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3. FORMAÇÃO HUMANA E SUJEITOS SOCIAIS

3.1 A perspectiva gramsciana nos processos formativos

3.1 A perspectiva gramsciana nos processos formativos

Segundo a concepção gramsciana acerca do conhecimento os homens interpretam o mundo e se reconhecem a partir de suas experiências cotidianas. Nesse processo de produção de subjetividades, estas vão se formando e se transformando na medida em que se apropriam dos elementos das ciências, da arte, da filosofia, da economia, da política e da cotidianidade de suas vidas. Tudo isso se mistura com os determinantes de classe e se expressa nas relações em geral, ou seja, na sociabilidade hegemônica.

A concepção de conhecimento adotada supõe a idéia basilar de Antonio Gramsci de que todos os homens são filósofos, e mesmo os mais simples, interpretam e elaboram a sua vida, tendo, portanto, para o presente algum princípio orientador de seu experimento cotidiano.

Nesse processo, misturam de forma absolutamente desordenada, contraditória e acrítica, um conjunto variado de concepções de mundo.

Nesse quadro, a apropriação destes elementos pelos indivíduos se coloca como contínua possibilidade, se refletindo não só na linguagem como igualmente na sua personalidade e subjetividade, enfim, no conjunto das relações sociais. (SILVEIRA, 2002:32-33).

Há uma reflexão a ser feita no que se refere às formas como são apropriados pelos indivíduos tais elementos de construção subjetiva, no interior dos quais a cultura é uma dimensão essencial. Nessa direção, segundo o próprio Gramsci,

A cultura é uma coisa bem diversa. É organização, disciplina do próprio eu interior, é tomada de posse da própria personalidade, é conquista de consciência superior pela qual se consegue compreender o próprio valor histórico, a própria função na vida, os próprios direitos

e os próprios deveres. Mas tudo isso não pode acontecer por evolução espontânea, por ações e reações independentes da própria vontade, como acontece na natureza vegetal e animal, em que cada coisa seleciona e especifica inconscientemente os próprios órgãos por lei fatal das coisas. O homem é sobretudo espírito, isto é, criação histórica e não natureza.(GRAMSCI, 1978:83).

O processo de formação humana articula esse conjunto múltiplo e diferenciado de dimensões. A importância que se pretende atribuir aqui aos processos formativos está fundamentada nessa concepção de cultura e sua relação com a formação dos processos subjetivos.

Nessa perspectiva não se pode prescindir de uma referência, ainda que breve, às formas através das quais se conhece _ compreendendo e interpretando _ a realidade. Assim como desconsiderar a presença da educação na sua variedade de sentidos e componentes agregadores, estabilizadores e transgressores, ou ainda, potencializadores de práticas individuais e sociais (SILVEIRA, 2002: 32)

Gramsci aponta a crítica à cultura dominante como um dos elementos de conformação das consciências no interior das classes subalternas. Nesta crítica considera-se primordialmente o desvendamento daquela cultura como um instrumento de ação prática, ou seja, uma ideologia política. O conceito de ideologia, no sentido gramsciano, está relacionado às formas de visão e de organização de mundo, o que supõe um conjunto de normas e idéias que orientam a ação dos sujeitos para atuarem sobre a realidade.

Para a realização de tal crítica, na luta que se dá entre diferentes modos de ver a realidade, destaca-se a importância de se valorizar o “senso comum”, não em si mesmo como visão fragmentada e acrítica do real, mas como ponto de partida efetivo da concepção de mundo presente nos sujeitos. A hegemonia expressa regras e leis que têm sido incorporadas universalmente na sociedade burguesa, como ideologia que se mantém. A educação voltada para o consenso social a supor a incorporação acrítica de valores e concepções de mundo é um dos componentes centrais na sociedade capitalista na perspectiva de sedimentação da visão e valores burgueses.

Valorizar então o “senso comum” como ponto de partida para a crítica, traz não apenas a questão da organização de grupos, mas principalmente a da formação e da reflexão em torno da realidade existente e de alguma forma, fetichizada.

