Em todos os povos, da Antiguidade à Contemporaneidade, o mito sempre esteve presente, tido como uma forma primária de compreender a realidade, produto do homem para situar-se no Mundo, bem como explicar a sua existência frente a tantas perguntas que se apresentavam e necessitavam ser respondidas. Do mythos também se valeram a religião e a Filosofia; logo, o mito era tido como verdade.
Para discorrer sobre o assunto, precisamos, portanto, buscar a origem, primeiramente da palavra: o vocábulo mito provém do grego, designava assim narrativa fantasiosa, não real; nesse sentido, entendido como fábula, invenção, ficção. Nem sempre, porém, foi essa a concepção; para as sociedades antigas, o mito era uma história verdadeira, e seu caráter, sagrado. Vários são os conceitos, porque o tema é objeto de estudos das diversas áreas do conhecimento; portanto procuramos alguns para fundamentar este trabalho.
Morin (2008) explica que Logos e Mitos, em sua origem, têm o mesmo significado, discurso, e, juntos, nascem da linguagem; depois se separam.
Logos torna-se o discurso racional, lógico e objetivo do espírito pensando um
mundo que lhe é exterior; Mitos constitui o discurso da compreensão subjetiva, singular e concreta de um espírito que adere ao mundo sentindo-o do interior. Depois Mitos e Logos opuseram-se; Mitos apareceu ao Logos como fábula e lenda desprovidas da verdade; Logos apareceu ao Mitos como abstração desencarnada, exterior às realidades profundas. (MORIN, 2008, p. 174)
Com base na filosofia, mitos são narrativas – cantadas pelos rapsodos e poetas – que têm como objetivo responder a pergunta “por quê?” ou explicar “por que”; tentativas de esclarecer dúvidas ou de responder às indagações do homem sobre acontecimentos que não entende, indagações sobre o mundo de que se ocupam a filosofia e a ciência. Conforme Ghiraldelli (2008, p. 15), “[...] nossas narrativas explicativas de um evento ligam o ‘que vem antes’ e o ‘que vem depois’ e o mito faz essa ligação por meio de relações mágicas, ou meramente arbitrárias, que não mostram a regularidade que encontramos na explicação causal ou racional”.
Mircea Eliade (1907-1986), sociólogo romeno naturalizado americano, na obra
Mito e realidade, considera que
O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do ‘princípio’. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie de vegetal, um comportamento humano, uma instituição: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente aconteceu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são Entes Sobrenaturais. Eles são conhecidos, sobretudo, pelo que fizeram no tempo prestigioso dos ‘primórdios’. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a ‘sobrenaturalidade’) de suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas e, algumas vezes, dramáticas, irrupções do sagrado (ou do ‘sobrenatural’) no Mundo. É essa irrupção do sagrado que fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje E mais: é em razão das intervenções dos Entes sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural. (ELIADE, 2011, p. 11)
Assevera-nos o autor que o mito é exemplo de todas as atividades humanas significativas, porque relata a “gesta dos Entes Sobrenaturais e a manifestação de seus poderes” (idem, p. 12). Para Huizinga, o mito é sempre poesia, seu trabalho são as imagens com a ajuda da imaginação; o mito narra uma série de coisas que se supõem acontecidas em épocas remotas; é o veículo adequado para as ideias do homem primitivo acerca do universo. Imagens criadas pela imaginação, suposições sobre fatos
que teriam acontecido, ideias do homem primitivo, ideias que levam a um questionamento: se são explicações narrativas que provêm da imaginação, o mito é sério? E por que não? O mito, como história sagrada, é uma história verdadeira, porque se refere a realidades. O mito cosmogônico, por exemplo, é ‘verdadeiro’, porque o mundo existe como prova; o mito da origem da morte é, também, verdadeiro, porque o homem morre, e, assim, tantos outros mitos que podem ser comprovados pela existência do que neles é relatado. Huizinga coloca mito e poesia no mesmo grau de seriedade, assim como
[...] tudo aquilo que transcende os limites do juízo lógico e deliberativo, tanto o mito como a poesia se situam dentro da esfera lúdica. Não quer dizer que seja uma esfera inferior, pois pode muito bem suceder que o mito, sob essa forma lúdica, consiga atingir uma penetração muito além do alcance da razão. (HUIZINGA, 2008, p. 145)
Para os gregos, o mito também era sagrado porque, mais do que a função estética, tinha a função de exprimir o divino em linguagem poética; na realidade, uma função litúrgica. Platão e Aristóteles, para fazer entender sua filosofia, expressaram-se pelo mito; Platão com o Mito da Caverna e vários outros; Aristóteles com “o mito do amor que todas as coisas dedicam ao imóvel motor do mundo” (idem, p. 145). Entretanto foram os gregos também que romperam com a linguagem metafórica do
Mythos, dando lugar ao pensamento racional, ao pensamento filosófico, ao Logos. Era
necessário pensar e comunicar o pensamento claramente e em linguagem inteligível; o que, pelo mythos, era impossível, já que ‘obscuro’. Xenófanes15 (565-470) foi o primeiro
a criticar e rejeitar as expressões ‘mitológicas’ da divindade utilizada por Homero e Hesíodo. De acordo com Eliade, os gregos foram despojando progressivamente o
mythos de todo valor religioso e metafísico. Em contraposição ao logos, assim como
posteriormente à história, o mythos acabou por denotar tudo ‘o que não pode existir realmente’.
