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A PERVERSA SOMBRA DE KATYN

No documento 2 / 2010 CURITIBA - PR (páginas 93-99)

Mariano KAWKA*

Nos dias que se seguiram à tragédia polonesa do dia 10 de abril deste ano – na qual perderam a vida o presidente da Polônia Lech Kaczynski e outras 95 pessoas que se encontravam no avião que o transportava –, o nome Katyn ocupou as manchetes dos jornais e foi objeto de notícias da televisão do mundo inteiro. Para os poloneses, o nome dessa pequena localidade na Rússia, situada 20 quilômetros a oeste de Smolensk, relaciona-se com o des- tino de milhares de seus concidadãos ali massacrados durante a Segunda Guerra Mundial pelos soviéticos.

Assassinatos em massa

Em setembro de 1939, na parte oriental da Polônia, ocupada pelo Exército Vermelho, havia cerca de 200 mil soldados poloneses. Entre outu- bro de 1939 e maio de 1940 quase todos os oficiais, bem como alguns milha- res de soldados, passaram por três campos de internamento, situados em an- tigos conventos abandonados nas localidades de Kozielsk (250 quilômetros a sudeste de Smolensk), Ostashkov (cidade histórica situada nas margens do rio Seliger, 300 quilômetros a noroeste de Moscou) e Starobielsk (nas mar- gens do rio Aidar, 200 quilômetros a sudeste de Kharkov). No início de 1940 havia nesses campos um pouco mais de 15 mil prisioneiros. Destes salva- ram-se apenas 448 oficiais e soldados, que foram internados em Griazovietz e em prisões de Moscou. O restante desses prisioneiros (cerca de 15 mil) simplesmente “desapareceu”. As famílias na Polônia deixaram de receber cartas deles a partir do fim de março de 1940. Desde então nenhum desses “internados” deu sinal de vida.

Em 1943, após a entrada dos alemães na União Soviética, foram de- senterrados em Katyn os restos de cerca de 4.400 oficiais poloneses. Todos eles haviam sido prisioneiros no campo de Kozielsk e exterminados pela NKVD (sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Internos). Os prisioneiros internados em Starobielsk (cerca de 4 mil) foram assassina- dos em Kharkov, hoje Ucrânia, e os de Ostashkov (cerca de 7 mil) foram eliminados em Tver, nas margens do Volga, e sepultados em Mednoie.

Entre esses cerca de 15 mil prisioneiros poloneses exterminados, ha- via milhares de oficiais do serviço ativo e da reserva, além de 600 pilotos e mais de 800 médicos, muitos eminentes professores, funcionários da polí- cia, do Corpo de Defesa da Fronteira, do serviço secreto polonês, bem como funcionários públicos em geral e religiosos (padres e pastores). Tratava-se, enfim, da elite intelectual e profissional polonesa.

Calcula-se que o massacre de Katyn ocorreu nos meses de março e abril de 1940. Com intervalos de alguns dias, grupos de dezenas ou até cen- tenas de pessoas eram removidos de Kozielsk. Os prisioneiros eram trans- portados de trem até a estação de Gniezdovo. Dali eram conduzidos em ca- minhões até o mato, a um lugar retirado chamado Kosogory, perto de Katyn, onde eram eliminados com um tiro na nuca e enterrados em valas comuns. Em 1943, por ocasião da exumação, foram encontrados documentos pessoais que permitiram a identificação de alguns deles. Foram encontradas cartas de família, cadernetas com anotações, enfim coisas que um militar pode trazer consigo no bolso do uniforme. É justamente pela datação desses documentos que se pode determinar com maior precisão a data do extermínio dos prisio- neiros de Kozielsk.

O crime desvendado

As primeiras notícias a respeito dos túmulos de Katyn surgiram en- tre a população local. No verão de 1942, na região de Smolensk havia muitos poloneses mobilizados para trabalhos forçados nas equipes de construção

da Organização Todt. Foram eles que ficaram sabendo de pessoas do lugar a respeito dos túmulos e fincaram na floresta de Katyn as primeiras cruzes de bétula.

Os alemães, que ocupavam a região, abriram os túmulos só na pri- mavera do ano seguinte, com o objetivo de alardear essa descoberta entre os aliados, o que conseguiram em parte. No início os trabalhos de exumação foram realizados pelos alemães. Mais tarde apareceu uma comissão técnica da Cruz Vermelha Polonesa. Foi feita uma inspeção por médicos legistas poloneses e alemães, e também por uma comissão médica internacional. As investigações dessa comissão internacional apontam para a primavera de 1940 como a data do assassinato.

O mundo recebeu a primeira notícia sobre a descoberta das valas comuns de Katyn através da rádio de Berlim, no dia 13 de abril de 1943. Dois dias depois um comunicado de Moscou “desmentiu” essa notícia, afir- mando que esses oficiais, ocupados em trabalhos de construção na região de Smolensk, haviam sido presos pelos alemães, no verão de 1941, e por eles massacrados.

Uma comissão russa, composta exclusivamente de cidadãos soviéti- cos, divulgou um comunicado, no dia 24 de janeiro de 1944, afirmando que os culpados do massacre eram os alemães. A União Soviética insistiu nessa versão até quando foi possível...

