3 PATERNIDADE E SEUS EFEITOS: DO PARADIGMA BIOLÓGICO AO
3.6 Entendimento dos Tribunais
3.6.5 A possibilidade do reconhecimento dos efeitos civis na paternidade
Outro relevante aspecto em relação à paternidade socioafetiva é a possibilidade do reconhecimento dos efeitos civis da paternidade biológica, sem a desconstituição do vínculo socioafetivo.
O reconhecimento da paternidade biológica e socioafetiva ao mesmo tempo, acarretam inúmeras garantias e deveres para todas as partes envolvidas na relação de filiação.
Nesse sentido, é a decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE. SENTENÇA QUE RECONHECEU A PATERNIDADE BIOLÓGICA DO RÉU EXCLUSIVAMENTE PARA FINS DE DIREITO DE
PERSONALIDADE, SEM OS DEMAIS EFEITOS JURÍDICOS. APELO DO AUTOR QUE REQUER A REFORMA DO DECISUM PARA RECONHECER A PATERNIDADE BIOLÓGICA EM TODOS SEUS EFEITOS. CABIMENTO. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA QUE NÃO OBSTA O RECONHECIMENTO DA PATERNIDADE BIOLÓGICA, QUE DEVE SER RECONHECIDA EM TODA SUA
EXTENSÃO, INCLUSIVE PATRIMONIAL E HEREDITÁRIA.
PRECEDENTES DO STJ E DESTE TRIBUNAL. DISCRIMINAÇÃO ENTRE OS FILHOS QUE É VEDADA PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL EM SEU ART. 227, § 6º. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. "Os direitos de uso do sobrenome paterno e de herança são consequências lógicas da declaração de paternidade. A Constituição da República, em seu art. 227, assegura uma gama de direitos fundamentais aos filhos, decorrentes do estado de filiação, dentre eles, o de absoluta igualdade de tratamento com relação aos
irmãos, nada importando se nascidos ou não do
casamento"(Embargos Infringentes n. , da Capital, declaração de voto vencido do rel. originário Des. Victor Ferreira, j em 13.7.2011)."A paternidade biológica traz em si responsabilidades que lhe são intrínsecas e que, somente em situações excepcionais, previstas em lei, podem ser afastadas. O direito da pessoa ao reconhecimento de sua ancestralidade e origem genética insere-se nos atributos da própria personalidade. A prática conhecida como 'adoção à brasileira', ao contrário da adoção legal, não tem a aptidão de romper os vínculos civis entre o filho e os pais biológicos, que devem ser restabelecidos sempre que o filho manifestar o seu desejo de desfazer o liame jurídico advindo do registro ilegalmente levado a efeito, restaurando-se, por conseguinte, todos os consectários legais da paternidade biológica, como os registrais, os patrimoniais e os hereditários. Dessa forma, a filiação socioafetiva desenvolvida com os pais registrais não afasta os direitos do filho resultantes da filiação biológica, não podendo, nesse sentido, haver equiparação entre a 'adoção à brasileira' e a adoção regular. Ademais, embora a 'adoção à brasileira', muitas vezes, não denote torpeza de quem a pratica, pode ela ser instrumental de diversos ilícitos, como os relacionados ao tráfico internacional de crianças, além de poder não refletir o melhor interesse do menor.
(TJ-SC - AC: 20120238431 SC 2012.023843-1 (Acórdão), Relator: Jaime Luiz Vicari, Data de Julgamento: 03/07/2013, Sexta Câmara de Direito Civil Julgado)
O tema da ementa descrito gera grande polêmica no âmbito jurídico. O caso exposto trata-se de apelação em ação de investigação de paternidade, onde o autor pretende o reconhecimento da paternidade biológica em todos os seus efeitos.
O Relator Jaime Luiz Vicari deu provimento ao recurso, afirmando que a paternidade socioafetiva não obsta o reconhecimento da paternidade biológica e seus efeitos. Segundo a decisão, o direito à utilização do sobrenome paterno e de
herança são consequências lógicas do reconhecimento da filiação. O relator finalizou argumentando que a paternidade desenvolvida pelo afeto com os pais registrais não afasta os direitos do filho decorrentes da paternidade genética.
Nessa perspectiva, vem sendo admitido o reconhecimento da paternidade socioafetiva e biológica concomitantemente, bem como os efeitos delas decorrentes. A prevalência da paternidade socioafetiva seria aplicada somente nas situações em que necessária a proteção do menor. Se aplicada de outra forma, eximiria o genitor biológico de suas obrigações.
Assim, em ações em que se busca a verificação da paternidade biológica, os efeitos daí decorrentes não serão afastados, ainda que confirmada a filiação socioafetiva, dentre eles o direito ao nome, herança, visto que estes seriam consequência lógica em razão do reconhecimento de paternidade.
Ante o exposto, por meio da análise jurisprudencial, percebe-se a importante evolução nas decisões proferidas pelos tribunais brasileiros, no sentido de reconhecer a nova estrutura familiar e admitir o afeto como principal elemento constitutivo da paternidade.
CONCLUSÃO
A entidade familiar passou por um longo processo de transformação até chegar ao atual modelo. Esse processo evolutivo se deu em razão dos avanços do plano cultural, científico e tecnológico na sociedade brasileira.
A Constituição Federal de 1988 possibilitou a instituição de princípios no âmbito do direito de família, os quais proporcionaram a tutela familiar e a igualdade entre os filhos, vedando qualquer forma de discriminação entre eles.
O atual modelo familiar, fundamentado no sentimento, na reciprocidade dos laços de amor e de afeto, tem por objetivo a felicidade e satisfação de todos os seus membros. Assim, a paternidade deixa de ser pautada exclusivamente nos liames biológicos, dando lugar à paternidade socioafetiva, que, uma vez presente nas relações paterno-filiais, concede aos envolvidos todos os direitos e deveres inerentes à paternidade.
O reconhecimento do afeto como valor jurídico possibilita a prevalência da paternidade sociológica sob as demais formas de filiação, em especial quando demonstrada a consolidação do afeto na relação.
Verifica-se, no entanto, que a configuração da paternidade socioafetiva não impede que o filho busque suas origens genéticas, como base para formação de sua própria identidade, sendo este um preceito fundamental e considerado, inclusive, um direito de personalidade.
Por fim, mediante a análise de decisões dos Tribunais brasileiros, buscou-se, sem esgotar inteiramente o tema, demonstrar os efeitos oriundos do reconhecimento
da paternidade socioafetiva, bem como as implicações em relação à paternidade biológica.
Pelo exposto, observou-se que o liame genético não pode estabelecer, por si só, a base da relação entre pais e filhos, especialmente pela complexidade da relação entre os indivíduos, permeada pela necessária existência de um vínculo afetivo superior a qualquer laço estritamente biológico.
Insta concluir, portanto, que a paternidade socioafetiva vem sendo privilegiada no âmbito jurídico, uma vez que, a realidade familiar atual prioriza os laços de afeto. Por conseguinte, ocorre a valorização do melhor interesse da criança, visando seu bom desenvolvimento psicológico, impondo-se, assim, os efeitos jurídicos decorrentes da filiação.
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