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CAPÍTULO II. AS PRÁTICAS DE MANEJO

2.3 O conjunto de práticas

2.3.5 A pesca do pirarucu

A quinta prática de manejo é a pesca do pirarucu. A atividade se dá no período da seca, comumente entre setembro e novembro, podendo ser antecipada de acordo com vazante do rio. Segundo Gonçalves et al (2017) a pesca de pirarucu em todas as áreas assessoradas

pelo Instituto Mamirauá envolve o uso de malhadeiras e arpão. A malhadeira é o principal apetrecho e é utilizada tanto na pesca de cerco quanto de condução e espera. Enquanto, o uso do arpão é apenas complementar.

A pesca utilizando a técnica de cerco consiste em localizar os peixes em área aberta ou em vegetação flutuante (capins memeca ou membeca, piri ou matupá) de preferência onde não há pauzada (árvores mortas, troncos e galhos submersos). Ao fazer o cerco e se certificar de que os peixes estão ali, os pescadores cuidadosamente reduzem o cerco, forçando os peixes a entrar nas malhas ou a “boiar”, e em um espaço bem reduzido, poder ser arpoado com facilidade.

Figura 29 Pesca de malhadeira utilizando a técnica de cerco (Autores: Samis Vieira, 2017 e Rafael Castanheira, 2006).

Na técnica de condução os pescadores conduzem os peixes para uma área mais rasa do ambiente, onde poderão realizar a captura de forma rápida e com maior eficiência. Essa técnica é feita utilizando três ou mais malhadeiras. Ao armar a primeira “parede” de malhadeiras os peixes se sentem ameaçados e começam a se afastar, e assim as outras “paredes” de malhadeiras vão sendo postas à medida que os peixes se afastam do ponto inicial, sendo forçados a seguir até os locais mais baixos ou estratégicos onde os pescadores almejam realizar a captura de uma maior quantidade de peixes, efetuando o “lance”.

Figura 30 Pesca de malhadeira utilizando a técnica de condução (Fonte: PMP/IDSM, 2016).

Ao utilizar a técnica de espera, as malhadeiras são armadas de uma margem a outra do ambiente e espera-se que ao se movimentar ou tentar fugir, o peixe entre nas malhas. E quanto maior for a quantidade de lances/paredes de malhadeiras postas, maior é a probabilidade de o peixe emalhar, uma vez que o espaço é reduzido. Uma condição muito importante é que as varas utilizadas para prender as malhas sejam flexíveis o suficiente para que o pirarucu ao fazer a investida, a malhadeira ceda, evitando assim que as malhas se rompam.

Figura 31 Pesca de malhadeira utilizando a técnica de espera (Autor: Rafael Castanheira, 2006).

O arpão, por sua vez, é utilizado tanto associado ao uso da malhadeira quanto isoladamente. Na pesca de cerco, o arpão é utilizado apenas quando o cerco se encontra bem reduzido, a fim de capturar ou pressionar o peixe a entrar nas malhas. O arpão é utilizado isoladamente em certos locais dos ambientes onde não é possível armar as malhadeiras devido a existência de árvores e troncos submersos. No entanto, o número de peixes capturados com o arpão é pequeno em relação ao total capturado.

Figura 32 Pesca com arpão (Autora: Eunice Venturi, 2014).

Os técnicos do Instituto Mamirauá afirmam que apesar dos apetrechos de pesca serem os mesmos para todas as áreas, a eficiência de seu uso está diretamente relacionada à organização adotada pelo grupo de pescadores; as características físicas dos ambientes e sua disposição no sistema.

No manejo do pirarucu há uma discussão entre os pescadores sobre a existência ou não de habilidades no uso da malhadeira. Os pescadores mais velhos e experientes na pesca do pirarucu, habituados no uso do arpão afirmam que ‘o pescador de verdade’ é aquele que pesca com arpão, pois precisa conhecer muito do peixe, senão não produz nada. Entretanto, os que só utilizam as malhadeiras para captura do pirarucu apontam que neste tipo de pesca é preciso ter certas habilidades, entre as quais estão: i) observar onde os peixes estão boiando com maior frequência; ii) a direção da correnteza d’água; iii) utilizar varas flexíveis para fixar as paredes de malhadeiras, com o objetivo de que a malhadeira ceda com a investida do peixe e não rompa; iv) efetuar o corte no capim sem fazer muito barulho, evitando que o peixe se assuste antes que o cerco esteja fechado; e v) soltar de maneira correta a malhadeira na água, evitando assustar o cardume. Neste sentido, ao perguntar aos 20 pescadores e pescadoras entrevistados, se para área de manejo fossem trazidas a mesma quantidade de pessoas que habitualmente costumam estar envolvidas na pesca, mas que nunca tivessem pescado um peixe sequer, e lhes disponibilizassem os apetrechos que o grupo dispõe, estas pessoas conseguiriam ser bem-sucedidos na pesca? A resposta predominante foi, não, com o argumento de que o sucesso da pesca não está atrelado unicamente ao material, mas ao uso que se faz dele, mencionando muitas das situações descritas acima. Entretanto, 05 entrevistados disseram que talvez as pessoas não conseguissem capturar toda a quota, mas capturariam alguns peixes, pois afinal de contas tem muito.

