3 PROCESSOS IDENTITÁRIOS E CRIATIVOS NA VIDA ASSOCIATIVA DOS
3.1 Brinquedo de Miriti, brinquedo-água: tipologia e funções
3.1.1 A plurissignificação dos Brinquedos de Miriti
Por serem brinquedo, os Brinquedos de Miriti não poderiam ser estáticos, e sua dinamicidade se apresenta em diferentes aspectos: nos movimentos imanentes à existência de alguns desses brinquedos; no dinamismo da criação e recriação de peças; e na conversão semiótica de suas funções. Diferente do que Dias (2004) pensa, os artesãos de miriti não cristalizam a realidade cotidiana do homem amazônico em seus brinquedos, pois neles deflagram seus saberes e fazeres lúdicos no caminhar sempre constante da cultura popular (MEIRELLES, 2007). Ao contrário, os artesãos de miriti e seus brinquedos são parte constituinte dessa realidade, que ajudam a criar ao mesmo tempo em que por ela são criados.
Mesmo ao objetivar o capital cultural incorporado, muitas peças resultantes possuem no movimento elemento constitutivo de sua função e de seus sinais de interesse (LOUREIRO, 2012). É o caso dos dançarinos já citados, cujo movimento que recebem pelo fio, geralmente elástico, que lhes prendem, tira-lhe qualquer imobilidade, tornando-o brinquedo com o qual também se pode brincar só com o olhar que vê o que o outro não vê (KUASNE, 2009).
A cobra-que-mexe (Figura 9 e 10) e seu movimento coleante é outro desses brinquedos. Nela, a movimentação é tão cara que compõe sua denominação, servindo-lhe de distinção, pois, como já observara Loureiro (2012), não é apenas uma cobra, é uma cobra- que-mexe. Seguindo a mesma linha de incorporação do movimento nas denominações compostas que recebem, encontram-se o pila-pila, as pombinhas bica-bicas (Figura 11) e o serra-serra, todos tendo em comum o fato de compartilharem “incentivos imaginários” para o
(2004), Girândolas de Miritis (2011) e Miriti das Águas (2012 e 2013), e as instalações A arte que vem do Céu e
movimento: triturar ou bicar uma hipotética substância, no caso dos dois primeiros; e serrar uma madeira imaginada, no caso do terceiro brinquedo.
Figura 9 Artesão Célio Vilhena finalizando a criação de uma cobra-que-mexe
FONTE: Amarildo Ferreira Júnior (2013).
Figura 10 Cobras-que-mexem em exposição na Feira do Artesanato de Miriti 2014
Figura 11 Artesã Iranil Santos apresentando uma pombinha bica-bica
FONTE: Amarildo Ferreira Júnior (2014).
Mas, se esses brinquedos compartem a condição do movimento como elemento constituinte de sua plasticidade, a incorporação dos movimentos às peças é variável. O tatu, por exemplo, outro Brinquedo de Miriti caracterizado pela engenhosidade do movimento, utiliza um mecanismo em que as pontas de um barbante ligam-se ao rabo e à cabeça articulados do animal, e uma bola feita de argila é presa ao barbante, de modo que fique pendurada na direção do centro do corpo do brinquedo. Ao se agitar a bola como um pêndulo, produz-se o movimento que caracteriza a “caminhada” desse mamífero. Esse é o mesmo mecanismo das pombinhas bica-bicas, que possuem somente a cabeça articulada. O mecanismo do pila-pila e do serra-serra, por sua vez, consiste no movimento das bases paralelas em que cada pessoa que segura o pau do pilão ou o serrote estão sentadas, e, num movimento de vaivém, gera os movimentos.
Diversos outros mecanismos são utilizados, como os dispositivos de corda feitos com liga elástica e uma espécie de rolo de argila que o artesão Nildo usa para impulsionar cachorrinhos, sapos, tartarugas, joaninhas, lagartas, etc. Essa diversidade expressa a engenhosidade e a inventividade dos artesãos de miriti, e também provém das concorrências entre eles para que se distingam dos demais na comercialização ou mesmo do jogo em que,
segundo conta a artesã Greicy Barreiros26, 23 anos, os artesãos mais antigos se desafiam para saber quem conseguia criar mais peças com movimentos.
