2. DESLOCAMENTOS E DESENCONTROS AMOROSOS
2.2 A plenitude do amor
Mas para quem ama não importa saber da solidão, vale mais aproveitar a plenitude desse momento. A plenitude do amor está relacionada ao inalcançável e a eternidade, mesmo que, paradoxalmente, essa idealização como satisfação plena seja irreal. A propósito, Barthes coloca significados à figura Plenitude como “obstinação do sujeito amoroso na busca de uma felicidade sem falhas. Volúpias da Terra. Plenitudes: não são ditas – de modo que, falsamente, a relação amorosa parece reduzir-se a um longo lamento” (p.275-276). Esse estado de alma reforça o movimento de transcendência entre sujeito e objeto amoroso no qual ambos desejam que tal instante prazeroso se eternize. Tal configuração está presente no mundo platônico proposto em O Banquete. Nessa obra, o Amor é realizável pela união entre os mundos inteligível e sensível – entre deuses e mortais, que garante aos mortais a imortalidade:
Para conhecer o poder do amor é preciso conhecer a história da natureza humana. O devido culto ao amor nos ajuda a encontrar, senão nossa primitiva metade, pelo menos a que mais se lhe assemelha, e assim realizar de algum modo nossa unidade original (...) O amor é uma tentativa de restabelecer um todo primitivo. Não se trata apenas do prazer afrodisíaco. Trata-se da natureza humana e da sua história. O amor é, de fato, essencialmente uma procura, isto é, o amor é a procura do todo (PLATÃO, [427-347 a.C.], 1970, p.37-38).
Ao dizer isso, Aristófanes se refere ao ‘Mito da Unidade’, ou, no princípio de tudo havia somente um ser uno – formado pelos dois gêneros, masculino e feminino, cada um com duas pernas, com dois braços, e que vivia plenamente. Como vingança diante de um passo em falso do humano, Zeus repartiu-o pela metade, tornando esse ser incompleto. Essa narrativa de homens e mulheres inacabados e, por isso, buscam um ao outro para se completar, prevalece ainda na contemporaneidade ao reforçar a ilusão dos amantes na busca incessante por sua outra metade. Aristófanes vê o amor como necessidade humana, mas sem excessos. O
amor é responsável pelo equilíbrio dos sentimentos humanos. Enfatiza ainda que, embora o ser humano não precise do outro para viver é através do outro em que se retorna à unidade da natureza.
Neste sentido, a poética de Campos retoma essa plenitude do amor como uma das etapas do sujeito apaixonado na crônica “Versos em Prosa”, quando o narrador se utiliza de anáforas para propor situações no qual o amor se configura:
No princípio do amor existe o fim do amor, como no princípio do mundo existe o fim do mundo (...) no princípio do amor o infinito se encontra (...) no princípio do amor já é amor (...) no princípio do amor a criatura já se esconde bloqueada na terra das canções (...) Amor. A morte. Amar-te. Até a morte (p.246-247).
Cantar o amor é ser pleno para o narrador dessa crônica que pulsa a matéria amor. Esse fragmento traduz a plenitude e a força de amar. A musicalidade dessa crônica reforça seu canto de plenitude ao amor: “No princípio do amor, sem nome ainda, o amor busca os lábios da magnólia, a virgindade infatigável da rosa, onde repousa a criatura em torno da qual é, foi, será princípio de amor, prenúncio, premissa, promessa pressurosa de amor” (CAMPOS, 2013, p. 246). A prolongação desse contentamento é vivida pelos amantes, visando à unificação total entre eles:
No princípio do amor existe o olhar, a escuridão, depois os galgos prematuros da alvorada. Duas retinas paralelas, vítreas, dois corpos paralelos, espelhos humanos que se refletem com intensidade, imagens que se confundem até chegar à criatura una, indivisível: escultura colocada no infinito (p.247).
Entre sentidos de plenitude, eternidade, desejos de querer-possuir, o instante amoroso é expresso na crônica “Versos em prosa” com festividade, pois, trata-se de um dia/momento eleito no qual o encontro com o ser amado é notório de celebração, conforme significação barthesiana “o sujeito amoroso vive todos os encontros com o ser amado como uma festa” (BARTHES, 2003, p.197).
Ao cantar o amor, sua crônica propõe uma aquarela que se modifica conforme as etapas do amor. Dos tons fortes às cores neutras, dando um ritmo poético, como se o ser se apaixonasse em plenitude:
No princípio do amor a criatura humana se veste de cores mais vivas, blusas preciosas, íntimas peças escarlates, linhas sutis, sedas nupciais, transparências plásticas, véus de azul deserto, tonalidades de céu, de pedra, corolas de nailon, gineceus rendados, estames de prata, pecíolos de ouro, flor, é flor, flor que se
contempla contemplada por dois olhos turvos no estio, claros na primavera, como os rios que passam (CAMPOS, 2013, p.247).
Esse pulsar faz parte do movimento inicial do ciclo amoroso, quando há o encantamento e a paixão entre os amantes.
