Depois de obter informações biográficas de Abdias Nascimento e Milton Santos, posso sugerir, com base no conteúdo selecionado, que a formação escolarizada seja também um instrumento de aproximação e de divergências entre a composição destas trajetórias. As primeiras incursões de Abdias na escola têm como cenário o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins. Desta época, as recordações são sempre muito memorialistas, apesar de Abdias afirmar o contrário. As saudades de um tempo e de um tipo de escola que se contrasta com a pedagogia mais contemporânea. Desde cedo, teve que dividir-s entre trabalho e estudo. Mais tarde, a sua escolha foi seguir o curso de Contabilidade da Escola de Comércio do Ateneu Francano. Embora tivesse optado por um curso, cuja prioridade não fosse a literatura, Abdias teve acesso a livros importantes. Leu Platão (A República), Júlio Ribeiro (A Carne) Raul Pompéia (O Atheneu), Euclides da Cunha (Os Sertões), as histórias de Monteiro Lobato e Josué de Castro37 (Fome – um tema proibido).
A saída da cidade de origem para os centros urbanos foi durante muito tempo um movimento necessário para aqueles que desejavam ampliar seus horizontes e entrar em contato com experiências educacionais e de emprego que refletissem as ambições, os desejos, enfim, a vontade de perseguir um ideal de formação escolarizada ainda muito restrito a uma certa camada da burguesia baiana, o que não excluía a velha pequena burguesia negra da Bahia. O Instituto Baiano de Ensino, em Salvador, foi a instituição que recebeu Milton Santos aos 10 anos de idade. O regime era de internato. Os professores desta escola também eram
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MICELI, 2001. 37
Josué de Castro nasceu em Recife (Pernambuco) em 1908. Formado em medicina, lecionou geografia humana na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (Recife) e depois na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro. Implantou o serviço Central de Alimentação (depois Serviço de Alimentação da previdência Social – SAPS), em 1939, e o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil (1946). Foi presidente do Conselho da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), de 1952 a 1956, e da Associação Mundial de Luta contra a Fome. Embaixador do Brasil na ONU de 1962 a 1964 demitiu-se após o golpe militar de 1964, foi cassado e morreu no exílio, na França, em 1973. Escreveu importantes obras sobre a alimentação no Brasil e no mundo, entre as quais a conhecida Geografia da fome (NASCIMENTO; SEMOG, 2006, p.63).
59 professores do Ensino Superior, de medicina e de direito, e da Escola Politécnica. Ao recordar as palavras de um de seus professores, Milton enfatiza:
Eu me recordo do meu professor de português que era um grande poeta e que me disse uma vez: “Você não chegará nunca a ser presidente da República, mas você será um Teodoro Sampaio”. Ele imaginava que eu seria um intelectual ou geógrafo, pois Teodoro Sampaio, apesar de ser engenheiro, foi sobretudo um importante geógrafo que escreveu sobre São Francisco, sobre São Paulo e sobre a cidade de Salvador (LEITE , 2007, p.28).
Com o destaque que obtivera na disciplina de Matemática, Milton passou a ensiná-la aos 13 anos de idade. Nesta fase, teve também contato com a leitura de Josué de Castro. Ao responder sobre as expectativas de seus pais e o estabelecimento de metas a serem cumpridas em relação aos estudos, Milton Santos comenta:
Havia metas, mas não existia na nossa casa essa idéia de ser o melhor, ser o bom, que hoje é muito freqüente. É evidente que a família de minha mãe já era letrada e cultivada. Meu avô era professor, os meus avôs maternos eram professores do Ciclo Operário, que seria depois o sindicato, em Salvador. Havia essa tradição, havia os retratos na sala, havia o elogio do avô, do tio que tinha sido seminarista e virou advogado, havia os colegas de meu pai e de minha mãe que freqüentavam a casa e havia toda uma ambiência, cuja ausência é um dos problemas hoje dos rapazes e meninas negros (SANTOS, 2002, p.45).
