CAPÍTULO 5 - ANÁLISE
5.2 Condições de trabalho e saúde: análise das intervenções em Musicoterapia
5.2.2 A Precarização do Trabalho como Geradora de Sofrimento
5.2.2 A Precarização do Trabalho como Geradora de Sofrimento
No processo de Musicoterapia, bem como na entrevista realizada com Lúcia, foi possível observar questões importantes que revelaram como a precarização do trabalho é um fator que gerador de sofrimento:
Encontro nº 08: Nesse dia houve o corte de todas as oficinas, demissão de duas trabalhadoras e aditamento do serviço. Lucia e as demais trabalhadoras estavam muito abaladas e preocupadas.
A insegurança com o futuro do seu posto de trabalho, é mais um retrato da precarização. Entende-se “a precarização como um processo social que instabiliza e cria uma permanente insegurança e volatilidade no trabalho” (FRANCO; DRUCK;
SELIGMANN-SILVA, 2010, p. 237).
O cenário de sucateamento das políticas públicas e, principalmente, dos serviços vinculados à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, são decorrentes das constantes alterações nessas políticas no decorrer dos anos. E, em 2017, ocorreram cortes significativos na prefeitura de São Paulo; os quais continuam até hoje, trazendo um longo desgaste mental nesse trabalho já precarizado.
Franco, Druck e Seligmann-Silva afirmam que:
estamos diante do entendimento de que os processos políticos, econômicos e culturais que terão ressonância no desgaste mental dos trabalhadores percorrem as passagens que se apresentam entre a esfera macrossocial. Os contextos nacionais e as várias estruturas internas das organizações até alcançarem os indivíduos em diferentes situações concretas de trabalho (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010, p. 240).
Ao ser questionada, na entrevista, sobre como é trabalhar hoje no serviço, Lúcia aponta que houve sobrecarga de tarefas, ausência de salário e reorganização operacional que a afetaram:
Lúcia: É... Não foi fácil, porque logo depois que foi aditado a coordenadora faleceu, acho que a psicóloga foi meu suporte ali, eu e ela assim... Uma dando suporte, apoio para outra. Teve outros perrengues: a gente ficou um bom tempo sem receber salário trabalhando. Não foi fácil, não está sendo fácil, mas é, teve... Teve um período que só ficou eu e a nova coordenadora trabalhando. Agora tem uma equipe maior. Tem mais duas assistentes sociais, uma psicóloga, tem duas educadoras, uma coordenadora de projetos. Então a gente dá um suporte uma pra outra ali, mas continua aquele ambiente que você entra e fica pesado. Continua um ambiente pesado.
E eu não falo do trabalho com as mulheres mesmo. É questão de gestão. Pesado!
Lucia repete aqui uma expressão trazida por ela ao longo dos encontros para se referir ao trabalho: “pesado”. Ela passou por uma experiência de medo (SILVEIRA;
MERLO, 2014), diante dos cortes de verba realizados pela prefeitura, além da falta de salário, novas ameaças da Secretaria Municipal de Defesa dos Direitos Humanos de fechamento do serviço e demissão. Experiência vivida ainda em 2017, quando se soube de mais alguns cortes e demissões. Na ocasião, foi perguntado pela musicoterapeuta às participantes do grupo, o que o serviço poderia oferecer, mesmo sem as verbas. E Lúcia disse que “poderia trabalhar mais a autonomia das mulheres, dá para fazer, mas não temos todo suporte necessário... Cada vez mais precário... [silêncio] Sensibilizar a sociedade, dá para fazer...”
O medo apresentado por Lúcia não é apenas de perder seu emprego. Esse medo carrega um processo histórico. O medo do desmonte das políticas públicas, principalmente, as de proteção a mulheres vítimas de violência em que a atenção dispensada pela assistência social tem papel essencial.
