• Nenhum resultado encontrado

A Política de Educação Inclusiva em Quirinópolis

No documento ANA LÚCIA MARTINS KAMIMURA (páginas 77-82)

Os anos 80 foram marco na história da educação especial em Quirinópolis, pois foi somente neste período que surgiu a primeira e única escola especial no município. O Lions Clube de Quirinópolis, ao adquirir um prédio que antes tinha sido um hospital, após diversas discussões entre seus associados, resolveu que ali seria uma escola especial para atender às diversas crianças e adolescentes residentes no município que apresentavam alguma deficiência e não tinham qualquer tipo de atendimento.

Foi assim que, em 11 de fevereiro de 1982, depois de ter firmado uma parceria com a prefeitura municipal para a concessão de funcionários, deu-se início aos trabalhos da Escola Especial “Dr Alfredo Mariz da Costa”, nome dado em homenagem ao médico e primeiro presidente do Lions Clube em Quirinópolis. Num primeiro momento o trabalho se dava com três professoras, uma merendeira e um auxiliar de serviços gerais, atendendo a cinqüenta alunos com orientação pedagógica voltada para a alfabetização.

Nos anos seguintes, estabeleceu convênio com a Secretaria de Estado da Educação para concessão de outros funcionários, bem como, para orientações quanto às formas de estar lidando no dia-a-dia com estes alunos.

Já nos anos 90, foram criadas as salas alternativas, quando as escolas regulares recebiam os alunos “considerados capazes” de acompanhamento das atividades da escola. Porém, estes alunos ficavam segregados em uma sala, que geralmente ficava nos fundos da escola e, recebiam reforço escolar em horário contrário na própria escola. Nesta fase, o aluno especial era o único responsável pelo seu sucesso e permanência na escola regular, uma vez que a escola permaneceu como sempre e quase nada fazia para facilitar a vida dos alunos com necessidades especiais. Por essa razão a esperada integração não surtiu efeito e alguns alunos abandonaram a escola e outros não acompanharam o processo ensino-aprendizagem.

Em meados de 1999, surge a proposta de educação inclusiva em Goiás. Em Quirinópolis, como nos demais municípios do Estado a proposta foi apresentada, a princípio, aos Subsecretários de Educação, que logo em seguida indicaram profissionais que iriam coordenar o Programa Estadual para a Diversidade numa Perspectiva Inclusiva na circunscrição da sua Subsecretaria. Coube, também, aos subsecretários indicar a escola que seria Inclusiva de Referência. Este processo em Quirinópolis deu-se da seguinte forma: a subsecretária convocou os diretores das escolas, apresentou o

Programa aos mesmos e perguntou qual deles se habilitariam a assumir a sua escola como inclusiva. Somente a diretora do Colégio Frederico Gonzaga Jaime se candidatou. E, assim O Colégio Frederico Gonzaga Jaime passou a ser a escola inclusiva de referência no município. A partir de então, após avaliação da Equipe de Apoio, os alunos da Escola Especial “Dr. Alfredo Mariz da Costa”, eram encaminhados às classes regulares da escola inclusiva. Estes alunos geralmente eram: surdo, cego, deficiente mental leve e moderado, síndrome de Down, cadeirante, dentre outros.

Segundo orientação da SUEE, a escola Inclusiva de Referência deve adotar a filosofia de respeito à diversidade humana, propondo um ensino de qualidade para todos. Nesta proposta a escola é que deve adaptar-se ao aluno, recebendo e garantindo a inclusão de fato e a permanência dos “diferentes”.

A coordenação do Programa no município passou, no início, pelas mãos de vários profissionais que apresentaram uma grande dificuldade de entendimento e adaptação ao programa. Assim, a SUEE criou o Setor de Apoio à inclusão. Este setor contava com coordenador, pedagogo, assistente social, psicólogo, fonoaudiólogo e professor de métodos e recursos.

Para normatizar as ações desenvolvidas pelos profissionais do setor, a SUEE em 2000 lançou um documento intitulado Atribuições do Setor de Apoio à Inclusão. Segundo este documento:

Este setor tem a finalidade de apoiar, subsidiar, orientar e acompanhar as Escolas Inclusivas, o setor III (Setor de Ensino Especial) da Unidade de Referência, Salas de Recursos e outras instituições quando necessário.

O trabalho deverá ser direcionado aos professores, coordenadores, direção, corpo administrativo, família, alunos e comunidade.

A base do trabalho deverá centrar em atualização pedagógica, orientações psicológicas, fonoaudiológicas, serviço social com enfoque educacional.

A atuação da equipe é em função da resolução dos problemas de forma cooperativa.