No plano de manejo de uma área, o planejamento da pesca se configura enquanto proposição, uma vez que o plano, se aprovado, possibilita a primeira autorização de pesca ao grupo de manejo. Neste documento a ênfase é dada as técnicas de exploração; a infraestrutura; e aos impactos ambientais. No plano de manejo do Acordo de Pesca do Paraná do Jacaré – Setor Capivara, no que refere às técnicas de exploração, o grupo se propôs a utilizar malhadeiras multifilamento com malha de no mínimo 30cm50 medidos entre nós opostos e com nylon (240, 120, 3.0 e 3.5 mm). Em relação à infraestrutura, o grupo de manejo orientado pela assessoria técnica se propôs a empenhar esforços na construção de uma unidade de recepção flutuante, onde o barco transportador da produção ficaria ancorado e onde ocorreria o processo de evisceração do pirarucu antecedendo ao acondicionamento na caixa isotérmica do barco, o que de fato ocorreu. E entre os possíveis impactos ambientais foram apontados a morte acidental de indivíduos juvenis de pirarucu (˂ 150 cm) e captura de fauna

acompanhante. Para minimizar a possibilidade de tal ocorrência, os técnicos IDSM orientam a todos os grupos de manejo que: i) o coletivo de pescadores se divida em equipes de pesca; ii) as malhadeiras sejam constantemente supervisionadas, a fim de identificar se há juvenis emalhados, e que se agilize o corte das malhas, promovendo a soltura rápida dos mesmos, evitando que os peixes morram afogados; e iii) os pescadores menos experientes na pesca do pirarucu com arpão, só façam uso do mesmo em ambientes aquáticos desprovidos de vegetação densa, a fim de diminuir ao máximo a probabilidade de morte de juvenis, pela dificuldade de alguns pescadores, principalmente dos iniciantes, de distinguir juvenis e adultos de pirarucu quando a boiada ocorre no capim.

O manejo promoveu adaptações e, em alguns casos, mudanças significativas em muitas das práticas desenvolvidas pelos pescadores. Entre elas, certa limitação ao uso do arpão. Isso se deve principalmente a dois fatores:

Fator 1: A pesca comercial do pirarucu está condicionada a elaboração e aprovação de um plano de manejo para a espécie, e a obtenção de autorização anual de pesca, a partir da análise do relatório técnico elaborado pela assessoria, em que se registram entre tantas informações, as ocorrências relacionadas a pesca, o que inclui o número de juvenis abatidos. Portanto, o manejo é uma atividade sujeita a controle e monitoramento constantes, a fim de se certificar se os objetivos propostos no plano estão sendo alcançados, entre eles, o de promover

50 Quando o Plano de Manejo foi submetido à apreciação do IBAMA/AM em 2014 a legislação em vigor estabelecia o tamanho mínimo de 30cm para malhadeiras de pirarucu. Entretanto, a partir do Decreto nº 36.083/2015 o tamanho foi elevado para 32cm. Este ajuste já está presente no Regimento Interno do manejo nesta área.

a recuperação dos estoques de pirarucu e outras espécies, mesmo diante da ocorrência de eventos de pesca. Neste sentido, a incidência de morte de juvenis em grandes quantidades, pode ser visto pelo órgão licenciador como indicador de uma pesca desregrada, principalmente se a pesca não tiver sido acompanhada pelo responsável técnico.

Fator 2: Ao possibilitar a retomada da exploração comercial do pirarucu, o manejo contribui significativamente na composição da renda familiar. Isso representa 40% de toda a renda anual obtida com a produção pesqueira, e 15% da renda anual geral nas comunidades da região (Gonçalves et al, 2018, p. 88). Esta condição faz com que haja interesse, principalmente de jovens (a partir dos 16 anos) em ingressar nos coletivos de manejo, o que é previsto nos regimentos internos dos projetos. Todavia, nesta idade, os jovens pescadores ainda estão na condição de iniciantes na pesca. E como o processo da aprendizagem na pesca envolve experimentações, que envolve consequentemente erros e acertos. Essa dinâmica pode resultar na ocorrência da morte acidental de um número muito elevado de juvenis de pirarucu, uma vez que há uma quantidade considerada de jovens envolvidos no manejo.

O número de juvenis de pirarucu abatidos durante a temporada de pesca é sempre uma preocupação para os técnicos. A alta incidência pode impactar o estoque da espécie na área, influenciando inclusive nos dados de contagem do ano seguinte, uma vez que, os juvenis abatidos provavelmente seriam contabilizados como adultos no ano seguinte. E que tal ocorrência pode implicar em sanções ao grupo, como a suspensão da pesca e até o descredenciamento do projeto de manejo pelo órgão licenciador, impactando economicamente o grupo de manejo.

O grau de institucionalização em que se encontra o manejo, o coloca diante de um dilema: se o processo de aprendizagem da pesca começa ainda na infância, numa participação periférica na comunidade de práticas, em que à medida que habilidades vão sendo adquiridas a partir da constante interação do ser humano e os demais seres, e do exercício, que envolve erros e acertos, sob a supervisão dos mais experientes, a participação se torna plena. A presença das crianças na pesca manejada do pirarucu e de outras espécies não seria fundamental para continuidade dos conhecimentos sobre as espécies? E se a aprendizagem na pesca do pirarucu está em grande parte associada à pesca com arpão. A restrição ao uso deste apetrecho, não ocasionaria a perda dos conhecimentos tradicionais associados a esta pescaria? Uma vez que o arpão é associado ao pescador profissional, àquele que conhece peixes, lagos e domina as técnicas da pesca (FERREIRA et al, 2015, p.166). Todavia, a prática do manejo pressupõe o uso tanto da malhadeira quanto do arpão, em função de condições estruturantes:

prazo de pesca e a cota de peixes a se pescar. Neste sentido, a malhadeira deixa de ser a marca do peixeiro e passa a compor também as habilidades do “pescador profissional” (FERREIRA et al, 2015, p. 167). Então, esta é a realidade do manejo.