No encontro nº 08, após os cortes e demissões, houve um bate-papo em equipe, pensando nas possibilidades de o serviço atender e ajudar mulheres, mesmo sem a verba da Secretaria, e em qual seria seu real papel para sociedade. Lúcia se posicionou da seguinte maneira: “Acho que a gente acolhe e de certa forma dá um suporte para elas, sabe? Para elas andarem sozinhas, caminharem, tomarem as decisões... Caminhar junto!”
Pensar na continuidade do serviço foi necessário para Lúcia e equipe, pois:
é necessário ao profissional assistente social, que atua no combate à Violência contra a mulher, descobrir alternativas e possibilidades para uma atuação que enfrente todos os desafios postos a essa área, decifrando as situações apresentadas, capacitando-se para o trabalho com mulheres, trabalhando para a transformação no modo das condições de vida, na cultura de subalternidade impostas às mulheres (CZAPSKI, 2012, p. 327).
Ao trabalhar com a violência, Lúcia e as demais trabalhadoras do serviço são impactadas pela violência do serviço, sendo mobilizadas pelos relatos de agressões trazidos pelas mulheres atendidas e a direta identificação com essas mulheres, no que diz respeito a ser mulher na sociedade patriarcal em que vivemos:
cientes do modo como se sentem subjetivamente mobilizadas no trabalho com a violência, essas profissionais sinalizam uma demanda de apoio nem sempre acolhida pelas instituições, como supervisões sistemáticas em Psicologia para discussão teórica de casos e para apoio emocional (PENSO et al., 2010, p. 140).
A participação de uma trabalhadora da Assistência Social, como mediadora e na busca de estratégias para diminuir a violência doméstica, de acordo com seu código de ética, torna-se evidente também nos encontros de Musicoterapia:
Encontro nº 03: às vezes eu falo para as meninas que se eu não acreditar no que eu faço, que vai ter uma mudança... Que às vezes a gente entra na discussão que não tem mais esperança para o mundo...
cara se eu não acreditar eu não levanto da minha cama, porque eu não vou acreditar que vai acabar com esse ciclo de violência, com a desigualdade, eu acredito num mundo melhor!
Penso et al. (2010) apontam que as trabalhadoras desses serviços sofrem junto com as mulheres atendidas. Há uma carga de preocupação grande com o outro, sentimento de frustração e impotência, uma vez que nem sempre conseguem quebrar o ciclo da violência.
Vivenciar essas emoções pode levar a agravos na saúde e na vida pessoal dessas trabalhadoras:
evidenciando quanto a emoção está presente nesse contexto e o quanto as profissionais estão vulneráveis aos seus efeitos maléficos, tendo em vista que não há, por parte dos serviços de saúde, uma proposta de cuidado com a saúde biopsicossocial dessas profissionais [...] não estão sendo proporcionados espaços de escuta que permitam a expressão e a elaboração das emoções provocadas pelo contato com tais temáticas [...] não existem ações de cuidado e atenção para aquelas pessoas que ouvem e participam do sofrimentos daquelas que são vitimadas pela violência (PENSO et al., 2010, p. 145).
Na entrevista realizada posteriormente, Lúcia aponta que a precarização não diminuiu nos últimos tempos e comenta que o processo de intervenção musicoterapêutica as auxiliava a lidarem com essa difícil situação. Nas suas próprias palavras:
Lúcia: Não mudou muita coisa não... Continua acho que... Na verdade até pior do que antes... Eu comento com as meninas que seria interessante ter momentos como o que a gente teve com você lá... Para mim era até terapêutico, fazia bem para gente, para equipe. Mas continua a mesma coisa assim...
O serviço conta com uma reunião semanal para alinhamento das estratégias, mas ao ser questionada sobre os efeitos pós encontros musicoterapêuticos, Lúcia afirma: “Eu sei que eu e a equipe a gente sentiu falta de ter mais momentos como aquele...”