O enfrentamento do senso comum a implicar a problematização das relações existentes é um desafio posto às classes subalternas. Nessa direção,

...nas relações que estão postas na sociedade, estas tendem a aparecer para a maioria das classes subalternas na qualidade de algo perfeitamente natural, não comportando, dessa feita questionamentos significativos em relação à estruturação da organização social. Dessa maneira, essa vai tender a ser vista por tais classes, com o atributo da permanência e da normalidade. Nesse contexto, o mais comum é o predomínio de reações de defensividade e rejeição perante as propostas de alteração do estabelecido, quando não sujeitas a uma interpretação de violência, desestabilização e perda. O verdadeiro caráter violento e classista do ordenamento capitalista permanece obliterado.(SILVEIRA, 1998:130).

Fazer a crítica e o desvendamento da cultura hegemônica pode ser entendido como compreender a lógica que impera na sociedade a fim de buscar superá-la. A tentativa de ultrapassar o senso comum em direção ao bom senso, pode implicar o surgimento de novas construções subjetivas. O projeto de hegemonia para a criação de uma nova civilização e de uma nova cultura está diretamente relacionado à criação de um novo tipo de homem. Está vinculado à construção de uma racionalidade distinta daquela racionalidade dominante, de uma nova concepção de mundo e de vida. A criação de um novo homem, porém, não é algo imposto, mas construído. Como a formação teórica poderia vir a contribuir nesse processo?

Ao trabalhar com o conceito de hegemonia tanto no sentido de direção como no de domínio, Gramsci está a considerar este aspecto efetivo da violência do capitalismo e, portanto, da necessidade das classes subalternas fazerem frente a esta face coercitiva – e real – do processo de dominação. Assim, esta “naturalidade e passividade”

presentes no ordenamento burguês, a “contagiar” os setores subalternizados, supõem a presença e eficácia do convencimento; no entanto, também presente e a este complementar de forma absolutamente necessária, encontra-se a coerção. Reconhecer tais presenças e sua intervenção no processo de ordenamento social é tão relevante quanto elaborar o seu próprio processo de constituição das forças que intentam ser dirigentes e dominantes e, portanto, portadoras de um outro projeto já em construção. (SILVEIRA, 1998:130).

A hegemonia não se limita, portanto, ao domínio político e ideológico de uma classe sobre a outra, no qual a presença da dimensão de consenso implique o apagamento das lutas e dos conflitos existentes no interior da sociedade civil.

Se hegemonia significa a crítica real de uma filosofia ela só pode ser pensada e articulada como projeto político capaz de construir a identidade da classe hegemônica, ou candidata à, de permanentemente redefini-la, de articular a partir dessa identidade o seu projeto de significação da história , significação que terá que se construir no processo da luta. (DIAS, 1996:33)

Gramsci, em sua reflexão sobre a construção da hegemonia refere-se também a outras formas de construções ideológicas que criticam e rejeitam a racionalidade dominante burguesa. O pressuposto do trabalho de desconstrução hegemônica estaria na busca de um conhecimento com capacidade de potencializar concepções que organizem a prática de grupos subalternos. Tal processo se constitui em trabalho de construção político-teórico relacionado ao sentido de “elevação” das classes subalternas numa perspectiva espiritual e de constituição de sentidos, a implicar relação com o plano da materialidade, sem no entanto a esta estar subordinada.

Superar o “senso comum”, segundo Gramsci, envolve o rompimento com a cisão entre os intelectuais e os “simples”, no sentido de tornar coerentes os princípios e os problemas postos pelas classes subalternas em sua atividade prática, de forma orgânica.

Significa romper com o paternalismo, com a tutela e com a noção de que uma verdade externa deve ser assimilada pelos subalternos. O trabalho de construção de um pensamento superador do senso comum junto às classes subalternas e a elevação das mesmas a níveis superiores de cultura é visto por Gramsci como possibilitador de construção de nova hegemonia.

Com base no pensamento de Gramsci, está a se afirmar que a passagem de uma classe subalterna à posição de hegemônica requer a tomada de posse de si mesma, enquanto coletividade; requer a construção de uma vontade coletiva, a atribuição de sentidos coletivos no seu processo de organização. Mas a elaboração desta vontade não é uma fatalidade, algo que necessariamente ocorrerá. A hegemonia gramsciana supõe construção subjetiva e esta também se conforma nas relações postas na dinâmica da vida social.

