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5. SAÚDE

5.2 A POTENCIALIDADE DO TRABALHO EM REDE

Entendemos esta rede como uma “Teia” identificada através de particularidades terri- toriais que, em dado momento se afrouxa, se movimenta e é, portanto, dinâmica. Constitui-se para além dos mecanismos institucionais formais, tendo como pressupostos a solidariedade e a troca como dispositivos coletivos permanentes de cuidado nos territórios. Esta “Teia” compõe as redes informais, desatando alguns Nós caracterizados como os obstáculos de co- municação do trabalho em rede no território, a escassez de recursos, mas também como pro- cessos que impulsionam a problematização e reelaboração de ações dentro da rede – talvez as contradições que provocam e mantem vivas e ativas as redes.

Sob esta ótica, destacamos a essencialidade do trabalho intersetorial, um trabalho rea- lizado em rede e como um elemento essencial para a qualificação da participação dos profis- sionais, potencializando assim, trocas com os pares, gestores e diferentes setores que com- põem os campos de atuação da rede de assistência à saúde.

A fim de subsidiar a discussão do trabalho intersetorial, traremos o entendimento de intersetorialidade, consoante ao estabelecido na Política Nacional de Promoção à Saúde (PNPS) que discorre sobre a qualidade e base referencial teórica para a promoção da saúde como

Um conjunto de estratégias e formas de produzir saúde, no âmbito individual e cole- tivo, caracterizando-se pela articulação e cooperação intra e intersetorial, pela for- mação da Rede de Atenção à Saúde (RAS), buscando articular suas ações com as demais redes de proteção social, com ampla participação e controle social. (BRA- SIL, 2014)

Desse modo, destaca-se a importância da intersetorialidade nesses processos, conside- rando-a muito mais do que uma estratégia para produzir políticas públicas e melhores condi- ções de saúde. É tida como uma diretriz de gestão compartilhada para a garantia e sustentabi- lidade das políticas públicas. A respeito do que melhor se aproxima do entendimento da inter- setorialidade como uma suposta estratégia na articulação da RAS, contudo não apenas a úni- ca, expomos a ideia de Junqueira, o qual sintetiza a intersetorialidade como algo que

Transcende o setor saúde que, em alguma medida, acolheu e aprofundou as discus- sões iniciais e apontou para determinação dos problemas que chegam ao setor, que não podem ser tratados somente por ele, assumindo uma dimensão mais ampla, in- tersetorial. (JUNQUEIRA; INOJOSA, 1997, p.36).

Toma-se como pressuposto o contexto sociopolítico, panorama de insegurança. Neste, muitas das políticas sociais públicas manifestam-se flexibilizadas nas suas capacidades de as- sistência, protagonizando meramente o cunho assistencialista/focalista e não universalizada de modo integral. Esse contexto gera lacunas de incertezas diante da desresponsabilização do papel do Estado de proteção social, como abordamos anteriormente, além de privatizações e terceirizações dos serviços públicos e políticas sociais.

Segundo Pereira, é “mediante a Política Social que direitos sociais são atendidos em necessidades humanas na perspectiva de cidadania ampliada” (PEREIRA, 2009, p.164). Tem- se dentro desta realidade complexa a fragilidade da crítica do contexto social, bem como da intencionalidade das instituições, culpabilizando e individualizando sujeitos por problemas de ordem social. Por esta razão, buscou-se compreender os rearranjos advindos do processo in- tersetorial destacado no campo da Atenção Primária à Saúde (APS) a fim de contribuir para superação da fragmentação do diálogo na RAS, ampliar o diálogo e, com isto, possivelmente contribuir para processos de mudança nas práticas e na concepção ampliada de saúde em nível de Atenção Básica.

Destaca-se o instrumento de notificação de agravos e danos, uma das ferramentas de diagnósticas de problemas utilizada na área da saúde. Nosso olhar se atentou às situações de violência na Atenção Primária à Saúde, no intuito de conhecer quais diálogos em rede se fize- ram possíveis, com base nos atendimentos e registros de situações de violências, os quais con- forme o objetivo deste instrumento, direcionado pelo MS, fortalece a produção de políticas públicas. Pretendeu-se, também, problematizar o uso desta ferramenta como um dos “nós” no registro de situações de violações que atravessam o cotidiano dos profissionais da saúde e percebeu-se que há, ainda, a falta de informação aos trabalhadores que vivenciam situações que necessitam de notificação. Estes ainda relacionam o preenchimento, quando preenchem como mera descrição. Lhes falta a crítica quanto a potencialidade deste documento para to- mada de ações locais, não apenas as ações generalizadas determinadas pela gestão Federal. Alguns trabalhadores temem que este documento possa, em algum momento, lhes trazer pro- blemas relacionais no território por relatarem as descrições das situações atendidas, princi- palmente por ser um território que perpassa por situações de vulnerabilidade, resultando riscos da perda do trabalho e de vida.

Transpor a ideia de denúncia associada ao uso desta ferramenta se coloca, na atualida- de, como um entrave devido ao fato de os profissionais sentirem-se inseguros diante de uma

postura mínima de gestão macro. Desconfia-se de quem tem o acesso e do destino das infor- mações nele descritas.

“Eu não sinto confortável de fazer. Então, nunca aconteceu de eu notificar algum ca- so. Não me sinto confortável[...]. Eu sei que é necessário néh! Mas para o trabalha- dor que está dentro da Unidade, que vai conviver com aquelas pessoas inúmeras ve- zes, é uma coisa que pode gerar um tipo um comportamento mais até agressivo. Não digo agressivo, mas pode chegar a uma situação desconfortável, assim, com a pessoa que está, no caso sendo denunciada” (TRABALHADOR 4, 2019).

O estudo infere que trabalhar a intersetorialidade na RAS pode trazer mais segurança às respostas e demandas notificadas frente aos efeitos causados pela violência nos territórios de abrangência da Atenção Básica e, assim, contribuir para a segurança do profissional diante de um atendimento e atravessamento de situações de violência.

Entende-se que o processo de violência e seus efeitos constituem também o engenho da história da humanidade, produzidos por processos históricos que marcam e sobrelevam as desigualdades sociais. As suas expressões e feitos antecedem processos sociais de violações de direitos na vida em sociedade, bem como a expropriação do modo de produção, marginali- zando sujeitos.