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a política dos protestos e a racionalidade neoliberal

Em Segurança, território, população (2008a) e, em especial, Nascimento da

biopolítica (2008b), encontram-se análises dos discursos e práticas voltados ao governo e às conduções das condutas como problema político que mostram a irrelevância da distinção entre direita e esquerda, na medida em que as duas se referenciam em uma racionalidade específica de governo, instaurada pela crítica à economia política e seus efeitos diante da insistência da racionalidade neoliberal no pós II Guerra Mundial, derivada dos encontros entre intelectuais neoliberais, antes e durante a II Guerra Mundial, e sua emergência nos anos 1970.

Essa indistinção entre esquerda e direita não se deve ao simples fato dos partidos socialistas europeus aderirem ao jogo eleitoral parlamentar e abandonarem um horizonte revolucionário. Na verdade trata-se de uma virada, a partir da queda do Muro de Berlin, seus antecedentes e subsequentes, gradativamente a captura dos socialistas pela racionalidade governamental ao estilo liberal, ou mais precisamente, neoliberal. Isso foi longamente demonstrado e analisado por Foucault nas aulas dos dias 24 e 31 de janeiro de 1979 (Foucault, 2008: 71-138), a partir, primeiro, da conduta dos membros SPD (Partido Social Democrata Alemão). Com o fim do nazismo houve um desbloqueio da crítica liberal ao Estado que favoreceu, simultaneamente, o crescimento das teses neoliberais no campo do governo e o deslocamento de uma crítica do Mercado para uma crítica ao Estado. Foi por meio da fobia de Estado, pela necessidade diante de uma

88 Para uma análise e discussão dessas correntes teóricas que valorizarão a participação democrática como

meio para produzir maior liberdade e igualdade por meio da atuação política das diversas forças da sociedade civil, ver Tótora, 1998. Para uma análise crítica da participação democrática como meio de expansão dos controles e possibilidades de um devir democrática como resistência à eles, apresentando as ―variações representativas e participativas como regimes políticos disciplinares e de controle‖ (p. 238), ver Tótora, 2006: 237-261.

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crítica histórica do nazismo em se esgotar a crítica a um Estado hiperadministrativo, um Estado Policial, que a racionalidade neoliberal encontrou situação histórica possibilitadora de sua expansão. Antes de se dedicar ao modelo estadunidense, Foucault encaminha uma análise, não das formas de Estado e de sua suposta característica, quase que natural, segundo as teses liberais, de expansão e hipertrofia, mas uma análise que lida com as exterioridades do Estado seus efeitos imediatos em uma série de relações constituídas em torno dele: ―o Estado nada mais é do que o efeito móvel de um regime de governamentalidades múltiplas‖ (Idem: 106). Para fazer essa análise, portanto, não ―se trata de arrancar do Estado seu segredo‖, mas de ―investigar o problema do Estado a partir das práticas de governamentalidade‖ (Idem: idem).

A tese neoliberal de que no Estado está sempre em jogo certa administração dos perigos ganha primazia e expõe os limites da ausência de uma teoria do governo entre os marxistas, muitas vezes levados a assimilar a elaboração kantiana de Max Weber sobre o crescimento da burocracia fundada no procedimento. É o perigo de seu crescimento, perigo de sua fascização, perigo de sua falência. Para isto, é preciso uma arte de governo que estabeleça e possibilite essa gestão dos riscos. Na governamentalidade liberal, a ser reinventada pelos neoliberais, essa gestão implica novas maneiras de relacionar lei e ordem, Estado e sociedade civil, política e vida. Segundo Foucault, os socialistas europeus, ao abandonarem a tese da necessidade de apropriação social dos meios de produção, passam a desempenhar um papel de contrapeso, de corretivo, de paliativo em relação aos perigos interno desde o Estado (Idem: 124). A novidade nessa análise está em mostrar como para o neoliberalismo não está jogo, fundamentalmente, uma simples liberalização da economia, mas como o Estado poderá ter um papel de produção das liberdades cidadãs para as quais estes devem aprender a jogar com sua liberdade — no campo dos pares lei/ordem; Estado/sociedade civil; política/vida — e gerir seus riscos numa espécie de mercado ampliado, no qual o Estado é um entre tantos elementos do tabuleiro, embora também cumpra o papel de garantidor do cumprimento das regras do jogo.

