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Capítulo II Educar Hoje

2.1.2. A Pessoa na sua dimensão comunitária

A clarificação dos conceitos pessoa e indivíduo e a afirmação da pessoa como um ser único que se constrói através das relações interpessoais, leva-nos a reconhecer que a pessoa, ao contrário do indivíduo que é um ser solispsista e incomunicável, só pode ser em sociedade. É na relação com e pelos outros que cada pessoa vai progressivamente desenvolver a sua potência de ser, quer fisicamente, no sentido em que, nas primeiras infâncias, necessita do outro que lhe presta os cuidados mais básicos de sobrevivência, quer no sentido ético-moral e cultural, na medida em que são os outros que lhe promovem o processo de socialização e aculturação que lhe permitem integrar-se na sociedade.

É verdade que todo o homem nasce numa determinada sociedade; no entanto, isto não significa que, à partida, lhe seja assegurado um sentimento de pertença. O homem é um ser imaturo, tanto na sua dimensão bio-fisiológica como na sua dimensão social. É no contacto com o meio social e pelas relações interpessoais que a pessoa vai progressivamente construindo o seu processo identitário, pelo desenvolvimento e complexificação crescente da sua racionalidade e da sua autonomia. Na verdade, é legítimo afirmar-se que a pessoa é o que os outros o auxiliam a ser. O auxílio da alteridade no desenvolvimento da pessoa expressa-se no acto educativo, quer este seja formal ou informal. Isto é, quer o acto educativo ocorra de forma espontânea, no seio da família que ensina às crianças as primeiras formas de subsistência física, os mais simples modos de ser e de se relacionar com os outros, os principais valores; quer o acto educativo ocorra de uma forma organizada e sistematizada, nas instituições de ensino que, em cooperação com o trabalho das famílias, transmitem todo o legado cultural e axiológico que permitirá o progressivo desenvolvimento da criança como um ser autónomo, tanto na sua dimensão singular como na relação com os outros.

A afirmação desta relação intrínseca e indissociável entre a sociedade e o desenvolvimento da pessoa é tão antiga como o Homem. Não nos podemos esquecer que, na Grécia Antiga, Aristóteles definia o homem como animal político, como ser que vive e age na polis, e que, neste período, a educação, paideia, era concebida como um processo global de desenvolvimento do homem, como a “[…] identidade espiritual de um povo, vivida através dos ideais partilhados e realizada através das obras construídas” (Patrão-Neves, 1998b, p. 87). Na Grécia Antiga, como vimos anteriormente, o processo educativo era “[…] sinónimo de construção de vida activa na polis, a qual se

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consubstanciava numa busca activa da verdade, do saber, posto ao serviço do bem comum” (Fernandes, 2004, p. 52).

Não obstante reconhecermos a antiguidade da relação entre a educação e a sociedade, no século XIX esta relação assume um sentido ainda mais radical. Émile Durkheim, sociólogo da segunda metade do século XIX e início do século XX, concebe a educação como sinónimo de socialização. Para o sociólogo, educar consiste num processo social que é desenvolvido pela sociedade com o intuito de formar o indivíduo enquanto membro vivente e integrante de uma determinada comunidade. A educação é, na perspectiva durkheimiana, o processo através do qual se transmite todo o legado axiológico, moral e sociocultural que permite a plena integração do jovem na sociedade em que vive. É neste sentido que se compreende a celebre definição durkheimiana de educação como sendo, “[…] a acção exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não se encontram amadurecidas para a vida social” (Durkheim, 1984, p. 17).

À semelhança dos autores que defendem a educação como um processo de personalização, como um meio que ajuda ao nascimento de uma segunda natureza singular e pessoal do homem, Durkheim preconiza a educação como um instrumento ao serviço do segundo nascimento do homem, o nascimento social. O sociólogo concebe o homem como um ser de duas dimensões: a individual, que comporta todos os estados mentais da vida do indivíduo; e a social, que se refere ao conjunto de ideias, sentimentos, hábitos, regras e normas que expressam a vida do homem em grupo. A educação é responsável pelo desenvolvimento desta dimensão social do homem, é a ela que cabe a árdua tarefa de suplantar o ser egoísta, a-social e imoral por um outro capaz de levar uma vida moral e social. Para Durkheim, toda a educação é moral, no sentido em que é através dela que se transmitem as regras, as normas, os valores e os costumes de uma determinada sociedade.

