Capítulo 4 Agendando as Eleições
4.2 A Pirâmide e a Teoria do Agendamento
Um dos principais fatores que levam os meios de comunicação a acumular poder político é a possibilidade de estabelecer a agenda pública, influenciando que temas o público conhece e debate, como evidenciaram Maxwell McCombs e Donald Shaw (1972) no primeiro estudo utilizando a abordagem metodológica da teoria14 do agendamento (Agenda-Setting). Os estudiosos perceberam uma enorme coincidência entre a agenda pública e a midiática durante as eleições presidenciais americanas de 1968 entre eleitores indecisos da comunidade de Chapel Hill, no estado da Carolina do Norte. A teoria proposta pelos dois estudiosos norte-americanos viria se tornar uma das mais importantes e utilizadas no estudo da influência midiática. O cerne da hipótese do agendamento é a idéia de que a mídia pode fixar a agenda, ou seja, estabelecer o que é importante e estaria no centro das atenções em relação a ações públicas. (MCCOMBS, 2006. p.11). A teoria do agendamento tem sua raiz na obra Public Opinion, de Walter Lippman (1922), que nos anos 1920 já defendia que grande parte das imagens do mundo que permeavam os debates públicos era construída pelas informações jornalísticas.
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Hohlfeldt (2005) considera a agenda-setting uma hipótese e não uma teoria, como no caso dos estudos que de produção da notícia (newsmaking). Para a diferença entre teoria e hipótese ver capítulo I.
Claro que a agenda proposta pelos meios de comunicação é construída de acordo com a visão de mundo proposta pela cultura jornalística, evidenciada nos critérios de noticiabilidade. O caso Maria do Socorro tomou conta da agenda midiática por preencher muitos desses critérios, ou seja, ter um alto grau de noticiabilidade, deixando outros assuntos igualmente importantes em segundo plano, gerando o que na teoria do agendamento é chamado acumulação (HOHLFELDT, 2005, p.201) que é a capacidade do campo jornalístico de dar relevância a um determinado tema dentro do imenso conjunto de acontecimentos que chegam diariamente às redações para serem transformados em notícia. Portanto, a tarefa de agendar a sociedade possui uma dimensão ética, reconhecida, inclusive, por McCombs.
Para os jornalistas, este fenômeno de que falamos agora, o papel dos meios informativos como fixadores da agenda supõe uma formidável questão ética de caráter global a respeito de qual agenda propõe os meios de comunicação de massa. “O que o público necessita” é uma frase recorrente no repertório retórico do jornalismo. Mas, o que o público necessita saber realmente constitui a agenda midiática? (MCCOMBS, 2006, p.21, tradução nossa)
A questão ética perpassa a tarefa de agendar o público, uma vez que a teoria do agendamento provoca um deslocamento na questão do poder jornalístico, e coloca em discussão o poder de dar visibilidade a fatos, instituições e pessoas, e negar essa propriedade a indivíduos e acontecimentos que não preencham determinados requisitos impostos pelos padrões jornalísticos. Bourdieu (1997, p.29) observa que os meios de comunicação de massa se tornaram árbitros do “acesso à existência política e social”. No mundo contemporâneo, alguma personalidade ou evento passa a existir socialmente quando se transforma em notícia veiculada pela mídia. Michael Schudson considera esse poder o mais perceptível entre todos os outros alegados nos mais diversos estudos sobre o tema.
Quando a mídia oferece ao público um tipo de notícia, ela confere ao acontecimento legitimidade pública. Os meios de comunicação trazem o fato para um fórum público comum onde ele pode ser conhecido e discutido por uma audiência ampla. Eles não apenas distribuem a descrição de um evento ou anúncio para um público amplo, eles ampliam suas dimensões. Isto estimula a interação social sobre tópicos noticiáveis. (SCHUDSON, 2003, p.29, tradução nossa)
O caso Maria do Socorro pela sua grande noticiabilidade criou uma consonância (HOHLFELDT, 2005, p.201) entre os dois jornais pesquisados, uma vez que devido à partilha de uma cultura profissional comum e ás expectativas mútuas derivadas da concorrência, ambos deram forte ênfase ao caso. A seleção de notícias é uma das formas que o campo jornalístico possui para dirigir a atenção do público, dessa forma o campo influi na percepção da audiência de quais são os temas mais importantes do dia. Quando
vários jornais acumulam matérias sobre um tema em consonância fornecem pistas ao público de sua relevância para o debate público.
Apesar de enfatizar o poder dos meios de comunicação em influenciar a agenda pública, a teoria do agendamento não é uma volta à teoria hipodérmica, que prega que as pessoas aceitariam as mensagens midiáticas acriticamente tão logo fossem expostas a elas. Contudo, a teoria do agendamento recupera o poder midiático que após as teorias do duplo fluxo de comunicação (two step flow) passou para as mãos dos formadores de opiniões, que influenciariam os demais acerca dos temas noticiados pelo campo jornalístico (MATTELART e MATTELART, 2004, p.51). A teoria do agendamento devolve o poder ao campo jornalístico, ao reconhecer que ele tem grandes possibilidades de influenciar a agenda pública. Entretanto, a teoria do agendamento como enfatiza McCombs não é um retorno à teoria hipodérmica que toma os membros da recepção como autômatos, prontos a aceitar todas as mensagens midiáticas, mas reconhece o poder da mídia em estabelecer a agenda do público.
