3.1 Teorias socioambientais: neoclássica (ambiental) e ecológica
3.1.1 Os conceitos de “sustentabilidade”
3.1.1.1 A prática da “sustentabilidade”
Qualquer concepção de sustentabilidade feita, pensada e articulada sem ter como pressuposto básico a forma de produção material da vida social, configura-se como ideologia inversa do mundo real. Isso se comprova a partir dos apontamentos de Marx e Engels (1989), segundo os quais a vida social é essencialmente prática e o nível de desenvolvimento das forças produtivas é demonstrado a partir das configurações da divisão do trabalho. Dessa forma, é preciso partir do pressuposto real que conforma essa materialidade e que são os homens, situados em um conjunto de situações materiais e imateriais estabelecidas em diferentes estágios de sua vida material.
A forma de produção material que marca a vida social se edifica, se configura e se reconfigura a partir das lutas constantes entre os diferentes interesses de classes ao longo do percurso de “evolução” do ser social, cada qual dentro dos estágios diferentes da vida material e imaterial. Só é possível tecer críticas a um determinado sistema com base no próprio meio e através do estabelecimento de conexões entre teorias e realidade, considerando o pensado a partir do real, de maneira concreta.
Muitos autores que teceram teorias em relação à sustentabilidade são idealistas, pois basearam-se somente nas representações das coisas e na força das ideias – da consciência, que é subjetiva. Sabe-se que as relações de produção se constituem através de sujeitos sociais, ponderando que tudo é natureza transformada a partir do trabalho. Portanto, é impossível que haja harmonia dentro de um sistema em que o trabalhador é explorado em prol da geração de excedente voltada para a geração de mais lucros que se acumulam nas mãos de determinados grupos.
Nascimento (2012, p. 55) aponta que, para a viabilização de um desenvolvimento sustentável, é necessário que haja uma relação entre “[...] meio ambiente e desenvolvimento, por meio da boa gestão dos recursos naturais, sem comprometimento do modelo econômico vigente”. Como realizar uma “boa gestão dos recursos naturais” em um sistema que visa à exploração, à acumulação e à intensificação da atividade produtiva em prol de lucros?
Mesmo que, em outros momentos, o capital tenha de assumir outras configurações para se reproduzir e tentar “resolver” suas próprias contradições, aqui é como se meio ambiente e desenvolvimento estivessem em harmonia, e como se fosse possível controlar e manter os recursos dentro do sistema econômico vigente. O fato é que esse sistema foge ao controle dos sujeitos, pois opera na razão dos processos de produção e reprodução do capital,
em uma dinâmica impositiva que prioriza as coisas e as mercadorias e não propriamente os seres vivos.
Portanto, o autor defende algo apenas com a força das ideias, pois sabe-se que, num sistema “articulado” como o capital, que tem entre as suas diversas características uma em especial, que é a incontrolabilidade, e não é possível somente gerir. Há, portanto, uma relação controversa entre meio ambiente, desenvolvimento e a vida material dominante, já que, “sem acumulação de capital, o modo de produção capitalista não existiria” (NETTO; BRAZ, 2009, p. 125).
Também de cunho idealista, outro conceito tecido foi preconizado pela comissão de Brundtland quanto ao nosso futuro comum, em que se acredita que “a estratégia para o desenvolvimento sustentável visa promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza” (BRUNDTLAND, 1987, p. 65, tradução nossa). Aqui se desconsidera a vida social dominante, pois, uma vez considerada como algo útil à humanidade, a natureza passa a ganhar destaque no viés econômico como valor de mercadoria.
Então, não é possível haver harmonia e controle entre esse recurso explorado e quem o explora, visto que a natureza é transformada a partir do trabalho para atender o que vai além das necessidades humanas, assim como também não é possível haver harmonia na exploração de uma classe sobre a outra, em que,
[...] quanto maior a exploração da força de trabalho, maior será a mais-valia e a acumulação. [...] o capitalista pode aumentar a taxa de exploração prolongando a jornada de trabalho, intensificando o ritmo e as cadências, introduzindo inovações, pressionado os salários para abaixo do valor da força de trabalho etc. (NETTO; BRAZ, 2009, p. 127).