Segundo a concepção durkheimiana, a sociedade é instituidora da consciência pessoal, entendida, neste domínio, num sentido lato, que inclui as dimensões sócio- afectiva, emocional e moral do indivíduo, “[…] é a sociedade que nos afasta de nós mesmos, que nos obriga a contarmos com os outros interesses além dos nossos; foi ela que nos ensinou a dominar os nossos instintos, a legislar acerca dos mesmos” (Durkheim, 1984, p. 22).

Na realidade, consideramos legítimo afirmar que concepção sociológica de educação apresentada por Durkheim privilegia o desenvolvimento da pessoa na sua dimensão comunitária, como aquela que age e vive com os outros. É nas relações

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interpessoais e pela educação que a pessoa, progressivamente, abandona a sua dimensão egocêntrica, que caracteriza o seu estado inicial à nascença. Assim, entendemos que é possível conceber que, na teoria sociológica durkheimiana, é na educação, enquanto processo de socialização, que o indivíduo dá lugar à pessoa. Na verdade, podemos afirmar que é na sociedade e pela educação, na abertura do eu ao outro que esta promove, que a pessoa se realiza e constrói progressivamente a sua identidade. De acordo Durkheim (1984, p. 21), “[…] o homem só é homem por viver em sociedade”.

A sociedade, ao permitir a abertura do indivíduo ao outro, segundo Durkheim, também permite o desenvolvimento da consciência intelectual, na medida em que provoca o interesse pelo saber, pelo compreender os meandros do tecido social, ou seja, leva o homem à descoberta da ciência.

À primeira vista, esta concepção durkheimiana de sociedade enquanto instituidora da pessoa comunitária sugere-nos que o desenvolvimento desta ocorre através de um processo de construção autónomo, a partir do “pensamento reflectido” de cada um na tentativa de responder às dificuldades e às carências sociais. No entanto, o que se verifica nas teorias sociológicas de Durkheim é que a pessoa, ao contrário do que preconiza Kant, não pode gozar de autonomia da vontade, isto é, não pode deliberar as leis da sua sociedade. O homem só pode ser o que a sociedade determinar que ele seja, é esta que molda a sua personalidade, que define os valores, as normas as regras que a devem suportar. A participação do homem na sua sociedade é muito reduzida, a sua acção é muito passiva, pois

“[…] a moral do nosso tempo já está fixada no momento em que nascemos, […] as mudanças que sofre no curso de uma existência individual […] são infinitamente restritas. Não podemos de deixar de reconhecer que, ainda que a regra moral seja uma obra colectiva, a recebemos em maior medida que a fazemos.” (Durkheim, 1984, pp. 102-103)

Neste domínio, a educação, enquanto processo de socialização, é entendida como um processo de instrução e transmissão dos valores e da moral colectiva produzida pela sociedade. Durkheim (1984, pp. 96-97) concebe a moral como

“[…] o dever é a moral na medida em que ordena; é a moral concebida como uma autoridade à qual devemos obedecer, porque é uma autoridade e só por essa razão. […] A moral apresenta-se-nos como […] uma legislação imperativa que exige a nossa completa obediência.”

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Assim, a educação, enquanto meio que promove a instrução moral, é um processo que forma e subjuga a pessoa à sociedade, não é uma forma de promover o desenvolvimento da pessoa como ser autónomo, nem de preparar o homem para a hermenêutica do real sociocultural e para a recriação do seu quadro axiológico e moral.

Não obstante reconhecermos que a concepção de educação como socialização que Durkheim nos apresenta é bastante restritiva, uma vez que é imposta à pessoa e fá-la perder-se no todo colectivo, compreendemos também que ela constituiu um importante marco na reflexão sobre a função da educação e sobre a participação desta no desenvolvimento da pessoa na sua dimensão singular e comunitária.

