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2.2 Hist´ oria da Hist´ oria da Ciˆ encia

2.2.4 A Pessoa certa na Hora certa no Lugar certo!

Obviamente que Thomas Kuhn n˜ao foi o primeiro a perceber essa estrutura para

a ciˆencia. J´a hav´ıamos comentado sobre suas influˆencias, especialmente Ludwik Fleck.

Entretanto quando Fleck publicou seu livroA Gˆenese e Desenvolvimento de um Fato

Ci-ent´ıfico em 1935, ele o fez num ambiente desfavor´avel, numa Europa envolvida em guerras

civis e conflitos de fronteira pr´oximo do in´ıcio da Segunda Grande Guerra. Numa l´ıngua

do dialeto alem˜ao, o ´ıdiche, de origem judaica, dif´ıcil at´e para os alem˜aes entenderem,

num per´ıodo de crescente preconceito e hostilidade contra os judeus.

Parafraseando Arist´oteles no seuA ´Etica A Nicˆomaco podemos afirmar que ao contr´ario

de Fleck, Thomas Kuhn foi a pessoa certa, pelo motivo certo e na medida certa a falar

sobre a historicidade da ciˆencia (apud KRAUT, 2009, p.212). O ambiente, o contexto da

publica¸c˜ao daEstrutura das Revolu¸c˜oes Cient´ıficas em 1962 ´e muito favor´avel, a

historici-dade da ciˆencia era uma necessidade da ´epoca como visto anteriormente. Al´em do que, a

maneira como o livro foi escrito possui um car´ater did´atico, f´acil de ler, os leitores tinham

um entendimento muito razo´avel da obra. Foi escrito em l´ıngua inglesa, facilitando sua

divulga¸c˜ao, num pais que est´a se tornando o maior produtor de ciˆencia e tecnologia do

mundo. Todos esses fatores contribu´ıram para seu grande sucesso.

Para se ter uma ideia, muitas pessoas come¸caram a se apropriar dos termos que Kuhn

eterniza em sua obra, para suas pr´oprias ´areas de atua¸c˜ao. No intuito de buscar saber,

por exemplo, qual ´e o paradigma de seu campo.

V´arios daqueles que retiraram algum prazer da leitura do livro reagiram

assim n˜ao porque ele ilumina a natureza da ciˆencia, mas porque

consi-deram suas teses principais aplic´aveis a muitos outros campos. Percebo

o que querem dizer e n˜ao gostaria de desencorajar suas tentativas de

ampliar esta perspectiva, mas apesar disso fiquei surpreendido com suas

rea¸c˜oes. Na medida em que o livro retrata o desenvolvimento cient´ıfico

como uma sucess˜ao de per´ıodos ligados `a tradi¸c˜ao e pontuados por

rup-turas n˜ao-cumulativas, suas teses possuem indubitavelmente uma larga

aplica¸c˜ao (KUHN, 2011, p.258).

Vejamos um exemplo desta aplica¸c˜ao em outros campos: Joel Barker, um futur´ologo

norte-americano, autor de v´arios artigos e livros, cita constantemente a Thomas Kuhn em

sua obra. Sendo um dos primeiros a popularizar o conceito de mudan¸cas de paradigma

para o mundo corporativo. Com respeito aos paradigmas ele escreveu:

Os paradigmas afetam dramaticamente nossos ju´ızos e nossos processos

de decis˜ao e influenciam nossas percep¸c˜oes. Se queremos fazer ju´ızos

certeiros acerca do futuro e antecipa-lo com ˆexito devemos ser capazes de

reconhecer nossos paradigmas presentes e estar preparados para

supera-los. Pois o paradigma ´e similar a uma espada de dois gumes. Por um lado

seleciona a informa¸c˜ao que nos ´e familiar de forma precisa e detalhada,

mas por outro lado ignora a informa¸c˜ao que n˜ao concorda com ela. Um

vˆe o que espera ver, mas ver´a pouco ou nada quando os dados n˜ao se

ajustam ao paradigma (BARKER, 1988, p.45).

Al´em dos que buscam reconhecer seus paradigmas existem aqueles que desejam criar

novos paradigmas, segundo Barker (1988, p.120) para encontrar novos paradigmas em

nossa ´area de atua¸c˜ao devemos voltar nosso olhar do centro para a periferia. Porque

quase sempre as novas regras est˜ao sendo escritas nas margens do paradigma. Tamb´em

quem os escreve quase sempre s˜ao forˆaneos que n˜ao est˜ao comprometidos com os antigos

paradigmas e portanto, n˜ao tem nada a perder criando os novos.