No esteio do pensamento de Marx, Gramsci refere-se à transformação das estruturas materiais pela ação consciente dos homens, embora esta possa ou não viabilizar uma certa realidade histórica. Não há um determinismo no pensamento de Gramsci, no sentido de que necessariamente a construção subjetiva crítica venha a desembocar em consolidação de uma outra hegemonia, outra sociedade e um novo homem. Para ele, a possibilidade de uma nova ordem societária supõe a presença ativa destas forças subjetivas em movimento.

Neste processo de práxis, na organização de uma vontade coletiva requer a avaliação permanente dos momentos de sua totalidade – níveis de organização das classes sociais e das forças sociais e graus de consciência no interior das mesmas -, na

busca por compreender a combinação de suas formas de estruturação. O conhecimento das formas de estruturação e sua articulação com a conjuntura em dado momento, pode indicar maior ou menor grau de possibilidades de intervenção na realidade social.

Torna-se fundamental na conjuntura a ser investigada, a análise da correlação de forças, para entender o “ocultamento da dominação política determinando negativamente a tomada de consciência dessa dominação pelas classes subalternas (...) a construção de sua identidade, de seus projetos”(DIAS, 1996:15). A concepção de mundo burguesa está presente nos diversos espaços da sociedade, atravessando o conjunto das instituições nela presentes e reproduzindo mecanismos ideológicos. Esse “ocultamento da dominação política” foi apontado por Gramsci como uma particularidade da sociedade capitalista juntamente com a liberdade individual aparente: “É pela supressão máxima da liberdade (compra-venda da força de trabalho/exploração) que se cria a individualidade política que permite o ocultamento da dominação (elaboração do consenso)” (GRAMSCI APUD DIAS, 1996:16).

A correlação de forças, segundo Gramsci, se dá em três momentos não lineares.

O primeiro aponta para a estruturação econômica da sociedade em classes. As classes existem como uma relação de forças objetiva e independente da vontade dos homens.

Essa estruturação levou ao surgimento de contradições no interior da sociedade capitalista. A classe burguesa vem mantendo sua hegemonia através do consenso que busca produzir na sociedade. A partir de aparelhos ideológicos – escolas, igrejas, instituições, mídia _ nos termos de Gramsci, há uma difusão de valores que tendem a forjar a consciência social mantendo e reproduzindo o projeto de sociabilidade vigente.

O segundo momento envolve a dimensão em que as classes subalternas, ao se depararem com as contradições da sociedade, podem elaborar uma inicial forma de consciência política coletiva, ainda que implicada em ganhos imediatos ou numa perspectiva corporativa. Contudo, os graus de identificação desta consciência podem variar do nível corporativo – limitando-se a satisfazer apenas os próprios interesses _ , passando pela classe que se inclui na igualdade político-jurídica com outros grupos dentro da política existente. Há, ainda, o momento “especificamente político” em que a consciência política coletiva atinge graus de interesse que superam a dimensão econômica e corporativa, passando as classes subalternas a priorizar e a lutar por questões de caráter ético e político abrangentes a toda a sociedade. Neste momento de correlação de forças, uma ideologia ou uma combinação delas tende a prevalecer. Ao difundir-se na sociedade, passa a determinar não apenas a unicidade dos fins

econômicos e políticos como também a unidade intelectual e moral, tornando-se hegemônica. Enfim, o terceiro momento seria o militar em seus aspectos técnico e político, o qual se manifesta em situações limites.

A existência de qualquer racionalidade supõe subjetividades. Embora a subjetividade se constitua na coletividade, esta refere-se a construção complexa de personalidade individual e única nos sujeitos. No pensamento de Gramsci fica claro que o sentido de organização implica também auto-organizar-se, olhar para si, exercer permanentemente a crítica, a própria consciência dos sentidos para a vida. É a disciplina interior e não aquela imposta por algo externo. O esforço coletivo de construção de uma outra racionalidade é alcançado através de esforços individuais concretos a partir de personalidades singulares. Esse trabalho de construção subjetiva interna de indivíduos diversos pode formar uma coletividade.

