“Isso é problema deles. Se pegar doença é problema deles. Eu não defendo políticas públicas, dinheiro do povo, para tratar essa gente depois que contraí a doença com esses atos. Tem que atender no caso de infortúnio, não quem toma ‘pico’ na veia ou vive na vida
‘mundana’” (BOLSONARO, 2010, online).
A fala do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, foi feita em 2010, quando ele era Senador Federal, durante o programa Custe o Que Custar (CQC). O político, no momento desta pesquisa, se encontra na Presidência da República. O vídeo em que Bolsonaro comenta isso foi adicionado à rede social YouTube, no dia 30 de novembro de 2010, na conta do filho, Eduardo Bolsonaro.
O discurso do vídeo traz o reflexo de uma fala dita por uma figura pública, que se assemelha com o que Sontag (2007) falava de acusar o portador da doença como culpado. É o que Bolsonaro faz em 2019.
A aids persiste contaminando pessoas e o preconceito ainda é preocupante. Dados da Unaids Brasil mostram que o país teve um aumento de 21% no número de infecções de HIV entre 2010 e 2018. Uma média maior que da América Latina, que foi de 7% no mesmo período. No dia 10 de dezembro de 2019, a instituição também lança o Índice de estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/aids – Brasil18, na qual 64,1% das pessoas entrevistadas já sofreram alguma forma de estigma ou discriminação por viverem com HIV.
Foram 1.800 pessoas ouvidas pela UNAIDS em sete capitais brasileiras com nível de confiança em 99% e o limite de confiança em 5%.
A porcentagem pode variar, porque os entrevistados podiam marcar mais de uma alternativa. Alguns dados sobre os tipos de ofensas foram reproduzidos abaixo (TABELA 4).
TABELA 4 - ESTIGMAS SOFRIDOS PELOS ENTREVISTADOS DA UNAIDS
Tipo de ofensa Porcentagem
Comentários discriminatórios e/ou especulativos 46,3
Assédio verbal 25,3
Perda de fonte de renda ou emprego 19,6
Agressões físicas 6,0
Estigmas
“É difícil viver com aids” 81,0
18 Estudo escutou 1.784 pessoas vivendo com HIV/aids em sete capitais brasileiras entre abril e agosto de 2019. É uma abordagem mista descritiva e transversal utilizando um relatório de entrevistas feito com base em um questionário internacional (UNAIDS, 2019).
Vizinhos(as) souberam sem consentimento do paciente 24,6 Colegas de trabalha que souberam sem consentimento do
paciente 18,2
Professores e funcionários do ambiente escolar que souberam
sem consentimento do paciente 15,3
Falam abertamente sobre HIV apenas com parceiros fixos 80,4 Foram diagnosticados com problemas de saúde mental nos
últimos 12 meses 47,9
FONTE: UNAIDS BRASIL
O panorama acima é fundamental para perceber a importância temporal (grifo do autor) desta pesquisa. O estudo foi realizado em uma época de mudanças sociais, comportamentais e que a sociedade assiste a volta das infecções de HIV no mundo. Percebe-se que apesar do tempo e da evolução do tratamento, pessoas soropositivas ainda sofrem com estigmas e preconceitos, que foram construídos com o passar do tempo.
Este trabalho se orienta pela premissa da ONG americana, ACT UP19, que expressava seu logo “Silêncio = Morte”, um dos cartazes que marcam a luta pelo fim da epidemia e da importância de se falar sobre isso. Alguns dos exemplos deste retrocesso é dado pela revista Exame, em uma matéria publicada no Dia Internacional do Combate à Aids, em 01 de dezembro de 2019, escrita pelo jornalista João Pedro Caleiro.
A matéria cita que os retrocessos são dados desde 2018, na época do governo do ex-presidente, Michel Temer, que transformou a discussão do tema em algo “muito tecnicista”. Uma cartilha destinada aos homens transexuais sobre informações para o uso de seringas para aumento do clitóris foi retirada e republicada sem essa informação. Em julho de 2019, o governo federal deixa de atualizar páginas destinadas exclusivamente ao tema, concentrando tudo na página do Ministério da Saúde. A ex-diretora do departamento, Andreia Benzaken, citada no
19 ACT UP é uma sigla para AIDS Coalition to Unleash Power (Coligação da aids para liberação do poder) formado em 1987 na cidade de Nova York. Eles foram uns dos principais protagonistas na luta pelo direito do tratamento e incentivo às pesquisas. Em 10 de dezembro de 1989, o grupo realizou um protesto dentro da Catedral de St. Patrick, como forma de combate às opiniões preconceituosas do cardinal John Joseph O’Connor.
capítulo 2 deste trabalho, foi exonerada no governo Bolsonaro. Ela era apoiada por entidades do setor (CALEIRO, 2019).
A FIGURA 5 é uma captura de tela tirada pela rede social, Twitter, na qual o Departamento de Doenças e Condições Crônicas e IST anuncia que a página deixará de ter conteúdos novos. A postagem orienta que o perfil não será apagado, como forma de garantir o histórico de informações.
FIGURA 5 – ANÚNCIO DO DEPARTAMENTO DE IST SOBRE O FECHAMENTO DO SEU PERFIL NO TWITTER
FONTE: CAPTURA DE TELA FEITA PELO AUTOR.
Em abril de 2019, cerca de três meses de governo, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), emite uma nota oficial na qual compartilha preocupações com as medidas que ameaçam políticas públicas em favor da síndrome. Uma das reformas citadas está a exclusão da pessoa vivendo com HIV do acesso judicial para pacientes de doenças raras, de alta complexidade, ou medicamentos não disponíveis no país. Isso pode afetar soropositivos que possuem
resistência aos medicamentos brasileiros devido ao agravo da doença (ABIA, 2019, online).
Outras propostas citadas pela ABIA (2019) e consideras prejudiciais estão: a dispensa da reavaliação da pessoa com HIV e aids aposentada por invalidez, uma nova Política Nacional de Drogas com foco na abstinência, e relembra que o Brasil já foi um exemplo no assunto.
Essas novas diretrizes, segundo ABIA, são:
[...] pautas conservadoras acompanhadas da mutilação de materiais educativos para a população trans e adolescentes em nome da
“família e dos bons costumes”. Trata-se de uma censura explícita às informações cientificamente comprovadas sobre saúde sexual e reprodutiva e a prevenção do HIV e outras ISTs. Continuaremos nos manifestando contrários à censura de materiais educativos (ABIA, 2019, online).
Em um artigo de opinião publicado pela Folha de S. Paulo no dia 1.º de dezembro de 2019, Dia Mundial do Combate à Aids, Mário Scheffer, professor da Universidade de São Paulo, e o infectologista, Caio Rosenthal, debatem sobre a situação “vexatória do país perder a chance de se beneficiar da incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) modernos tratamentos contra o HIV”. O artigo cita que o Brasil fracassou na meta do 90-90-90, citada neste trabalho no capítulo 2, e estima-se que 900 mil pessoas no Brasil estão fora do tratamento eficaz.
Acredita-se que a epidemia tende a crescer quatro pilares continuarem a serem atacados. Entre eles estão: serviços públicos, inclusão de minorias em debates, prevenção sem censura (grifo do autor), e a atuação de ONGs. O teto de gastos do governo ainda dificultará o orçamento mínimo de estados e municípios. E o preconceito contra gays, trans, profissionais do sexo e travestis, afastam eles da prevenção, testagem e tratamento (SCHEFFER, ROSENTHAL, 2019).