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A pluralidade de conceitos de racionalismo

No documento Weber e o direito : racionalidade e etica (páginas 71-80)

5. Ciência e Política

1.1 A pluralidade de conceitos de racionalismo

Para compreender o caráter peculiar do moderno racionalismo e da ordem social do Ocidente, bem como para - de certa maneira - realizar a tarefa precípua da ciência social no sentido de buscar a compreensão das características específicas da realidade em que nos encontramos, é imprescindível especificar as esferas da vida social que são racionalizadas. O “racionalismo” peculiar da cultura ocidental, através do qual Weber arquiteta seu pensamento, é usado em um pluralismo de significados. Conforme assinala em A Ética

Protestante e o Espírito do Capitalismo”, sob essa denominação é

possível entender coisas muito diferentes:

“Há, por exemplo, as racionalizações da contemplação mística, ou seja, num contexto que, considerado sob cnitras perspectivas, é especificamente irracional, da mesma forma que há racionalizações da sociedade, da técnica, do trabalho científico, da educação, da guerra, do direito e da administração. Cada um desses campos pode, além disso, ser ‘racionalizado' segundo fins e valores últimos muito diferentes, e, o que de um ponto de vista for racional, poderá ser

irracional do outro. ”8

7 Sobre, consultar (BRUBAKER, 1984), (ROSSI, 1988), (SCHLÜCHTER, 1987), (CAVAZZAN1, 1993). jBrubaker busca reconstruir a fragmentada discussão weberiana acerca da racionalidade, do racionalismo e da racionalização, bem como estabelecer a conexão entre a sua obra sociológica e a sua visão moral de mundo.

Rossi, trata, no capítulo sobre a “teoria da racionalidade” , de ilustrar os significados da racionalidade em Weber que possibilitaram a sua análise do Ocidente.

Schlüchter parte de uma perspectiva segundo a qual a teoria da racionalidade em Weber deve ser situada numa perspectiva histórico-evolutiva.

8 WEBER, op. cit, p. 11. Ver também BRUBAKER, Rogers. / limiti delia razionalità; um saggio sul pensiero sociale e morale di Max Weber. Roma: Armando, 1989, p. 31. Segundo este autor, “questi varí processi di razionalizzazione hanno notevoli somiglianze struturali. Cerco di coglieri queste componenti struturali ..., perseguendo tre temi -

O conceito de racionalidade, - que é fundamento da A tipologia do agir social -, dá lugar a uma precisa teoria sociológica, ao passo que, os conceitos mais genéricos de racionalismo e racionalização possibilitam uma interpretação da história e do mundo, compreendida em níveis e análises de conteúdos fatuais diversos. Enquanto a racionalidade se toma um “traço definitivo da ação na medida em que

se incorpora nas instituições sociais, interpretações culturais e estruturas de personalidade ” , a racionalização é, exatamente “o processo em que se opera essa incorporação 9

Weber analisa a ordem ocidental modema sob uma perspectiva dinâmica e não estática, cujo propósito é tanto delinear o caráter específico do racionalismo ocidental, quanto elucidar seu desenvolvimento histórico:

“/» altre parole, egli si preoccupa tanto dei processo di razionalizzazione quanto dei risultato: la razionalità"10

O racionalismo indica, antes de tudo, a capacidade de dominar a realidade mediante o cálculo. Pode ser considerado, em termos gerais, como um procedimento de controle para “dominar a

realidade dentro e fora do homem 11

O “racionalismo” é um aspecto particular de um evento mais geral. SCHLUCHTER propõe três tipos de utilizações deste conceito, a partir da interpretação de Weber:

aumento delia conoscenza, crescente impersonalità, intensiflcazione dei controllo - che ricorrono in tutte le discussioni di Weber sulla razionalità dei moderno ordine sociale ” 9 ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. Weber e Habermas: religião e razão moderna. Belo Horizonte: Revista SinteseNova Fase, 1994, p. 21.

10 BRUBAKER, op. cit, p. 10

11 RUSCONI, Enrico. Razionalità, razionalizzazione e burocratizzazione . In: Max Weber e 1’analisi dei mondo moderno.Torino: Einaudi, 1981. p.189-214. . Os critérios para esse procedimento de adequação dinâmica entre meios e fins são a previsibilidade, a calculabilidade, a generalidade daqueles primeiros em relação a estes últimos. A racionalidade é, desta maneira, um conceito com referência a comportamentos práticos. 12 SCHLÜCHTER, Wolfgang. II paradosso delia razionalizzazione - Studi su Max Weber. Napoli: Liguore, 1987, p. 154. Este autor é um dos mais importantes estudiosos

sobre o racionalismo na obra de Weber, cujas pesquisas têm servido de base inclusive a

a) racionalismo pode ser considerado como o iL ri suit at o

del sapere e dei potere empirico, dei razionalismo tecnico-scientifico nel senso piü ampio”; (Neste caso, ele representa um momento no

processo global da evolução da sociedade humana); b) o racionalismo pode significar:

“sistematizzazione di connessioni di senso, elaborazione intelletíuale e sublimazione scientifica di ‘scopi dei senso ’. E il risultato di un ’ ‘intima necessità’ deli’ uomo di cultura: non solo capire il mondo come cosmo dotto di senso, ma anche prendere posizione nei suoi confronti: si tratta, quindi, di un razionalismo etico-metafisico nel senso piü ampio

Pois, há uma necessidade de o homem referir-se ao mundo como “um cosmo dotado de sentido”, assumindo uma atitude diante desta situação;

c) racionalismo pode significar, enfim, “formazione di

una condotta di vita metódica. E il risultato delia istituzionalizzazione delle connessioni di senso e di interesse: è un razionalismo pratico nel senso piü ampio... que, inscreve no homem a exigência de elaboração

de uma conduta de vida metódica.

Com base em tal classificação, Habermas assinala em Weber as várias manifestações da racionalidade presente em campos distintos do conhecimento,13 reagrupando-a em três tipos de racionalizações: da sociedade, a cultural e a da personalidade.

Habermas. Ele acredita que a sociologia de Weber não é só como toda sociologia importante, uma “ problemática articulada da realidade mesma”, mas é , ao menos em parte, uma problemática que ainda é nossa e não foi superada pela teoria sistêmica nem pelo neomarxismo.

A racionalização da sociedade leva ao processo de ^ modernização social, cujos resultados podem ser percebidos na formação da empresa capitalista vinculada à constituição do Estado moderno como um aparelho legal-burocrático. A empresa capitalista e o aparelho de Estado são núcleos organizadores da racionalização em diferentes domínios sociais. A primeira racionaliza a utilização da técnica da ciência, o trabalho, a contabilidade, o investimento; e a segunda racionaliza a organização burocrática da administração, o poder judiciário, a força militar e o sistema fiscal. O direito moderno é muito importante na organização e na relação recíproca entre esses subsistemas.

A racionalização cultural tem como característica principal a capacidade de previsibilidade, de cálculo e de controle organizativo e instrumental dos processos empíricos, de maneira que a compreensão científica do mundo leve ao seu desencantamento; daí, as mudanças na arte, na ética, na religião, na ciência e na técnica. Diz respeito a “um conjunto complexo de elementos que envolvem a

progressiva diferenciação e formalização das esferas culturais de valor, entre as quais são fundamentais aquelas inscritas na arquitetônica kantiana: ciência, moral e arte. 14 Com o processo de

racionalização das imagens de mundo, notadamente das tradições religiosas (que uniam tais elementos), houve uma diferenciação das esferas de valores. Logo, cada esfera adquire, devido a esta separação, uma legalidade interna própria.

Conforme vimos no capítulo anterior, o saber científico moderno está em tensão com a religião. Enquanto esta última dá “sentido” à vida, respondendo a questões existenciais da humanidade, à ciência cumpre o papel de saber objetivo, “positivo”, mas às custas, entretanto, da perda de sentido da vida. A arte, que esteve intimamente ligada à religião, também se autonomiza, desgarrando-se do domínio sagrado.

14 ARAÚJO, op. cit., p. 21.

A racionalização nessas duas esferas (ciência e arte), para Weber, contudo, não tem a mesma importância na emergência da sociedade moderna, que a racionalização nos domínios do direito e da moral. 15

A racionalização da personalidade possui um lugar de destaque na teoria de Weber. Refere-se a um modo de vida que se tomou muito importante para compreender o surgimento do capitalismo moderno vinculado à compreensão dos fundamentos religiosos da

conduta racional de vida. A racionalização da conduta de vida é

considerada, conforme Habermas, o ponto de interseção entre racionalização cultural e social. De acordo com essa idéia, temos como fundamental que “tf racionalização da sociedade, segundo Weber só é

possível a partir do momento em que o potencial de racionalização encastrado na cultura tenha sido incorporado às motivações pessoais”.Ou seja, não basta a constatação de fatores materiais, faz-se

necessário uma intemalização de valores, e de idéias.