Assim, em vez de controle social efetivo, há uma capitalização das relações, das classes sociais, das políticas compensatórias, da oferta de emprego, dos serviços de saúde e educação. Todo um campo de inteligibilidade das relações governadas por uma racionalidade de mercado, para o qual o Estado não deixa de intervir, mas passa a

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intervir diferencialmente, reconhecendo as diferenças, especificidades, particularidades, reivindicações e demandas de cada classe, cada grupo de interesse, cada grupo identitário, enfim, cada sujeito entregue ao risco de gerir sua liberdade diante das perdas e ganhos, recompensas e sanções, da lei do mercado. Quando essa lógica é maximizada pela teoria do capital humano, desenvolvida entre os sociólogos, economistas, agrônomos e urbanistas da escola de Chicago, o sujeito se torna um cidadão que é, simultaneamente, o empresário de si mesmo e responsável direto pela ordem política e social do meio em que vive.

Para efeitos da renovação da cultura dos castigos, essa racionalidade neoliberal pressupõe que o Estado — ao garantir condições saudáveis de vida (cuidados com a saúde e política urbana dinamizada) e meios de informação e expressão livres —, não se intrometa na vida do cidadão, apenas aplique as sanções de ajustes do jogo para que ele siga sem que algum jogador pule uma rodada ou trapaceie na gestão de seus riscos e/ou recursos. É como se Estado passasse de uma forma punitiva para defender a sociedade, para uma aplicação se sanções em nome da continuidade do jogo. Atividade sobre qual cada cidadão-empresa ou empresa-cidadã, também interessados em um jogo limpo, devem exercer os papéis de fiscalizadores, apoiadores e garantidores do cumprimento da regra, uma espécie de Fair Play social.

Muito antes da queda do Muro de Berlim, a complementaridade estratégica que o direto moderno articulará entre as garantias individuais diante do governo do Estado e a garantia do interesse comum expressa no direito pela representação de uma vontade geral já estará deslocada para o mercado e maximizada pela racionalidade neoliberal compartilhada. Nos termos do próprio Foucault, ―a via revolucionária, articulada essencialmente sobre as posições tradicionais do direto público, e a via radical, articulada essencialmente sobre a nova economia da razão de governar‖ (Foucault, 2008: 56-57). A produção do direito, nesse momento, ainda está em nível nacional, como vontade e como efeito de transações variadas. A encenação política entre esquerda e direita, desde o século XIX apontada como inócua pelos anarquistas, se torna dinamizada e ridiculamente explícita no domínio da racionalidade neoliberal. Para efeitos de garantia da ordem, verdadeiramente, ela se torna mais eficiente do que nunca, na medida em que uma é freio e contrapeso complementar da outra, como se estivessem

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encenando a batida esquete de filme estadunidense do policial bom e policial mau, ou segundo um ditado popular: quando um bate o outro assopra.

É interior dessa racionalidade civilizada e ordeira que se afirma o exercício da cidadania como uma atividade de polícia (Passetti, 2007). Há uma expansão da

sociabilidade autoritária (Passetti, et. ali., 1999) pela fobia de Estado. Em nome da contenção dos abusos do Estado, do combate à corrupção e de impedir as arbitrariedades estatais, é função de todo cidadão denunciar, fiscalizar, ordenar, participar e cobrar transparência para que se produza um jogo limpo, e investe-se de autoridade. Essa subjetividade policial, que não raro estará referida na lei ou em algum estatuto específico (do torcedor, do idoso, dos condôminos, etc.), se expande como conduta e como principal meio das políticas sociais ou socioambientais de ONGS, governos e empresas. Um policiamento da vida, como esteve determinada nas funções polícia desde o século XVIII (Foucault, 2008), mas sobretudo uma vida policial pronta a atender as convocações à participação89, um novo cidadão-polícia que monitora a si, os demais e os governos sobre si.