Na realidade, e apresentando as devidas reservas face à radicalidade da teoria sociológica de Durkheim, podemos afirmar que este autor nos alerta para um aspecto muito importante a ter em consideração no domínio educativo: a educação é sempre um processo de socialização, no sentido em que formar a pessoa na sua dimensão comunitária, visando a sua integração na sociedade – e, no início, esse processo deve ser heterónomo –, deve consistir na imposição externa de conhecimentos e regras sociais das “gerações adultas às gerações mais novas”, pois não se pode discutir, reflectir e construir a partir do vazio, do não saber. Assim, consideramos que a crítica à teoria durkheimiana se deve centrar no facto de não aceitar que, após a aquisição de algum conhecimento, o homem possa caminhar para a autonomia, possa construir gradualmente, e em interacção com o seu meio, o conhecimento progressivo e cada vez mais complexo da sua sociedade e das relações interpessoais que a constituem.

É legítimo que, na fase inicial da sua vida, a pessoa não esteja preparada para agir no mundo, para compreender a necessidade e a pertinência das leis e das convenções sociais. No entanto, após um processo inicial de desenvolvimento da consciência moral, a pessoa é capaz de desenvolver progressivamente a autonomia do raciocínio moral e compreender a importância dos outros no desenvolvimento da sua identidade pessoal.

Na verdade, consideramos que a sociedade é um elemento crucial no desenvolvimento do ser humano; porém, temos dificuldade em conceber que, no meio social, o homem seja apenas mais uma peça do “puzzle comunitário” e não um elemento activo capaz de criar e recriar o quadro axiológico e cultural da sua sociedade.

Assim sendo, entendemos que a educação, enquanto processo de socialização, não se pode restringir, tal como o defendia Durkheim, à transmissão e imposição do espírito de disciplina e das normas e regras de uma sociedade que é em “[…] tudo superior a nós, que nos penetra” (Durkheim, 2002, p. 98).

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O processo educativo, enquanto meio que promove a integração do indivíduo na sociedade e o seu reconhecimento como membro desta, não pode cingir-se à transmissão do legado cultural, mas deve promover na pessoa o progressivo desenvolvimento de capacidades que lhe permitam o conhecimento e a interpretação mais complexa do real.

Neste sentido, consideramos ser mais pertinente a concepção de educação e de relação pessoa/sociedade de John Dewey, filósofo da educação contemporâneo de Durkheim.

Dewey, à semelhança de Durkheim, reconhece que o homem não nasce sozinho, nasce com o outro que o cuida, protege, lhe dá a conhecer o mundo. Sem o outro, o homem nada pode ser. Como refere John Dewey,

“O indivíduo isolado não é nada, só em e pela absorção dos objectivos políticos e pelo sentido das instituições organizadas é que alcança a sua verdadeira personalidade. O que parece ser a sua subordinação à autoridade política e a exigência dos seus sacrifícios face aos mandatos dos seus superiores não é na realidade senão a sua assimilação da razão objectiva manifesta no Estado, ou seja, o único caminho pelo qual ele chega a ser verdadeiramente racional.” (Dewey, 2001, p. 88)

É na relação que estabelece com os outros em sociedade e através do processo educativo, enquanto processo de “cuidado” social, que a pessoa vai progressivamente definindo objectivos, interpretando os sentidos da vida social, vai compreendendo o espaço que pretende ocupar nesta e delineando o significado do seu projecto existencial. Assim sendo, o homem não pode ser apenas mais uma peça na engrenagem social. A sociedade deve ser um meio que promove, através do conjunto de relações interpessoais que a constituem, o desenvolvimento progressivo da racionalidade e da autonomia da pessoa e que, consequentemente, o prepara para ser um membro socialmente activo.

É através do processo educativo, tanto formal como informal, que se prepara a pessoa para ser esse membro social activo. No entanto, esse processo educativo não pode consistir num espaço que, à semelhança do que define a perspectiva sociológica durkheimiana, constrange e aliena a pessoa às convenções sociais. A educação deve ser um meio que promove o desenvolvimento da pessoa. Este desenvolvimento deve ser concebido, à luz do que define Dewey (2001, p. 53), “[…] não como um crescimento

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contínuo, mas como o desdobramento de poderes latentes face a um objectivo definido. O objectivo concebe-se como complemento, como perfeição”.