O público faz uso dessas pistas de relevância que os meios de comunicação oferecem para organizar sua própria agenda e decidir, deste modo, quais são os temas mais importantes. E com o passar do tempo, esses temas que são acentuados pelos meios de comunicação informativos se tornam também nos mais importantes na consideração do público. Em conseqüência, a agenda dos meios informativos se transforma, em grande medida, na agenda pública. Em outras palavras, os meios informativos estabelecem a agenda do público. Esse estabelecimento da relevância entre o público, situando um tema em seu repertório de maneira que se transforme no foco de sua atenção e de seu pensamento – e, talvez, de sua ação - , constitui o nível inicial na formação da opinião pública. (MCCOMBS, 2006, p.25, tradução nossa)
A capacidade da mídia de fixar a agenda pública estaria assentada no que McCombs (2006: p. 110) chama de necessidade de orientação, o público procuraria nos meios de comunicação de massa informações sobre assuntos dos quais possuem pouco conhecimento. Esse é o primeiro nível de estabelecimento da agenda, determinar o que é relevante, o segundo nível é chamado de agenda de atributos, que verifica quais qualidades os meios de comunicação informativos atribuem aos objetos das notícias e sua influência da avaliação midiática dos objetos no julgamento público dos mesmos. Este segundo nível surgiu depois da contribuição da teoria do enquadramento aos estudos de agendamento. (MCCOMBS, 2006, p. 173).
Como foi evidenciado por McCombs, a tarefa de agendar tem uma dimensão ética, pois um tema sempre é enfatizado em detrimento de outros. Mas a tarefa de agendar também diz muito sobre a competência jornalística em lidar com a singularidade dos fatos. O agendamento de um tema possui um impacto epistemológico
diferente do suscitado por uma matéria isolada ou por uma reportagem mais detalhada. Para compreender a dimensão da notícia como conhecimento em situações de agendamento, quando um tema se torna central na cobertura jornalística; recorremos à teoria do jornalismo como forma de conhecimento de Genro Filho (1987).
Genro Filho usa a figura da pirâmide para explicar a forma de conhecimento produzida pelo jornalismo que tem como categoria central a singularidade. Para o teórico, a pirâmide invertida apesar de sua utilidade operatória para organizar o texto jornalístico rapidamente, não organiza as informações sobre o fato recolhidas pelo jornalista em ordem de importância, mas sim pela ordem da singularidade. Ou seja, a notícia é construída a partir dos dados mais singulares acerca do fato, e não a partir dos mais importantes, como pregam os manuais de redação. O lead seria a expressão mais aguda da singularização dos fatos (GENRO FILHO, 1987c), dessa forma o teórico critica a pretensão de que a pirâmide invertida possa servir de base para uma teoria do jornalismo.
A idéia da "pirâmide invertida" pretende encarnar uma teoria da notícia mas, de fato, não consegue. Ela é apenas uma hipótese racional de operação, uma descrição empírica da média dos casos, conduzindo, por esse motivo, a uma redação padronizada e não à lógica da exposição jornalística e à compreensão da epistemologia do processo. Somente uma visão realmente teórica do jornalismo pode, ao mesmo tempo que oferecer critérios para a operação redacional, não constranger as possibilidades criativas mas, ao contrário, potencializá-las e orientá- las no sentido da eficácia jornalística da comunicação. (GENRO FILHO, 1987c) Genro Filho (1987c) considera que a teoria da pirâmide invertida, partindo do dado mais importante para o menos importante, tem seu fundo de verdade, pois do aspecto descritivo o lead realmente representaria o momento jornalístico mais importante do texto, enquanto “apreensão sintética da realidade ou núcleo singular da informação”. Ainda de acordo com Genro (1987c), o lead é uma ferramenta e uma conquista importante do fazer jornalístico, pois permite representar “a reprodução sintética da singularidade da experiência individual. As formulações genéricas são incapazes de reproduzir essa experiência”. Contudo do ponto de vista epistemológico, “a pirâmide invertida deve ser revertida, quer dizer, recolocada com os pés na terra.
Nesse sentido, a notícia caminha não do mais importante para o menos importante (ou vice-versa), mas do singular para o particular, do cume para a base” (GENRO FILHO,
1987c). O autor usa a pirâmide para expressar graficamente a notícia como forma de conhecimento.
