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A posse e a propriedade da terra no Ceará

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Os Impactos, os Problemas e as Contradições

3.3 A Dimensão Quantitativa da Política de Assentamentos na Região Semi-Árida do Ceará

3.3.3 A posse e a propriedade da terra no Ceará

Ao longo de várias décadas, poucas foram as ações duradouras que permitissem um melhor ordenamento fundiário mais equânime com necessidade de crescimento e desenvolvimento do Estado. Não é desnecessário enfatizar que a estrutura fundiária do Estado é concentrada e, como identifica Alencar (2005), “antagônica e atual”, caracterizada pela dualidade latifúndio versus minifúndio.

Essa situação remonta à Lei nº 601, de 1850, regulamentada pelo Decreto nº 1.318, de 30 de janeiro de 1854, dispositivo esse que institui a primeira norma do Direito agrário brasileiro, determinando a proibição de ocupações das terras devolutas e a obrigatoriedade de sua posse mediante compra em dinheiro, a legitimação das ocupações condicionada à sua publicação e a revalidação das sesmarias e concessões.

Os efeitos provocados por esse sistema estendem-se até os nossos dias, quais sejam: a propriedade privada e concentrada da terra, que provoca, por extensão, relações espoliadoras e de exploração com as diversas categorias de trabalhadores rurais como parceiros,

arrendatários, posseiros, assalariados, trabalhadores temporários, moradores e pequenos ocupantes de terra.

Vários dispositivos50 “disciplinadores” do uso e propriedade das terras no Ceará foram editados pelos governantes estaduais e certamente vieram favorecer os interesses privados, ao tempo em que ampliou a posse das já vastas extensões de terras nas mãos de grandes fazendeiros, comerciantes e profissionais liberais, os quais objetivavam cada vez mais a disponibilidade de áreas para a exploração pecuária e com isso, por extensão, criar mecanismos de sujeição e expropriação dos trabalhadores rurais.

Essa estrutura da posse a propriedade e o uso das terras do Estado consolidaram-se ao longo de todo esse período de legislações fomentadoras da concentração fundiária, cuja necessidade de intervenção governamental, no sentido de modificá-la, não foi devidamente considerada ao longo das promulgações das Constituições Federais de 1946 e 1988, do Estatuto da Terra de 1964 e da Lei Agrária nº 8.629/93.

Na Tabela 10, a seguir, a estrutura fundiária do Estado pode ser demonstrada, contabilizando o número de imóveis rurais cadastrados conforme os dados do SNCR (Sistema Nacional de Cadastro de Imóveis Rurais)51 gerenciado pelo INCRA e categorizados segundo os termos da Lei Nº 8.629/93.

Tabela 10

Número de Imóveis Rurais no Ceará, por categoria, INCRA, 2000

Imóveis Área

Categoria de imóveis rurais

% Ha %

Menos de um módulo fiscal 94.024 69,76 1.763.026,70 18,56 Pequena propriedade 31.945 23,70 3.103.645,40 33,18 Média propriedade 7.497 5,57 2.599.752,30 27,79 Grande propriedade 1.316 0,97 1.885.434,30 20,16

Total 134.782 100,00 9.351.858,70 100,00

Fonte: INCRA, Sistema de Cadastro Rural, 2000. Org. Alencar, Francisco Amaro Gomes de.

Para ter uma melhor compreensão do comportamento da estrutura fundiária do Estado na forma como estão categorizados os imóveis rurais na tabela, faz-se necessário discorrer sobre a Lei nº 8.629/93, que, em seu art. 4º, regulamentou os dispositivos da Constituição Federal de 1988, no Capítulo III, Título VII, relativos à reforma agrária e que utiliza para a definição da dimensão dos imóveis rurais as seguintes classificações:

a) minifúndio, conceito oriundo do Estatuto da Terra, Lei n.º 4.504, de 30 de novembro de 1964, que definia minifúndio como o imóvel rural com dimensão inferior a 1 (um) módulo rural52;

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No Ceará, a partir de então (1891), os governos estaduais publicaram a Lei nº 32/92, a Lei nº 1.452 de 02 de outubro de 1917, regulamentada pelo Decreto-Lei nº 140, de 05 de julho de 1918, que revogou a Lei anterior; a Lei nº 285, de 04 de janeiro de 1957, regulamentada pelo Decreto nº 96, de 14 de janeiro de 1938, que criou o Departamento de Terras e Colonização.

