2. Saúde Mental e Envelhecimento
2.2 A Perspetiva Psicológica do Envelhecimento
O equilíbrio psíquico do idoso irá depender da sua capacidade de adaptação à sua existência e com as condições que o meio lhe oferece. ”Envelhece como se viveu” (Ballone, 2004:5). Ao nível psicológico são as sucessivas crises pelas quais o idoso passa que alteram as suas características psicológicas. (Fonseca, 2004).
O envelhecimento é afetado pelos modos de vida e embora não possa ser evitado, pode ser retardado através de atividades físicas, cuidados com a alimentação, apoio psicológico e estimulação mental. O envelhecimento psicológico é a diminuição das faculdades psíquicas e físicas, originando ao idoso por vezes um sentimento de inadaptação ao meio, perda de objetivos de vida e até um afastamento e isolamentos dos familiares e amigos surgindo sentimentos de solidão e de inutilidade para o idoso. Para (Mestre, 1999). Algumas mudanças psíquicas que ocorrem no idoso que podem dificultar a sua adaptação aos novos papéis, nomeadamente, falta de motivação, dificuldade em se adaptar às mudanças, baixa autoimagem e autoestima. (Zimerman, 2000).
Por outro lado, estudos indicam que os mais velhos são menos impulsivos e menos afetados pela ansiedade e que tem um maior controlo emocional. (Lima, 2004).
Durante o envelhecimento psicológico perde-se algumas capacidades cognitivas (rapidez de aprendizagem e memória) muitos deles devido ao desuso (falta de prática), a doenças, o uso de medicamentos e álcool, falta de motivação e confiança em si ou devido a fatores sociais como a solidão, no entanto também se obtêm ganhos nomeadamente a nível da sabedoria, conhecimento e experiência. (OMS, 2002). Saber superar as adversidades, adaptar-se às mudanças do envelhecimento, saber preparar-se para a reforma irá determinar o processo de envelhecimento. (OMS, 2002).
No decurso da vida a personalidade da pessoa é submetida a várias perturbações. Se o idoso se adapta mal, ou se nem sequer se adapta às mudanças, quando o seu meio interno e externo sofrem grandes alterações surge a tendência para se acomodar. (Levet, 1995:98) Segundo o autor, é natural que os problemas psicológicos ou emocionais dos idosos passem despercebidos, pois são facilmente tidos como inerentes ao processo de envelhecimento. No entanto os próprios indivíduos podem não ter vontade de procurar
ajuda ou revelar os seus sentimentos a outros, com medo de serem estigmatizados, ou por falta de conhecimento das ajudas que possam ter disponíveis. ( Squire, 2005).
A saúde psicológica dos idosos evoca muitas vezes uma imagem muito negativa: na melhor das hipóteses perda de memória e confusão e, na pior das hipóteses a senilidade. O que afeta a condição psicológica do idoso, em primeiro lugar, é a perda dos vários papéis que tem tido ao longo de toda uma vida, esta perda sucede progressivamente e é irreversível. Em geral, o primeiro papel que desaparece é o dos pais. Claro que se continua a ser pai e mãe independentemente da idade dos filhos, mas não há comparação entre os pais de uma criança e os pais de um adulto. Salvo algumas exceções (doenças), todas as evoluções sociais ligadas a este papel desaparecem, deixando um vazio doloroso – “complexo do ninho vazio”, particularmente difícil de ultrapassar pelas mães “donas de casa”.
O segundo papel a ser abandonado é o de profissional e surge em idades diferentes para os assalariados ou para os trabalhadores independentes. Para os assalariados a reforma corta sem contemplações a organização do tempo, os recursos e as relações sociais. Esta passagem também pressupõe para alguns a perda de outros papéis que com eles estavam articulados: sindical, social e político. Por fim o último papel que desaparece e que acaba por dar uma tonalidade triste ao fim da vida, é o de cônjuge, sendo que a viuvez arrasta consigo e instaura a solidão afetiva e sexual. (Levet, 1995).
O bem-estar emocional abrange o sentir-se bem consigo mesmo, ter a capacidade de lidar com a tensão e stress e, sentir que se tem controlo. Apesar destes atributos estarem poucas vezes à disposição dos idosos, é importante ter em consideração que o sentimento de controlo desta população é frequentemente comprometido. Se os idosos sentirem que não têm controlo sobre a sua deterioração física e mental, provavelmente reduzem as suas atividades e mecanismos de adaptação e acabam por desistir. Os problemas psicológicos nos idosos podem ser agravados pelas mudanças fisiológicas, doenças crónicas, medicação e má nutrição. (Paúl, 1997).
A autora refere ainda que, a confiança também poderá ser abalada por dificuldades de locomoção, problemas auditivos e de visão chegando nalguns casos a contribuir fortemente para o isolamento social. Tarefas outrora consideradas fáceis e rotineiras podem acabar por se tornar extenuantes para os idosos.
O comportamento dos idosos é tido como um todo, em que uma alteração no sistema biológico, um agravamento de uma deficiência sensorial ou motora, o desaparecimento de um ente querido da sua rede social de apoio se confundem com uma disfunção do humor, apatia ou perda de capacidades cognitivas.
Victor (1989, cit. Por Squire, 2005) descreveu a demência como sendo uma diminuição global das funções mentais superiores, perda de memória, incapacidade para resolver problemas, perda de capacidades aprendidas, perda de capacidades sociais e de controlo emocional. As causas mais comuns de demência são:
Doença de Alzheimer (morte das células cerebrais e consequente atrofia do cérebro);
Enfartes cerebrais múltiplos (causam danos no córtex cerebral, que é a área associada à aprendizagem, memória e linguagem);
Deficiência de vitamina B12 (ajuda a manter a saúde do seu cérebro e é responsável pela criação das suas células, a sua carencia causa falhas de memória);
Coreia de Huntington (é um distúrbio neurológico hereditário caracterizado por causar movimentos corporais anormais e falta de coordenação, também afetando várias habilidades mentais e alguns aspetos de personalidade).
Para o autor, o bem-estar psicológico pode ter um efeito protetor na saúde física. Existe uma correlação entre o aumento das taxas de morbilidade mortalidade dos idosos e a redução no contato social. Existe uma menor probabilidade dos indivíduos adotarem comportamentos ditos saudáveis se o contato social é escasso ou mesmo inexistente. (Squire, 2005). Na perspetiva do mesmo autor, todas as perdas relacionais são sentidas como que uma agressão que necessita de mobilização de energia e de ajustamento a um novo contexto de sociabilidade. Procura-se um novo equilíbrio e tem-se uma nova perspetiva de si mesmo.