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A última pergunta de análise está pautada na questão da polifonia: (iii) em que medida é possível perceber na fala dos presidentes as outras vozes que também falam? Para isso, resgataremos as contribuições de Bakhtin e de Ducrot tratadas no capítulo teórico desta dissertação.

No discurso político, a polifonia é uma estratégia facilitadora na identificação das ideologias. Em seu discurso, Lula faz referência a uma partida de futebol quando vai falar dos desafios de governar, em L08, L09 e L10:

Quadro 17 – A metáfora do futebol no discurso lulista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L08

L09 L09 L10

Em momentos muito

difíceis, quando alguns imaginavam que o jogo tinha acabado, o povo entrava em campo e dizia claramente: (...)

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

As vozes presentes nesse discurso são as de um presidente que também é brasileiro, que também é torcedor e tem enraizado em sua cultura o amor pelo futebol. O Brasil é conhecido internacionalmente como o país do futebol. Ao mencionar termos como “jogo” e “entrar em campo”, Lula ecoa a voz do jogador brasileiro, afinal, governar é jogar. O que o presidente faz aqui é uma metáfora futebolística para falar do governo.

Há um trecho considerável do discurso de Lula em que o ex-presidente faz uso recorrente do presente do indicativo. Esse tempo verbal nos faz concluir que tudo o que antecede seu governo confronta as afirmações realizadas no discurso. Lula afirma que o Palácio da República está acostumado a receber um “tipo” específico de pessoas e que deveria, na verdade, receber todo tipo de gente, desde a rainha até o catador de papel. Quando Lula faz uso do termo “a partir do meu governo”, pressupõe-se que antes deste o Palácio da República não estava habituado a receber o catador de papel, apresentado em L47, L48, L49, L50, L51, L52 e L53:

Quadro 18 – A valorização dos mais pobres do discurso lulista [1]

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L47

Eu sinto orgulho, porque normalmente os palácios presidenciais são feitos para um

determinado tipo de gente e, na minha concepção, o palácio do Presidente da República

precisa receber rainhas, precisa receber reis, precisa receber príncipes, precisa receber empresários, pequenos, grandes e médios, precisa receber deputados, senadores, penoso a sua sobrevivência com dignidade.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Essa mesma ideia se desdobra no discurso do presidente quando afirma que o Palácio do Planalto precisa passar a receber a visita das minorias deste país. Lula segue fazendo uso dos verbos “precisa aprender”, o que segue passando a ideia de que os governos anteriores não aprenderam, ou seja, não foram receptivos com as minorias do Brasil, como podemos observar a seguir em L54, L55, L56 e L57:

Quadro 19 – A valorização dos mais pobres do discurso lulista [2]

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L54

Este Palácio precisa aprender a receber as minorias marginalizadas deste País. Este

Palácio precisa aprender a receber os negros, os índios, as mulheres. E este Palácio precisa

aprender a receber aqueles que, muitas vezes, não conseguem nem passar perto do Palácio,

quanto mais entrar nele.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Logo na sequência, Lula evoca duas vozes no discurso ao falar que deseja, junto de seu governo, “consolidar” a democracia brasileira. A primeira voz vem de um lugar de fragilidade.

A democracia brasileira de fato não tem muitos anos e desde o Golpe Militar se demonstra instável. A segunda voz apresenta um presidente com um governo que fará o Brasil, o país do futuro, chegar no futuro, ou seja, “chegar lá”, em L58 e L59:

Quadro 20 – A democracia brasileira no discurso lulista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L58

L58 L59

E fazemos isso porque queremos consolidar a democracia brasileira de tal forma,

numa relação sadia e produtiva com a sociedade

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Ao agradecer a presença de todos, Lula faz referência a dois dias da semana que trabalham com a memória do povo. A posse presidencial aconteceu em uma segunda-feira e, por tradição, acontece sempre no dia 1º de janeiro, dia da Paz e pós-Réveillon. Nessa alusão à festa de Ano Novo, Lula pondera que o dia da posse poderia ser em uma sexta-feira, um bom dia para festas, já que no imaginário do povo, segunda-feira é dia de trabalho, a seguir em L92, L93, L94 e L95:

Quadro 21 – A relação trabalho x celebração no discurso lulista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L92

