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2.2 COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL

2.2.1 A PESQUISA SOBRE O COMPROMETIMENTO

A bibliografia relativa ao conceito de comprometimento tem despertado há vários anos um interesse dos investigadores que pesquisam o comportamento organizacional (Medeiros, 2003).

Steil e Sanches (1998, p. 2) acreditam que o comprometimento esteja relacionado há um engajamento em um curso de ação [...] traz ainda muita ambiguidade e carrega uma variada gama de fenômenos como sentimentos, intenções, crenças e valores.

O conceito de comprometimento traz a ideia de engajamento e envolvimento, apontando para tendência de ações, comportamentos e atitudes individuais e/ou grupais.

Medeiros (2003), com o objetivo de analisar as características organizacionais que levam os indivíduos a serem comprometidos com a sua organização e que, consequentemente a um melhor desempenho organizacional, apresenta em seus estudos, uma revisão ao conceito de comprometimento organizacional, dizendo haver um esforço teórico na mensuração do seu construto de análise.

Os trabalhos pioneiros relativos à construção de um diagnóstico unidimensional do comprometimento organizacional, estão relacionados aos estudos de Porter (MOWDAY, STEERS e PORTER, 1979; MOWDAY, PORTER e STEERS, 1982), que, nos últimos anos, especial atenção foi dada pelos pesquisadores do comprometimento organizacional à validação do instrumento de diagnóstico e, conseqüentemente, do modelo de conceitualização

de três componentes do comprometimento organizacional, ou multidimensional, desenvolvido por Meyer e Allen (ALLEN e MEYER, 1990, 1996; MEYER e ALLEN, 1984, 1991, 1997; MEYER, ALLEN e SMITH, 1993).

Allen e Meyer (1997), na elaboração da construção de um modelo de análise do comprometimento organizacional identificaram três componentes: afetivo, instrumental e normativo.

Nas visões unidimensionais do comprometimento organizacional, sejam elas, afetivo, instrumental, e normativo foram identificados que neste tipo de enfoque havia mais tipos de comprometimento na relação entre indivíduo e organização.

Os autores, ao descreverem a presença do aspecto multidimensional do comprometimento, utilizam expressões distintas para isso. Mowday, Porter e Steers (1982) chamam de tipologias do comprometimento. Becker (1992) denomina as diversas dimensões como bases do comprometimento. E que Meyer e Allen (1991) chamam de componentes do comprometimento. Entretanto, todas as análises estão se referindo aos componentes do constructo comprometimento organizacional em seus aspecto multidimensional, pois segundo Meyer e Allen (1991), o termo componente é o mais apropriado para se descrever as dimensões do comprometimento, já que as relações empregado-organização refletem vários graus de cada um desses componentes.

Entre os diversos modelos de conceitualização do componente multidimensional do comprometimento, o modelo de maior aceitação entre os pesquisadores foi o modelo de conceitualização de três componentes do comprometimento, proposto por Meyer e Allen (1991).

Meyer e Allen (1991), a partir das pesquisas de Mowday, Steers e Porter (1979), aprimoraram um modelo que foi apresentado no início da década de 70, e que resultou na validação de um instrumento para se medir o comprometimento, o OCQ – Organizational Commitment Questionnaire (Mowday, Steers e Porter, 1979). Nele, os autores reconheciam que o comprometimento também era pesquisado num enfoque comportamental, chegando a destacar os trabalhos de Staw e de Salancik (apud Mowday, Porter e Steers ,1982). Mesmo assim, construíram um instrumento considerando apenas a perspectiva atitudinal e visto como elemento unidimensional. A visão de que compromisso era unidimensional era sustentada pelas primeiras análises de fator que acharam que os 15 itens do OCQ desembocariam em um fator único (MOWDAY, STEERS e PORTER, 1979).