Do ponto de vista analítico acompanho a sugestão metodológica de Foucault para compreender as complementaridades desses jogos políticos. A proposta é a de um deslocamento para se afastar da lógica dialética, em favor de uma lógica estratégia. ―A lógica dialética é uma lógica que põe em jogo termos contraditórios no elemento homogêneo. Proponho substituir essa lógica da dialética pelo o que chamarei de lógica da estratégia. E uma lógica da estratégia não faz valer termos contraditórios no elemento de um todo homogêneo que promete sua resolução numa unidade. A lógica da estratégia tem por função estabelecer quais são as conexões possíveis entre termos díspares e que permanecem díspares. A lógica da estratégia é a lógica da conexão do heterogêneo, não é a lógica da homogeneização do contraditório. Rejeitemos portanto a lógica da dialética e procuremos ver quais conexões puderam manter unidos, puderam fazer conjugar-se a axiomática fundamental dos direitos do homem e o calculo utilitário da independência dos governados‖ (Foucault, 2008: 58).

No início dos anos 1990, com o que ficou conhecida como globalização ou mundialização, a tendência de capitalismo planetário e a política neoliberal se mostrou

89 Tratei de alguns aspectos da expansão e funcionamento dessa vida policial no meu trabalho de

mestrado e participo de pesquisas e discussões acerca de suas conformações contemporâneas no interior do Projeto Temático Fapesp Ecopolítica. Cf. Augusto, 2013 e www.pucsp.br/ecopolitica.

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mais claramente. No entanto, é possível afirmar que essas posições políticas divididas em esquerda e direita passam, cada vez mais, a se complementar, visto que as duas se posicionavam em relação e em direção ao Estado a partir das formulações da sociedade civil em nível global, para a produção de melhorias que seriam resultantes de maior participação dos cidadãos nas decisões, confirmando a racionalidade neoliberal estadunidense como princípio de inteligibilidade. O que se convenciona chamar de esquerda segue, 20 anos depois, com certa articulação e influência política, buscando ocupar os governos de Estados (em especial nos chamados países emergentes, o BRIC) e fazer pressão por meio da chamada sociedade civil organizada, impondo-se a tarefa de regular e regulamentar os efeitos locais dos fluxos internacionais de capitais (Zizek, 2012); enquanto o que se convencionou chamar de direita, segue defendendo as vantagens da competição e do livre mercado e a importância de governos de Estado locais com a criação de fortalecimento de institucionalidades democratizantes (Fukuyama, 2005). Reitera-se que, para uma e outra, a maior participação que deve aperfeiçoar e inovar as ações de governo e melhorar, gradualmente, as condições de vida das pessoas no e do planeta (Passetti, 2007; 2013b).

Nesse jogo prevalecem as complementaridades políticas, que buscam ocupar o centro e ser o ator principal (protagonista), produzindo uma condição de equilíbrio no qual as práticas de governo e a inevitabilidade da política de Estado (para promoção da seguridade como igualdade de direitos, acessos a bens de consumo variados e programas compensatórios) seguem como elementos imprescindíveis do atual conservadorismo, renovado para inovações e participações, entendido aqui para além de designações escoradas em estatutos ideológicos juramentados. Tal conservadorismo expresso como política de governo de Estado se mostra como versão institucional de algo mais elementar (por isso fundamental) da política na sociedade de controle como disseminação de governos de condutas moderadas, crentes nas práticas de punição e recompensa, e expressas nos controles a céu aberto como convocação à participação, caracterizada por Passetti (2007) como conservadorismo moderado. Não se trata de ignorar as conformações institucionais que esse governo de sociedade possa tomar, mas localizar sua conformação como estatuto da conduta dos sujeitos em sua ação política, apresentando-se antes como prática ordinária das pessoas. Nesse sentido, opta-se pela noção de conservadorismo moderado por evitar a nomenclatura política-ideológica e se mostrar como caracterização analítica da conduta de sujeitos na sociedade de controle,

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levando a novas institucionalidades políticas fora dos modelos disciplinares dos partidos, Estados e instituições90.