Ainda na entrevista, a musicoterapeuta questiona Lúcia se foi proposta, para a nova gestão, alguma atividade de cuidado ou apoio para a equipe, ao que ela responde:
“Até já foi proposto, a questão agora é de verba mesmo né. E vai da gestão, o que ela acha importante, e eu acho que ela não acredita que isso seja tão importante assim.
Na entrevista Lúcia demonstrou novamente o desejo por um espaço dedicado ao cuidado e suporte dela e demais trabalhadoras: “Acho que seria importante se, pelo menos, fizesse, nem que fosse 15 minutos. 15, 20 minutos por dia, antes de começar a trabalhar ou depois do trabalho, dos atendimentos assim...”.
Lúcia aponta que os encontros, como espaço de troca, escuta e voz, são uma estratégia coletiva importante. A possibilidade de trocar experiência com seus pares, dividir os problemas diários e criar novas estratégias para seu dia a dia. Ela também conta com estratégias individuais, como consta em sua entrevista inicial, ao dizer que já realizou encontros em grupo – autoconhecimento feminino através de pinturas –, faz exercícios (musculação e jump) e valoriza seu tempo livre com a família. Tudo a fim de diminuir os efeitos do trabalho com a violência em sua vida, segundo o formulário preenchido pela trabalhadora.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com a análise dos dados coletados nos encontros, observa-se que Lúcia encontrou meios de se comunicar com o grupo através do fazer musical. No decorrer dos encontros, foram surgindo incômodos e frustrações, comuns às participantes que as levaram a compreender os sentidos envolvidos na relação com o trabalho. A experiência de aprendizado das trabalhadoras possibilitou que elas escutassem as demandas e experiências uma das outras e, a partir disso, lidassem com as dificuldades umas das outras, demonstrando, durante as semanas, maior tolerância e capacidade de buscar soluções para interesses em comum:
os sujeitos, ao falarem determinadas coisas da vida particular de cada um, compartilharam sentimentos, angústias, medos e frustrações. Portanto, a subjetividade é produzida a partir de múltiplas conexões, se referindo a conteúdos internos, também a experimentações através da relação, seja nas verbalizações ou nas técnicas musicoterápicas, bem como nos encontros que possibilitam novas possibilidades para as existências (BRIGNOL, 2014, p.
117).
Em toda nova experiência musical, as participantes criam novas formas de ser e novas relações. A convivência entre elas em um espaço em comum é um grande potencializador de mudanças. Por meio das conversas, elas entram em contato com a dor da outra, podem compartilhar problemas e se reconhecer neles.
Cada vez que cantávamos a canção composta, era perceptível que a produção ganhava uma maior participação e volume. Foi assim que todas as participantes se envolveram no processo de criação, sugerindo alteração de letra, instrumentos, entrada desses instrumentos e intensidade com que deveriam ser tocados.
A aceitação do grupo, mediante a expressão musical e artística de Lúcia, proporcionou-lhe o sentimento de pertencimento, mobilizando-a para a vontade de expressar seus desejos. O fazer musical modificou, impactou o grupo e fez despertar o coletivo dentro do Serviço de Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência. Para além do musical, criou-se uma nova rede de apoio e de acolhida do sofrimento uma das outras: “quando a expressão da musicalidade acontecesse forma coletiva, abre-se a possibilidade da formação de um espaço de socialização onde a música e a expressão da musicalidade se tornam agregadores da participação” (CUNHA, 2016, p. 244).
Houve compartilhamento de pensamentos que buscavam para suas vidas e para as mulheres atendidas. Mediante a composição criaram um meio de lidar com suas angústias e as transformaram em palavras de modo que pudessem compartilhar com o grupo.