Quero agradecer aos nossos convidados que estão aqui. Muita gente importante,

eu estou vendo daqui, muita gente que veio, nesta segunda-feira chuvosa, prestigiar esta posse, que lamentavelmente a gente não conseguiu mudar e continua sendo no dia 1º de janeiro,

quando poderia ser numa sexta- feira, para a gente fazer, realmente, uma grande festa.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Lula encerra seu discurso prometendo ao povo brasileiro que ele e o vice-presidente José Alencar cumprirão cada palavra do prometido para honrar o povo, fortalecer a democracia e garantir que os mais pobres sejam tratados com respeito e decência. Ao fazer essa observação, Lula chama a atenção para que esse tratamento aos mais pobres deveria ter acontecido há muito tempo. Quando afirma isso, o presidente relembra todo percurso histórico do brasileiro: os 500 anos, a escravidão, o desrespeito, a desvalorização e alguns comportamentos estruturais enraizados na sociedade. Na fala de Lula, está refletida uma memória coletiva de que ser brasileiro é saber que existe miséria e estar consciente disso é o primeiro passo para mudança.

A seguir em L96, L97, L98, L99, L100, L101 e L102:

Quadro 22 – As garantias no discurso lulista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L96 daremos a nossa vida para que a gente possa cumprir cada palavra e cada compromisso que assumimos com vocês, para que a gente possa fortalecer a democracia do nosso País, para que a gente possa garantir que a parte mais pobre da população seja tratada com o respeito e com a decência que deveria ter sido tratada há

muito tempo, porque se assim o fosse nós não teríamos a quantidade de pobres que temos no Brasil.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Ainda nesse contexto de olhar para os mais pobres, há no discurso de Lula a presença de um discurso maternalista, no qual se recupera a noção de família. Aqui, acontece a mescla de discursos em que surgem diferentes vozes, conforme propõe Bakhtin, externalizadas e representadas por um indivíduo. O presidente afirma ser “presidente de todos”, mas se compromete a primeiro olhar para os mais necessitados, como fazem as mães com os filhos que demandam mais cuidado e atenção, em L104, L105, L106 e L107:

Quadro 23 – Lula: o presidente de todos

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L104

L105 L105 L106 L106 L107 L107 L107

Sou Presidente de todos sem me preocupar com a origem social de cada um. Mas não se enganem, mesmo sendo Presidente de todos eu

continuarei fazendo o que faz uma mãe, eu cuidarei primeiro

daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados, daqueles que mais precisam do Estado brasileiro.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Essa preocupação de Lula com os mais pobres aparece nas propostas de governo e nas falas sobre o Brasil de outrora. Em momento posterior, Lula afirma que o povo pode começar a se preparar pois o país terá um crescimento vigoroso. No entanto, o presidente diz que não será “um crescimento como tivemos em outra época, em que o País crescia e o povo continuava pobre, o País crescia e não se distribuía o resultado desse crescimento”. Ao dizer isso, Lula traz um histórico de crescimento do Brasil que não era para os brasileiros. Quem lucrava com o Brasil, afinal? Ao trazer essas afirmações, Lula traz também o contrário: no passado, os governantes não estavam preocupados em distribuir ao povo as riquezas de seu país.

Esse discurso proferido por Lula mostra que os enunciados, sendo constitutivamente dialógicos, sempre são históricos, conforme Bakhtin teorizou. Só é possível perceber esse movimento histórico no movimento linguístico presente no enunciado. A história está presente no interior do discurso, portanto, o sentido se constitui no confronto, na oposição das vozes. A seguir em L115, L116, L117 e L118:

Quadro 24 – O crescimento do Brasil no discurso lulista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L115

L116 L116 L117 L117 L118

este País vai ter um

crescimento vigoroso. Mas não um crescimento como tivemos em outra época, em que o País crescia e o povo continuava pobre, o País crescia e não se distribuía o resultado desse

crescimento.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Partiremos agora para a análise das vozes presentes no discurso de Bolsonaro. Já sabemos que no discurso político a polifonia é uma estratégia facilitadora na identificação das ideologias e dos “já-ditos” nos textos. Tanto em Lula quanto em Bolsonaro, no processo de comunicação interativa há “[...] um eu que se reconhece através do outro” (BRAIT, 2005, p.

