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A PMA no contexto da natalidade e da saúde reprodutiva

Boa tarde a todos.

Começo por adiantar que não sou um técnico de saúde, sou jurista e a minha função no Conselho, para além de ser, por ter sido eleito pelos meus colegas, presidente do mesmo, situa-se noutras áreas, as quais não se reduzem e vão para além das áreas jurídicas.

De facto, a minha preocupação fundamental (não sou o único, como é óbvio) é com os problemas éticos, os problemas que têm a ver com... chamemos-lhe assim, com a filosofia, com a mundivisão que cada um de nós tem, em suma, com a conceção que temos do mundo que nos rodeia ou tão simplesmente com a maneira como o observamos.

É dessas matérias que eu vou falar, sem prejuízo, claro, de, depois e se me quiserem fazer perguntas de outra natureza, eu tentar responder a essas perguntas na medida do que me for possível e das informações que tenho aqui disponíveis.

Como não me foi feita uma «encomenda», propriamente dita, alinharei algumas palavras tendo como ponto de partida o tema da natalidade – ou melhor, os problemas da natalidade e nomeadamente a quebra da taxa de natalidade – e de que modo a PMA (procriação medicamente as- sistida)poderá estar relacionada com esse problema, ou seja, até que ponto é que a PMA pode ser usada ou pode ser problematizada nesse contexto. E é por aí que irei.

Não tenho um texto escrito, pronto para ser divulgado. Isto acontece não porque eu seja adepto – servindo-me daquilo que o discípulo da pes- soa em causa referiu – das teses do filósofo grego Sócrates, mas porque, lamentavelmente, não tive tempo para o escrever.

Clarificando, o próprio filósofo Platão escreveu que o seu mestre Sócrates não gostava de escrever porque – dizia ele (Platão) que dizia Só- crates – ao fazê-lo, limitava a sua liberdade de pensamento já que (o que,

realmente, é verdade para a maioria das pessoas), quando nós escrevemos alguma coisa, de certa forma, o nosso pensamento fica fixado e depois é muito mais difícil «darmos o braço a torcer» ou mudarmos de opinião. E ele (Sócrates), porque era uma pessoa que gostava de ter liberdade total de pensamento, não escrevia – e, de facto, nada escreveu, ou, pelo menos, nenhum escrito existe cuja autoria lhe seja ou tenha sido atribuída.

Essa não é, de todo, a minha preocupação e a minha maneira de ser e de estar, embora, ainda assim, não possa deixar de admitir que esta minha atitude será talvez uma forma... (enfim, vamos ver se encontro um adje- tivo que não seja demasiado agressivo para me qualificar)... voluntarista de tentar provocar-vos algumas surpresas, que desapareceriam se tivésseis lido previamente um texto que vos teria sido entregue (agora estou a ser pouco modesto ou até demasiado vaidoso, por ter partido do princípio de que teríeis a pachorra de ler esse texto se ele vos tivesse sido entregue antecipadamente).

Este meu comportamento tem mais a ver com o facto de o meu tempo ser um bem um bocado limitado (ser curto) e de, desculpem o desabafo, o Conselho (CNPMA – Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida) ser uma entidade muito engraçada no qual os seus membros estão, como eu costumo dizer, em ATL (atividades de tempos livres), o que é um pouco o que acontece com esta minha participação neste evento. Explicando melhor, o Conselho tem dois funcionários – quer dizer, du- rante a maior parte do tempo no seu primeiro mandato, teve só uma – e é composto por nove pessoas que continuam a ter a sua atividade pro- fissional, sendo que a minha é ser juiz no Tribunal da Relação de Lisboa, tendo os outros conselheiros outras atividades: uns são professores uni- versitários, outros são diretores de centros de PMA e uma é uma médica que esteve ligada ao Programa Nacional de Saúde Reprodutiva (se tive- rem paciência, podem ver os nossos cv no site do Conselho – www. cnpma.org.pt).

E, em complemento, usamos os nossos tempos livres, ou parte deles, trabalhando no Conselho.