As atribuições/atividades possuem características peculiares a cada área, entretanto a atuação é multiprofissional. (2000, p. 4)

Este documento norteou as ações dos profissionais, pois estabeleceu as atribuições específicas a cada área de atuação. Porém, a este setor coube toda implementação das ações. A primeira delas dizia respeito à Sensibilização de toda a comunidade. Para a

efetiva realização deste trabalho junto aos professores a equipe de apoio realizou diversos ciclos de estudos (programação e relatórios em anexo) nas escolas, quando discutiam assuntos relativos à inclusão e tentava amenizar parte da ansiedade e da angústia vivida pelos professores em relação ao Programa, pois muitos deles afirmavam que não foram preparados para receber na sua sala de aula alunos com necessidades especiais. Afirmavam, ainda, que com os alunos ‘ditos normais’ já tinham uma grande dificuldade, imagina então com os ‘diferentes’25. Grande parte dos professores da rede regular encontrava-se muito resistentes à implantação do Programa nas escolas em que trabalhavam.

Já com as famílias a sensibilização acontecia por meio de encontros mensais. Nos primeiros encontros o número de participantes era muito pequeno (média de 13 pais), desta feita a equipe de apoio criou uma estratégia de mandar bilhetes que aguçassem a imaginação dos familiares, tais como: não percam o grande encontro com as famílias, falta apenas 04 dias; para o encontro que será maravilhoso falta apenas 02 dias; hoje é o grande dia, participem do seu e do nosso sucesso. Com bilhetes assim a participação dos familiares nos encontros aumentou significativamente (média de 65 pais). Os temas dos encontros eram levantados pelos pais e se davam de acordo com os interesse e necessidades dos mesmos. Apesar de todo esse trabalho, alguns pais ainda se apresentavam resistentes quanto à proximidade de seus filhos com alunos “deficientes”, argumentavam que esta proximidade traria atraso no rendimento escolar dos mesmos. Alguns pais até transferiram seus filhos de escola, reforçando ainda mais esta argumentação, porém estas transferências foram muito poucas e, de certa forma, insignificantes - num universo de 320 alunos, tivemos apenas 02 transferências.

Quanto à comunidade, a sensibilização aconteceu por meio de programas nas rádios locais e, também, através de apresentações dos alunos da escola inclusiva em eventos que aconteciam na cidade. Estas apresentações geralmente se davam com o coral “mãos que falam”, composto de surdos e ouvintes, todos alunos da escola inclusiva de referência.

Este trabalho demandou muito tempo e, as atividades acabaram por se perder no meio do caminho uma vez que, em muitas ocasiões não se conseguia fazer nem uma coisa nem outra. O Setor de Apoio tornou-se o ícone da resolução de todos os

problemas das escolas, uma espécie de “salvador da pátria”. Assim, problemas como indisciplina, dificuldades de aprendizagem, questões familiares, salas de aula consideradas difíceis e até problemas do cotidiano escolar eram encaminhados ao setor de apoio para tomasse as devidas providências e apresentassem soluções efetivas.

Este Setor, tinha a obrigação de apresentar à SUEE relatório mensal de todas as atividades desenvolvidas em toda a circunscrição da subsecretaria. Tais relatórios tinham como objetivo primeiro conhecer o desenvolvimento do Programa no município de Quirinópolis. Por meio destes relatórios é que a SUEE traçava as suas diretrizes de ação para o Programa.

No período de 2000 a 2002, o membros da equipe de apoio participaram de várias ações de capacitação destinadas às áreas específicas de formação voltadas para a Educação Inclusiva. A proposta destas capacitações se dava na perspectiva de torná-los multiplicadores, ou seja, se deslocavam de seus municípios de origem, geralmente até a cidade de Caldas Novas e, durante uma semana (40 horas), recebiam formação referentes à educação inclusão nas áreas de atuação – serviço social, psicologia, fonoaudiologia, pedagogia, para os instrutores de área: língua brasileira de sinais, Braille, sorobã26, entre outros – com o objetivo de, ao retornarem para suas cidades de origem, fazer repasse dessa formação aos diretores, coordenadores, professorese demais profissionais envolvidos diretamente no Programa.

Estes repasses sempre foram difíceis de acontecer, uma vez que nunca conseguiam o tempo necessário para fazê-los. E os profissionais continuavam afirmando estarem despreparados para exercer a sua função de profissional da educação inclusiva em seu ambiente de trabalho. Sendo assim, a SUEE resolveu levar a qualificação até os professores de cada subsecretaria. Criou cursos específicos das grandes áreas: deficiência mental, deficiência auditiva, deficiência visual, síndromes, superdotadação e condutas típicas. Estes cursos foram repassados por profissionais das equipes de apoio