A ambiguidade que caracteriza o direito no liberalismo do século XIX e XX está em garantir uma regulação cidadã do poder público, com vista à liberdade do indivíduo, ao mesmo tempo em que cabe a este poder público garantir seguridades de assistência e compensações. A partir dos anos 1970, a combinação estratégica desses termos separados produzirá ―uma nova programação da governamentalidade neoliberal‖ (Foucault, 2008: 127). Essa nova programação se expressa na racionalidade neoliberal, não como ideologia, mas como maneira de imaginar, fazer política e uma arte de governar. A maneira de governar fundamenta-se em deixar agir, em fomentar uma pluralidade de ações que multipliquem a superfície de atrito para que o Estado possa assumir um papel de arbitragem jurídica. Daí decorre a importância de fomentar variadas iniciativas, mesmo que por vezes litigiosas, e um reforço das medidas de penalização (Idem: 204). Essas características que Foucault localiza na elaboração durante o pós-II Guerra Mundial e a disseminação no final dos anos 1970, se expandem como política planetária, conforme as recomendações do relatório Brutland, em 1987, e as inúmeras recomendações socioambientais e de cuidados com meio ambiente que caraeterizam o que Beatriz Carneiro chama de dispositivo meio-ambiente (Carneiro, 2013).

Diante dessa política planetária que se esboça o protesto de Seattle em 1999; objetivava impedir as reuniões de organismos internacionais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial, e anunciavam uma nova possibilidade de ação política fora do âmbito do Estado e dos partidos, e contra a tendência globalizante do capital financeiro. Precedidos pelo movimento zapatista em Chiapas e tendo na internet, ainda sem o dinamismo das redes sociais digitais, uma via fundamental, um dos efeitos desse movimento foi a ativação complementar dessa nova configuração da política planetária em andamento. Sua multiplicação litigiosa ativou elementos de controle securitário em âmbito planetário, inclusive com novas definições de combate ao terrorismo, anteriores à paranóia pós 11 de setembro de 2001. Mas também fomentou propostas de

90 Sigo uma orientação metodológica de Foucault sobre a análise das relações de poder ao afirmar que

―não se trata de negar a importância das instituições na organização das relações de poder. Mas de sugerir que é necessário, antes, analisar as instituições a partir das relações de poder, e não o inverso; e que o ponto de apoio fundamental destas, mesmo que elas incorporem e se cristalizem numa instituição, deve ser buscada aquém‖ (Foucault, 1995: 245).

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alternativas de seguridade social que se baseavam em uma nova concepção da produção mundial e de cidadania global. Entendido em plano mais geral, os movimentos que vão da antiglobalização ao Ocuppy Wall Street, mesmo com pontuais radicalidades, operam como uma contraconduta que ativa uma agenda de políticas neoliberais compensatórias planetárias relativas aos cuidados que vão desde o atendimento de demandas de grupos identitários ou povos tradicionais aos cuidados com meio ambiente. A política passa a ser operacionalizada, no quadro de uma governamentalidade planetária, que envolve desde a participação de cada cidadão, passando por empresas, ONGs, Estados nacionais e organizações internacionais, sendo este um dos traços que indicam a passagem de uma biopolítica para uma ecopolítica (Passetti, 2013b).

Dois exemplos bastante claros dessa busca por seguridade por meio de uma cidadania global podem ser retirados de propostas largamente encampadas pelos movimentos antiglobalização e seus apoiadores, teóricos ou porta vozes. São: a proposta de criação da chamada taxa Tobin e as pressões para que os governos adotem uma renda mínima ou renda cidadã. A campanha pela taxa Tobin emerge em 1999, promovida por uma organização europeia de grande importância para o movimento

altermundialista, a ATTAC (Associação para Taxação das Transações financeiras e Ajuda aos Cidadãos). A proposta consiste em taxar em 1% todas as transações financeiras e destiná-las para um fundo internacional de ajuda aos cidadãos, uma espécie de FMI para pessoas91. A renda mínima ou renda cidadã, por sua vez, é quase um consenso entre diversos ativistas da antiglobalização como a produção de um direito social fundamental a ser garantido pelo Estado. Sua formulação varia segundo os propositores, defensores e analistas, mas consiste basicamente em fornecer, para todos os cidadãos, indiscriminadamente, uma renda elementar que substituiria o conjunto de direitos sociais fornecidos pelo Estado. Estas propostas já se realizam, não paradoxalmente, por meio de programas de governo que operacionalizam o que os ordoliberais chamavam de política social individualizada, que favorecem a transformação do sujeito em empresa. Ele pode utilizar essa renda como um capital inicial que, se bem investido, garantirá a ele uma vida relativamente segura, segundo seus méritos.

