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A perspectiva sociointeracionista sobre a atividade de escrita

CAPÍTULO 2 REFLEXÕES SOBRE PRODUÇÃO DE TEXTOS

2.3 A perspectiva sociointeracionista sobre a atividade de escrita

Schneuwly se apresenta como um pesquisador neo-vygotskiano que busca redefinições e releituras da linguagem, de seu funcionamento e de suas relações com o pensamento. Em seus procedimentos, este autor adota a perspectiva bakhtiniana relacionada com os construtos psicológicos vygotskianos.

Schneuwly (1998) dá especial importância aos parâmetros da interação social, que são compostos pelo lugar social do escrevente, pela finalidade da atividade de linguagem e pelas relações entre o enunciador/destinatário. Assim, a produção de textos deixa de ser encarada apenas como dependente da cognição individual do produtor e passa-se a considerar a interação social.

Ao realizar essa mudança de foco, o referido autor defende que a situação de enunciação ou a situação social de produção seja determinante para o escrevente, pois ele precisaria, no ato de produção de textos, criar uma base de orientação geral para a atividade de linguagem.

Essa base de orientação geral é entendida pelo autor como sendo o conjunto de representações, portanto, a situação interna, criada a partir do contexto de interação. Essa seria modificável à medida das necessidades e das mudanças do contexto social e material da atividade, ou seja, seria uma construção da representação da situação de produção baseada nos parâmetros da interação social. O próprio lugar social do autor, como as suas relações com seu (s) interlocutor (es) e a finalidade da enunciação, segundo o autor citado, são parâmetros fundamentais que deverão ser representados pelo enunciador na situação de produção.

Ao construir essa base de orientação, o enunciador determinará (e controlará, ao longo do processo) as formas de gestão do texto, bem como sua linearização. A gestão textual, desse modo, envolve:

A ancoragem – se apresenta como sendo uma forma central e inicial da gestão do texto que determina as formas variáveis de planejamento;

O planejamento - envolve em sua operação tanto a ativação, a organização e a seqüencialização dos conteúdos como sua estruturação lingüística, adequada a um modelo de linguagem ou plano de texto, escolhido em função da interação social, [que] garante a forma lingüística global.

Para Schneuwly, esses dois processos mantêm forte interação. O primeiro é representado pela referencialização. Para definir essa operação, Schneuwly recorre ao conceito postulado por Culioli (1976), que aponta que a referencialização está bastante relacionada com a lexicalização, que se apresenta como a produção de enunciáveis, de núcleos predicativos, ou como a criação de estruturas de linguagem iniciais mínimas que entram em interação com operações dependentes do contexto ou do co-texto.

O segundo processo é a textualização, que envolve três outras operações: a coesão, a conexão e a segmentação e a modalização. Cada uma dessas operações comporta subconjuntos específicos de operações para realizar a função que lhe é própria e se realiza por meio de categorias particulares de unidades lingüísticas. A textualização não atua no nível global, mas no nível local do encadeamento textual (mais uma vez sendo determinada pelo contexto e co-texto), suportada pelas unidades produzidas na referencialização. Schneuwly, através desse modelo teórico, observa alguns aspectos. O primeiro se refere a uma ênfase nas formas da linguagem (composicionais, lingüísticas e semânticas) e do discurso (enunciado). Outro aspecto que merece destaque são as determinações da interação e da enunciação, que são constantemente consideradas na proposta de Schneuwly. O terceiro aspecto destacado por este autor versa sobre um modelo de determinações múltiplas em complexa interação capaz de recobrir múltiplas situações de produção de textos, inclusive a escolar ou acadêmica.