Do jogo de linguagem delineado pelo cronista em “Versos e prosa”, o movimento do amor ao desamor se circunscreve, paradoxalmente, desde o enunciado inicial que diz “No princípio do amor existe o fim do amor, como no princípio do mundo existe o fim do mundo”, sentenciando que início e fim podem ser relativos ou condicionados, ou ainda, que o sentimento amoroso começa e termina do nada, quiçá, nunca tivera existido. Em seguida, o narrador se coloca na contrapartida, estabelecendo o desfecho do movimento amoroso e o reinício do ciclo amoroso com vistas à plenitude entre os amantes, conforme trecho:
No princípio do amor existe o olhar, a escuridão, depois os galgos prematuros da alvorada. Duas retinas paralelas, vítreas, dois corpos paralelos, espelhos humanos que se refletem com intensidade, imagens que se confundem até chegar à criatura uma, indivisível: escultura colocada no infinito. No princípio do amor o infinito se encontra (CAMPOS, 2013, p.247).
Outras possíveis significações ao conceito de amor, extraídas dessa crônica, estão associadas ao mistério, à obscuridade, ao percurso enigmático que representa o percurso amoroso. Tais sentidos podem ser descritos através das metáforas recorrentes:
(...) montanhas de gaze azul amontoadas no horizonte, crepúsculos de ametista com palmeiras estruturadas para um tempo além de nosso tempo, pássaros fatídicos na tarde assassinada (...) no princípio do amor, navios pegam fogo no alto mar, defronte da cidade obtusa, precedida dum tempo que não é o nosso tempo. No princípio do amor, sem nome ainda, o amor busca os lábios da magnólia, a virgindade infatigável da rosa (...) (CAMPOS, 2013, p.246).
O movimento do percurso amoroso se constrói de modo ambíguo nessa crônica. Segundo o narrador, o encantamento e o desencantamento ocorrem ao mesmo tempo, e tanto a mulher quanto o homem se veem perdidos neste processo:
No princípio do amor a mulher abre a janela do parque enevoado, com seus globos de luz irreais, umidade, doçura, enquanto o homem – criatura ossuda, estranha – ri como um afogado no fundo de torrentes profundas, e deixa de rir subitamente, fitando nada (...) no princípio do amor existe o olhar, a escuridão, depois os gagos prematuros da alvorada (CAMPOS, 2013, p.246-247).
Em “depois os galgos prematuros da alvorada”, reforça o funcionamento do ciclo amoroso que, depois do fim do amor, ele recomeça novamente. De fato, o narrador começa a crônica sentenciando o fim do amor quando este se inicia, prossegue pela consumação do desejo e encerra o texto apontando situações de como o movimento amoroso dar, novamente, seu ponto de partida. O movimento cíclico proposto pela crônica enfatiza que o amor é construção, logo, requer amantes dispostos como ressalta Bauman:
Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo (...) cada qual a grande incógnita na equação do outro (...) amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas (2004, p.21).
Ao fazer uma inversão de como os fatos acontecem, essa crônica reafirma a existência infindável do movimento amoroso. A propósito, da fase de encantamento, destacamos do texto:
No princípio do amor a criatura humana se veste de cores mais vivas, blusas preciosas, íntimas peças escarlates, linhas sutis, sedas nupciais, transparências plásticas, véus de azul deserto, tonalidades de céu, de pedra, corolas de náilon, gineceus rendados, estames de prata, pecíolos de ouro, flor, é flor, flor que se contempla contemplada por dois olhos turvos no estio (...) no princípio do amor o corpo da mulher é fruto sumarento, tronco silvestre de onde desce a doçura da resina (...) é como cântico dos cânticos. É como a polpa do figo, fruto, fruto em sua nudez sumarenta, essencial (...) (CAMPOS, 2013, p.247-248).
Ao descrever como o amor pulsa, Campos explora detalhes da plenitude do amor, pois narra de forma minuciosa como o afeto se manifesta nas ações do sujeito apaixonado. Essa proposta comparativa da plenitude do amor dá um tom poético a sua crônica, reforçando o cuidado com a linguagem. Com essa proposta estética, “Versos em prosa” é marcada pela subjetividade que desvela a vida, o amor, a morte e a literatura com a mesma força por meio de um ritmo que preenche os espaços do amor. Há, ainda, outro traço peculiar dessa crônica: as fronteiras híbridas entre a poesia e o ensaio. Quanto ao caráter reflexivo da crônica, é possível identificá-lo de modo sutil, mediante as questões metafísicas que enuncia, através das palavras “morte”, “vida”, “amor”, citadas anteriormente. A figura “noite”, por exemplo, reaparece emblemática:
(...), mas é noite, noite por dentro e por fora do fruto. (...) Sangue contido nas veias, périplo inviolável do sangue, nudez da carne em seu tecido indecifrável, orvalho sobre o cristal inconsútil dos frutos, ramagens despenteadas, recôncavos
expectantes, inflorescência de pés apontando o firmamento, cinzeladas umbelas, estigmas altivos, é noite, é treva, é flor, é fruto, é espera, é noite (CAMPOS, 2013, p.248).
O modo subjetivo de descrever essas situações nos permite identificar um estilo próprio para descrever a plenitude do amor. O pulsar da crônica reforça uma preocupação estética em expressar a força do amor por meio do movimento da linguagem. Ao usar repetições, anáforas e outros recursos da lírica, Campos expõe uma das principais facetas de sua crônica: traduzir os impasses amorosos por meio de uma linguagem literária que explora o sentimento de vazio do homem moderno.