240).

É no segundo parágrafo de seu discurso que Bolsonaro já começa a trazer elementos vivos no imaginário do povo brasileiro. O presidente data o 1º de janeiro de 2019 como “o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”, da “inversão de valores” e do

“politicamente correto”.

Bolsonaro, por vezes, faz referências ao socialismo em seu discurso. Essa é uma menção direta aos governos anteriores, de Lula e Dilma Rousseff. No discurso do presidente Bolsonaro, a fala socialista está diretamente ligada à inversão de valores e ao politicamente correto. É curioso refletir que a palavra “valor” e a expressão “politicamente correto” deveriam ser – no imaginário coletivo – sinônimos, mas no discurso aparecem como antônimos, já que é “o dia em que o povo começa a se libertar” de ambos, como se fossem algo impróprio. Vale ressaltar que a palavra “valor” está acompanhada de “inversão”.

Os valores morais de uma sociedade são um conjunto de regras já-ditas, portanto, princípios e normas que determinam o comportamento das pessoas e sua inserção na sociedade.

Muitos desses valores estão atribuídos a princípios do cristianismo, mesmo o Brasil, como já mencionado, sendo um Estado laico. Quando Bolsonaro afirma existir no país uma “inversão de valores”, está dizendo que princípios de honestidade, caráter, integridade, respeito, entre outros já não existem mais, mas é chegada a hora de recuperá-los. É nesse sentido que a memória discursiva aparece na fala do presidente,surge como acontecimento a ser lido, vem

restabelecer os “implícitos” de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível (PÊCHEUX, 1999 apud SILVA, 2019).

Na contramão da “inversão de valores”, está o “politicamente correto”: termo um dia considerado positivo, que ganhou grande popularidade nos governos Trump e Bolsonaro, e hoje é usado por muitos de forma pejorativa. Nada mais é do que a expressão que busca tratar os assuntos de sua forma mais correta, sem ofender as pessoas, seus credos, suas anomalias ou seus princípios.

De certa forma, o “politicamente correto” ajuda no fortalecimento dos valores. Ao dizer que quer colocar um fim no “politicamente correto”, Bolsonaro enfraquece os valores que ele mesmo afirma estarem todos invertidos. A seguir em L08, L09 e L10:

Quadro 25 – O livramento do socialismo no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L08

L09 L09 L10 L10 L10

E me coloco

diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a

se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Bolsonaro segue discursando sobre seu comprometimento com o povo brasileiro, mas retoma uma memória inexistente, uma memória fabricada. Em L12, o presidente afirma que está, neste 1º de janeiro, presente para “responder e, mais uma vez, se [grifo nosso]

comprometer com esse desejo de mudança”.

Ao utilizar a expressão “mais uma vez”, Bolsonaro tem o intuito de reiterar algo.

Acontece que essa reiteração não é possível uma vez que ele nunca foi presidente antes e o que mais fez no período de campanha foi se ausentar do debate público3. A seguir em L12:

3 O candidato Jair Bolsonaro, nome do PSL à Presidência da República, não participou de nenhum debate no

segundo turno das eleições em 2018. De acordo com Gustavo Bebianno, presidente da agremiação do PSL, “[...]

o estado de saúde do candidato é de ‘absoluto desconforto’ e que ele não deve ser submetido a uma situação de alto estresse, sem nenhum motivo.” (ESTADÃO CONTEÚDO, 2018).

Quadro 26 – O comprometimento no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L12 (...) eu estou aqui para responder e, mais uma vez, me comprometer com esse desejo de mudança.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Desde muito antes de ser eleito 38º presidente da República Federativa do Brasil, Bolsonaro já era acusado por parte da oposição de ser um candidato de extrema direita, com valores antidemocráticos e na contramão do que prevê a Constituição brasileira. A voz que fala em L16 e L17 é a voz da democracia, a voz do povo que exerceu a soberania. Quando Bolsonaro faz essa afirmação sobre a democracia, reitera o fato de que sua eleição não foi realizada de forma inconstitucional. Sendo assim, esse enunciado prevê que “[...] os enunciados, sendo constitutivamente dialógicos, são sempre históricos.” (FIORIN, 2007, p. 59). A seguir:

Quadro 27 – A palavra “democracia” no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L16

L16 L17

a partir de hoje vamos colocar em prática o projeto que a maioria do povo brasileiro

democraticamente escolheu.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Ao realizar a afirmação anteriormente apresentada, Bolsonaro garante que não houve fraude, não houve injustiça ou qualquer outra manifestação que não fosse o desejo da maioria do povo brasileiro. Nada mais é do que a “memória discursiva”: “[...] o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra.” (ORLANDI, 2005, p. 29).