Não é realmente a melhor solução e, agora que estamos a meio do se- gundo mandato, é muito provável que o Conselho venha a tomar al- guma posição formal quanto à questão de saber se esta estrutura é ou não a melhor para uma entidade reguladora.

Adianto desde já que, em minha opinião, não é – especialmente tendo em conta que, para mim, está suficientemente demonstrado que várias entidades reguladoras em Portugal não têm cumprido integralmente as suas funções; mais exatamente, a meu ver, a atividade de algumas das en-

tidades reguladoras portuguesas só pode ser qualificada como um fa- lhanço nítido do cumprimento das suas obrigações (e, como se dizia quando eu era novo, eu não quero passar pelas vergonhas pelas quais os dirigentes máximos dessas outras entidades estão a passar).

Voltando, porém, à discussão da estrutura institucional do Conselho, a que atualmente existe não favorece – e dificulta mesmo – o cumprimento de uma série de obrigações legais que o mesmo tem, a começar por uma que me preocupa imenso – isto é, claramente, uma deformação profissio- nal de juiz – que é a sua capacidade para proceder à verificação do cum- primento das regras que balizam a atividade da PMA em Portugal.

Nas palavras do Poeta (José Régio), nós somos filhos do amor que existe entre Deus e o Diabo –, ou seja, nós não somos nem totalmente virtuosos nem totalmente viciosos, somos o conjunto dos dois, vício e virtude; enfim... ele há dias... é conforme.

Ora, a melhor forma de o vício ser diminuído (já que nunca será to- talmente eliminado) e de a virtude ser exaltada – porque é sempre muito arriscado exigir à virtude que seja heróica – traduz-se na criação de con- dições para, sem lhe impor a necessidade de grandes heroicidades, a vir- tude ser só virtude.

E a fiscalização, como para mim é óbvio, é isso mesmo.

Em suma, sem uma fiscalização rigorosa, para que tudo funcione «como deve ser», a virtude tem de ser mesmo uma componente intrín- seca e um elemento muito forte da estrutura da personalidade das pessoas que trabalham nesta área da PMA – como em qualquer outra.

Felizmente até agora tudo tem funcionado sem problemas de maior. Estou em contacto com esta área (a PMA) há sete anos e a interação que tenho mantido com as pessoas que nela trabalham leva-me a acre- ditar que, de facto, aqui são muitos os virtuosos (as tais pessoas com vir-

tude – estão presentes neste evento algumas delas) que, ao mesmo tempo,

são também virtuosos no sentido de que conseguem com meios escassos, nomeadamente nos centros públicos, fazer quase milagres.

E isso tem de ser acentuado, porque os constrangimentos nos centros públicos são imensos e são-no a vários níveis – o que me leva a concluir que os resultados que os centros públicos ainda assim conseguem são, digamos... heróicos. Ou quase.

E é a estas pessoas, que, para além de terem virtude, são virtuosos (no sentido de que sabem trabalhar bem as técnicas), que esses bons resulta- dos se devem, sendo minha obrigação manifestar, porque isso corres- ponde à verdade, que os profissionais de saúde em Portugal, nomeada- mente nesta área que é aquela que eu conheço, não nos envergonham

perante quem quer que seja – ninguém mesmo – a nível mundial; os re- sultados – as taxas de sucesso das técnicas – são o que são, mas o mesmo acontece em outros países normalmente considerados «de topo» no que respeita às estatísticas internacionais.

Ora, e concluindo esta nota relativa ao problema da fiscalização, eu estou um bocado preocupado com a possibilidade de não ser possível man- ter o nível de controlo que tem sido conseguido até aqui – e que, repito, tem de constituir, em paridade, um incentivo à virtude e uma repressão do vício.

Mas, retornando àquela que era a minha ideia inicial, passe a banali- dade da afirmação, o problema da natalidade é um problema extraordi- nariamente complexo, pois dizer que é, ao mesmo tempo, uma questão social, económica e política é dizer muito pouco.

Acima de tudo é, para utilizar uma palavra bonita e politicamente cor- reta, um problema de mundivisão, isto é, tudo depende da maneira como nós vemos o Mundo, da maneira como vemos o Outro, da maneira como vemos a Família (goste-se ou não da expressão).