Outro teórico idealista é o economista Sachs, e é até possível “entendê-lo”, uma vez que a economia deriva como uma das articulações da própria classe burguesa após a revolução para desenvolver as forças produtivas. Essa área se tornou um arsenal técnico, e mesmo no século XXI, ainda é possível ver que “ela renuncia a qualquer pretensão de fornecer as bases para a compreensão da vida social e, principalmente, deixa de lado procedimentos analíticos que partem da produção [...]” (NETTO; BRAZ, 2009, p. 22).
A economia desconsidera quaisquer preocupações históricas, sociais e políticas, que são intrínsecas ao desenvolvimento da vida social dominante, pois preconizam os fatores de produção em detrimento das classes sociais, considerando que gerir melhor os recursos
através do controle das externalidades – exemplos: imposição de preço a depleção dos impactos ambientais – seria suficiente para minimizar os danos da degradação.
Certas colocações do autor demonstram o seu viés idealista quando considera “[...] meio ambiente e desenvolvimento como dois lados da mesma moeda” (SACHS, 1993, p. 13). Na verdade, opõem-se completamente: um deles é o recurso a ser explorado e isso só acontece à medida que houver acumulação e autoexpansão constante; do contrário, essa atividade entrará em crise, não havendo, portanto, equilíbrio nesse jogo de forças. O economista ainda se mostra idealista quando fala das dimensões da sustentabilidade: a social, por exemplo, considera a necessidade de construção do ser e equidade no ter e na renda.
A produção material da vida social dominante não condiz com essas aspirações, pois vive-se em uma sociedade na qual o trabalho é socializado, mas os lucros gerados são privados; na qual há exploração e intensificação do trabalho para a produção de mais-valia (ou seja, mais acumulação de riqueza nas mãos de determinados segmentos). Outra questão é que equidade de renda nunca existirá dentro de um sistema “totalitário” que gera a própria desigualdade, precarizações e controle através das imposições do próprio Estado em prol de extrair ainda mais capital, o concentrando nas mãos de grupos específicos dominantes que visam somente atender aos seus próprios interesses.
Esse sistema chega muitas vezes a criar o desemprego estrutural com o intuito de se refazer e “superar” as suas próprias contradições, de modo que possa retomar o seu estágio contínuo de acumulação e autoexpansão, chegando até mesmo a destruir regulamentações trabalhistas se necessário.
Outra dimensão da sustentabilidade é a cultural, que “busca pelas raízes endógenas dos modelos de modernização e dos sistemas rurais integrados de produção [...] que respeitem as especificidades de cada ecossistema, de cada cultura e de cada local” (SACHS, 1993, p. 27). Isso é uma ideia limitada; afinal, nos espaços em que o capital vê atributos para a sua reprodução, as condições locais são absorvidas e reconfiguradas (em alguns desses espaços, com resistência; em outros, com amplas aberturas). Dessa forma, denota-se a fragilidade dessa teoria.
Pode-se observar que no turismo ocorre a apropriação de determinadas áreas naturais com o intuito de transformá-las em empreendimentos turísticos; no entanto, utiliza-se o conceito de “preservação” como aval da exploração, já que muitas vezes ocorre a especulação imobiliária, algo que foge ao controle dos indivíduos, ou seja, o capitalismo não se dinamiza sem gerar contradições, sendo que essas não podem ser eliminadas em seus marcos regulatórios. Há, portanto, distribuição coletiva dos custos de melhoria da localização; porém,
há uma apropriação privada dos lucros dessa melhoria e, através de incentivos fiscais, ocorre a exploração de mão de obra visando ao lucro. Geram-se assim as contradições que operam no turismo: exclui-se a população local e/ou tudo se transforma em mercadoria.
Algo que é natural e deveria ser necessariamente um bem público, cuja apropriação por parte das grandes empresas é realizada para a exploração do trabalho, seja diretamente, seja com o assalariamento indireto ou disfarçado, e com a desculpa da “preservação”: isso é um exemplo típico de que não há respeito em relação ao ecossistema, à cultura e ao local. O intuito é apropriar-se para lucrar, utilizando-se da sustentabilidade para encobrir os reais interesses desses grupos e absorvendo ainda a comunidade local como mão de obra barata em vez de enaltecer a sua cultura. Assim sendo, teorizar a sustentabilidade é uma coisa, outra completamente diferente se refere à forma como ela tem sido manipulada em prol dos interesses do capital.