Enquanto materialização perfeita da conduta racional e metódica de vida,16 destaca-se a ética ascética do protestantismo, mediante a qual, a teoria da ação adquire um caráter central na obra de Weber sobre a modernidade. No âmbito dessa teoria, o autor busca conhecer como ou por quais caminhos as estruturas modernas de consciência chegam a uma materialização institucional. Tais estruturas de consciência passam, então, do plano cultural ao sistema de personalidade; isto é, a partir de um aspecto típico-ideal, representam-se como um agir racional com respeito a valores e em agir racional com respeito a fíns. Esse tipo de ação se expressa num estilo metódico de vida. A racionalidade prática é realizada por esse tipo complexo de ação que reúne as ações orientadas a fins e a valores.O que há, historicamente, de mais aproximado ao tipo ideal de conduta metódico- racional de vida ou de racionalidade prática é, assim, o protestantismo ascético.

15 ARAÚJO, ibidem, p. 23.

Weber distingue os diversos movimentos do protestantismo até chegar ao calvinismo, considerado o mais racionalizado de todos. Segundo ARAÚJO, Habermas entende que esse privilégio weberiano à doutrina calvinista determinou uma leitura da emergência da sociedade capitalista moderna. A partir daí é que Habermas propõe uma ética comunicativa da fraternidade, de forma secularizada, para contrapô-la à ética ascética da convicção representada de forma exemplar pelo protestantismo de origem calvinista. 17

Esse último tipo de racionalização - da personalidade - não foi levada em consideração por Habermas da mesma maneira que os outros dois tipos, o que, segundo SOUZA, limitou a possibilidade de ver em Weber algo para além da racionalidade instrumental e de uma mera diagnose da modernidade:

“Habermas considera que somente a racionalidade societária assume para Weber o caráter de problema a ser explicado. (...) Dessa forma, os aspectos da racionalização cultural - e dentro desta especialmente a racionalização valorativa - e da racionalização da personalidade, foram degradados, na recepção habermasiana, a meros pressupostos da racionalização societária. 5,18

Segundo SOUZA, Habermas restringe a interpretação da racionalização valorativa em Weber aos limites da racionalização ético- religiosa, o que limita, igualmente, sua concepção da ética protestante ao visar o “favorecimento do espírito do capitalismo às custas dos

efeitos reificadores da ‘ética da não fraternidade ’ enquanto mediador da racionalização valorativa secular, o que reduz decisivamente a abrangência da teorização weberiana e desconsidera a discussão de uma ética secular em Weber com todas as suas conseqüências” . Ao

17 ARAÚJO, ibidem, p. 25.

18 SOUZA, Jessé José Freire. O desenvolvimento e o diagnóstico da modernidade ocidental O diálogo entre Jürgen Habermas e Max Weber. Heidelberg: s. ed., 199-, (tese de doutorado).

final deste capítulo, voltaremos à questão de uma ética secular em Weber. 19

As três acepções do termo “racionalismo” têm estreita conexão entre si, na medida em que, não apenas os interesses impulsionam o homem a organizar a sua vida de modo prático-racional segundo determinadas formas, mas sobretudo, a interpretação que ele dá ao mundo. As “imagens do mundo” exprimem, de acordo com Weber, a relação do homem com o mundo, entendido como “cosmo das relações naturais e sociais”. Essas são as representações das condições últimas, internas e externas, da existência.20

Weber diferencia três âmbitos de relações essenciais: a) a relação a respeito das idéias entre si que se refere a necessidade do homem de assumir uma posição unitária nos confrontos do mundo; b) a relação entre ‘ idéias’e ‘interesses’ que se diz respeito à necessidade do homem de assumir a sua posição nos confrontos do mundo; c) a relação de ‘idéias’, ‘interesses’, de um lado, e organização, de outro, ditada pela necessidade de o homem construir a sua relação com o mundo, através da calculabilidade das vantagens e desvantagens 21

Graças a essa ligação recíproca das “relações fundamentais”, o agir social torna-se expressão tanto dos interesses institucionalizados quanto das idéias institucionalizadas. Na realidade, isto constitui a gênese de uma relação dinâmica entre a exigência da funcionalidade das instituições e a obrigatoriedade de regulamentação da conduta e cada indivíduo, segundo suas leis intrínsecas.

Esta acepção de Weber, segundo a qual há uma relação dinâmica entre idéias e interesses, ou seja, de que não há nenhum vínculo a priori entre mundo material e simbólico, lhe permite superar, simultaneamente, a concepção materialista e idealista da história.

19 souza, op. at.

