A elaboração de um currículo escolar deve considerar o contexto histórico e social ao qual este é dirigido. Para tanto, as políticas e o sistema administrativo interferem nesse trabalho de modo a definir – inclusive de modo implícito, sem evidências claras – o tipo de sociedade que se queira formar e as concepções de educação que se tem como pano de fundo do cenário social a ser construído, ou seja, o currículo pode ser entendido também como um meio de controle.
Quando se fala em currículo prescrito pelo sistema administrativo, estamos falando, no caso do Brasil, nas diretrizes, parâmetros ou orientações curriculares propostas pelas secretarias de educação, ou de modo mais abrangente pelo Ministério da Educação (MEC). Entretanto, se essas prescrições não forem oriundas do contexto escolar, se elas partirem de um sistema político administrativo distante da escola, poderá fazer com que, muito possivelmente, o currículo prescrito fique distanciado do que realmente é trabalhado em sala de aula, sem considerar, por exemplo, a diversidade regional de um país tão extenso e heterogêneo como é o nosso. Gimeno Sacristán esclarece que
A prescrição curricular que o nível político administrativo determina tem impacto importante para estabelecer e definir as grandes opções pedagógicas, regula o campo de ação e tem como consequência o plano de um esquema de socialização profissional através da criação de mecanismos de alcance prolongado, mas é pouco operativa para orientar a prática concreta e cotidiana dos professores. A determinação da ação pedagógica nas escolas e nas aulas está em outro nível de decisões. Quando se responsabiliza a administração, [...], de defeitos detectados na prática do ensino, como é o caso, por exemplo, da sobrecarga de programas, se está esquecendo desses outros níveis de determinação nos quais o currículo se fixa e ganha significação para os professores. (GIMENO SACRISTÁN, 2017, p. 147)
A realidade vivida atualmente na educação brasileira dispõe de uma base curricular que procura garantir os mínimos para toda a nação. Entretanto, é preciso pensar no que nos é importante e necessário enquanto um país diverso, para não cairmos na armadilha da lógica da reprodução.
As mudanças curriculares podem não apresentar uma evolução positiva na qualidade da educação quando é determinada apenas pelo subsistema político administrativo. Gimeno Sacristán (2017, p. 244) defende que “é preciso descobrir o que ou quem define as situações com as quais os professores se encontram”.
Uma reforma num sistema curricular implica mudanças nas práticas educativas que, por sua vez, demanda alterações nas políticas acerca do currículo. Aceitar essas mudanças é reconhecer as transformações sociais como uma dinâmica real que possui relações com as práticas desenvolvidas na escola, além de outros espaços de socialização.
As prescrições curriculares impostas numa verticalização determinam o que e como a escola deve atender as demandas do subsistema político-administrativo. Dessa forma, a instituição escolar assume um papel passivo em cumprir com ordenações que podem não ter relação com a função da escolarização como, por exemplo, obedecer a um sistema acriticamente por uma determinação do Estado. Por outro lado, se a organização do currículo estiver pautada nos anseios e desejos daqueles que o utilizam como possibilidade de formação de cidadãos críticos e éticos, a instituição escolar passa a desempenhar uma funcionalidade menos assistencialista das demandas impostas pela administração e mais formativa, reflexiva e ativa do ponto de vista daqueles que estão relacionados diretamente com o sistema escolar. Caso contrário, quando esse currículo for apresentado aos professores, estes continuarão trabalhando de modo a obedecer a interesses outros, e não daqueles a quem o currículo deve servir – escola, famílias, sociedade como um todo.
A prescrição de um currículo pode ser entendida como mais uma constatação de que este deve ser oriundo de uma constituição social, fruto do interesse social e independente dos valores pessoais ou de determinados grupos sociais. Mas ela, a prescrição, não pode ser a protagonista curricular. A prática pedagógica deve, em maior instância, apresentar as necessidades que irão compor o currículo escolar. É nessa perspectiva que Gentil e Sroczynski (2014, p 53) analisam o currículo no nível da própria prescrição e no nível do seu processo de desenvolvimento e suas consequências para a prática pedagógica.
(...) o currículo, como prescrição, revela um roteiro para legitimar o trabalho docente. Esse roteiro indica o status curricular de determinadas áreas de conhecimento, revela lutas e manifestações em defesa de determinadas áreas, classifica saberes, classifica, de forma oculta, os professores que nele atuam. Já o currículo, em nível de processo e prática, revela saberes e fazeres da docência. (GENTIL e SROCZYNSKI, 2014, p 53)
Prescrever um currículo mínimo comum, de abrangência nacional, é pressupor um projeto cultural comum para toda a nação, que normalize uma cultura selecionada por um interesse carregado de intenções políticas, considerando a abordagem teórica discutida
aqui. Logo, não há uma neutralidade nessa escolha, independentemente do subsistema que a tenha feito. Sendo assim, diante das considerações à luz do referencial teórico, algumas reflexões podem ser desencadeadas, sendo propícias ao contexto brasileiro, tais como: qual é a cultura selecionada para a elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)? A cultura local está pressuposta na BNCC? As diferentes formas de ver, conceber e divulgar um tema específico em sala de aula é contemplada pela Base? Quais as evidências nesse documento que nos garante uma respeitabilidade às diferenças entre nós e a diversidade cultural em todo território nacional? Se essas evidências não existem, então, qual é o interesse envolvido na elaboração da BNCC? A quem serve? Que implicações poderão ter nas práticas educativas?
Considerando a diversidade social, cultural e econômica presente no nosso país, bem como os fins da educação; o currículo prescrito pode apresentar meios de controle e regulação dos mínimos estabelecidos que podem comprometera qualidade da educação. E ainda, podem se tornar instrumentos puramente burocráticos e estéreis, deixando a escola sob o controle e manipulação de sistemas de inspeção de qualidade externos a ela.
Numa situação ideal o currículo deve proporcionar as possibilidades de estudos optativos, respeitando a diversidade local presente. Nesse sentido, são férteis perspectivas investigativas acerca dos desdobramentos da prescrição curricular, sobretudo as suas implicações no trabalho realizado pelos agentes escolares.