prática por meio da metodologia de Avaliação Pós-Ocupação (APO).

De acordo com Voordt e Wegen (2005), a avaliação de um edifício depois de colocado em uso, em que são tratados, principalmente, as experiências e requerimentos das pessoas que usam o edifício diariamente, é chamada de Avaliação Pós-Ocupação (APO). Roméro e Ornstein (2003) definem a APO como uma série de métodos e técnicas que, baseadas na análise de diversos fatores (socioeconômicos, de infra-estrutura e superestrutura urbanas dos sistemas construtivos, conforto ambiental, conservação de energia, fatores estéticos, funcionais e comportamentais), diagnosticam fatores positivos e negativos do ambiente no decorrer do uso. E um ponto essencial desse tipo de avaliação é que se leva em consideração não só o ponto de vista dos próprios avaliadores, projetistas e clientes, mas também dos usuários. Nesse sentido, os mesmos autores concluem que a APO tem grande validade “ecológica”, na medida em que são feitas análises, diagnósticos e recomendações sobre objetos em uso, in loco, na escala e tempo reais.

Pinhal (2002) considera o ponto de vista dos usuários fator primário na avaliação de desempenho de edifícios e define esse desempenho como o atendimento satisfatório das funções para as quais se destina o ambiente construído. Ressalta, entretanto, que considerar apenas o conceito de satisfação como critério de avaliação tem suas limitações, porém esse aspecto é essencial na avaliação do ambiente construído.

Segundo Voordt e Wegen (2005), avaliar significa determinar o valor de alguma coisa, o que pode ser diretamente relacionado com determinar a qualidade, ou seja, quanto um produto satisfaz os requerimentos especificados, que por sua vez, devem responder às necessidades dos usuários (cliente final). Apesar de dividirem a avaliação da qualidade em quatro categorias (funcional; estética; técnica; e econômica/legal), esses autores detém o foco sobre a avaliação da qualidade funcional e definem: um edifício funcional deve ser adequado para as atividades para as quais foi planejado, proporcionando eficiência, conforto, saúde e segurança para os seus usuários. Por fim, dividem o conceito de qualidade funcional em nove aspectos:

Facilidade de alcance (inserção urbana) e estacionamento; Acessibilidade;

Eficiência; Flexibilidade; Segurança;

Orientação espacial;

Privacidade, territorialidade e contato social; Saúde e bem-estar físico; e

Sustentabilidade (entendendo-se que aqui os autores se referem à esfera ambiental, já que, do ponto de vista do conceito adotado, todos esses outros itens podem ser abordados pelo termo sustentabilidade em edificações).

Segundo Zagreus e outros (2004), os ocupantes de um edifício são uma rica fonte de informação, principalmente sobre a qualidade do ambiente interno e como este ambiente

afeta seu conforto e produtividade. Como se pôde constatar no item anterior, qualidade do

ambiente interno (ou sua variante para saúde e conforto) é uma categoria avaliada por todos os

métodos de avaliação da sustentabilidade de edifícios, com peso significante, e pode-se também dizer que é a mais diretamente relacionada aos usuários. Sendo assim, a avaliação da percepção do usuário sobre o ambiente que ocupa é uma importante ferramenta de análise do desempenho de edifícios na prática, contribuindo também com retroinformações para projetistas e diagnósticos do edifício para operadores. Por conseguinte, mostra-se como significativo contribuinte na busca por construções mais sustentáveis.

Nesse sentido, o Centro do Ambiente Construído (Center for the Built Environment - CBE) da Universidade da Califórnia, Berkeley, que trabalha informando a indústria da construção sobre novas tecnologias construtivas e técnicas de projeto, desenvolveu um sistema de avaliação da qualidade do ambiente interno de edifícios de trabalho, baseado na web. Via

internet, os usuários são convidados a responder, sem serem identificados, um questionário online que mede sua satisfação e produtividade em nove categorias da qualidade do ambiente

interno: layout, equipamentos, conforto térmico, qualidade do ar, iluminação, acústica, limpeza e manutenção, satisfação geral com o edifício, satisfação geral com o espaço de trabalho (HUIZENGA et al., 2006).

Além desse bloco principal da avaliação, sua estrutura possibilita módulos opcionais e customizações para se aplicar a tópicos especiais (segurança, acessibilidade) e usos (operação, manutenção, suporte para projeto). Além disso, a avaliação pode ser sincronizada com medições físicas feitas no edifício (ZAGREUS et al., 2004).

A medida da satisfação e da produtividade relatada pelo usuário é dada por meio de uma escala de 7 pontos que vai de +3 (muito satisfeito) a -3 (muito insatisfeito), onde o zero é o ponto médio de neutralidade (Figura 12). Caso a pessoa indique insatisfação em relação a um determinado tópico, ela é levada para uma página onde pode identificar, entre algumas possibilidades, a causa de sua insatisfação, além de fazer algum comentário em uma caixa de texto. Se estiver satisfeita, segue diretamente para o próximo item.

Figura 12 - Escala de 7 pontos de satisfação da avaliação do CBE (adaptado de HUIZENGA et al., 2006, p. 393).

Esses dados são classificados como variáveis subjetivas, mas há também alguns dados coletados na avaliação chamados de variáveis objetivas como, por exemplo, sexo, idade, tipo de trabalho, tipo de escritório, proximidade com janelas e paredes externas e outros tipos de controle do ambiente de trabalho (ABBASZADEH et al., 2006).

O método do CBE tem sido usado para avaliar o desempenho de edifícios nos EUA, Canadá e Europa, incluindo edifícios de escritórios, edifícios educacionais, laboratórios, bancos, entre outros. Os principais clientes são organizações industriais e governamentais, além de pesquisadores, operadores de edifícios, proprietários, arquitetos e engenheiros. Zagreus e outros (2004) destacam algumas finalidades e objetivos da avaliação:

Diagnosticar problemas a fim de melhorar o ambiente para os usuários do edifício; Prover informações para aqueles envolvidos no processo construtivo, o que é essencial

para o sucesso de desenvolvimento e melhoria de práticas construtivas e projetuais, principalmente daquelas relacionadas à qualidade do ambiente interno;

Servir como ferramenta de pesquisa, desenvolvendo o conhecimento sobre determinada tecnologia construtiva e como ela afeta o conforto, satisfação e produtividade do usuário;

Comparar a qualidade do edifício em relação a referências de bens imóveis;

Contribuir para o encaminhamento da indústria em direção a espaços de trabalho mais sustentáveis, saudáveis e confortáveis.

Conclui-se, portanto, que a avaliação da percepção do usuário pode configurar importante ferramenta de contribuição para a avaliação da sustentabilidade de edifícios em uso, fornecendo ricas informações sobre a qualidade do ambiente interno, o funcionamento do edifício e como questões sociais são tratadas no ambiente, por exemplo.