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O SNCR foi instituído em 12 de dezembro de 1972, por meio da Lei nº 5.868 e tem por finalidade primordial fornecer a integração e sistematização da coleta, pesquisa e tratamento de dados e informações sobre o uso e posse da terra, levantadas de forma a cumprir as finalidades previstas na sua lei de criação.

52Por definição, o módulo rural é a área máxima fixada para cada região e tipo de exploração. Com o advento da

Lei n.º 6.746/80, que estava diretamente vinculada ao ITR, o módulo considerado passou a ser o módulo fiscal, estabelecido para cada município e que contempla: o tipo de exploração predominante no município; renda obtida com a exploração predominante; Outras explorações existentes no município que, embora não predominantes, sejam significativas em função da renda e da área utilizada; e o conceito de propriedade familiar.

b) pequena propriedade, imóvel que compreenda uma área entre um e quatro módulos fiscais;

c) média propriedade, imóvel que compreenda uma área entre quatro até quinze módulos fiscais;

d) grande propriedade, o imóvel rural que detém área igual ou superior a quinze módulos ficais.

Por definição, o imóvel rural, para fins de cadastro rural, é: o prédio rústico, de área

contínua, qualquer que seja sua localização, que se destine à exploração agrícola, pecuária, extrativa vegetal ou agroindustrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada (Estatuto da Terra, Lei nº 4.504/64).

Com base nessas definições e tomando em referência as estatísticas cadastrais do INCRA, ano de 2000, verifico que no Estado foram cadastrados 134.782 mil imóveis rurais, numa área de 9.351.858,70 ha (nove milhões, trezentos e cinqüenta e um mil e oitocentos e cinqüenta e oito hectares e setenta centiares), ou, 63,69% da área territorial do Estado.

Mesmo levando em conta essa cobertura de pouco mais de 60%, constato que os minifúndios predominam em termos de quantitativo de imóveis rurais nessa categoria, com 69,76%. Os imóveis rurais categorizados como pequena propriedade participam com 23,70% do total, ocupando 33,18% da área. Por outro lado, apenas 0,97% dos imóveis categorizados como grande propriedade açambarcam uma área superior à área total dos minifúndios.

Se computar o total de imóveis rurais nas categorias minifúndio + pequena

propriedade, verifico que o conjunto desses imóveis totaliza 93,46% numa área

correspondente a pouco mais de 51% do total da área, pouco mais da quantidade da área que acoberta o número de imóveis classificados como grande propriedade.

É importante observar a natureza dos dados cadastrais que, por serem declaratórios, podem retratar um panorama distorcido da realidade fundiária. Conseqüentemente, a fidedignidade das informações estatísticas cadastrais, dada sua origem, é particularmente vulnerável, em razão da qualidade da informação prestada pelo proprietário. Isso pode ocorrer por ocasião do cadastramento do imóvel rural no INCRA por meio da informação do seu detentor, se for informada corretamente a distribuição das áreas dos imóveis rurais e sua destinação, as estatísticas relativas à área refletirão a realidade.

De outro lado, se essa informação, por motivos diversos, estiver inconsistente, as estatísticas refletirão, inevitavelmente, distorções que, por vezes, nem a minuciosa crítica e a depuração dos dados coletados, dentro dos mais rigorosos padrões científicos, minimizam os efeitos oriundos de uma informação tendenciosa ou manipulada. Tal anomalia, certamente, compromete as análises, inferências e deduções realizadas sobre as informações desta base de dados, sendo necessárias posteriores normalizações e críticas das informações coletadas.

Mesmo assim considerando, os dados se revelam insofismáveis do ponto de vista da concentração da propriedade da terra no Estado do Ceará e se refletem no índice de Gini53, situado em níveis consideravelmente elevados, demonstrando uma distorção no uso e posse da terra.

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