Permitam-me mais uma pequena nota marginal, agora a propósito desta última palavra.

Embora consiga ver à minha frente algumas pessoas que, como eu, vi- veram alguns anos antes do dia 25 de Abril de 1974, a média de idades da generalidade dos presentes é bastante mais baixa do que a minha e admito que muitos não saibam que os que governavam o país nesses tempos usavam abundantemente uma frase muito engraçada: a Família

é o esteio da Nação – o que significa que a Família, sempre com maiúscula,

é a base em que assenta a Nação... é o fundamento da Nação. Ora, em minha opinião, por acaso é mesmo!

O que acontece é que, como diria o personagem do Vasco Santana no filme A Canção de Lisboa, famílias há muitas!! E realmente famílias há muitas... isto é, há muitas espécies de Família. E não é fácil dizer qual será a melhor.

De volta ao problema da natalidade, gostaria de começar por afiançar que não vai ser pela PMA que ele será resolvido... tirem daí a ideia; a PMA ajuda a que nasçam mais crianças, mas estas técnicas destinam-se a satisfazer outro tipo de necessidades.

Depois disso, gostaria que (novamente usando expressões antigas) «pu- xássemos um bocado pela cabeça» tentando descobrir as causas desse problema.

Tendo nascido em 1956, tive a sorte de ter em minha casa televisão logo que ela apareceu e, por essa razão, pude, desde muito novo, ver uma série de coisas e ouvir muito do que então se dizia.

Concretamente, lembro-me de ouvir dizer, a propósito da construção do muro de Berlim – facto que ocorreu em 1961 –, que as pessoas que fugiam da então República Democrática Alemã estavam a votar com os pés (o muro destinava-se a impedir que as pessoas saíssem desse então país distinto da «outra» Alemanha, a República Federal Alemã).

Claro que, por acaso, cá em Portugal isso não se podia dizer muito porque os emigrantes também estavam a votar com os pés quando iam trabalhar lá para fora (e agora está a acontecer o mesmo).

Num caso como no outro (cá e na Alemanha Oriental), quer dizer, intrinsecamente e independentemente do conteúdo ideológico da ex- pressão, tão típica da Guerra Fria em que estávamos mergulhados, a afir- mação correspondia à verdade: as pessoas quando não gostam de estar num sítio, quando estão mal, enfim quando o risco – a possibilidade – de morrerem é grande, fogem de lá, mesmo correndo os riscos horríveis que sabemos que correm (veja-se atualmente o que acontece com as pes- soas que, por barco, aportam ou tentam a aportar a Lampedusa, na Itália, e pensemos todos nos miseráveis lucros que são obtidos com isso, com as pessoas que estão nos sítios em que existe guerra ou fome).

Portanto, as pessoas votavam e votam mesmo com os pés – é a sua maneira, a sua única maneira, de dizerem que não é esse o futuro que querem para si e para os seus.

A provocação que eu vos faço é esta: até que ponto é que, acerca desta quebra da natalidade, não podemos/devemos dizer que são as pessoas a votar com o corpo?

Não estarão mesmo as pessoas a recusar ter filhos num ambiente social que é hostil à Família, ou melhor, às várias famílias, aos vários tipos de família?

Confesso que «adoro» ouvir aqueles que estão sempre a falar no «su- perior interesse da criança» quando vejo – como todos vemos – as formas como as crianças são tratadas. Isto é, maltratadas.

Como é óbvio, isto é uma provocação (será?), mas muito sinceramente gostaria que gastassem algum tempo a pensar nestas perguntas, que re- forçam aquela tal ideia que antes expus – não é a PMA que vai resolver este problema. E acrescento, não vão ser medidas avulsas e aleatórias que vão resolver este problema.

De facto, só quando a sociedade, toda a sociedade, começar a pensar – mas a pensar a sério – até que ponto quer ir para garantir taxas de re- cuperação da população, esse problema poderá ser solucionado.