Neste contexto, a realidade de uma boa educação, que envolve dentre outras coisas, comprometimento, vem da forma como a tradição familiar interage com as letras, o que exige, de certa maneira, a participação de todos para a determinação e o cumprimento das metas. A ausência dessa ambiência, a qual Milton se refere é uma ausência cada vez mais presente na trajetória de muitos negros no Brasil, que sofrem pela falta de um tipo de estrutura familiar. Milton Santos acostumou-se a uma rotina de estudos muito comum nas escolas com características de internato. O início da sua formação intelectual é resultado da mudança de cidade, dos contatos estabelecidos na escola e desta rotina sistemática que viveu, dividida entre a responsabilidade de aprender e de ensinar, pois antes de terminar o ginásio ele já ensina. Esta atividade veio a ser remunerada mais tarde quando entrou para o Colégio da Bahia.
60 A convivência de Milton Santos com intelectuais de seu tempo começa logo cedo, a exemplo de Pedro Calmon38 e Otávio Mangabeira39. Os professores do ginásio também ministravam aulas na Universidade, principalmente nos cursos de Medicina, Direito e Engenharia, o que facilitava, de certa forma, o contato com essa “gente de grande valor”, como Milton Santos costumava dizer. A entrada do aluno nos cursos citados, não só sinalizou durante muito tempo prestígio social como também intelectual. Havia uma espécie de tradição familiar profissional que reforçava a escolha do curso universitário. As carreiras eram seguidas tendo em vista o quê representariam para inserção e identificação dos indivíduos na sociedade da época.
Ao analisar a situação do mercado de diplomas no início da década de 1930, Sérgio Miceli constata:
Até meados da República Velha, a Faculdade de Direito era a instância suprema em termos de produção ideológica, concentrando inúmeras funções políticas e culturais. No interior do sistema de ensino destinado à reprodução da classe dominante, ocupava posição hegemônica por força de sua contribuição à integração intelectual, política e moral dos herdeiros de uma classe dispersa de proprietários rurais aos quais conferia uma legitimidade escolar. A Faculdade de Direito atuava ainda como intermediária na importação e difusão da produção intelectual européia, centralizando o movimento editorial de revistas e jornais literários; fazia as vezes de celeiro que supria a demanda por indivíduos treinados e aptos a assumir os postos parlamentares e os cargos de cúpula dos órgãos administrativos. Além de contribuir com o pessoal especializado para as demais burocracias, o magistério superior e a magistratura (MICELI, 2001, p.115).
De acordo com o perfil intelectual de Milton Santos, a sua entrada para a Faculdade de Direito representaria o começo de uma carreira administrada por uma instância suprema de produção de conhecimento, como afirma Miceli. Portanto, carregar este status seria dar destaque a todo e qualquer brilhantismo intelectual, ainda que este partisse de um homem
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Pedro Calmon Moniz de Bittencourt (Amargosa, 23 de dezembro de 1902 - Rio de Janeiro, 16 de junho de 1985) foi professor, político, historiador, biógrafo, ensaísta e orador brasileiro. A partir de 1923, Pedro Calmon publicou, conforme a Academia Brasileira de Letras, cerca de 50 obras, nas áreas de Biografia e Literatura Histórica; História e Direito. São encontradas também contribuições suas na Revista da Academia Brasileira de Letras e na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, além de crônicas na Revista O Cruzeiro. Disponível em:
<http://www.forum.ufrj.br/bilbioteca/biografia_calmon.html >. Acesso em 25 de junho de 2008.
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Octávio Mangabeira (Salvador, 27 de agosto de 1886 — Rio de Janeiro, 29 de novembro de 1960) foi um engenheiro, professor e político brasileiro. Foi governador da Bahia e membro da Academia Brasileira de Letras. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/senadores/senadores_biografia.asp?codparl=215&li=41&lcab=1959-1963&=41 > Acesso em 25
61 negro. A posição hegemônica ocupada pela Faculdade de Direito vinha de uma difusão na produção do conhecimento e de uma prática intelectual baseada na hegemonia européia. Dessa maneira, vários intelectuais brasileiros foram formados e passaram a exercer cargos em órgãos administrativos porque a relação entre a formação dos estudantes e o poder hegemônico exercido pela Faculdade dava respaldo às funções das diversas atividades públicas que intelectuais exerceram nesta época.