20 PONSETTO, Antonio. Max Weber - Ascesa, crisi e transformazione del capitalismo.

Milano: Angeli, 1986, p. 28. 21 SCHLUCHTER, op. cit.,p. 156

O que para Marx é determinação econômica, para Weber é interesse. Não que Weber tenha negado a importância do econômico; ao contrário, em muitas passagens de sua obra este fator emerge como sendo o mais importante. O que este autor tenta explicar é exatamente aquilo que ultrapassa o aspecto econômico, isto é, o fato de o homem atribuir um sentido à vida, de ser racional.

Para Marx, as idéias são produtos dos interesses (as religiosas, por exemplo, surgem das determinações econômicas). Weber, por sua vez, procura esclarecer que idéias e interesses influenciam-se mutuamente, “encaixando-se” de maneira específica em cada situação histórica; pois, o homem é um ser que possui necessidade interna (simbólica) e necessidades externas (comer, vestir, etc.). Isto fica muito evidente quando o autor questiona a “afinidade eletiva” entre mensagem religiosa e maneira de conduzir a vida econômica, na “Ética

Protestante e o Espírito do Capitalismo”.

O ser humano orienta sua ação de acordo com um sentido que é sua própria “identidade”; mas, em contrapartida, os rumos tomados pela história não podem ser previamente determinados e o conceito de “afinidade eletiva” sintetiza, de certa maneira, esta idéia. Talvez aqui tenhamos uma possível proximidade entre Weber e Marx, quando este último afirma no “Dezoito Brumário” que "'os homens

fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, mas sob aquelas circunstâncias com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” 22

Essa relação entre idéias e interesses origina uma pluralidade de formas sociais na medida em que suscita uma diversidade de “objetivos”, de “ meios para alcançá-los”e de “motivações para consegui-los”. Delineia-se, então, uma sociedade muito diferenciada, que possibilita espaços para a emergência de ações das massas e das elites, ou seja, a abertura de um espaço para as idéias e os interesses das classes dominantes e para os valores de seus

22 MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Moraes, 1987. p. 15.

opositores. Desta maneira, as formações sociais não se apresentam como produto de uma dedução lógica de implicações encerradas em uma idéia. Ao contrário, cria um revezamento contínuo entre as várias formações sociais no contexto histórico e, conseqüentemente, propicia, também, a mudança da posição predominante de um estilo de vida em relação a outros. Para entender essa relação de multicausalidade, é necessário referir-se ao conceito de “afinidade eletiva” , que permite a Weber tratar das relações mútuas entre diferentes esferas da sociedade sem deduzir uma como mera função da outra.23

E desta maneira que Weber enfrenta a relação entre religião e economia, analisando os vários fatores em questão, abstraindo-se de qualquer determinação pré-constituída.

E interessante notar, ainda, que essas formas históricas do racionalismo científico e ético estão ligadas à forma histórica do racionalismo prático24 A racionalidade aparece, assim, como uma espécie de resposta à falta de sentido do mundo, uma vez que a razão se encontra sempre limitada a uma dimensão cognitivo-instrumental, colocada ao serviço de uma autoafirmação subjetiva. Constitui, então, um erro acreditar que a racionalização possibilite a razão no sentido de um progresso moral, individual ou coletivo.25 Não se trata, pois, de conhecimento de leis objetivas da sociedade ou de revelações de

23 PONSETTO, op.cit., p. 28.

24 Segundo SCHLÜCHTER, Wolfgang. El Origem dei Modo de Vida Burguês. Madri: Revista de Estúdios Politicos (Nueva Epoca), 1991, p. 155: “... la capacita degli uomini nei confronti ‘di deíerminate forme di condotta di vita pratico-razionalenon dipende solo dai loro interessi e dai modi socialmente definiti dei perseguimento di interessi, ma anche dali 'interpretazione delia loro posizione nei confronti delia ‘divinità 'e dei ‘mondo

25 A racionalização não arrasta o futuro mundial num sentido determinado, cuja meta final se possa prever teoricamente. Segundo FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro, Forense, 1987, p 20, “Ao contrário, ela é obra contingente de um certo tipo de homens que podem eventualmente transmiti-la ao resto da Humanidade. Mais exatamente, ela caracteriza o sentido que esses homens deram a suas atividades, não o fim inelutável do desenvolvimento do mundo, anunciado pelas filosofias ‘emanatistas 'da História ”. Ver também RUSCONI, op.cit., p. 190, sobre o controle mediante meios intelectuais como tese de “produção de sentido”em Weber , segundo a qual nós somos seres culturais que temos a capacidade e a vontade para assumir com consciência posições nos confrontos do mundo, dando-lhe wa. sentido.

significados imanentes à história ou à natureza do homem, os quais arrastariam o devir humano em um movimento de progresso universal.

1. 2. Processo de racionalização e

No documento Weber e o direito : racionalidade e etica (páginas 71-80)

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