Enquanto isso não acontecer e não houver uma estratégia coerente – mas nós em Portugal não temos pensamento estratégico para quase

nada –, tudo continuará como está (enfim, a taxa de natalidade, quando muito, poderá subir um pouco – não sei se subirá ou não, mas se subir será, provavelmente, muito pouco – mas será algo perfeitamente conjuntural). Seja-me permitido usar como exemplo o George Clooney naquele anúncio a uma muito conhecida marca de café no qual ele abdica de uns sapatos de pele razoavelmente caros para beber um café – que de- pois ele acaba por não beber por causa de uma rapariga bonita que, afi- nal, entrega a chávena ao tipo que já tinha ficado com os sapatos do Clooney.

A questão é mesmo essa: até que ponto é que nós queremos ir para garantir a recuperação da população?

Claro que há quem pense e diga que não há qualquer problema por a população estar a diminuir, pois, em última análise, até há uma sobre- população do mundo.

Haverá nuns sítios, porque em outros não há.

E dizem outros: qual é o mal de na Europa existirem poucas pessoas se vierem populações migratórias ocupar o lugar das populações autóc- tones?

E prosseguem: isso já aconteceu antes, ao longo da História – o que é verdade; por exemplo, os povos primitivos da Península Ibérica, per doe- -se a expressão, «levaram» com uma série de sucessivas invasões «em cima» – em boa verdade nós parecemos aqueles bolos com várias camadas.

Logo, não é ilógico ou sequer irracional achar que não há problemas. Por acaso, eu sou um dos que acham que há problemas.

Já agora, mais uma nota marginal que acho engraçada. E que não é a despropósito.

No ano passado (2014), enquanto presidente do CNPMA, recebi a visita do embaixador da Dinamarca (eles lá fazem diplomacia como deve ser, não é como cá), e a razão dessa «audiência» foi a seguinte: nesse país há uma empresa que alguns dos que aqui estão presentes também co- nhecem – e, pelo menos no meu caso, por via dessas funções que de- sempenho, nem sempre pelos melhores motivos –, chegou a pensar na possibilidade de instalar em Portugal um banco para recolha de esperma. Ou assim me disse o senhor embaixador.

Essa empresa faz coisas que entre nós são proibidas (por exemplo, e passe a publicidade, vende gâmetas como a Amazon vende outros pro- dutos, por via informática e diretamente ao consumidor final, que na maior parte dos casos até é uma consumidora) e já foi diretamente ad- vertida de que cá em Portugal não podem fazer essas coisas e que se a «apanharmos» será duramente sancionada.

Por essa razão, fui avisando que o CNPMA não iria permitir práticas ilegais, ao que ele me respondeu «ah, não, não, não se preocupe porque o pro-

duto recolhido destina-se totalmente à exportação».

Vá lá rapazes, um bocadinho de alegria: o fenótipo dos homens por- tugueses, segundo os dinamarqueses, é geneticamente muito interessante. Não sei porquê, o embaixador não me explicou porque o é – talvez algum de vós me consiga explicar que «coisa especial» é essa que os por- tugueses terão.

Não obstante esta «gostosa» informação, o que motiva não é especial- mente garantir a perpetuação do nosso património genético. Aparente- mente, se calhar até deveria, dada essa tal «qualidade» genética.

Mais a sério, o que gostaria de ver preservado é um conjunto de padrões culturais que, a meu ver, nos são próprios (à maioria de nós, quero eu dizer). Eu não tenho qualquer vergonha por ser português; apesar de tudo, isto é apesar do que nos últimos tempos temos sido forçados a passar... não tenho, não tenho mesmo. E quando vou «lá fora» e tenho de falar com pessoas de outros países também não tenho vergonha de ser portu- guês... porque existe esse conjunto de características que nós temos e que eu acho que é (são) interessante(s).

O que imediatamente me vem à cabeça é essa coisa do desenrascanço. Nova nota marginal: claro que seria bom que nós nos desenrascásse- mos a partir de um plano preexistente – desenrascar-nos sobre um plano é muito melhor porque a Lei de Murphy nunca falha (a Lei de Murphy, como sabem, postula que se, em qualquer projeto, alguma coisa pode correr

mal, irá correr mal de certeza).