Milton esteve durante algum tempo dividido entre a opção de fazer Geografia e Direito. A Geografia tinha todo um encantamento provocado principalmente pela leitura de Josué de Castro e pelo incentivo de dois professores Oswaldo Imbassahy e Oscar Hilário. A Faculdade de Direito o atraía pelas motivações recebidas de seu tio Agenor, já advogado. Contudo, os rumores de que a Escola Politécnica não recebia negros constituía-se como um complicador, assim explicando assim as razões que o levaram ao Direito:
Existem várias razões. Uma delas é que havia uma lenda misturada com indícios veementes de que a escola Politécnica não tinha muito gosto em receber negros. Depois eu vi que não era, mas naquele momento me parecia uma perda de tempo. E tinha meu tio, Agenor, que era advogado importante em São Francisco e que me puxava para o estudo jurídico. Havia todo um encantamento pela liberdade humana, dos direitos pessoais, pela retórica, que era coisa de bacharel também (SANTOS, 2002, p.48).
Em outra entrevista40 publicada na Revista Geosul em 1989, Milton Santos, ao responder sobre as suas opções e escolhas quanto à sua formação intelectual pontua:
(...) Recordo-me que no segundo ano do ginásio eu era muito forte em matemática. Fui então convidado um dia que faltou um professor dessa matéria – eu estava no segundo ano - para dar uma aula no terceiro ano. Eu era muito forte em matemática, talvez porque tivesse estudado dois anos de álgebra em casa. Eu imaginava que iria estudar geografia, mas havia uma idéia de certo modo corroborada de que a Escola Politécnica não gostava de admitir negros. Então como havia um cuidado para evitar decepções na juventude, eu fui orientado a fazer direito, renunciando a uma vocação que eu imaginava ter quando menino que era a de ir para a Igreja, para ser padre. Um tio meu advogado e que tinha estado no seminário me dissuadiu da idéia de ser padre e com argumentos que vocês imaginam quais. Ele me sugeriu estudar direito. Então, como eu ia estudar Direito decidi que a matemática não tinha mais cabimento e passei a estudar geografia e, logo que deixei o ginásio, com quinze anos, eu comecei a ensinar geografia (LEITE 2007, p.28-29).
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As entrevistas concedidas por Milton Santos são muitas. Elas constam em edições organizadas por pesquisadores ou em publicações online em sites na internet.
62 Será que se não houvesse a ideia rejeição a negros na Escola Politécnica, Milton Santos teria sido matemático ao invés de geógrafo? Os comentários do professor de português tinham fundamento? Milton não chegaria a ser Presidente da República? Por que não seria Presidente? Nestas circunstâncias, acredito que “evitar decepções na juventude” signifique mais do que necessariamente decepcionar-se quanto à decisão de qual carreira seguir. A decepção tem a ver, presumo, com a rejeição e com o medo de circular. Em entrevista concedida à revista Caros Amigos, Milton Santos afirma ter medo da humilhação pública por ser negro:
Quando se é negro, é evidente que não se pode ser outra coisa, só excepcionalmente não se será o pobre. [...], [só excepcionalmente]. Não será pobre, não será humilhado, porque a questão central é a humilhação cotidiana. Ninguém escapa, não importa que fique rico. E daí o medo, que também tenho de circular. Acredito que tenham medo.41
Apesar do brilhantismo do extraordinário aluno na matemática, poderia ter sido rejeitado pela Escola Politécnica, por um outro fator que não mede a capacidade vocacional e muito menos intelectual, o pertencimento étnicorracial.. Na história de muitos negros no Brasil os vários estereótipos construídos em cima das características fenotípicas, passou a ser indicador dos critérios de seleção e de exclusão desses indivíduos. Para compreender o significado da força que o estereótipo adquire socialmente, Homi K. Bhabha nos alerta:
(...) O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do Outro permite), constitui em significações de relações psíquicas e sociais (BHABHA, 2003, p. 117).
