2. Elaborando a pesquisa
2.2. A pesquisa documental
Não sendo referida pelos autores anteriores como uma opção de estudo sobre direitos humanos, será este o caminho metodológico seguido no presente trabalho, sendo, por isso, necessária a sua contextualização. Eventualmente por este motivo, Sá-Silva, Almeida e Guindani (2009) descrevem a pesquisa documental como uma metodologia ainda pouco valorizada em várias áreas de investigação, nomeadamente nas ciências sociais. A sua importância deverá ser redifinida, uma vez que a maior parte das fontes escritas são quase sempre a base do trabalho de investigação. Além disso, “dependendo do objecto de estudo e dos objectivos da pesquisa, pode-se caracterizar como principal
58 caminho de concretização da investigação ou se constituir como instrumento metodológico complementar” (13: Sá-Silva, Almeida e Guindani: 2009). Referem a dificuldade em defini-la enquanto técnica, pesquisa, método e/ou análise, assim como em a diferenciar da pesquisa bibliográfica. Precisar o que constitui ou não um documento é iguamente um tema controverso, já que pode ir muito além do material escrito.
Os autores explicam que a análise de documentos “propõe-se a produzir ou reelaborar conhecimentos e criar novas formas de compreender os fenómenos (…) O investigador deve interpretá-los, sintetizar as informações, determinar tendências e na medida do possível fazer a inferência” (8: Sá-Silva, Almeida e Guindani: 2009). Afirmam que geralmente a análise documental é feita através da análise de conteúdo, onde se identificam, numeram e categorizam elementos, isto é, serve à interpretação de um determinado texto pela adopção de normas sistemáticas de extrair significados temáticos ou lexicais.
Assim, fará sentido recordar a obra de Laurence Bardin no que respeita à análise de conteúdo e documental, onde são examinadas as suas semelhanças e diferenças. Para a autora, a análise documental é uma das várias técnicas que podem ser usadas para se proceder a uma análise de conteúdo que visa, em última instância, a apreensão de mensagens e significados contidos na comunicação. A análise documental lida apenas com documentos: “a análise documental faz-se, principalmente por classificação- indexação; a análise categorial temática é, entre outras, uma das técnicas da análise de conteúdo” (46: Bardin: 1977). A análise documental será, então, um processo de transformação de informação que permite apresentá-la com outra configuração, por forma a que seja mais acessível em termos de consulta e referenciação, com “o máximo de informação (aspecto quantitativo), com o máximo de pertinência (aspecto qualitativo)” (46: Bardin: 1977). Assim, a análise documental procede a uma indexação, de termos ou ideias, de categorias com critérios comuns, fornecendo uma representação simplificada de dados brutos.
Também Godoy (1995) chama a atenção para as potencialidades da pesquisa documental, uma vez que, pelo seu carácter inovador, será capaz de contribuir significativamente para a investigação social. Para a autora, os documentos são uma fonte rica de dados: examinar materiais que ainda não receberam tratamento analítico, ou reexaminá-los, permitirá retirar novas interpretações ou fornecer informações complementares importantes. No uso desta técnica, refere como vantagens a realização
59 de estudos sobre factos ou materiais fisicamente distantes e uma probabilidade diminuida de interferência na objectividade do investigador.
2.3. A fonte
Para se usar a análise documental é necessário conhecer devidamente o documento em causa, operação que passa por cinco dimensões: o contexto, o autor, a autenticidade e confiabilidade do texto, a sua natureza e conceitos-chave e a sua lógica interna (Sá- Silva, Almeida e Guindani (2009). Parte deste processo foi já avançado no fim do capítulo anterior (ver “direitos humanos e política externa americana”), onde foi indicado sucintamente o contexto histórico e o universo sócio-político da fonte em questão, assim como a identidade, motivos e interesses que o propiciaram; sendo que não está em causa a credibilidade desta fonte, falta apenas, segundo estes autores, descrever a forma como é apresentada (formato e linguagem utilizada) e indicar as suas principais ideias e argumentações.
Os Relatórios Nacionais sobre Práticas de Direitos Humanos, que são a base deste trabalho, são remetidos anualmente pelo Gabinete de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do DEEUA ao Congresso americano. Mais especificamente, serão recolhidos e analisados os dados relativos às práticas de direitos humanos em 2010 (publicados em Março de 2011), perfazendo um total de 194 países. Estes Relatórios incluem informações relativas a direitos internacionalmente reconhecidos, isto é, individuais, civis, políticos e dos trabalhadores. Apresentando-se em formato escrito, estão organizados segundo grandes grupos: África, Sudeste Asiático e Pacífico, Europa e Eurásia, Médio Oriente e Norte de África, Ásia Central e do Sul e Hemisfério Ocidental.
A dimensão de cada relatório é variável, entre 10 e 60 páginas, sendo que no início é apresentado um pequeno resumo, tal como referido no Anexo 2 (Notas de preparação dos Relatórios Nacionais - notes on preparation of the country reports), sobre a descrição da estrutura política do país, o controlo das autoridades civis sobre as agências de segurança e desenvolvimentos sobre os direitos humanos em geral durante o ano (identificação de abusos e melhorias específicas). É objectivo destes Relatórios, tal como mencionado no mesmo documento, a obtenção de uma visão global sobre os principais problemas nacionais neste âmbito, organizados em 13 grandes grupos:
60 privação ilegal ou arbitrária de vida; desaparecimento; tortura e outras penas ou tratamentos crueis, desumanos ou degradantes; detenção ou prisão arbitrárias; negação a julgamento público e justo; interferência arbitrária na privacidade, família, residência ou correspondência; liberdade de expressão e imprensa; liberdade de assembleia e associação pacíficas; liberdade de religião; liberdade de movimento, pessoas deslocadas internamente, protecção de refugiados e apátridas; respeito pelos direitos politicos: o direito dos cidadãos em escolher o seu governo; atitude governamental para com investigações internacionais e não-governamentais de alegadas violações de direitos humanos; discriminação, abusos sociais e tráfico de pessoas. Para a recolha de dados é referido o uso de diferentes fontes de informação; para além das oficiais, estão igualmente incluídas as provinientes de vítimas, estudos académicos, notícias, organizações internacionais, nomeadamente as não governamentais. Especificam, contudo, que apesar da maioria da informação ser já pública, que não atribuem os restantes conteúdos a nenhuma fonte específica por razões óbvias; afirmam não incluir nenhum dado que não pareça credível. Acrescentam que a redacção dos Relatórios retrata o respeito pelos direitos humanos em países e territórios estrangeiros, mas implicam acções específicas. Referem as dificuldades de acesso à informação e as diferenças entre sistemas sociais, políticos e legais entre países, assim como a avaliação da credibilidade dos relatos obtidos. Em suma, afirmam, estes Relatórios, cada vez mais usados em todo o mundo, cobrem o estado global dos direitos humanos, e, em simultâneo, contribuem para uma sensibilização mundial crescente59.