As profissões humanistas, como é o caso da profissão-professor, constituem-se repletas de complexidade (PERRENOUD, 2002). Por ser condutor e gestor da aprendizagem na sala de aula, o professor precisa lidar não apenas com os saberes e metodologias, mas também com os desejos, emoções, dificuldades e outras forças que estão em jogo naquele espaço de interação. Para que a complexidade da realidade da sala de aula seja adequadamente gerida, o professor aciona competências e estratégias, as quais lhe permitirão promover a aprendizagem. Além disso, o nível de envolvimento dos alunos nas atividades é também o que vai influenciar este processo.
De acordo com Perrenoud (2002), a prática reflexiva é um domínio da complexidade. Ou seja, ao professor é fundamental refletir na efervescência da ação de maneira metódica e coletiva, a fim de alcançar seus objetivos. A realidade da profissão-professor, independentemente de haver uma situação desconfortável ou não, incita a reflexão. Na verdade, a prática reflexiva deve ser um mecanismo estável na formação de professores e não algo que se manifesta apenas quando o profissional tem diante de si uma crise ou problema referente ao seu trabalho diário.
É interessante observar que, embora seja atribuído à profissão-professor o papel de refletir criticamente e agir sobre a realidade na qual atua, a fim de transformá-la para a cidadania e para a redução das desigualdades entre os indivíduos, essa proposta ainda não atingiu seus objetivos (MAGALHÃES, 2004). As razões para isso estão relacionadas diretamente à complexidade, pois existe
um quadro complexo que inclui questões de responsabilização na relação entre construir e aplicar conhecimentos; de representações do que é ensinar e aprender em contextos particulares; de identidades de professor e de aluno; de discursos valorizados, desacreditados ou marginalizados no contexto escolar e de diferenças culturais e sociais nos diversos contextos de ação (MAGALHÃES, 2004, p. 45-46).
Observando a complexidade que envolve a profissão-professor e os ambientes escolar e de sala de aula, é essencial promover oportunidades para que os professores em formação inicial e/ou contínua exercitem o pensamento crítico-reflexivo. Nesse sentido, a P-A de Barbier (2007), por ter em seu cerne a teoria do pensamento complexo de Morin (2011), apresenta-se como uma excelente contribuição para os processos de formação e de transformação de professores.
85 A complexidade é um elemento que faz parte da organização do mundo real. Embora se faça um recorte de alguma realidade para a realização de uma pesquisa, é importante reconhecer que a parte recortada apresenta características do todo. Isto significa dizer que a sociedade e o indivíduo exercem sobre e entre si forças de ação que contribuem para a evolução da complexidade (MORIN, 2011). De acordo com o autor, o mundo é concebido como um sistema aberto. Diante disso, o desenvolvimento da ideia de complexidade ocorreu no sentido de ir contra uma concepção clarificada, simples e reduzida da realidade. A esse respeito, Morin (2011, p. 35) indaga:
O que é a complexidade? À primeira vista, é um fenômeno quantitativo, a extrema quantidade de interações e de interferências entre um número muito grande de unidades. De fato, todo sistema auto-organizador (vivo), mesmo o mais simples, combina um número muito grande de unidades da ordem de bilhões, seja de moléculas numa célula, seja de células no organismo [...] Mas a complexidade não compreende apenas quantidades de unidade e interações, que desafiam nossas possibilidades de cálculo: ela compreende também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. A complexidade num certo sentido sempre tem relação com o acaso (MORIN, 2011, pp. 34-35).
Destarte, a complexidade constitui-se a partir das incertezas dos limites dos fenômenos do mundo e do entendimento do ser humano. A ideia de incerteza e de autorreferência passa a integrar a relação entre o sujeito e o objeto, este que traz em si um princípio crítico e autorreflexivo. É por isso que o pesquisador, após essa abertura epistemológica, passa a perceber a contradição e a ambiguidade como integrantes da ciência, e a lidar com a imprecisão dos fenômenos.
A visão multidimensional e não-simplificadora da realidade tem no pensamento complexo uma possibilidade de tirar o ser humano do seu estado de cegueira frente a realidade, lhe permitindo reorganizar a partir do caos, a realidade.
Ao dizer que o sujeito é aquele que se coloca no centro do seu próprio mundo, o que lhe possibilita ter autonomia sobre a multidimensionalidade do real, Morin (2011) explica que, na perspectiva da complexidade, é impossível a esse sujeito ter certeza de tudo no mundo. O ser humano, através do exercício de sua racionalidade, está constantemente dialogando com a complexidade do real.
Conforme Morin (2011), a complexidade é dominada por três princípios fundamentais, a saber: o princípio dialógico, que considera duas lógicas contraditórias para explicar algum fenômeno; o princípio de recursão organizacional, que sustenta o fenômeno complexo como produto e também produtor de sua existência, ou seja, ao mesmo tempo em que os indivíduos
86 produzem a sociedade pela interação, a sociedade também age sobre eles retroativamente; o
princípio hologramático, o qual explica que a parte está no todo e o todo está na parte, ou seja, como fala Barbier (2007, p. 91), “o todo enquanto todo, do qual fazemos parte, está presente em nosso espírito.” Isso explica a impossibilidade de o pesquisador não se implicar ao realizar sua P-A. A esse respeito, Barbier (op. cit.) reverbera que
Para o pesquisador em pesquisa-ação, o fato de aceitar o paradigma da complexidade impõe uma visão sistêmica aberta. Ele deve combinar a organização, a informação, a energia, a retroação, as fontes, os produtos e os fluxos, input e
output, do sistema, sem fechar-se numa – clausura – para onde o leva geralmente seu espírito teórico (BARBIER, 2007, p. 91).
Partindo dessa discussão, ao se propor fazer P-A, o pesquisador deve observar e analisar a realidade pesquisada a partir da concepção defendida pela teoria sistêmica, que determina que todos os elementos, desde o átomo até a galáxia, estão interligados em um mesmo sistema. Isso implica a necessidade de o pesquisador em P-A ter uma visão holística e mais aberta sobre si e sobre o objeto de sua investigação.
Ao me constituir como o pesquisador responsável e envolvido na realização da P-A com as professoras participantes, procuramos adotar uma abordagem o mais dialógica possível, permitindo que elas pudessem atuar de maneira colaborativa na construção do conhecimento e na transformação das suas identidades e práticas como profissionais professoras de línguas.