Assim sendo, o processo educativo não pode ser concebido apenas como um processo de transmissão do legado sociocultural, mas deve ser compreendido como “[…] um processo de reorganização, reconstrução e transformação contínuas” (Dewey, 2001, p. 53).

A educação deve ser entendida como um processo construtivo que promove o desenvolvimento do raciocínio lógico e moral que permita ao homem a aquisição de competências de aprendizagem que facultem o conhecimento, a compreensão e a reconceptualização do real.

O processo de socialização que a educação se compromete a desenvolver não pode resultar na endoutrinação e na inculcação moral, pois, se assim o for, estará a acalentar a reprodução de modos de ser, pensar e agir que, para além de reduzirem o homem à pura passividade, são desadequados à contínua construção da identidade singular de cada um no seio da sua comunidade e ao desenvolvimento do ethos identitário desta. Uma educação que se assume como um processo de imposição de regras e normas de uma determinada sociedade está a condená-la à sua dissolução, no sentido em que não prepara os membros sociais para uma hermenêutica crítica do real, que lhes permita estabelecer espaços de abertura e diálogo com diferentes formas de ser e pensar socialmente.

Uma sociedade que se fecha sobre si mesma torna-se obsoleta, porque não está preparada para comunicar com as outras, não consegue compreender nem resolver os problemas que surgem de fora e que são fruto da evolução global da organização social. E não consegue resolver esses problemas porque não preparou, não socializou os membros que a constituem para analisarem, compreenderem, reflectirem e encontrarem soluções para os novos desafios, apenas os transmitiu e os constrangeu a cumprirem as antigas normas sociais.

Na verdade, consideramos que uma sociedade fechada é uma sociedade que concebe a dimensão comunitária da pessoa como algo que lhe é imposto de fora e que, por isso, promove um processo educativo que se consubstancia no adestramento das normas e dos modos de ser sociais.

Este tipo de sociedades não promove o desenvolvimento de pessoas mas de indivíduos comunitários, entendidos como seres passivos, centrados sobre os preceitos e os princípios da sua comunidade. Na realidade, entendemos que os indivíduos

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comunitários, ao contrário da pessoa na sua dimensão comunitária, não se desenvolvem, crescem. O crescimento é um processo natural de todos os seres vivos, animais ou plantas, e em cada etapa do crescimento cada ser apresenta uma forma mais complexa de ser. Ao contrário do crescimento, que é considerado um processo espontâneo, o desenvolvimento resulta de uma construção, desenvolver (des + envolver = negar o que envolve) significa potenciar competências ou potencialidades que estavam latentes. Desenvolver implica, portanto, um processo permanente de interacção entre quem pretende promover o desenvolvimento e quem efectivamente se desenvolve; este último não é um mero espectador do processo de desenvolvimento, é alguém que se constrói no diálogo com o meio e com o outro.

Consubstanciando o nosso raciocínio na concepção desenvolvimental de Piaget11, afirmamos que a pessoa desenvolvida é alguém que, num processo de interacção permanente, assimila conhecimento e se adapta a ele, interpretando-o, dando-lhe novos sentidos e, através destes, formando novas formas de ser e de pensar. O crescimento como processo espontâneo é algo que, desde que sejam cumpridos os cuidados mínimos em termos biofisiológicos e psicossociais, ocorre naturalmente, sem necessitar de um procedimento construtivo. A pessoa mais madura tem maior capacidade para apreender o maior número de conhecimentos e regras.

Em síntese, podemos afirmar que o crescimento implica um processo natural e apático de apreensão do conhecimento e das convenções sociais. O desenvolvimento pressupõe o conhecimento como um processo activo de construção e envolve um crescente grau de autonomia e reflexividade.

Assim, a pessoa, na sua dimensão comunitária, é um ser que se desenvolve, é aquela que não se subordina à sociedade, mas que coloca a sua dimensão singular em diálogo com os outros no seio da sua comunidade. A pessoa constrói a sua identidade num tecido de relações interpessoais, onde todas as pessoas são participantes activos e se reconhecem mutuamente como tal.