Com o propósito de tentar analisar a sustentabilidade em sua concretude, é preciso pensar nos estágios da história da sociedade. Algo imprescindível a se considerar é que, em cada sistema que emergiu, havia interesses e dominações de uma classe sobre a outra e pode- se admitir que é impossível existir harmonia. Para qualquer ascensão, a preocupação inicial teria de ser “coletiva” até que se estabelecesse a dominação; dessa forma, qualquer grupo que tivera o intuito de ascender ao poder utilizou-se de mecanismos de persuasão e controle social (seja através do Estado, da religião, da cultura, da ideologia etc.) para alcançar e impor seus verdadeiros interesses.
Isso ocorre no âmbito político, sendo o Estado parte constitutiva da base material, que se encarregou (se encarrega) de proteger o sistema do capital. É preciso compreender o papel do Estado na “manutenção” da produção/reprodução do capital, e verifica-se que ele, além do controle político, exerce também um controle ideológico. Mészáros (2002, p. 107) relata que esse “[...]constitui a única estrutura compatível com os parâmetros estruturais do capital como modo de controle sociometabólico”, ou seja, controle sobre a sociedade.
O fato é que, durante o processo de desenvolvimento da vida material até os dias atuais, o capital foi se transformando, a constante especialização do trabalho e os interesses classistas foram (são) também resguardados por outros mecanismos que legitimam esse poder e que tinham (têm) como papel primordial assegurar a reprodução contínua desse modo de produção vigente. Desse modo, tem-se, por exemplo, o mecanismo de Estado que se fez (faz), se transformou (transforma) e se reconfigurou (reconfigura) sempre que necessário para manter suas influências, moldar e assegurar esse domínio do capital.
[...] o Estado – em razão de seu papel constitutivo e permanentemente sustentador – deve ser entendido como parte integrante da própria base material do capital. Ele contribui de modo significativo não apenas para a formação e consolidação de todas as grandes estruturas reprodutivas da sociedade, mas também para seu funcionamento ininterrupto. Essas estruturas reprodutivas estendem sua influência sobre todas as coisas, desde os instrumentos rigorosamente repressivos/materiais e as instituições jurídicas do Estado, até as valorizações ideológicas e políticas mais mediadas de sua razão de ser e de sua proclamada legitimidade (MÉSZÁROS, 2002, p. 124-125).
Ademais, Mészáros (2002, p.98) afirma que, “como um modo de controle sociometabólico, o capital, por necessidade, sempre retém seu primado sobre o pessoal por meio do qual seu corpo jurídico pode se manifestar de formas diferentes nos diferentes momentos da história”. Esse corpo se molda através de vários mecanismos, posto que aqui se considera em especial o político (Estado), e ele [...] “seria instrumento de dominação de uma classe, e não lugar de contradição e de luta de classe” (ALTHUSSER, 1992, p. 15).
Como necessidade igualmente inevitável sob o sistema do capital, não basta que se imponha a divisão social hierárquica do trabalho, como relacionamento determinado de poder. [...] é também forçoso que ele seja apresentado como justificativa ideológica absolutamente inquestionável e pilar de reforço da ordem estabelecida. Para esta finalidade, as duas categorias claramente diferentes da “divisão do trabalho” devem ser fundidas, de modo que possam caracterizar a condição, historicamente contingente e imposta pela força, de hierarquia e subordinação como inalterável ditame da “própria natureza”, pelo qual a desigualdade estruturalmente reforçada seja conciliada com a mitologia “igualdade e liberdade” (MÉSZÁROS, 2002, p. 99).
Dessa forma, para além da divisão hierárquica do trabalho, o sistema se utilizou (utiliza) também de ideologias para submeter os sujeitos, transformando-os em “corpos dóceis”. Em suma, Foucault (2014) retrata um corpo dócil como aquele que pode ser submetido, utilizado, transformado e aperfeiçoado. Sua utilidade está na lógica econômica e há docilidade em termos de obediência política. O mais importante é que esse “corpo dócil” tenha menos pensamentos críticos e políticos e que gere mais lucratividade dentro do sistema vigente.