Diante do exposto, podemos observar que a proposta de Schneuwly (1998) apresentou um grande avanço em relação às propostas de Flower e Hayes (1980) e Scardamalia e Bereiter (1986), já apresentadas nesse estudo. Enquanto o modelo teórico de Flower e Hayes defende uma visão universalista e unilateral do processo de produção de textos, e o modelo de Scardamalia e Bereiter defende a interdependência entre a produção de idéias e a textualização, apenas, e via de regra, em situações de escrita por produtores experientes, Schneuwly, diferentemente dos autores citados, defende que é a construção de uma base de orientação que determina diferentes modos de construção textual, num constante movimento de reelaborações decorrentes dos modos como os conhecimentos e experiências pregressas vão sendo representados durante a situação de escrita.

Para concluir, destacamos que Schneuwly considera que os modelos textuais (ou gêneros discursivos) seriam instrumentos culturais adotados pelos indivíduos, no momento da escrita, em decorrência das representações acerca da situação de interação. Assim, os conhecimentos sobre os gêneros discursivos e sobre as práticas de linguagem seriam mobilizados no momento da ancoragem e no planejamento contínuo do texto. Assim, tanto os procedimentos de escrita relacionados à revisão em processo, com retomadas e alterações dos textos, quanto os procedimentos de resgate dos conhecimentos sobre os temas e sobre os modelos textuais disponíveis no intertexto seriam intrinsecamente ligados à construção da base de orientação.

Rojo (1992), em pesquisa realizada com 10 crianças do ensino fundamental (2ª a 4ª séries) de uma escola privada da capital de São Paulo, identificou protocolos que evidenciaram estratégias que mostravam a coordenação entre a produção de idéias e a

textualização durante a escrita de textos narrativos em situações de escrita livre. É importante destacar que, nesse estudo, Rojo adota o modelo de produção de textos de Schneuwly (1998), resenhado anteriormente.

A partir da análise dos protocolos das crianças e dos modelos correntes de processamento em produção, a autora apontou quatro tipos de operações adotadas pelos sujeitos:

Planejamento prévio – pelo menos uma grande parte do texto é planejada, gerada e organizada previamente à sua execução.

Planejamento on-line – o sujeito ativa inicialmente conhecimentos (“idéia” inicial) e depois vai planejando à medida que executa o texto.

Planejamento por enquadramento (envisionment) – o sujeito planeja e executa uma porção textual maior e, a partir deste enquadramento textual prévio, vai planejando as partes seguintes.

Planejamento por categoria superestrutural – o sujeito planeja porções textuais que correspondem às categorias de planejamento on-line e por enquadramento e, em seguida, as executa, tendo, assim, a superestrutura narrativa papel de controle ou monitoração do processo de planejamento e organização.

Nos dados obtidos, Rojo (1992) aponta a inexistência de planejamento prévio do texto como um todo, havendo, no entanto, um grande predomínio de planejamento do tipo on-line (50% da amostra). A metade dos depoimentos dos alunos indicava “a ativação de uma idéia que correspondia ao título, e o início imediato da execução do texto”. As idéias que surgiram depois foram sendo ativadas no decorrer da execução. Na 4ª série, no entanto, houve o predomínio de planejamento por enquadramento. Apenas um aluno apresentou um planejamento por categoria superestrutural.

Os resultados desse estudo apontam para uma diversidade de processos ativados pelos sujeitos dos anos iniciais do Ensino Fundamental, diversidade esta que, entretanto, é regida por algumas formas recorrentes de processamento do discurso narrativo escrito. Principalmente, chamam a atenção o planejamento por enquadramento e o processo de criação do caráter narrativo como detonador, na maioria dos casos, do restante do processo de produção.

Outra constatação observada por Rojo foi a utilização de diferentes estratégias pelas crianças, prevalecendo aquelas em que eles gradativamente decidiam sobre o trecho que seria

escrito. Em suma, a autora defende que as crianças são capazes de coordenar diferentes ações durante a feitura do texto e que o planejamento permanece em todo o processo.

Rojo aponta que a linearidade de processamento defendida por Flower e Hayes é aqui substituída por um processo de superação dialética de lugares do sujeito durante o processamento textual. Para maior aprofundamento na temática específica desta pesquisa, passaremos, a seguir, a refletir sobre as capacidades de produção de textos da ordem do argumentar.