Reconhecidamente, e acerca disso não tenham qualquer dúvida, nós portugueses somos muito mais desenrascados do que a maioria dos povos europeus; quem contacta periodicamente com o estrangeiro sabe que isso acontece (aliás, o que conheço desses outros povos faz-me sus- peitar de que alguns deles não sabem o que isso é).

Ora a preservação de determinados valores, de determinados princí- pios – mesmo os maus –, depende da existência um número mínimo de pessoas que os partilha de um modo sistemático e de forma generalizada. E sem esse número ou conjunto mínimo de pessoas esses valores e prin- cípios, desaparecerão (quase) inevitavelmente.

Logo, para além do tal maravilhoso fenótipo que nós teremos (e cuja vantagem comparativa que o mesmo nos dará não sei qual seja), a real possibilidade, por via desta diminuição da população portuguesa, de de- saparecimento dos valores culturais que nos são próprios, é, de facto, para mim um problema.

Claro que também existe aquele motivo mais ou menos egoísta que se manifesta quando é dito que é preciso arranjar jovenzinhos que des- contem para a segurança social para depois os velhos poderem receber as suas reformas.

A brincar, a brincar, como já estou a caminhar para velho, embora não saiba exatamente quando é que me vou reformar – como alguém uma vez me disse, provavelmente morrerei no dia em que estava prevista a minha reforma –, apesar de serem conhecidas, ainda que pouco ou nada debatidas pela comunidade, algumas alternativas, este é, naturalmente, um assunto que não me deixa indiferente.

Mas, insisto, não é por isso mas sim pela outra razão que considero importante a preservação desse mínimo de densidade populacional; sem as pessoas, as coisas perdem-se, tudo se perde e eu acho que, de facto, nós temos características específicas que são válidas e que merecem ser preservadas.

Portanto, o que temos de ver é se vamos só abdicar dos sapatos como o George Clooney ou se não teremos, para continuar nesta linha meta- fórica, de abdicar também de um fato de boa qualidade ou mesmo se não teremos de abdicar do guarda-roupa todo.

E se calhar vale a pena abdicar do guarda-roupa todo e se calhar vale mesmo a pena...

Metendo a foice numa seara alheia, uma vez que o corpo humano tem determinadas características, se calhar o que era bom era que as pes- soas tivessem filhos até aos 35 anos, nomeadamente as mulheres, inde- pendentemente de tudo o resto.

Nestes últimos sete anos, o que tenho ouvido dos demais membros do Conselho, nomeadamente por referência às mulheres, é que a fertili- dade diminui, de forma assinalável a partir dos 35 anos.

Claro que se elas e eles se cuidarem, se tiverem um bocado de preo - cupação com o corpo, as coisas poderão não ser assim tão más, mas grosso

modo, é isso que acontece... é isso que é normal (outra nota à margem:

ainda assim, normalidade é um conceito meramente estatístico; é normal aquilo que a maioria da comunidade acha que é o comportamento típico adequado ou próprio – só que, como já diziam os romanos, o tempore o

mores ou, para usar as muito mais bonitas palavras de Luís Vaz de Ca-

mões, «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»).

Ou seja, independentemente de existirem pessoas concretas que têm características físicas individuais muito boas para a idade que têm, o que me dizem é que este limite dos 35 anos é muito importante para o con- junto de características do corpo, especialmente o da mulher, destinadas

a garantir uma gestação adequada dos fetos – isto é, e desculpem se vão achar que eu sou eugénico, as destinadas a garantir o nascimento de crian- ças vivas e com boa saúde.

É muito bonito afirmar, entre uma série de outras coisas, que cada ser humano é uma criatura única e irrepetível e que, podendo uma outra pessoa realizar as tarefas que desempenhamos, ninguém realmente nos consegue substituir.

Isso é verdade, como também o é que cada um de nós vale por si, in- dependentemente de tudo o resto e que, se uma pessoa possuir determi- nadas características, tal obriga os outros a certos comportamentos, e se tiver outras, outras diferentes serão as condutas daqueles que a rodeiam.

Todavia, isso não pode nem deve invalidar as preocupações daqueles que querem garantir uma gestação adequada e equilibrada dos fetos, e que permita que a criança gerada, quando nasce, tenha todas as poten-