FIG 7 - Representação da Estrutura Epistemológica da Notícia Fonte – www.adelmo.com.br/index3.htm
O triângulo eqüilátero (Figura A) representa uma notícia bem construída do ponto de vista epistemológico, que parte da singularidade do fato, mas mantém um equilíbrio entre a particularidade e a singularidade do fenômeno. Para Genro Filho (1987c), a qualidade noticiosa do jornalismo diário não estaria ligada apenas à eficácia da construção textual da notícia, mas também ao enfoque epistemológico. É preciso oferecer um grau mínimo de conhecimento objetivo que deverá ser proporcionado pela significação do singular, que necessita de um mínimo de contextualização do particular, para que a notícia se efetive como forma de conhecimento. Já a figura B representa a notícia sensacionalista. O triângulo isósceles, de base estreita e ângulo agudo com os lados maior que a base, representa a notícia extremamente singularizada que, para Genro Filho (1987c), mesmo mobilizada para fins democráticos ou socialistas é sempre conservadora, por não contextualizar suficientemente o contexto (o particular), não permitindo assim uma ligação com o universal.
A figura C, um triângulo isósceles com a base maior do que os lados, representa uma abertura para a particularidade pela maior periodicidade do veículo que publicará a
notícia. Uma revista ou programa semanal de TV semanal deve contextualizar de forma mais acentuada seu conteúdo, aumentando o espaço da particularidade. A figura D significa uma contextualização ainda maior, apropriada para publicações mensais. Dessa forma ao aumentar o nível de contextualização, o jornalista aumenta também a base do triângulo. Genro Filho (1987c) faz outra representação gráfica para representar os pressupostos ideológicos e ontológicos da notícia (FIG 8), que surgiriam enquanto projeções, e não explicitamente.
FIG 8 - pressupostos ontológicos e ideológicos da notícia Fonte- www.adelmo.com.br/index3.htm
Dessa forma X seria o núcleo singular da notícia, e Y a base de contextualização particular. A projeção X’ seriam os pressupostos ontológicos e ideológicos que orientaram a produção da notícia, enquanto Y’ seriam os pressupostos ontológicos e ideológicos que emanam ou são superiores pela notícia (GENRO FILHO, 1987c).
Entendendo que a cobertura de um tema agendado pela imprensa diária é diferente de uma notícia isolada dentro de uma edição de um jornal diário, é possível defender que o caráter epistemológico dessa cobertura é diferente do da notícia isolada. O que defendemos é que com várias suítes sobre um tema, o campo jornalístico tem a chance de aumentar a base de contextualização particular, se a cobertura for feita seguindo determinadas normas do profissionalismo jornalístico em relação à apuração e investigação dos dados. Ou seja, acreditamos ser possível analisar o agendamento de um tema do ponto de vista epistemológico. Em seus estudos sobre a compreensão da notícia Van Dick (1990. p.247-248) defende que “somente a informação repetida e recorrente sobre certos temas pode conduzir a uma transformação modesta ou à construção de modelos situacionais recorrentes”, ou seja apenas um certo número de
notícias recorrentes sobre um determinado tema pode transformar seguramente o quadro de conhecimento da audiência, o que acontece numa situação de agendamento. Nilson Lage (2001, p.116) considera que a reportagem está ligada à investigação, que vai além do que é esperado na notícia diária. Já Genro Filho (1987c), sem discordar de Lage, se prende aos efeitos na pirâmide epistemológica jornalística para caracterizar a reportagem.
...o essencial na reportagem, e que estabelece um nexo entre aqueles aspectos apontados por Nilson Lage, é que a particularidade (enquanto categoria epistemológica) assume uma relativa autonomia ao invés de ser apenas um contexto de significação do singular. Ela própria busca sua significação na totalidade da matéria jornalística, concorrendo com a singularidade do fenômeno que aborda e dos fatos que o configuram. Essa significação autônoma pode ser estética (como em " À Sangue Frio", de Truman Capote, para citar um exemplo extremo), teórico- científica (como numa reportagem sobre mortalidade infantil utilizando estatísticas ou outros métodos das ciências sociais) ou informativa (como no caso das revistas semanais que, muitas vezes, contam a "história da notícia" a que o público já assistiu pela TV e leu nos jornais diários, com maior riqueza de nuances e detalhes, fornecendo um quadro mais complexo da situação na qual o fato foi gerado). (GENRO FILHO, 1987c)
Se uma reportagem pode aumentar o nível de contextualização, o que poderia ser dito sobre o agendamento de um tema que toma grande espaço nos jornais durante períodos mais dilatados de tempo, enriquecendo o conhecimento da audiência sobre o tema. Além disso, um tema agendado dá a possibilidade aos jornalistas de produzirem reportagens jornalísticas sobre o tema, por exemplo, nas edições dominicais ou da segunda-feira quando os fatos políticos são mais escassos. Assim, seria possível comparar o caso Maria do Socorro a outros escândalos políticos ocorridos em eleições passadas em Pernambuco e outras localidades, publicar reportagens sobre a confiança dos cidadãos na política e nos políticos em meio a tantos escândalos, entre outras possibilidades, que dariam várias pautas. Esse foi um dos caminhos seguidos para avaliar o agendamento do caso Maria do Socorro pelos jornais pesquisados.