Em L25, Bolsonaro menciona a expressão “ideologias nefastas”. Apesar de genérica, podemos concluir que o falante assume que existe ideologia, algo condenável na visão do presidente, e que elas são adjetivadas como nefastas. Aqui, Bolsonaro parece retomar a memória sobre as questões de gênero, contudo, na sequência, em L29, traz explicitamente a corrupção, logo, parece promover empatia com parte da audiência, em L25, e, depois, envereda para promover empatia com toda a audiência, em L29, pois corrupção é um assunto que, por óbvio, ninguém se posiciona a favor publicamente. A seguir em L25, L26, L29, L30 e L31:

Quadro 28 – A memória presente na expressão “ideologias nefastas” no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L25

L25 L26 L26

Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Quadro 29 – A corrupção no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L29

L29 L30 L30 L31

A corrupção, os privilégios e as vantagens precisam acabar. Os favores politizados,

partidarizados devem ficar no passado, para que o Governo e a economia sirvam de verdade a

toda a Nação.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Bolsonaro, em L30 e L31, afirma que “o Governo e a economia devem servir [grifos nossos] de verdade toda a nação”. Adiante, em L32 e L33, o presidente diz que todas as propostas que virão em seu governo terão um propósito em comum: os brasileiros. Bolsonaro utiliza a seguinte expressão: “os interesses dos brasileiros em primeiro lugar”. A voz que ecoa4 nesse momento do discurso é a de Donald Trump, ex-presidente americano. Podemos observar a voz de Trump presente no discurso de Bolsonaro a seguir em L32 e L33:

4 Em janeiro de 2017, quando assumiu a presidência dos Estados Unidos, Trump realizou seu discurso de posse no Capitólio, em Washington, e prometeu “América para os americanos em primeiro lugar”. O ex-presidente afirmou ainda que, tanto nos EUA quanto no exterior, buscaria sempre o interesse dos norte-americanos em primeiro lugar. (AGÊNCIA BRASIL, 2017).

Quadro 30 – A reprodução do discurso de Trump no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L32

L32 L33 L33

Tudo o que propusemos e tudo o que faremos a partir de agora tem um propósito comum e

inegociável: os interesses dos brasileiros em primeiro lugar.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Em L49, Bolsonaro discorre sobre a segurança do povo brasileiro e garante que a preocupação será com as pessoas de bem. Ao utilizar a locução adjetiva “de bem” em sua fala, Bolsonaro subentende que há pessoas que serão excluídas em seu governo – as pessoas “de mal” – o que contraria a Constituição brasileira. A seguir em L49, L50 e L51:

Quadro 31 – As pessoas de bem no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L49 pessoas de bem e a garantia do direito de

propriedade e da legítima defesa, e o nosso compromisso é valorizar e dar respaldo ao trabalho de todas as forças de segurança.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Em L50 e L51, Bolsonaro fala sobre a “legítima defesa”, expressão que circula no imaginário coletivo brasileiro. É o resgate à memória de campanha a respeito do porte de armas para todas as pessoas “de bem”. Outra proposta de campanha de Bolsonaro é a sua relação com o ensino superior. Em L52 e L53, o presidente afirma que “pela primeira vez” o Brasil irá priorizar a educação básica. Ao utilizar essa expressão, Bolsonaro está afirmando que nunca a educação básica no país foi prioridade. Nessa perspectiva, “[...] no horizonte de todo discurso polêmico está todo o desejo de silenciar o outro, de apagá-lo da cena enunciativa, de fazer prevalecer os seus argumentos pela afirmação de um e negação do outro.” (BRANDÃO, 1997, p. 61).