Esse jogo em torno do movimento associa-se diretamente com outra constituinte da dinamicidade presente nos Brinquedos de Miriti, que se relaciona com os processos de invenção e reinvenção de peças. Assim como tal jogo estimulou o surgimento de muitos brinquedos, também incentivou que pela constante recriação esses dispositivos e os próprios brinquedos fossem modificados segundo o que cada artesão vislumbrava como mais adequado e melhor de acordo com seu referencial criativo. Como se demonstrou na seção anterior, as reiteradas criações dos artefatos por um mesmo artesão ou por artesãos diferentes permitem que se multipliquem os tipos desses bens e determinam seu constante refazer-se entre o novo e o tradicional.
Resta-nos um terceiro aspecto dessa dinamicidade, que se relaciona com a conversão semiótica das funções dos Brinquedos de Miriti. Para Loureiro (2012), as funções lúdico- utilitária e estética exercem uma dupla dominância nos Brinquedos de Miriti, isto é, se alternam como orientadoras da significação num determinado rumo ou sentido – uma transposição de estados em que à medida que cresce uma dessas funções, a outra decresce –, caracterizando de maneira pluridimensional sua recepção pelo público consumidor.
Enquanto artesanato-artístico, o caráter lúdico-utilitário do brinquedo somado à singularidade estética de seus traçados, pontilhados, cores e grafismos também convivem dialeticamente com outras funções subdominantes de significação, que se alternam e se reordenam numa hierarquia de valor simbólico (LOUREIRO, 2012). Daí que os Brinquedos de Miriti passarão a ter possibilidades de diversos usos e significados conforme quem os enquadra27, o que permite que, com essas diversas orientações de significação possíveis, possam resistir ao tempo apesar da efemeridade que expressa em sua fragilidade material.
26 Informação obtida durante conversa no dia 22 ago. 2014.
27 Para o artista plástico, objeto estético que escolhe, edita, combina e consome em sua arte (CHIARELLI, 2011;
REALE, 2011; SOUZA, 2011; MOKARZEL, 2009; NASSAR, 1984); para o colecionador, exemplo de raridade; para a decoração, diferença exótica; para o turista, recordação da festa do Círio ou da região visitada; para o educador, instrumento de educação estética integrado às disciplinas do currículo escolar e ao meio ambiente (PAULA; PAULA, 2013; SILVA, 2013; SANTOS, 2012; MORAIS, 1989); para os fieis religiosos, ex-votos; para a museologia, artefato museológico da cultura popular (BRITTO, 2012; PAES, 2012; SANJAD; SANTANA, 2007); para muitas crianças e adultos, brinquedo propriamente dito; para o estilista, motivos de coleções de roupas; para o escritor, referencial para poemas, contos ou romances (LOUREIRO, 2012; LEITE, 2008; PEREIRA; FRANÇA, 2004; SILVA, 2002); para o teatro e para escolas de samba, possibilidade cênica e de construção de alegorias (MACÊDO, 2012; SALLES, 1989); etc. Todas essas possibilidades resultam do valor dado a esse bem simbólico, que não é determinado única e exclusivamente pelos seus produtores diretos, apesar de neles se originar, sendo instituído socialmente por um conjunto de agentes, de instituições, e de instâncias políticas e administrativas que integram essa rede de relações objetivas que constitui o campo, diante da qual os artesãos de miriti também definem objetivamente posições que lhes permitem situar-se com relação a todas as outras posições distribuídas nesse microcosmo social (BOURDIEU, 2010). Pela amplitude que possuem, esta
Quando Kuasne (2009) identificou jeitos delicados e criativos de brincar, ainda não tivera contato com os Brinquedos de Miriti, e talvez seja por isso que falta na classificação que apresenta uma denominação para esse brinquedo tão específico28, brinquedo-água, que nasce pela influência das águas, nos miritizais à beira dos rios, nas várzeas e nas áreas alagadas; e foi (e ainda não deixou totalmente de ser) sobre as águas que durante muito tempo veio a Belém e de onde alcançou outros lugares.
Assim, nascidos sob influência da água, os Brinquedos de Miriti possuem muitos significados, muitos estados, e com eles se pode brincar com todos os brincares que Kuasne (2009) apresenta. Como a água, estão em permanente ressignificação, algo que os artesãos de miriti perceberam bem antes de qualquer outro – daí a ação sempre constante em sua vida associativa e a multiplicação de seus artesanatos –, numa constante conversão, e se como a água também podem vir a se apresentar mais ou menos sólidos, sua condição mais frequente é sempre o movimento. Sendo brinquedos-água, devem ser vistos como os rios que cortam as ilhas de Abaetetuba e que os encharcou de minúcias para que, em Belém, contribuam na composição do Círio de Nazaré, águas de outubro; mas, são rios de memórias profundas cuja subida deve sempre levar até onde brotam e deságuam esses brinquedos: aos artesãos e artesãs de miriti.