26

Sorobã é um aparelho de cálculo que teve sua origem no ábaco, utilizado pelos povos orientais. Por ser um aparelho portátil, leve, de fácil manejo e custo reduzido, o sorobã representa para os deficientes visuais um importante material de apoio ao ensino matemático. Com esse aparelho, o deficiente visual tem plenas condições de acompanhar o ritmo de atividades da matemática desenvolvidas em classes comuns ou em situações da vida diária. Com treinamento adequado o deficiente visual é capaz de escrever números e realizar operações com o sorobã tão ou mais rápido que um vidente escreve à lápis em um caderno. O sorobã, pela possibilidade de também ser utilizado por alunos videntes, favorece a integração entre os alunos cegos e os demais colegas de turma.

de todo o Estado que, após avaliação do MEC, eram considerados habilitados para ministrar estes cursos. Porém, no município de Quirinópolis, aconteceram apenas dois encontros: deficiência auditiva e deficiência mental.

Em 2003 e 2004, ocorreram algumas mudanças, uma vez que alguns profissionais da equipe de apoio trabalhavam em regime de contrato especial e os mesmos venceram e não puderam ser renovados. Com isso, o trabalho sofreu algumas alterações devido à falta de alguns profissionais no Setor de Apoio. Este setor, que antes era vinculado diretamente à SUEE, passa a responder junto ao Departamento Pedagógico da Subsecretaria. A equipe começou a trabalhar em duplas pedagógicas que, de posse do total de escolas do município, fez a divisão deste total pelo número de duplas, quando cada uma delas respondia por um número X de escolas27. Ainda no ano de 2005, foi implantado em todo o Estado o projeto Sociedade Goiana de Inclusão. No jornal Goiás Agora (2006, p.01):

De acordo com Sônia Cristina Pereira, da Gerência de Ação Multisetorial da Superintendência de Ensino Especial, o Projeto

Sociedade Goiana de Inclusão tem como objetivo tornar o espaço educacional aberto para acolher toda a diversidade, por meio de eventos que envolvam os demais segmentos sociais. O projeto, segundo Sônia Cristina, é desenvolvido nas escolas com a interação com docentes, com o corpo discente e também com a sociedade. O primeiro passo do projeto é desenvolvimento com os docentes, depois com os alunos e, por último com os diversos segmentos da sociedade para que haja uma ação transformadora de todos os indivíduos envolvidos neste agrupamento.

Em Quirinópolis, este projeto está sendo desenvolvido em todas as escolas estaduais e, de acordo com relatos da coordenação pedagógica28 da Subsecretaria tem superado as expectativas e até rompido paradigmas de muitos profissionais que apresentavam-se resistentes em relação ao Programa de educação inclusiva.

Para uma melhor compreensão deste programa no município de Quirinópolis, analisaremos no próximo capítulo os dados levantados nas entrevistas com os gestores, com os membros da equipe de apoio e com os professores.

27 O trabalho, ainda hoje, acontece nesses moldes, ou seja, a subsecretaria conta com 04 duplas

pedagógicas que prestam seus serviços técnicos a um número específico de escolas – média de 06 escolas por duplas – que abrangem toda a circunscrição de atendimento da subsecretaria.

CAPÍTULO III

AS PERCEPÇÕES DOS GESTORES, PROFESSORES E MEMBROS

DA EQUIPE DE APOIO

A democracia é, antes de tudo, uma criação humana, talvez a melhor forma de organização política da sociedade até hoje inventada pela humanidade, pois promove o pleno desenvolvimento dos sujeitos como indivíduos singulares e como membros de comunidades sociais e plurais e, conseqüentemente, favorecendo a equilibração apropriada entre os processos de diferenciação e inclusão.( Johnson) Este capítulo analisa os dados obtidos nas entrevistas feitas com os sujeitos, a saber, gestores, coordenador, professores, totalizando 09 (nove) entrevistados. O pressuposto básico é a relação entre as Racionalidades da proposta política e as racionalidades/subjetividades dos sujeitos diretamente vinculados ao Programa Estadual para a Diversidade numa Perspectiva Inclusiva. O sentido é, em última instância verificar as racionalidades/subjetividades no contexto escolar do município de Quirinópolis, buscando compreender o que mudou nas escolas em termos de inovações pautadas nos pressupostos teóricos de uma educação que tem como princípio o respeito às diferenças.

Obedecemos aos critérios de análise levando em conta o discurso dos entrevistados sobre o Programa Estadual para a Diversidade numa Perspectiva Inclusiva, com o olhar sobre o município Quirinópolis – Go.

O subtítulo abordará algumas categorias de análise contidas em um único tema: 3.1 – As racionalidades/subjetividade dos gestores, dos membros da Equipe de Apoio à Inclusão e dos professores.

3.1 - As racionalidades/subjetividades dos gestores, professores e membros da

No documento ANA LÚCIA MARTINS KAMIMURA (páginas 77-82)