11 De acordo com a epistemologia genética de Piaget, o homem, ao longo da sua vida, passa por várias

etapas de desenvolvimento. Este ocorre através de um processo de equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, resultando em adaptação. O homem assimila os dados que obtém do exterior, mas como não é um “balde vazio”, já tem uma estrutura mental, à qual precisa de adaptar os novos dados assimilados. Este processo indica que o ser humano tem um papel activo na construção do seu conhecimento. Tudo o que o homem aprende recebe influências do conhecimento já adquirido. As teorias de Piaget sobre o desenvolvimento psicológico influenciaram alguns filósofos, entre eles, o filósofo e sociólogo Jürgen Habermas e a sua Teoria da Acção Comunicativa.

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É nesta linha de orientação que Jürgen Habermas, na Teoria do Agir Comunicacional e na Ética do Discurso, concebe a pessoa na sua dimensão comunitária. Segundo o filósofo (1999), a pessoa só pode formar a sua identidade através de um processo de reconhecimento mútuo no âmago de um conjunto de relações comunicativas. Para Habermas, a identidade singular e a identidade comunitária são duas faces da mesma moeda, são duas realidades que se desenvolvem concomitantemente.

Este processo de concomitância entre o desenvolvimento da identidade singular e comunitária não se reporta apenas à identidade comunitária da pessoa particular, mas à identidade da comunidade enquanto espaço temporal e cultural onde vive um conjunto de pessoas. Neste sentido, e ao contrário do que verificamos na concepção durkheimiana de pessoa comunitária, cada pessoa em particular é um membro activo, não só na construção da sua identidade, mas também da identidade axiológica e cultural do espaço comunitário a que pertence.

Para Habermas (1999, p. 69),

“[…] a identidade do indivíduo e a da colectividade a que ele pertence nascem e preservam- se em simultâneo. À medida que a individuação avança, mais o sujeito particular se envolve numa rede cada vez mais densa, e ao mesmo tempo mais subtil, de dependências recíprocas e de necessidades expostas de protecção. A pessoa só forma […] um centro de interioridade, na medida em que, a um mesmo tempo, se expõe às relações interpessoais estabelecidas ao nível da comunicação. Assim se explicam os riscos e a fragilidade crónica de uma identidade susceptível. E as morais são precisamente moldadas à sua protecção.”

Na realidade, consideramos que a constituição da identidade comunitária consiste na afirmação da pessoa como categoria ética e como agente moral. Entenda-se a pessoa como categoria ética, à luz do que defende M. Patrão-Neves (2001, pp. 48-49), como “[…] o ser espiritual individualizado. […] a Pessoa como categoria ética responde a uma exigência do plano do agir (de uma acção que não está mais determinada pela natureza, mas de que o Homem é o autor) e constitui o corolário do desenvolvimento antropológico, constituindo a essência ou especificidade do ser Homem.” Concebe-se a pessoa comunitária como um agente moral, no sentido em que, no tecido de relações que estabelece com o outro, e no reconhecimento deste como igual a si mesmo, estabelece um conjunto de normas de acção que medeiam as relações intersubjectivas e

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garantem a preservação da identidade de cada pessoa e do seu “universo comum” (Habermas, 1999).

A moral funciona, neste domínio, como a rede de suporte das relações interpessoais e como a garantia de desenvolvimento e de construção da identidade da pessoa, na sua dimensão singular e comunitária.

A perspectiva moral habermassiana não concebe a pessoa, na sua dimensão comunitária, como um ser constrangido às regras morais da sociedade em que vive, mas é entendia como princípios de equilíbrio da acção comunicativa. A moral funciona como o fiel da balança no processo comunicativo que suporta as relações intersubjectivas e em que todos os intervenientes na acção comunicativa se reconhecem reciprocamente como “[…] sujeitos responsáveis capazes de orientarem a sua acção por pretensões de validade” (Habermas, 1999, p. 96).

Neste sentido, a moral é entendia, não como uma imposição externa da sociedade à pessoa, mas como meio que garante o diálogo intersubjectivo entre todos os membros sociais e apoia o desenvolvimento da identidade da pessoa na relação com o outro.