Em Crítica da razão metafórica (2014, p. 24), sobre a unidualidade do pensamento, Dravet explica que “a instância do Mythos atende às necessidades de
15 Xenófanes (570 a.C - 460 a.C), filósofo e poeta grego. Para ele o mundo é ilusório. Deus é um (uno,
unitário), perfeito, eterno, imóvel e imutável. É preciso distinguir o ser da aparência. A verdade é fruto de uma longa pesquisa. O Panteísmo idealista terá uma grande influência sobre seu discípulo Parmênides. (Dictionnaire Illustré des Philosophes, 1962, p. 286).
compreensão dos fenômenos noológicos do universo, enquanto a instância do Logos visa a atender a necessidade de compreensão dos fenômenos físicos desse mesmo universo”. Mais ainda:
O logos, enquanto modelo empírico/técnico/racional de conhecimento, levou- nos muito longe na compreensão das origens dos fenômenos do mundo físico (teoria do big-bang, teoria da antimatéria e do vazio quântico, etc.). Já a negação ou desvalorização do mythos como modelo simbólico/mítico/mágico do pensamento alienou o homem moderno de sua própria realidade noológica, afastando-o da proximidade na qual nossos antepassados viveram com a língua, proximidade esta que chamamos poética. (DRAVET, 2014, p. 40) Cossutta (2001, p. 99) nos diz que “a filosofia teria se constituído em sua forma ocidental através de uma recusa da imagem sob as espécies do mito. Haveria uma antinomia original entre o esforço filosófico de inteligibilidade e o peso concreto da imagem que veicularia a ignorância e a irracionalidade”.
Que necessidade é essa que o homem tem de tentar entender o mundo, de tentar explicá-lo, de questionar-se? O que ele busca? Situar-se no mundo, talvez; e o que não consegue explicar pela linguagem comum, cria formas de fazê-lo. Assim surgiram as lendas, as fábulas, os mitos, verdadeiras narrativas poéticas, dignas de nosso encantamento; jogos de palavras e imagens que nos seduzem. Mas, se o mito e o logos tinham função explicativa, por que, então, dissociá-los? Ghiraldelli (2008, p. 140) explica que, por serem as duas narrativas explicativas, criou-se uma competição entre elas e, para desfazê-la, teria nascido a filosofia. Mais ainda, teria de ser capaz de explicar “por que tomamos o ilusório pelo real”.
