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A perspectiva interdisciplinar em planejamento e gestão de programas

1 INTRODUÇÃO

2.2 Políticas públicas e as áreas urbanas pobres

2.3.3 A perspectiva interdisciplinar em planejamento e gestão de programas

eficiente da metodologia em questão.

Conclusão

Em linhas gerais, os modelos de planejamento mais adequados ao saneamento básico em áreas pobres contemplam uma visão participativa, organizacional e integradora em termos das interfaces comunidade – equipe técnica – poder público. Um enfoque assim embasado apresenta maiores chances de sucesso, haja visto as dificuldades normalmente encontradas pela abordagem convencional para o atendimento daquelas áreas com serviços de saneamento básico. Conforme observa Lobo (2003), de forma distanciada da realidade os técnicos assumiam o papel de apenas elaborar a melhor solução técnica. Na falta de recursos para implementá-la, o problema era transferido para a esfera governamental, sem levar em conta a possibilidade de adoção de soluções alternativas e apropriadas aos recursos disponíveis. Com a mudança nesse paradigma assistencialista e unilateral, torna-se oportuna a construção conjunta de soluções, em um processo em que a comunidade beneficiária passa a ser sujeito e objeto das intervenções sendo planejadas e discutidas, a partir de uma realidade local melhor conhecida por todos os atores envolvidos.

2.3.3 A perspectiva interdisciplinar em planejamento e gestão de

programas de SBAUP

Conforme abordado no Capítulo 1, item 1.2.5, a abordagem convencional de engenharia não logrou êxito na implantação de sistemas adequados de saneamento

básico nas AUPs. Além da diferenças flagrantes entre os padrões de arruamento e disposição dos lotes nas AUPs, uma outra explicação reside no fato de tratar-se de uma abordagem baseada apenas em uma disciplina, no caso a engenharia de obras públicas em áreas urbanas convencionais. Tal abordagem carecia de domínio suficiente de conhecimentos da realidade complexa que pretendia transformar.

Ao agregar profissionais de outras áreas de formação, como a de serviço social e de saúde pública, os programas de SBAUP evoluíram para uma abordagem multidisciplinar, em que, sob uma coordenação única, diferentes disciplinas focalizam um problema, mas ainda sem integração entre si e cada qual com seus métodos e linguagens diferentes. Nessa abordagem, a realidade das AUPs passava a ser melhor conhecida, porém com cada área profissional realizando sua leitura e produzindo concepções específicas acerca de estratégias e alternativas de trabalho para lidar com a realidade.

Para a abordagem interdisciplinar de um problema, conforme Silva (2000, p.73), as etapas principais podem ser identificadas como: (a) a constituição do grupo de trabalho, preferencialmente de forma institucional, para garantia de sua estabilidade; (b) o estabelecimento de conceitos-chave, constituindo o domínio linguístico mínimo; (c) a formulação do problema a ser trabalhado, a partir dos universos disciplinares presentes; (d) a organização e repartição de tarefas e produção disciplinar de conhecimentos e (e) a apresentação de resultados disciplinares e discussão pela equipe.

Considerando a complexidade físico-social normalmente encontrada nas áreas pobres, em que qualquer proposta de implantação de sistemas de saneamento básico enfrenta desde a dificuldade na determinação de parâmetros norteadores dos projetos (ex: tendências quanto à população e abrangência espacial a médio e longo prazo) até a própria receptividade da comunidade (com frequência indiferente ou até contra as intervenções propostas), a abordagem interdisciplinar se faz oportuna e necessária.

Nas primeiras intervenções em áreas pobres, engenheiros e arquitetos eram os profissionais alocados, a partir de sua atuação usual no espaço urbano ordenado. As atividades de levantamentos, concepção e execução dos projetos em programas de SBAUP se referiam predominantemente às obras nas comunidades, geralmente em caráter de emergência ou de extensão de obras públicas vizinhas. Ao longo de várias experiências, verificava-se a diversidade física e sócio-econômica daquelas

áreas comparativamente à cidade formal, ordenada. A interação da equipe técnica com os moradores era inevitável e mesmo necessária, pois do contrário em muitos casos ficaria inviabilizado o próprio acesso aos locais de intervenção. Engenheiros, arquitetos, topógrafos e funcionários de empreiteiras não tinham a capacitação para a implantação de obras em áreas sem os padrões urbanos usuais (em que as interferências com os moradores e os espaços de atuação, ruas, passeios etc, não se encontram normatizados em códigos de obras e de posturas municipais).

