CAPÍTULO III – METODOLOGIA
3.3 A Pesquisa no Processo Formativo e Autoformativo de uma Professora
Quem é a pesquisadora revelada e reveladora deste estudo? Qual o papel da pesquisa no processo formativo e auto-formativo de uma Professora Formadora na área de Educação Física? Buscar respostas para essas questões provoca um auto-revelar-se. Não apenas por escrito, mas em uma relação com a
vida.
Inicialmente, descobrimo-nos como um ser humano repleto de contradições, o que consideramos de extrema relevância nesse processo reflexivo. Como professora de Educação Física que desenvolve uma prática educativa à luz dos pressupostos e estudos da corporeidade, concebíamos o Ser como contraditório, mas descobrir-nos como um desses seres foi bastante desconcertante. Em seguida, vem a pergunta: Como nos tornamos pesquisadora?
Procurar descobrir em que momento de nossa vida fomos “tocada” pelo desejo de fazer pesquisa, levou-nos a recordar da infância, onde aprendemos a ler com nosso pai. Ele era muito instigador e fazia de nossas brincadeiras momentos de muita ludicidade e aprendizagem. Fazia perguntas que exigiam uma intensa busca pelas respostas, que nunca eram dadas prontas, mas era sempre o início de uma aventura encantadora. Acreditamos que é daí que nasceu nossa concepção atual de aprendizagem, de que o ato de aprender, de interagir com o conhecimento pode e deve ser algo prazeroso, lúdico, estimulante e envolvente.
Pode ter sido a partir desses momentos de aprendizagem, que eram verdadeiras brincadeiras, que, refletir sobre a prática, refletir sobre a vida, fez-se presente em nossa existência, sistematizada em pesquisas ou simplesmente vivida. Fazer um Curso de Pós-graduação lato sensu foi uma maneira encontrada para aprofundar estudos teóricos, de maneira sistematizada; fundamentar uma ação concreta; buscar respostas para questionamentos surgidos, ou situações vividas e, também, melhorar a qualidade do trabalho oferecido. Foi também um investimento na auto-formação.
Por aquela ocasião, a temática da Ludicidade esteve presente na Monografia do Curso de Especialização em Educação Física Infantil, intitulada: O
Lúdico na Concepção Pedagógica de Professores do Ensino Fundamental. Essa
pesquisa teve como objetivo identificar e analisar a presença do elemento lúdico nas concepções pedagógicas de professores/alunos do Curso de Pedagogia do Instituto de Formação de Professores “Presidente Kennedy”, em Natal, Rio Grande do Norte.
O fenômeno lúdico e os pressupostos da Corporeidade eram, e ainda hoje são, fios condutores do processo vivido nas aulas de Educação Física no Instituto “Kennedy”, e os professores em formação sempre expressando-se de diversas maneiras, acerca de como aquele processo formativo estava repercutindo em sua ação profissional. Naquele momento, o nosso olhar detinha-se mais no aspecto profissional. A posteriori, ampliou-se e passou a “enxergar” outras informações que chegavam e não diziam mais respeito apenas ao aspecto profissional, mas também ao pessoal. Passando, de maneira prática, ou seja, refletida nas ações que realizávamos: ambos, componentes de algo maior, o Ser. Essa mudança de olhar e as novas descobertas e inquietações provocadas por ela foi o que levou ao Curso de Mestrado.
Uma outra prática sistematizada de pesquisa ocorreu por volta de 1995, quando Programas de Pesquisa e Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte levaram pesquisadores da Instituição a desenvolverem projetos no Instituto de Formação “Presidente Kennedy” – IFP. Era um momento de muita efervescência nas Ciências Humanas, mais especificamente na área da Educação, que revisitava concepções e, no Brasil, suscitava discussões nos meios educacionais. Refiro-me à Lei de Diretrizes e Bases 9394/96.
memoriais de formação10 elaborados pela primeira turma do Curso de Pedagogia foi de extrema relevância em meu processo formativo. Trabalhar com categorias, pressupostos, diferentes abordagens metodológicas de pesquisa, analisar discursos, socializar os resultados, todo esse processo transformou-nos. Ampliou-se a noção de responsabilidade do trabalho que desenvolvíamos, bem como o desejo de transformar práticas educativas e de Vida.