Muitos foram reprovados, eliminados, execrados e impedidos de atuarem como intelectuais porque carregavam consigo as marcas da negritude. Além disso, foram acusados de uma produção intelectual inferior e pouco relevante em relação à produção dos já consagrados intelectuais. Era a partir desta hierarquia racial e cultural que vários destes intelectuais, escritores, advogados, jornalistas, professores, atores, etc. tiveram suas
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63 intelectualidades avaliadas e rejeitadas para as funções que pretendiam exercer na sociedade brasileira em nome de um preconceito de cor.42. Como afirma Fanon ([1952]2008, p.117), “onde quer que vá, o negro permanece um negro”. As marcas do signo racial promovem uma diferença negativa quando ligada à intelectualidade.
Na Escola Politécnica, Milton não aventurou concorrer a uma vaga, já prevendo a recusa da escola, cuja tradição conhecida era a de formar alunos brancos. Como enfrentar esta realidade? A decisão é de não enfrentá-la e sim de provocar mudança de rumo no sentido das opções de escolhas apresentadas. Outros episódios43, aos quais farei referência mais adiante, de natureza a “evitar decepções” tiveram lugar na trajetória de Milton Santos e o fizeram mudar de opinião em relação a seguir um caminho que o próprio julgava ser o mais coerente na sua carreira.
Apesar da escolha de Milton Santos ter sido a Geografia, isto não invalidou a interdisciplinaridade da sua obra, uma característica fundamental da produção científica contemporânea. A escolha do intelectual pela Geografia Humana não abandona as dimensões de interação entre campos diferentes com o propósito de aumentar as possibilidades de construção teórica que discutem problemas recorrentes à sociedade brasileira tais como: subdesenvolvimento, desigualdades, fome, analfabetismo, distribuição de riquezas, pobreza, organização do território, etc. Milton Santos buscou compreender as relações do homem por meio do espaço geográfico com ênfase no humanismo científico.
As trajetórias intelectuais de Abdias Nascimento e Milton Santos não são comuns a todo intelectual negro. Apesar do tom polêmico que usaram nas suas abordagens, os dois são considerados, hoje, intelectuais de projeção no Brasil e em outros países. Embora nem toda argumentação elaborada por eles tenha correspondido à aceitação das mudanças propostas na esfera pública, tiveram suas carreiras consolidadas às custas de enfrentamentos, perseguições e negociações. Conseguiram projetar suas ideias, mas como qualquer outro intelectual negro, também tiveram parte destas ideias excluídas e consideradas irrelevantes em momentos específicos de seus projetos.
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A trajetória intelectual de Luiz Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, Solano Trindade e outros se constitui como exemplo neste sentido.
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Um destes episódios diz respeito à candidatura do intelectual como Representante Estudantil que foi retirada porque seus próprios colegas alegaram que Milton teria dificuldades para dialogar com as autoridades por ser negro.
64 Abdias Nascimento e Milton Santos têm em comum neste período uma formação disciplinar instigada pela leitura do já citado autor Josué de Castro. O interesse de ambos passava pela compreensão das desigualdades, de denúncia das injustiças e dos dramas sociais cada vez mais presentes na realidade do brasileiro, do nordestino, principalmente. A geografia brasileira, segundo Milton Santos, sabotou o livro de Josué de Castro, Geografia da Fome, no qual o autor discutia as principais teses filosóficas da geografia. O livro marca Milton não só pela curiosidade que o assunto suscitava, mas também por tratar de teorias como o possibilismo, o determinismo, que eram ensinadas nos primeiros anos do ginásio.
A referência à leitura da obra de Josué de Castro aparece na autobiografia de Abdias Nascimento como uma de suas recordações ao conhecido ciclo do caranguejo utilizado pelo autor para explicar o processo de sustentabilidade da natureza à vida. Para Abdias Nascimento, Castro falava de um problema inserido no seu contexto de vivência, baseado em suas origens, que impedia a população local de desenvolver-se, a fome. A fome foi abordada nos textos de Josué de Castro como um flagelo que assolava a humanidade. O escritor tentou criar uma teoria que explicasse a cruel realidade do subdesenvolvimento, da pobreza e da miséria no Brasil.