Além disso, a fala carrega desde aquele momento o posicionamento do presidente sobre o incentivo à pesquisa, à academia e à ciência. Em maio de 2019, ainda no início da gestão

Bolsonaro, o governo federal bloqueou 30% da verba para universidades, de acordo com informações da jornalista Beatriz Jucá do El País. Logo, parece-nos que é o ataque ao ensino superior que está subentendido no trecho “o Brasil irá priorizar a educação básica, que é a que realmente transforma o presente”. Apresentado a seguir em L52 e L53:

Quadro 32 – A educação básica no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L52

L52 L53

Pela primeira vez, o Brasil irá priorizar a educação básica, que é a que realmente transforma o

presente e faz o futuro de nossos filhos.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

É possível observar no discurso de Lula a presença da intertextualidade em L139, L140, L141, L142 e L143. Para Blühdorn (2009), só devemos chamar de intertextualidade as relações dialógicas materializadas em textos e, ao afirmar que falará com todos os governadores sobre a necessidade de uma política forte para combater a criminalidade no país, Lula resgata no próprio discurso um episódio fresco na memória de todos. “É apenas em função da sua ocorrência em textos que os recursos linguísticos possuem significado, e é em função da sua recorrência em macrotextos que se dá a sua evolução semântica.” (BLÜHDORN, 2009, p. 205).

Quadro 33 – A intertextualidade no discurso de Lula

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A1 L139 porque essa barbaridade que aconteceu no Rio de Janeiro não pode ser tratada como crime comum. Isso é terrorismo e tem que ser

combatido com uma política forte e com uma mão forte do Estado brasileiro. Aí já extrapolou

o banditismo convencional que nós conhecíamos.

LULA

Fonte: Elaborado pelo autor

Vale notar que Lula não narra o episódio em detalhes. Há no discurso a presença de um outro discurso, já conhecido pelo povo: o episódio que aconteceu no Rio de Janeiro. Lula parte do pressuposto de que todos já sabem do que ele está falando, mas, ao mesmo tempo, marca em seu discurso o evento em L140 e L141: “essa barbaridade que aconteceu no Rio de Janeiro”.

Há, por fim, a fala de Bolsonaro que remete ao comunismo, ao PT e ao Lula: “Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha”. O presidente encerra comentando sobre as cores da bandeira, que hoje são símbolo de seus apoiadores5 em manifestações. Aqui, vale ressaltar que

“todo discurso contém outras falas – passadas ou presentes – com as quais mantém uma relação de aliança, de reação ou de confronto” (BRANDÃO, 1997, p. 60). Ainda nesse sentido, Bolsonaro recorre à apelos como o sentimento de pátria e símbolos como a bandeira nacional (versus a bandeira vermelha). A estratégia aqui adotada é utilização de “[...] recursos que veiculam valores, sentidos cristalizados de fácil comunicação, contribuindo para a transparência da mensagem.” (BRANDÃO, 1997, p. 68). Em L70 e L71:

Quadro 34 – “Nossa bandeira jamais será vermelha” no discurso bolsonarista

ANEXO LINHA DISCURSO PRESIDENTE

A2 L70

L70 L71

Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela.

BOLSONARO

Fonte: Elaborado pelo autor

Do ponto de vista da Análise do Discurso, é possível afirmar que em muitos momentos, ambos os presidentes se aproximam no discurso. Vale observar que de maneira intertextual (Bolsonaro) ou interdiscursiva (Lula), o termo “homens de bem” aparece no discurso. Ambos são homens livres e honestos. Embora sejam construções diferentes, os dois apresentam interesses comuns como: acabar com o banditismo. A seguir em L142, L143, L144, L145, L146 e L147 do discurso de Lula e L46, L47 e L48 do discurso de Bolsonaro.

5 De acordo com o colunista do El País, Oliver Stuenkel, “[...] em várias democracias ao redor do mundo radicais têm se apropriado de bandeiras nacionais para poder chamar vozes discordantes de inimigos da pátria.”

5 De acordo com o colunista do El País, Oliver Stuenkel, “[...] em várias democracias ao redor do mundo radicais têm se apropriado de bandeiras nacionais para poder chamar vozes discordantes de inimigos da pátria.”