Assim como o mito, a poesia também reflete o pensamento do homem (poeta) sobre o mundo, sobre si mesmo; não de modo pensado, refletido como o filósofo, porém de forma única, tão sua como sua linguagem. Antônio Cícero, em Poesia e
filosofia (2012, p. 21), quando se pergunta se pensar sobre o mundo é filosofar, diz que
“pensar sobre o mundo’ é tarefa da filosofia, porém ‘pensar o mundo’ é apreender o mundo enquanto pensamento ou o pensamento enquanto mundo”, é, portanto, uma tarefa intelectual, um “pensamento intuitivo e noético”, uma sabedoria especial, o que é tarefa dos poetas; eles pensam o mundo de maneira tão sua por meio de figuras, jogo de palavras. São palavras dele:
Os assuntos do poeta não são tão genéricos e abstratos quanto os do filósofo. Ao contrário: parecem ser bastante concretos. O poeta, por exemplo, fala da manhã, da morte, do nascimento, do azul, dos sapatos, da rua, dos gestos, das mãos, dos vestidos, das gravatas, do cansaço [...] o poeta não fala literal ou explicitamente sobre os assuntos dos filósofos, mas os aborda de modo figurativo e implícito. (CÍCERO, 2012, p. 25)
Acrescentemos: o poeta fala os problemas do mundo, da paz, da guerra, do passado, do presente, do pensamento hoje, das recordações. Segundo Jung (1991, p. 21), o homem possui uma “sabedoria primordial e inata” que se manifesta como uma recordação; essa sabedoria “lhe é revelada através da lúmen naturae, "luz natural’, um ‘céu interior’” (p. 18).
“A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha”, diz-nos o poeta gaúcho Mário Quintana. Entretanto, perguntamos: o que tem a ver uma cadeira de balanço com a recordação? Linguagem simples; pensamento complexo! Pensemos em uma cadeira de balanço, se ela se move é porque alguém esteve sentado e já não está mais presente, logo é ausência, mas também presença; recordação; “a poesia evoca, torna presente o que estava ausente” (HEIDEGGER, 2011, p. 22). Outra possibilidade de leitura: se a cadeira se move sozinha é porque existe o vento que a faz balançar, não há necessidade de impulso humano; recordação: sobre ela não temos controle, vem quando bem quer, fica o tempo que bem quer e vai embora como chegou, sem que possamos retê-la ou controlá-la.
Cícero aponta os jogos de palavras, de figuras estilísticas. Huizinga, a poesia como jogo, o que ele caracteriza como uma
atividade que se processa dentro de certos limites temporais e espaciais, segundo determinada ordem e um dado número de regras livremente aceitas e fora da esfera da necessidade ou da utilidade material; o ambiente em que se desenrola é de arrebatamento e entusiasmo e torna-se sagrado ou festivo de acordo com as circunstâncias; a ação é acompanhada por um sentido de exaltação e tensão, e seguida por um estado de alegria e distensão. (2012, p. 33)
Segundo ele, essas são também qualidades da criação poética e a definição de jogo também serve como definição de poesia, porque a ordenação rítmica ou simétrica da linguagem, a acentuação eficaz pela rima ou pela assonância; o disfarce deliberado do sentido, a construção sutil e artificial das frases, “tudo isso poderia constituir-se em
outras manifestações do espírito lúdico”. O autor afirma, ainda, que existem outras afinidades entre poesia, jogo e mito; a saber: a imaginação criadora que se manifesta na elaboração de uma frase poética, no desenvolvimento de um tema, na expressão de um estado de espírito; sempre está presente a intervenção de um elemento lúdico, seja no mito ou na lírica, no drama ou na epopeia, nas lendas de um passado remoto ou num romance moderno, e a finalidade do escritor, consciente ou inconsciente, é criar uma tensão que encante o leitor e o mantenha enfeitiçado; uma situação humana, ou emocional, suficientemente intensa para transmitir aos outros essa tensão.
A linguagem artística difere da linguagem vulgar, pelo uso de termos, imagens, figuras especiais, que nem todos serão capazes de compreender. O eterno abismo entre o ser e a ideia só pode ser franqueado pelo arco-íris da imaginação. Os conceitos, prisioneiros das palavras, são sempre inadequados em relação à torrente da vida: portanto é apenas a palavra imagem, a palavra figurativa, que é capaz de dar expressão às coisas e ao mesmo tempo banhá- las com a luminosidade das ideias. Ideia e coisa são unidas na imagem. (HUIZINGA, 2012, p. 149)
Podemos dizer que “a poesia continua a cultivar as qualidades figurativas, ou seja, ainda é portadora de imagens; a linguagem poética que joga com as palavras e as ordena de maneira harmoniosa e injeta mistério em cada uma delas, de tal modo que cada imagem passa a encerrar a solução de um enigma” (idem, p. 150). No Manifesto do Surrealismo16, André Breton cita Pierre Reverdy17 que assim definiu imagem:
L’image est une création pure de l’esprit.