Há a reprodução do sistema através da manipulação desses corpos (sujeitos que são “disciplinados” pelo Estado, escolas, trabalho, ideologias etc.). Dessa maneira, Althusser (1992, p. 106) salienta que “a ideologia da classe dominante não se torna dominante por graça divina, ou pela simples tomada de poder do Estado, é pelo estabelecimento dos Aparelhos ideológicos de Estado [...]”, e esses aparelhos são a política, a escola, a Igreja, a cultura, a ideologia, entre outros.
Essa manipulação ocorre porque “[...] a classe dominante deve reproduzir as condições materiais, políticas e ideológicas de sua existência (existir é reproduzir-se)” (ALTHUSSER, 1992, p. 111). Um exemplo disso pode ser visto na Revolução Francesa.
A Revolução Francesa teve, antes de mais nada, como objetivo e resultado não apenas a transferência do poder do Estado da aristocracia feudal para a burguesia capitalista-comercial, [...] mas o ataque ao aparelho ideológico do Estado n.º 1: a Igreja. Daí a constituição civil do clero, a confiscação dos bens da Igreja e a criação de novos aparelhos ideológicos do Estado para substituir o aparelho ideológico do Estado religioso em seu papel dominante (ALTHUSSER, 1992, p. 76).
Sempre foi essencial utilizar-se de ideologias, e elas ganharam “materialidade” no corpo social, uma vez que nasceram a partir da vida social dominante como um instrumento de respaldo. Desse modo, “todos os aparelhos ideológicos de Estado, quaisquer que sejam, concorrem para o mesmo fim: a reprodução das relações de produção, isto é, das relações de exploração capitalista” (ALTHUSSER, 1992, p. 78). Portanto, a ideologia é posta como o concreto pensando que se efetiva a partir da produção da vida material, pois representa, segundo Althusser, uma relação com as condições reais de existência do homem.
A produção da vida material e imaterial no século XXI se volta também para a sustentabilidade, sendo ela, neste momento, um dos mecanismos de manipulação do próprio capital para manter a reprodução das relações socioprodutivas. Isso se justifica a partir das análises que foram feitas acerca dos seus limites, ao desconsiderar o sistema produtivo vigente no que concerne aos interesses específicos de classes, bem como o lucro como fim último do sistema capitalista, as desigualdades entre grupos representativos do capital (em suas várias formas) e grupos que vivem do trabalho.
Há, também, outros desdobramentos: os monopólios de produção e distribuição, as privatizações de localidades “públicas” por determinados grupos, a mercantilização etc. Pode- se dizer, enfim, que a sustentabilidade se tornou uma peça-chave para o sistema a partir do momento em que o capital passou a um patamar de maior acumulação e autoexpansão; dessa forma, tornou-se necessário absorver tudo que é passível de consumo, mesmo que para isso fosse preciso manipular os sujeitos através de inversões ideológicas.
A sustentabilidade é igualmente um meio de salvaguardar o sistema, revelando-se em desdobramentos diversos, tais como: inovações tecnológicas, empresas socialmente responsáveis, partidos verdes e assim por diante. Na análise dessa lógica, considera-se que esses desdobramentos são meras abstrações, uma vez que muitas empresas se adequam ao sistema do “socialmente responsável”, mas não deixam de lucrar. Caso contrário, serão
absorvidas pelo mercado, utilizando-se, portanto, da exploração de trabalho excedente para a sua continuidade. Não há como desconsiderar que o imperativo é o capital.
Um dos exemplos da “(in)sustentabilidade” pode ser visto em Porto Seguro (Bahia). A indústria Veracel, líder no setor de celulose e papel em âmbito internacional, desenvolve programas socioambientais na região – privatizando áreas ambientais que, segundo ela, seriam destinadas à “preservação” do que restou da Mata Atlântica, de modo que parte da fauna e da flora em risco de extinção permaneça existindo –, além de trabalhar também com programas de inclusão social.
É a partir daí que as contradições dessa ocupação do espaço ocorrem, pois sabe-se que empresas desse porte têm de investir em projetos desse cunho, sendo elas responsáveis apenas pelo recolhimento e isentas de carga tributária. Além disso, essa “preservação” é totalmente funcional para a empresa; afinal, ela necessita de áreas para plantios constantes a fim de continuar extraindo celulose para a fabricação do papel. As coisas não são feitas por pura e simples bondade, mas por interesse privado de continuar lucrando. Ela é até mesmo reconhecida em âmbito internacional. Na estação, mostra-se que, em meio a uma área preservada, há plantações de eucalipto. Segundo a empresa, tratar-se-ia de uma forma de facilitar a passagem de animais para o outro lado, mas vamos pensar: a partir de qual matéria- prima o papel é fabricado mesmo?