Ap´os o grande sucesso de seu livro, Kuhn passou praticamente todo o resto de seus

dias explicando suas ideias e respondendo as diversas cr´ıticas `a sua obra. Em 1969 foi

acrescentado ao livro um posf´acio onde o autor esperava desfazer alguns mal-entendidos e

esclarecer o uso dos termos: paradigma, incomensurabilidade e revolu¸c˜oes. Tamb´em fala

de conhecimento t´acito, intui¸c˜ao e das acusa¸c˜oes de ser um relativista.

Al´em de seus anos em Harvard, Kuhn lecionou hist´oria da ciˆencia na Universidade da

Calif´ornia, em Berkeley. Tornou-se professor efetivo desta institui¸c˜ao em 1961. Em 1964

assumiu a c´atedra de Filosofia e Hist´oria das Ciˆencias, na Universidade de Princeton. Em

1971 Kuhn foi lecionar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde permaneceu

at´e terminar a sua carreira acadˆemica.

De 1989 a 1990, Kuhn foi presidente da Associa¸c˜ao de Filosofia da Ciˆencia. Em

Outubro de 1990, ele pronunciou o discurso inaugural intitulado “O Caminho desde a

Estrutura”, na reuni˜ao bienal, realizada em Minneapolis, Minnesota. Nela, ele discutiu

as v´arias quest˜oes em que estava trabalhando, especialmente a incomensurabilidade numa

perspectiva evolucion´aria.

Kuhn morreu em 17 de Junho de 1996, em Cambridge, Massachusetts, depois de sofrer

por dois anos de cˆancer de garganta. Ele era um fumante inveterado.

Para concluir este recorte hist´orico ´e preciso ainda responder a uma ´ultima pergunta:

o que ocorre com a hist´oria da ciˆencia a partir das contribui¸c˜oes de Kuhn e seus

colabo-radores?

Pois bem, desde as ´ultimas d´ecadas do s´eculo XX, a hist´oria da ciˆencia procurou

voltar-se para conhecimentos que pareciam “errados”e outras formas de ciˆencia menosprezadas, a

exemplo do que Kuhn fez ao voltar-se para a f´ısica aristot´elica. Procurou tamb´em refor¸car

a ciˆencia como uma constru¸c˜ao humana, portanto sujeita a interesses, erros e acertos.

Trabalha para apagar a imagem da ciˆencia como um processo de grandes descobertas

feitas por gˆenios e busca reavaliar estes personagens bem como revelar outros que por

alguma raz˜ao foram esquecidos (ALFONSO-GOLDFARB, 1994, p.13-14).

Podemos citar como exemplo a reavalia¸c˜ao das contribui¸c˜oes de Isaac Newton `a

ciˆencia. Neste novo enfoque hist´orico passou-se a ter grande interesse por seus outros

escritos que tinham como temas: a magia, a alquimia e a religi˜ao.

Um novo Newton surgiu. De fato ele escreveu bem mais sobre estes assuntos

me-taf´ısicos do que sobre a pr´opria f´ısica, e para ele essas ´areas tinham uma forte conex˜ao!

Seus estudos sobre magia, religi˜ao e alquimia parecem ter sido o pivˆo para o seus estudos

da mecˆanica. E n˜ao h´a como dizer que existiam dois Newtons, na realidade ele era apenas

um homem que se dedicava ao conhecimento de modo geral, no contexto de sua ´epoca.

Tendo em vista essas considera¸c˜oes, podemos dizer que, atualmente, o

historiador da Ciˆencia procura entender o cen´ario da constru¸c˜ao dos

conhecimentos em determinada ´epoca, de modo contextualizado, tendo

como princ´ıpio a concep¸c˜ao de que cada cultura e per´ıodo tˆem formas

particulares de ver o mundo, problemas peculiares que desejam resolver e

formas de resolvˆe-los tamb´em peculiares (FERREIRA; MARTINS, 2009,

p.12).

Assim, a ciˆencia deixou de ser um modelo perfeito, um padr˜ao de compara¸c˜ao e o

historiador da ciˆencia n˜ao ´e mais um produtor de volumes para uma enciclop´edia. Ele

busca contribuir para a sua problematiza¸c˜ao.