Por intermédio da participação no grupo, houve o reconhecimento do papel e da importância de cada uma naquele local. Emergiu a vontade de ter suas vozes ouvidas e empoderamento através do compartilhamento de voz (espaço de fala) e fortalecimento do grupo. A análise das informações aponta que a experiência de trabalho de Lúcia está atravessada pela violência e em constante contato com situações de risco, no que se refere ao atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Muitas vezes o terapeuta faz da sua voz a do outro para que esse seja escutado. É muito importante em situações de dor e sofrimento que o terapeuta dê voz para seu cliente: “a fala é uma atividade geradora de sentido. A música PODE ser uma atividade geradora de sentido” (BARCELLOS, 2009, p. 141).
A clínica social se torna um local não apenas de acolhida, mas um espaço político em que todas as questões daquela comunidade podem ser discutidas. As experiências musicais auxiliarão as participantes a explorarem seus sentimentos, melhorar as relações interpessoais, aprimorar a comunicação, proporcionar pertencimento, gerar reorganização pessoal e social, possibilitando novas práticas para seu dia a dia.
A música é utilizada para a realização pessoal das participantes:
a prática musical se caracteriza por aspectos políticos como a participação, a solidariedade, a resistência, a construção de estratégias para a resolução de problemas. [...] A espontaneidade, a criatividade, a arte, se tornam as bases para as relações intragrupo e para impulsionar mudanças (CUNHA, 2016, p.
99).
Faz-se necessário o acompanhamento de trabalhadores de forma multidisciplinar, por meio de atividades que possam fornecer espaço de fala e voz, uma vez que se torna de suma importância envolver o trabalhador em sua atividade. E seu relato sobre a organização é ponto principal para estabelecimento de um nexo causal, o que pode ser produzido pela intervenção de um musicoterapeuta:
o espaço de fala pode se constituir como uma possibilidade de superação do sofrimento no ambiente de trabalho, pois o espaço da fala modifica, sensivelmente, as formas de consultas individuais e as relações nos locais de trabalho, ressurgindo, assim, a palavra comum nas várias situações da vida
prática da empresa, estando restabelecida a palavra sobre o trabalho (SOUZA, 2002, p. 23).
Também em Barreto e Heloani, verifica-se que:
um trabalhador sadio é aquele que apresenta um bom equilíbrio entre corpo e mente [...] poderíamos dizer que ter saúde é uma forma de abordar a existência, de criar valores, de instaurar normas vitais. E quando somos cotidianamente humilhados e constrangidos no ambiente de trabalho, qual espaço da saúde? Sabemos que o processo de saúde-doença é um acontecimento coletivo, e não simplesmente ou apenas individual (BARRETO; HELOANI, 2015, p. 554).
Devemos buscar criar medidas preventivas e dar voz aos trabalhadores, com atividades que:
restituam aquilo que lhes foi capturado: a autonomia, a amizade, o respeito, a ajuda mútua, a generosidade, o reconhecimento ao saber fazer, os laços de camaradagem. [...] Devemos focar tanto a instituição como o coletivo, variando desde cursos de sensibilização, acolhimento, apoio, orientação, até mudanças na organização do trabalho (BARRETO; HELOANI, 2015, pp.
558-559).
Isso é importante para ampliar as reflexões dos trabalhadores sobre a violência e os sofrimentos que os atingem, pois a subjetividade é produzida através da busca por novas possibilidades de existência e novas maneiras de viver.
Desta forma, fica claro como a Musicoterapia na Saúde do trabalhador é uma estratégia importante de intervenção, afinal é por meio do ato de criar, pensar, escutar, interagir e sentir que os trabalhadores podem produzir estéticas sonoras e comunitárias de modo a contribuir no processo de transformação de sua realidade e ser uma potência de produção à saúde.
Concluiu-se que a intervenção em Musicoterapia pode ser uma excelente estratégia para enfrentar o sofrimento e o estresse gerados pelo trabalho, dar voz aos trabalhadores, desenvolver relações interpessoais no ambiente de trabalho, promover autoconhecimento e autocuidado e criar novas formas de ser e viver, criando estética comunitária e novas possibilidades de constituição da subjetividade.
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