No final das contas, é importante que essa pseudopreservação ocorra para evitar que o que restou da Mata Atlântica se perca, embora as visitações ao parque da Veracel sejam uma forma de promover a indústria e passar o valor de que ela opera em favor do ambiente e das pessoas. Contudo, parece nítido que tais ações são realizadas por interesse próprio. Aqui opera a privatização de um bem natural, mas a questão a ser levantada é: para quem seria boa ou ruim essa privatização? Isso demonstra que, à primeira vista, essas questões passam despercebidas, uma vez que, no capital,
[...] prevalece a necessidade ideológica da ordem estabelecida, produzindo racionalizações complicadas que visam esconder as profundas iniquidades das relações estruturais [...]. Tudo deve ser desvirtuado para proporcionar a impressão de coesão e unidade, projetando a imagem de uma ordem saudável e racionalismo administrável (MÉSZÁROS, 2002, p 109).
Como apontando anteriormente, as primeiras impressões acerca de como se estabelecem as relações socioprodutivas podem ser enganadoras, uma vez que a maioria dos sujeitos desconhece as configurações por detrás dessas relações.
Outro aspecto importante a ser retomado e apontado é que, de acordo com Mészáros (2002, p. 110), o Estado funciona como um dos principais mecanismos de administração do processo de reprodução socioeconômica. Portanto, encarrega-se de reforçar a dominância política do capital contra forças que poderiam minar as suas grandes desigualdades.
Desse modo, é possível dizer que o Estado e, neste contexto, também as conferências mundiais que foram realizadas pelas Nações Unidas, não visam de fato criar um ambiente mais sustentável, de modo a minimizar as desigualdades pensando no “bem comum” da humanidade e em prol das gerações futuras. Esses são mecanismos de controle que sempre terceirizam a culpa e operam a partir de análises inversas, pois não suscitam estabelecer reflexões de maneira concreta, ou seja, a partir da vida social dominante, que advém das relações de produção. O capital absorve o que for necessário para se reproduzir, e
[...] passou a operar-se também através de instituições, agências e entidades de caráter supranacional – como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e organismos vinculados à Organização das Nações Unidas. Assim, além dos seus dispositivos próprios, o grande capital vem instrumentalizando diretamente a ação desses órgãos para implementar as estratégias que lhe são adequadas (NETTO; BRAZ, 2009, p. 225).
Esses órgãos se utilizam do termo sustentabilidade de maneira estratégica, pois perceberam que a degradação ambiental vai além da chamada crise “sociedade-natureza”, ligando-se diretamente às fases de produção, desenvolvimento e acumulação que derivam do “[...] capitalismo/modernidade/industrialismo/urbanização/tecnocracia. Logo, a desejada sociedade sustentável supõe a crítica às relações sociais e de produção, tanto quanto ao valor conferido à dimensão da natureza [...]” (LOUREIRO, 2012, p. 28).
As críticas citadas são conhecidas por esses organismos; no entanto, elas são veladas. Eles observaram que as mudanças advindas das relações socioprodutivas evidenciaram “[...] a possibilidade concreta de um colapso planetário, o que colocou em xeque a racionalidade do sistema econômico hegemônico” (CORRÊA; PIMENTA; ARNDT, 2009, p. 07-08). A partir daí, essas instituições passaram a entender que
Em outros termos, valorizar e acumular capital não poderia – ou não deveria mais – ser o único imperativo da atividade econômica, pois corria-se o risco de inviabilizá- la estrategicamente, ou seja, impedir que continuasse a ser possível no longo prazo. Dessa forma, termos como responsabilidade social, empresa cidadã, ética nos negócios, que convergiam para a concepção de sustentabilidade, começaram a perpassar o universo corporativo, evidenciando a emergência de uma racionalidade paralela à anterior, mas que ainda está longe de ser a predominante. Aliás, muitos acreditam e postulam que se trata de uma racionalidade incompatível com a