O modelo de Meyer e Allen (1991) conceitualiza o comprometimento organizacional em três componentes, quando destacam a presença:

a) Comprometimento afetivo: Comprometimento como um apego, como um envolvimento em que ocorre identificação com a organização. Segundo Allen e Meyer (1990, p. 3), empregados com um forte comprometimento afetivo permanecem na organização porque eles querem [...] É o comprometimento que representa algo, além da simples lealdade passiva, envolve uma relação ativa, na qual o indivíduo deseja dar algo de si para contribuir com o bem-estar da organização. Sob esse ponto de vista, o indivíduo assume uma postura ativa, em que se parte da suposição de que ele deseja dar algo de si para a organização. Nesta perspectiva, o comprometimento organizacional, então, representa um vínculo muito mais forte com a organização, pois a dimensão afetiva se alimenta nos sentimentos do empregado com a organização como, por exemplo, pela aceitação de crenças, identificação e assimilação de valores organizacionais.

b) Comprometimento instrumental: Comprometimento percebido pelo empregado pelos custos associados a deixar a organização. Segundo Allen e Meyer (1990, p.3) ”Empregados com [...] comprometimento instrumental permanecem porque eles precisam [...]”, É o comprometimento em que o empregado vê a empresa como uma fonte de renda, onde há uma espécie de troca entre o funcionário que entra com a força de trabalho e a empresa que entra com a recompensa financeira.

c) Comprometimento normativo: Comprometimento como uma obrigação em permanecer na organização, que os autores denominam de obligation e depois (Meyer, Allen e Smith, 1993, p. 539), reconceitualizam como normativo. Segundo Allen e Meyer (1990, p.3) “Empregados com [...] comprometimento normativo permanecem porque eles sentem que são obrigados”. É o comprometimento que pressupõe que o comportamento do indivíduo é conduzido de acordo com o conjunto de pressões normativas organizacionais que ele assume internamente. Representa um vínculo do trabalhador com os objetivos e interesses da organização, estabelecido e perpetuado por essas pressões normativas. A adesão é dependente dos valores e normas partilhados bem como do que os membros acreditam ser a conduta ética e moral.

Meyer e Allen (1997) indicam a necessidade de se examinar os impactos dos sistemas de recursos humanos no comprometimento dos empregados. Para os autores, deve-se conhecer como se forma o comprometimento para melhor se desenhar o sistema de recursos humanos de uma empresa.

Atualmente, os modelos multidimensionais do comprometimento organizacional suplantaram os enfoques unidimensionais, pois nas relações entre empregados e a organização são refletidos vários graus de cada um dos componentes do comprometimento.

Walton (1973) observa que o comprometimento do empregado na organização ajuda a aumentar a qualidade dentro da empresa e a utilização de máquinas em fábricas; a diminuir custos com desperdício e com o pessoal operacional e de suporte; e, principalmente, na redução da rotatividade de pessoal e o absenteísmo e, na aceleração da implementação de mudanças organizacionais. O autor destaca oito dimensões inter-relacionadas que permite entender os pontos percebidos pelo trabalhador como positivos ou negativos no seu ambiente de trabalho. Nesse sentido Walton (1973, p. 5) diz que esses pontos estão relacionados:

a) compensação justa e adequada: equidade salarial interna, equidade salarial externa e benefícios;

b) condições de trabalho: condições físicas seguras e salutares e jornada de trabalho; c) oportunidade de uso e desenvolvimento das capacidades: autonomia e possibilidades de autocontrole, aplicação de habilidades variadas e perspectivas sobre o processo total do trabalho;

d) oportunidade de crescimento contínuo e segurança: oportunidade de desenvolver carreira e segurança no emprego;

e) integração social no trabalho: apoio dos grupos primários, igualitarismo e ausência de preconceitos;

f) constitucionalismo: normas e regras, respeito à privacidade pessoal e adesão a padrões de igualdade;

g) trabalho e o espaço total da vida: relação do papel do trabalho dentro dos outros níveis de vida do empregado, e

h) relevância social da vida no trabalho: relevância do papel da organização em face do ambiente.

Aplicando o modelo das três componentes de Allen e Meyer (1991), é possível identificar a diversidade de formas de vínculos do indivíduo com a organização, a satisfação e o envolvimento com o ambiente de trabalho e, consequentemente, o comprometimento organizacional.