A classe como “unidade na diversidade” é especificada, ela própria, pela autonomia dos indivíduos que a compõem. Pensá-la como matriz única a partir da qual se constituem os indivíduos como sua repetição ao nível micro é não entendê-la como produto da multiplicidade desses indivíduos. A classe é, portanto, um coletivo de indivíduos.

Coletivo que deve ser enriquecido pela história empírica desses indivíduos enquanto construtores da(s) racionalidade(s) social(ais).

(DIAS, 1996:39)

É primordial ressaltar essa questão para não cair no economicismo que acaba por negar as “expressões de vontade, de iniciativa e de ação política e intelectual, como se estas não fossem uma emanação orgânica das necessidades econômicas e, mesmo, a única expressão eficiente da economia”. (GRAMSCI APUD DIAS, 1996:40)

É perfeitamente possível que os elementos de subjetividade presentes no sujeito da contemporaneidade, citados no capítulo anterior, encontrem-se presentes em maior ou menor grau, nos sujeitos que ocupam espaços de resistência. Em meio às contradições presentes nas construções subjetivas convivem elementos de ênfase na cultura individualista ou valorização do consumo e elementos de resistência aos valores instituídos. Portanto, conhecer-se hoje, requer reconhecer em si tais elementos e incorporá-los à crítica. Há que se considerar no interior das contradições subjetivas, a busca pelo fortalecimento de elementos de humanidade que possam estar obscurecidos pela lógica dominante.

Vincular a construção de hegemonia a uma coletividade composta por sujeitos concretos dispostos a tomar o senso comum como ponto de partida para suas indagações e permanente construção subjetiva, supõe um referencial capaz de abarcar a problemática das questões que os envolvem. E, principalmente, supõe que estes sujeitos possam sintetizar tais questões à luz daquele referencial, como instrumento de superação.

Nos processos de formação humana, há um investimento no sentido de que possa emergir nos sujeitos esse auto-conhecimento. Recorrendo a Silveira (1998), quando se refere ao sujeito da contemporaneidade, têm-se um melhor entendimento dessa questão:

...consiste em vislumbrar neste sujeito fragmentado , imerso em situações particulares, crenças, símbolos, vontades dispersas, características do senso comum, a também presença recalcada , de elementos valorativos, práticas, percepções, e intuições que podem ser potencializadas, tornadas bom senso, a partir de um outro OUTRO: uma cultura coletiva, referência distinta que, para além da interpelação, seja capaz de possibilitar a criação de laços de solidariedade a substituir o vácuo, o conformismo e a indiferença das subjetividades abstratas, descontextualizadas e fundadas no prisma individual; cultura que “produz”, também, uma subjetividade coletiva, contextual, a repor como dimensão possível da existência individual-social, a perspectiva da emancipação. (SILVEIRA, 1998:21)

As práticas de formação intelectual, política e humana, que supõem apropriação crítica da teoria, surgem como uma possibilidade real de desenvolvimento dos processos de consciência, de elaboração e afirmação de valores éticos, de construção e gestão de projetos coletivos. Fazendo referência ao pensamento de Gramsci e sua idéia de desenvolvimento das condições “intelectuais e morais” das classes subalternas, a autora esclarece:

Esta dimensão repõe com qualidade nova o lugar das classes trabalhadoras neste processo em termos de sua efetiva participação e, mais que isto, sinaliza para a importância do desenvolvimento de uma consciência histórica da realidade, com capacidade de fecundar as possíveis ações políticas. Tal concepção histórico-crítica impõe em sua singularização, a inclusão de um conjunto de componentes que possam favorecer a formação da personalidade dos trabalhadores. Esta vai supor, portanto, uma construção histórica dos processos subjetivos.

Esta relevância dos sujeitos históricos, explicitada por Gramsci, vai implicar na valoração da própria constituição desses sujeitos na qualidade de personalidade, vontade e processo organizativo, num movimento real de construção de um novo “bloco histórico”.(SILVEIRA, 2002:38)