Apesar de esse crime ter sido atribuído pelos russos aos alemães, nas atas do processo de Nuremberg não se faz nenhuma referência a ele, e o crime de Katyn também não foi mencionado no texto da sentença final desse julgamento, lida nos dias 30 de setembro e 1 de outubro de 1946.

Eryk Lipinski, que foi um dos correspondentes poloneses no proces- so de Nuremberg, relata que perguntou ao procurador soviético Smirnov (os procuradores poloneses não foram admitidos ao processo, sendo represen- tados pelos soviéticos) por que o crime de Katyn, que oficialmente era atri- buído aos alemães, não constava da detalhada relação dos crimes nazistas

apresentados no processo. A essa pergunta o tenente Smirnov lhe respon- deu: “Katyn – eta drugoie diela” (Katyn é uma outra história). De fato, era uma outra história...

Durante décadas a União Soviética tem negado esse crime, atribuin- do-o aos alemães, e – em todo o caso – não permitindo sequer que fosse pronunciado o nome Katyn. Também durante todo o período da República Popular da Polônia essa palavra era cuidadosamente vigiada pela censu- ra e não tinha o direito de aparecer nas páginas dos jornais ou dos livros. Um exemplo significativo. Na Pequena enciclopédia universal, um volume de 1.200 páginas publicado em Varsóvia em 1969 (em 200 mil exemplares!), não consta não consta nenhuma informação a respeito de Katyn, Ostashkov ou Starobielsk“1. Hoje, naturalmente, tais informações podem ser facilmente encontradas, inclusive na internet2.

Em busca da verdade e da reconciliação

Somente no período da Perestroika, em abril de 1990, durante uma visita do presidente Wojciech Jaruzelski a Moscou, Mikhail Gorbachev reco- nheceu que o crime havia sido cometido pela NKVD e entregou ao presiden- te polonês os primeiros materiais arquivísticos, inclusive duas pastas com os nomes de cerca de 10 mil oficiais poloneses assassinados. Neste ponto talvez seja oportuno lembrar que o primeiro representante da Polônia livre que visitou Katyn, acompanhado de uma guarda de honra, e depositou ali uma coroa de flores foi o presidente Jaruzelski, no dia 14 de abril de 1990.

Mais tarde Boris Yeltsin entregou ao presidente Lech Walesa mais uma série de arquivos relacionados com o crime de Katyn, inclusive a deci- são de Stalin ordenando o fuzilamento dos prisioneiros poloneses.

Com o tempo surgiu em Katyn um complexo de monumentos ofi- 1 Cf. Mała encyklopedia powszechna. Warszawa: Państwowe Wydawnictwo

Naukowe, 1969.

cialmente visitado por delegações políticas polonesas e por turistas.

As solenidades do dia 10 de abril de 2010, com a participação de autoridades polonesas e russas, encerrariam um período de vinte anos de desvendamento da verdade sobre Katyn. A presença do primeiro-ministro Vladimir Putin tinha um significado especial. Era a primeira visita oficial de um representante tão elevado das autoridades russas nesse lugar. Além disso, a solenidade significava a prontidão – da parte das autoridades russas – para normalizar as relações com a Polônia.

O discurso de Putin em Katyn pode constituir um momento decisivo nas relações polono-russas. O primeiro-ministro começava afirmando que ele havia sido trazido a Katyn pela memória comum, por uma dívida his- tórica e pela fé no futuro. Putin condenou os crimes de Stalin, cujas vítimas foram milhares de poloneses, mas também milhões de russos e pessoas de outras nacionalidades. Dessa forma – chamando o crime pelo seu nome – ele confirmou a responsabilidade soviética por esse massacre, que durante dé- cadas lançou uma sombra nas relações polono-russas.

Três dias antes da catástrofe já havia ocorrido em Katyn um encontro histórico do primeiro-ministro Vladimir Putin com o chefe do governo po- lonês Donald Tusk junto aos túmulos dos prisioneiros poloneses assassina- dos. Um outro detalhe significativo nesse processo de distensão é que antes da catástrofe os cidadãos russos puderam finalmente ver o filme Katyn, de Andrzej Wajda, em que esse cineasta polonês faz um retrato cinematográfico do triste episódio.

Das boas relações com a Rússia depende em grande medida o fu- turo da Polônia na Europa e na União Europeia. Para o bem da Polônia e a Europa, é bom que essas relações sejam de cooperação e amizade. Talvez a tragédia de Smolensk, ocorrida setenta anos após o crime cometido em Katyn – e que está longe de ser a primeira tragédia na conturbada história da nação polonesa – contribua para que a perversa sombra de Katyn se dissipe

e para que esse ideal se torne mais próximo. RESUMO - STRESZCZENIE

Nawiązując do katastrofy w Smoleńsku, która się wydarzyła dnia 10 kwietna 2010 r., zbiegając się z 70-tą rocznicą mordu katyńskiego, autor przedstawia historyczne tło zbrodni dokonanej podczas II wojny światowej. Omawia również sposób jej traktowania przez władze radzieckie, a później pr- zez rząd rosyjski, wyrażając nadzieję, by te wydarzenia, które przez dziesiątki lat rzucały złośliwy cień na stosunki polsko-rosyjskie, przemieniły się wresz- cie w nową erę współpracy i przyjaźni.

No documento 2 / 2010 CURITIBA - PR (páginas 93-99)