O primeiro episódio explícito de embate étnicorracial para Milton Santos não se deu em busca de emprego. Milton já estava no Curso Complementar (1942-1943), quando decidiu lançar candidatura para presidir a Associação dos Estudantes Secundários da Bahia e foi impedido de presidi-la por amigos do Partido Comunista, como Mário Alves e outros, que não apoiaram a candidatura, alegando ser a cor um “problema” para desempenhar tal representação junto às potências da política e da sociedade. Pela segunda vez, era aconselhado a não seguir o que gostaria de ter realizado na sua carreira. Ele comenta o episódio dessa forma:
O medo deles era que não seria conveniente que um negro fosse presidente de uma associação tão importante, porque ele iria ter dificuldade de discutir com as autoridades. E eu, menino, tolo e inexperiente, acabei perdendo a eleição 44.
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65 O alto nível de desempenho estudantil e profissional não foi suficiente para barrar preconceitos e discriminações do grupo que Milton pretendia representar. O impedimento à candidatura não tinha fundamento no despreparo intelectual do candidato, mas na sua cor. As dificuldades de diálogo com as lideranças estudantis baseavam-se na intolerância que estas mesmas lideranças poderiam apresentar em negociar com um negro na presidência.
Não chegaria à Presidência do Brasil e foi impedido de chegar à Presidência Estudantil. Dessa forma, iam sendo confirmadas as predições do professor de português. Provavelmente, esse tipo de situação fazia Milton Santos pensar sobre o projeto que abraçaria para a sua trajetória. Maria de Azevedo Brandão45,opina neste sentido: “Acredito que ele tinha um projeto político de vida intelectual, de se transformar em um intelectual de peso”. Como de fato tornou-se mais tarde. Mas colocar este projeto em prática em todas as suas dimensões, política, social e intelectual, custou a Milton Santos fazer escolhas, recuar investidas e abdicar de algumas das representações intelectuais que lhes garantiriam força no seu poder de mando como desejavam seus pais.
Milton Santos vem de uma prática de formação ética e intelectual norteada pelo rigor. Rigor de ideias, de comportamento, típico dos internatos, da disciplina como orientação à projeção do conhecimento e à formação do mesmo. Dedicar-se ao estudo fazia parte de um projeto intelectual que tinha na cultura e no empenho em consegui-la, chegar a um lugar diferente do oferecido pelo projeto industrialista no Brasil, em que os canais de ascensão e os valores para consegui-los são fundamentados no trabalho excessivo da produção sem nenhum tipo de crença no humanismo.
No livro Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal, Milton Santos, ao elaborar três definições para pobreza, menciona também o papel dos intelectuais no mundo hoje. Segundo o autor, o conceito de intelectual que ele acredita fazer algum tipo de diferença na função principal da intelectualidade contrapõe-se ao de letrado, como explicado neste trecho pelo autor:
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Para Maria de Azevedo Brandão, organizadora do livro Milton Santos e o Brasil, muito mais do que interpretar o país e seu próprio tempo, Milton deixou uma lição fundamental: a de que a produção intelectual não se pode resignar à crítica apenas, mas há de subordinar-se à busca de sistemas de análise e interpretação. Disponível em: <http://www2.fpa.org.br> Acesso em: 26 de julho de 2008.
66 O terrível é que neste mundo de hoje, aumenta o número de letrados e diminui o de intelectuais. Não é este um dos dramas atuais da sociedade brasileira? Tais letrados, equivocadamente assimilados aos intelectuais, ou não pensam para encontrar a verdade, ou, encontrando a verdade, não a dizem. Nesse caso, não se podem encontrar com o futuro, renegando a função principal da intelectualidade, isto é, o casamento permanente com o porvir, por meio da busca incansada da verdade (SANTOS,[2000] 2006, p.74).
Para o autor, o que difere o intelectual do letrado é a busca da verdade através do exercício contínuo de sua intelectualidade. O exercício do pensamento e, consequentemente, a verdade encontrada para apoiar este pensamento construído é que caracterizam, sob o ponto