91 Sobre essa proposta e a ATTAC ver http://www.attac.org/en. Sobre suas possibilidades diante da

constituição brasileira, ver http://www.ccradvocacia.com.br/pdf_artigos/artigo02.pdf. Consultado em 15.4.2010.

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Entre os propositores da renda cidadã encontram-se autores-ativistas que se identificam tanto entre os anarquistas, quanto entre os neomarxistas. Para Negri e Hardt a adoção de um salário social justifica-se pela generalidade da produção biopolítica. Para eles, ―o salário social estende-se muito além da família, para toda multidão, mesmo para os desempregados, porque a multidão inteira produz, e sua produção é necessária do ponto de vista de todo capital social. Na transição para a pós-modernidade e a produção biopolítica, a força de trabalho torna-se cada vez mais coletiva e social. (...) Uma vez que a cidadania se estende a todos, podemos chamar essa renda garantida de renda cidadania, devida a cada um como membro da sociedade‖ (Negri & Hardt, 2001: 427). Outro neomarxista, Zizek, embora a apresente de forma crítica, pela contradição entre proletários e rentistas, a reconhece como ―a única ideia econômica original da esquerda nas últimas décadas‖ (Zizek, 2012: 189) e da dá o exemplo da bolsa família, implementada pelo governo Lula no Brasil, como uma etapa nessa direção. Assim, mesmo hoje, a racionalidade governamental do neoliberalismo acomete a mente de um dos teóricos vistos como mais radical, ao mesmo tempo que expressa a falta de inventividade para forja-se uma política de governo verdadeiramente socialista ou a inexistência de uma governamentalidade socialista.

Entre os anarquistas seu principal defensor é David Graeber, que vê nessa renda cidadã uma resposta interessante ao desmantelamento do Estado de bem-estar social. Mas Graeber faz sua defesa a partir de uma situação pontual do grupo francês MAUSS (Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais, na sigla em francês) e localiza sua formulação na proposta de garantia de renda nacional, elaborada por Thomas Paine. Ele apenas inverte a condição devedora que se encontra cada cidadão. Sugere que não é o cidadão que deve ao Estado, mas como indivíduo social, é o Estado que deve algo para cada cidadão. Argumenta que ―o verdadeiro caminho para a reforma da política de bem- estar não era o desmantelamento dos benefícios sociais, mas a reformulação de toda a concepção do que um Estado deve a seus cidadãos. Vamos abandonar o bem-estar e os programas de desemprego, disseram. Mas, em vez disso, vamos criar um sistema no qual cada cidadão francês terá garantido o mesmo rendimento inicial (digamos, U$ 20.000 fornecidos diretamente pelo governo) — e, em seguida, o resto pode provir deles‖ (Graeber, 2013: 145). Uma modulação da mesma política social individualizada, que ao invés de produzir liberdade, produz um sujeito empresa, ou seja, liberdade para o

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mercado. No campo do que se refere genericamente como esquerda até mesmo alguns anarquistas contemporâneos se vêm capturados pela racionalidade neoliberal.

Claro que essas não são as únicas e, tampouco, as principais propostas que derivam dos movimentos. Colocá-las em destaque é mostrar como a busca por uma seguridade de uma cidadania global não se relaciona exclusivamente com questões de segurança repressiva e como os movimentos antiglobalização possibilitam concepções de um social planetário que precisa ser regulado e cuidado, ainda que caiba aos Estados e às sociedades civis a efetivação desses cuidados. Nesse sentido, propostas de regulações ambientais e respeito às minorias e aos direitos humanos são infinitamente mais numerosas, como as propostas de controle de emissão de gases poluentes e