Face a essas dificuldades, e para facilitar a comunicação com as comunidades, as ações de saneamento em áreas pobres passaram a contar com assistentes sociais, pedagogos e médicos, dentre outros profissionais. Como vantagem, esses profissionais com frequência eram elementos já atuantes nas áreas de intervenção, em assistência à saúde, ensino, ou outras atividades. Assim sendo, facilitavam o acesso à comunidade, já dispondo de conhecimentos prévios sobre sua cultura, linguajar, organização etc. Contudo esses profissionais naturalmente não dispunham de mínimos conhecimentos em relação às dinâmicas envolvidas no planejamento e implantação de obras de infra-estrutura em comunidades carentes. Assim, sua abordagem ficava delimitada dentro das perspectivas convencionais de suas áreas de formação, ou seja, o atendimento e orientação médica, a assistência social com informações e encaminhamento às instituições de referência.

No trabalho de transformação de hábitos de higiene, participação e cooperação com as equipes de obras, ficava patente uma dificuldade de comunicação entre os setores de engenharia, de trabalho social e com a própria comunidade. Isto ocorria devido à falta de conhecimento recíproco dos modos de operação e interação prévia entre as equipes. Assim, a simples reunião de profissionais de áreas distintas (caracterizando a equipe multidisciplinar) não resultava em uma equipe com posturas coerentes e propostas coesas, pois eram grandes as dificuldades de diálogo. As causas poderiam ir da especificidade linguística até as diferentes visões de mundo e na forma de operacionalização de ações, características de cada área profissional. Como resultante, eram comuns as dificuldades de diálogos construtivos e os trabalhos mais assemelhados a “colagens” de diversas propostas, com conflitos terminológicos e sem unidade. Ficava patente a necessidade de novo enfoque na formação e integração de equipes para atuação em programas de melhorias urbanas em áreas pobres. Conforme Floriani (2000, p. 106), "A interdisciplinaridade não existe de antemão. Não nasce por decreto."

Evidentemente, a necessidade de formação interdisciplinar se estende também a própria formação de cada profissão, o que entretanto foge ao escopo principal proposto para a presente pesquisa.

Segundo Japiassú (1976:74),

a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas... Podemos dizer que nos reconhecemos diante de um empreendimento interdisciplinar todas as vezes em que ele consegue incorporar os resultados de várias especialidades, que tomar de empréstimo a outras disciplinas certos instrumentos e certas técnicas metodológicas, fazendo uso dos esquemas conceituais e das análises que se encontram nos diversos ramos do saber.

Com essa concepção, a exemplo de outros conceitos de mesma natureza trabalhadas por diversos autores, a perspectiva interdisciplinar se apresenta como necessidade emergencial na abordagem dos programas de saneamento básico em áreas pobres. Conforme Mara (2000, p. 209), a idéia central nesses programas é a existência de uma equipe interdisciplinar que possa interagir de forma sensível e adequada com a comunidade. Tal interação poderá então produzir sistemas de saneamento que sejam tecnicamente viáveis, econômica e financeiramente acessíveis e aceitáveis em termos sócio-culturais.

Conforme exemplificado nos parágrafos anteriores, as abordagens limitadas a concepções exclusivas da engenharia, de trabalho social ou de saúde pública, por exemplo, por si só não logravam êxito na efetivação de melhoras em infraestrutura acompanhadas de mudanças de hábitos e atitudes nas populações envolvidas. Além disso, a postura técnica muito restrita ao âmbito de cada área profissional, ainda que numa equipe composta de diversas formações, constitui fator dificultador para a construção de alternativas de intervenções adequadas e eficientes em comunidades pobres, tipicamente de grande complexidade física e social.

A perspectiva interdisciplinar será assim considerada no desenvolvimento da tese, procurando-se a identificação de técnicas e elementos que facilitem a utilização efetiva dessa abordagem quando das concepções de projetos, formação e capacitação de equipes de trabalho e desenvolvimento de interfaces facilitadoras do processo de assimilação de valores e hábitos pelas comunidades envolvidas.

3 PANORAMA INTERNACIONAL DO SETOR DE SBAUP