Durante todo o processo, a reflexão acerca do nosso papel como professora, que professores estamos formando e para que sociedade, tornou-nos cada vez mais consciente da relevância e finalidade da prática educacional, o que tem-nos permitido reconhecer que todos os desafios são momentos de ensino, de troca e de aprendizagem, proporcionando-nos viver, “a beleza de ser um eterno aprendiz”.11
Descobrimos, nesse momento, que a pesquisa talvez seja o ponto de equilíbrio entre a ação profissional de cunho predominantemente coletivo e um momento mais intimista, um mergulho com os autores lidos e com os colegas da BACOR/UFRN12, refletindo sobre as ações.
Essa pesquisa para a Dissertação de Mestrado significa um ato de compromisso com uma prática educativa que se fundamenta numa educação integral do homem, alicerçada no aprender a Ser, por acreditar, assim como Nicolescu (1999, p. 146), na necessidade de superação de uma das maiores tensões de nossa época, aquela entre o material e o espiritual:
10 Trabalho realizado pelos professores alunos por ocasião da conclusão do Curso Superior no
IFP/IFESP.
11 Música de Gonzaguinha.
A sobrevivência de nossa espécie depende, em grande parte, da eliminação desta tensão, mediante uma conciliação vivida, num nível de experiência diferente do corriqueiro, entre essas duas contradições aparentemente antagônicas.
É nessa perspectiva de totalidade que trabalhar o Ser no seu contexto de formação se torna necessário, pois assim ele poderá ter consciência da sua dimensão humana e poderá corporificar essa consciência, agindo, interagindo, conhecendo, fazendo, sendo e vivendo.
Desenvolver uma pesquisa sob a luz da corporeidade constitui um desafio epistemológico e metodológico, pois esta configurar uma realidade humana subjetiva e complexa, que já nasceu transdisciplinar. Como ressalta Pires (2000, p.80), a corporeidade ainda vive a plenitude de uma sabedoria infantil e os estudos nela embasados exigem abordagens metodológicas complexas, para poder adequar-se “à contemporaneidade de sua essência transdisciplinar”.
Durante dois anos, professores, alunos do Curso Normal Superior do Instituto de Educação Superior “Presidente Kennedy’ – IFESP – tiveram momentos de formação, planejados e desenvolvidos por professores formadores de Educação Física, que constou de vivências corporais e discussões teóricas acerca das vivências. As discussões tiveram como referência teórica o pressuposto da corporeidade, que significa, “presença, participação e significação do homem no mundo” (PIRES, 2000, p. 34). Assim, enfatiza-se o saber ser, como sustentação para o saber conviver, saber conhecer e saber fazer.
O desafio é refletir sobre o entrelaçamento desses saberes para a vida, proporcionando a evolução do Ser. Qual a amplitude dessa evolução do Ser? Esse Ser torna-se melhor educador? Desenvolve uma prática profissional mais eficiente
(saber fazer)? Melhora a qualidade do que é ensinado (saber conhecer)? Respeita as normas que regem as relações entre os seres (Saber ser e conviver)?
Ao entrelaçarem-se, jorrando na fonte, os Saberes da Vida deverão oportunizar um redimensionamento do ser, não podendo ser mais o mesmo que antes de banhar-se na proposta educativa da Fonte dos Saberes da Vida.
A necessidade de investir em um projeto auto-formativo levou-nos a compreender, assim como Nóvoa e Finger (1988), que dificilmente poderemos pretender interferir na formação dos outros, sem antes termos procurado compreender o nosso próprio processo de formação; entendendo-se para poder entender o outro; formando-se para poder o outro formar. Alguns tipos de pesquisa qualitativa têm adotado esse imbricamento entre sujeito e objeto, e pesquisar com a corporeidade só terá sentido se o pesquisador se apresentar profundamente envolvido com essa aventura epistemológica de auto - formação. A pesquisa é então nesse contexto um elemento formativo por excelência e a pesquisadora que coordenou especificamente esta pesquisa reconhece-se como um Ser resgatador de
esperança .
Numa perspectiva transdisciplinar de pesquisa, o pesquisador é reconhecido cada vez mais como