Elle ne peut naître d’une comparaison mais du rapprochement de deux réalités plus ou moins éloignées.
Plus les rapports de deux réalités rapprochées seront lointains et justes, plus l’image sera forte – plus elle aura de puissance emotive et de réalité poétique18.
Por fim, voltamos a Huizinga. Ele assegura que as relações íntimas entre a poesia e o enigma nunca se perderam; entretanto perguntamos: de que enigma nos fala o autor? Em que consiste um enigma? Qual a relação entre enigma e mistério?
16 Manifeste du Surréalisme (p. 9) Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br>. 17 Pierre Reverdy (1889-1960), poeta simbolista francês.
18 A imagem é uma criação pura de espírito. Ela não pode nascer de uma comparação, mas da
aproximação de duas realidades mais ou menos distantes. Quanto mais distantes e justas forem as aproximações, mais forte será a imagem – mais terá ela potência emotiva e realidade poética. (Tradução nossa)
Encontramos essas respostas em Maillard, que os nomeia como ‘asombro’ e ‘extrañeza’.
Tanto el asombro como la extrañeza son el resultado de um ruptura de expectativas. Sobrevienen cuando el individuo se encuentra frente a um realidad que no se da al entendimiento de forma acostrumbrada. [...] El sujeto asombrado permanece em contacto imediato com la realidad. Por el contrario, la extrañeza lleva actitud inquisitiva. El sujeto extrñado necesita respuestas; el sujeto asombrado permanece quieto, como dejándose moldear por la realidad que le invade. Extrañeza y sombro llevan direcciones opuestas: la primera es invasión del objeto para su dominación; el segundo, recepción del objeto para su asimilación. Por eso, el asombro es el estado correspondiente al mistério mientras que la extrañeza le corresponde al enigma.19 (MAILLARD, 1992, p. 33)
É dos povos egípcios, segundo Huizinga, que provém essa forma de falar implícita (enigmática ou misteriosa) da qual o interlocutor, para entender a mensagem, deve decifrar o código para encontrar respostas; mas, para isso, ele deve ter conhecimento. Para os islandeses, o excesso de clareza era falha técnica, assim como para os gregos a palavra do poeta deveria ser obscura; aos trovadores, méritos especiais para a poesia hermética e “as escolas líricas modernas, que se movem e residem em domínios geralmente inacessíveis e gostam de envolver o sentido numa palavra enigmática, permanecem, portanto, fiéis à sua essência” (HUIZINGA, 2012, p. 150)
Em relação a essa característica da poesia, Stéphane Mallarmé (1842-1898), poeta francês, manifestou-se quando: “A Arte pela Arte’ era o lema de um período literário, o Parnasianismo, em que os poetas apresentavam os objetos e tratavam os temas diretamente; na poesia não havia jogos que levassem o leitor a imaginar, a pensar, a refletir; uma poesia sem poesia”. Houve, então, uma renovação da palavra; voltava ela às suas características e à função primeira, a função encantatória. Eis o que diz Mallarmé:
19 Tanto o maravilhar-se como o surpreender-se são o resultado de uma ruptura de expectativas.
Sobrevêm quando o indivíduo se encontra frente a uma realidade que não se dá da forma costumeira. [...] o sujeito maravilhado permanece em contato imediato com a realidade. Pelo contrário, a surpresa leva a atitude inquisitiva. O sujeito surpreso necessita de respostas; o sujeito maravilhado permanece quieto, como se deixando moldar pela realidade que o invade. Surpresa e deslumbre (assombro) levam em direções opostas: a primeira é a invasão do objeto para sua dominação; o segundo, recepção do objeto para sua assimilação. Por isso o maravilhar-se é o estado correspondente ao mistério enquanto que a surpresa corresponde ao enigma. (Tradução nossa)
Nommer um objet, c’est supprimer les trois quarts de la jouissance du poème qui est faite du bonheur de deviner peu à peu; le suggérer, voilà le rêve. C’est le parfait usage de ce mystère qui constitue le symbole.: évoquer petit à petit um objet pour montrer um être d’âme, ou, inversement, choisir um objet et um dégager um état d’âme, par une série de déchiffrements20. (OC2, 699-700, in
CAMPION, 2011, p. 58)